Tecendo uma vida breve

1 Nascimento e epidemia


Notas iniciais
Esta história terá três capítulos, incluindo o epílogo. Tenham uma boa leitura.

Tecendo uma vida breve

Escrita por Meiline Damestein

Capítulo 1 – Nascimento e epidemia

Eu nasci e morri em menos de cinco anos. Ao longo da minha vida, eu apenas fui o herdeiro mais jovem da fortuna de meus pais. Minha irmã mais velha herdou a maior parte depois da morte de meu pai e minha outra irmã, os restantes, como imóveis, empregados e a companhia senil de minha ainda viva mãe. Eu fui esquecido no testamento, mas eu não me importei no momento. Eu via o mundo apenas fixado em um único ponto de mãos atadas, inerte, sem controle sobre as ações que me afetariam ou não. Minha visão era de alguém a olhar através da fechadura de uma porta trancada, onde eu jamais saberia onde estava a chave. Eu vislumbrava o movimento do quarto que a porta guardava um de cada vez, sem poder interferir ou sequer opinar. Em minha juventude, ver por aquele único ponto nunca me incomodou. Aquilo era eu, minha visão, o reflexo de minha vida. Por isso, quando minha irmã mais velha concordou em me casar com a filha única de outro nobre, eu fiquei irado.

Se eu pudesse definir meu sentimento, eu diria algo como “Patético”, pois eu sabia que não possuía nenhum controle sobre as ações que me afetariam, mas saber disso em um único golpe me machucou. Eu jamais me imaginei casando com alguém, vivendo com alguém além da minha família. Nunca me imaginei compartilhando a visão pela fechadura da porta com alguém. Era como se meu mundo fosse ser destruído por alguém que eu sequer conhecia. Por alguém que eu estaria destinado a conviver pelo resto da minha vida, mas então me veio à pergunta: “Que vida?”. Em minhas divagações, eu concluí que nunca sequer vivi. O que estava dentro do quarto, além da porta que eu me escorava, estava a “vida”. E eu não tinha a chave. Em menos de três dias, minha ira desvaneceu-se por completo e aceitei que iria me casar com uma desconhecida. A minha visão pela fechadura foi bloqueada pela escuridão.

Quando a conheci, eu a achei bela. Não um belo vulgar ou forçado, um belo único, um belo existente por somente respirar. Delicado e independente. Nas vezes que tínhamos de ficar juntos para conversar, eu a via como um espectador verdadeiramente resoluto sobre o que poderia ou não acontecer consigo, não era uma hipócrita como eu que sabia que era impotente a interferir, mas esperava que algo interferisse por mim. Sem esforço. No fim, eu não a via como uma pessoa má, como eu imaginei no inicio. Ela era apenas ela. Nosso tempo juntos, longe de nossas famílias, me ajudou a entender melhor o que ela realmente era.

Senhor...— Seu tom suave e baixo chamou-me de volta do oceano de minha mente – Estamos sozinhos. Pode me chamar pelo meu primeiro nome.

Muito bem... Como quiser Ariadne.

Ariadne também era a filha caçula, mas ela apenas possuía somente um irmão mais velho, este que a amava e a colocava em um altar banhado em ouro e de joias cravejadas. Ao contrário de minhas irmãs mais velhas que apenas me viam como “o” que iria atrasá-las, como “o” que iria atrapalhá-las, nunca mais e nunca menos. Nisto eu e ela não erámos parecidos. No entanto, assim como a lenda de seu nome, Ariadne me daria seu fio e me ajudaria a sair do labirinto. Ariadne se tornou minha amada com os meses, eu anseie para enfim ficarmos verdadeiramente sozinhos, longe de vez de nossas famílias. Enquanto isso, eu apenas esperava os dias que eu poderia me encontrar com ela.

