Notas iniciais
Este é o segundo capítulo, o próximo será muito mais curto e será apenas um epílogo. A data de sua postagem será Quarta-feira. Tenham uma boa leitura.

Escrita por Meiline Damestein

Capítulo 2 – Ao lado da Morte

Depois da morte de minha irmã, sua casa foi passada ao nome de minha outra irmã que apenas fez uma ligação curta e seca sobre como temos de ficar juntos como irmãos, condolências para mim pela perda de minha esposa e felicidades por ter uma sobrinha, apenas. Isso tudo se passou em um período único que minha filha fez um ano. Ela já sabia falar algumas palavras, como “papai” e a andar. Pergunto-me o quão maravilhoso seria se Ariadne ainda estivesse entre nós? Mas essa pergunta não me perturbou por muito tempo.

Logo depois do aniversário de um ano de minha filha, nosso vizinho ficou doente. Também assim como minha irmã e esposa, ficando em casa. Sua filha que morava junto a ele, me implorou para supervisioná-lo enquanto a mesma trabalhava. Havia olheiras e lágrimas em seu rosto constantemente. Eu procurei tranquiliza-la o mais rápido possível, não somente porque era o correto a se fazer, é claro. Seria a terceira morte próxima a mim? O estado de meu vizinho piorava a cada noite e enquanto eu dormia cautelosamente com minha filha sobre meu peito e entre meus braços, eu era capaz de ouvir os prantos e orações de minha jovem vizinha para que seu pai se salvasse durante a noite.

Nas noites seguintes, eu colocava minha filha para dormir mais cedo e me oferecia para passar a noite ao seu lado, ajudando a orar e fiscalizar seu pai. Depois de três noites, eu vi aquilo pela segunda vez. Desta vez, eu caía no sono de boa vontade, mas meu desejo para ficar acordado era tão grande que eu me auto “despertava”. No inicio, eu só estava fazendo isso para olhar o estado de meu vizinho. Em um de meus “despertos”, eu a vi, ao lado direito da jovem que dormia ajoelhada agarrada a mão de seu pai. A mesma figura negra fantasmagórica. Eu pensei mais rápido que a primeira vez, pensei em me mover e chamar sua atenção, mas... Eu não queria me mover. Não falo isso como meu corpo a se negar a me obedecer, mas eu não queria que meu corpo obedecesse, era simples, embora eu não entendesse.

Pela vela que estava acesa e em seus últimos momentos eu consegui ver um pouco além do que a sombra daquela figura, mas não tinha muito que ver. Era apenas algo, algo coberto dos pés a cabeça por uma túnica negra, nem mesmo seu rosto pude ver pelo enorme capuz o cobrir. Eu tremi naquele instante, fechando meus olhos com a maior força possível. Aquilo era a Morte? Tão falada em inúmeros contos de horror do passado. Por que eu a vejo? Por que ela deixou que eu a visse? Não. Afinal, o que eu estava falando? Aquilo era um sonho, um sonho ruim, apenas. Abri um pouco de meu olho direito, apenas para ver um pouco e a vi se inclinar sobre meu vizinho, encostando o braço coberto inteiramente pela túnica negra nas costas da jovem ajoelhada ao chão. A vela que iluminava o quarto apagou-se e eu senti que deveria dormir. Pois tinha que dormir, tinha que aceitar.

De manhã o mesmo ciclo. Meu vizinho havia falecido e sua filha estava terrivelmente doente. Nos jornais, apenas dizia que devia tomar cuidado com a epidemia, pois poderia ser transmitida de métodos diretos e indiretos. Como contato com secreções de algum doente, tocando logo depois seus olhos, boca e nariz. Logo depois, aparecia à lista de sintomas no artigo que dizia para a pessoa que se estivesse