Eu nunca entendi como me apaixonei por Ariadne. Como minha impressão sobre ela havia se alterado tanto. Eu apenas queria ficar ao seu lado, mais e mais, pois ela fez algo que nem mesmo minha mãe havia tentado fazer, ela me entendeu. Ela entendeu minha visão sobre o buraco de fechadura, mas não somente isso. Ariadne abriu a porta onde eu me escorava para ver a vida passar. A porta que estava sempre trancada foi aberta diante de meus olhos e fui convidado a entrar. A ultrapassar além da porta. A ver além da fechadura. A viver. A chave para a porta que eu nunca saberia onde estava... Estava com minha noiva.

Eu comecei a viver ao lado de Ariadne. A viver de verdade. Eu via o mundo como algo a não ser somente observado, mas apreciado. As coisas mais ínfimas passaram a serem tudo para mim, a serem admiradas. Ações corriqueiras passaram a ser vistas com olhos de estupefação. O nada, para mim, tornou-se tudo e Ariadne era o meu tudo. Era como atravessar um corredor envolto das mais belas flores em um amanhecer, das mais belas pradarias, onde o sol aparecia ao horizonte e a minha frente, puxando-me pela mão estava ela, a sorrir e me mostrar porque aquilo era tão belo. Porque aquilo deveria ser admirado e porque eu deveria lutar para poder ver e viver com aquilo. Eu me tornei outra pessoa. Posso até afirmar que eu me tornei aquilo por Ariadne. Eu queria ser uma pessoa melhor para ela, para poder viver com ela, para poder acompanhar ela... Para poder lutar por e com ela... Somente ela. Até o final de 1916.

Ariadne ficou enferma, no inicio, ela apenas dizia para eu não me preocupar, mas algo em mim sempre temeu por ela. Eu temia por sua ida. Eu temia por ela soltar minha mão. Eu temia pelas flores que cercavam aquele corredor, murcharem. Eu temia pelo sol ser bloqueado por um tempestade escura. Eu temia a porta ser fechada novamente. Eu temia... Que minha chave fosse perdida novamente. Ariadne melhorou consideravelmente e eu nunca fiquei tão satisfeito na minha vida, por saber logo depois de sua melhora que ela também estava grávida.

Eu poderia gritar aos quatro ventos o quão sortudo eu era. Eu que apenas há poucos anos era um espectador hipócrita do outro lado da porta. Eu estava orgulhoso de mim mesmo, contente por ter ido tão longe, mas nunca mais do que agradecido à pessoa que permitiu todos estes feitos. Minha filha nasceu no inicio de Outubro de 1917. O dia mais feliz da minha vida. Eu tinha uma família. Eu não estava mais só. Eu não lutaria somente mais pela minha esposa, mas também pela criaturinha que me foi concedida. Se eu tivesse que definir os momentos mais felizes da minha vida, eu diria os oito meses que eu e minha família tivemos... Em paz.

Ariadne, minha amada esposa. Nós corremos pelas pradarias e por aquele corredor florido e perfumado, vendo o sol iluminar nossos rostos por quatro anos. Logo depois dos oito meses do nascimento de nossa filha, Ariadne ficou enferma da epidemia daquela época... E dessa vez não houve melhora. Nos dias em que ela ainda estava entre nós, eu contratei inúmeras enfermeiras para cuidar dela. Eu sempre estava por perto, embora ela pedisse para eu ficar distante, pois sua doença poderia ser transmitida para mim.

Nossa filha... Ela vai precisar de você.— Ariadne justificava seu pedido.

Porém, eu não queria ficar longe dela, porque se ela partisse... Eu iria me culpar pelo resto de minha vida por não ter passado seus últimos suspiros ao seu lado. Porque eu não queria soltar sua mão. Eu não queria voltar a ser o protótipo patético de ser vivo que eu era antes de conhecê-la. Minha maior insatisfação foi ela não poder ter tocado, beijado ou abraçado nossa pequena filha antes de partir. Eu apenas aparecia na porta com nossa filha em meus braços, toda noite e ela a vislumbrava da cama e sorria fracamente. Acenando. Logo depois, eu passava um pouco da noite com ela, distante, como ela pedia. Eu a relembrava de como nos conhecemos e como ela me fez mudar. Eu chorava toda noite.

Na última noite, tudo se repetiu, mas quando eu ia dormir, ela não acenou, ela apenas sussurrou seu amor para mim. Eu achei aquilo bom, mas não entendi porque ela estava dizendo aquilo justamente naquele momento, mas logo de manhã eu entendi. Naquela noite, Ariadne partiu. Eu poderia ressaltar como eu poderia também ter morrido naquela noite, mas eu não me dei ao luxo de morrer, pois me lembrei de suas palavras. Eu tinha uma filha. Uma filha que iria precisar de mim, mais do que nunca. Além disso, não houve tempo para eu analisar se eu estava além ou de volta a ficar a frente daquela porta. Minha mãe faleceu e minha segunda irmã mais velha caiu enferma. Como eu disse, era uma epidemia da época.

Minha irmã não era casada e estava só. Minha irmã mais velha não iria voltar para a cidade. Então, eu a visitava todo dia, deixando minha filha com um empregado de confiança em minha casa. Segura. Eu me perguntava se a epidemia afetava algo no cérebro. Por quê? Minha irmã amaldiçoava o fato de nunca ter brincado comigo quando criança ou de ter me apoiado quando não recebi nenhuma parte da herança, ou “disso” ou “daquilo”. Sempre “ou”, pois afinal, não havia nada que ela pudesse fazer. Todo dia, ela me pedia perdão. Eu dizia que não a perdoaria, pois não havia nada para perdoar. Eu não estava a mentir, eu realmente não me importava com seu “abandono fraternal” – assim ela o chamou –, em verdade diria que somente a partir de Ariadne e minha filha eu comecei a me importar com as ações que me afetavam. É claro, eu amava minha irmã, mas era um sentimento... Como definir? Obrigatório? Sim, acho que é uma definição mais do que correta. Eu sentia empatia por ela como era capaz de sentir por qualquer ser, mas... Tinha algo a mais faltando. A pedido de minha irmã fiquei a seu lado durante as noites. Longe, acomodado longe. A pedido dela também. Não fiquei satisfeito, afinal ficaria longe de minha filha, mas acatei seu desejo. Poderia ser seus últimos dias e de fato, eu estava certo.

Na noite de sua partida, eu dormia no estofado próximo a janela de seu quarto, porém não conseguia dormir direito, acordava-me com sustos. Em verdade, desde a morte de Ariadne que eu não repousava adequadamente. Talvez fosse uma resposta assombrosa do meu inconsciente para não dormir, para não perder a noite, para não perder Ariadne. Repreendi-me. Ariadne ficaria desapontada comigo, por não saber lidar com sua partida e cuidar de nossa filha adequadamente. Eu não poderia desapontá-la, não é mesmo? Toda vez, eu ajeitava-me melhor sobre o sofá, esperando que talvez fosse à posição a melhorar meu sono.

Em uma dessas vezes, meus olhos sonolentos e entreabertos vislumbrou uma figura ao lado direito da cama de minha irmã. Uma figura negra, alta e tenebrosa. Não era humano, não poderia ser humano. Eu simplesmente sabia que não era humano. Ela se aproximou de minha irmã e eu não reagi a nada. Era como se eu tivesse aceitado. Era como se fosse um processo corriqueiro, algo que deveria ser aceito por simplesmente ser banal. Por isso a ideia sobre agir ou não sobre aquela figura só me veio longos segundos depois, mas já era tarde. A figura negra voltou-se a recolher-se nas sombras do quarto e eu simplesmente cai no sono. Na manhã seguinte, meu olhar se direcionou em primeiro lugar para a janela. Vendo o sol iluminar meu rosto, a casa e o jardim de minha irmã. Eu me lembrava do que havia ocorrido noite passada, mas algo em mim havia concluído que era apenas um sonho. Aquilo não era verdade. Afinal, eu tinha aceitado. Algo assim, no dia a dia, é impossível. Ver uma alta figura negra fantasmagórica se inclinar sobre minha irmã e não reagir. Tinha de ter sido um sonho, pensava eu. Minha irmã estava morta e eu estava ao seu lado quando ela morreu. Ou melhor... Eu vi quando ela foi levada.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Beijos.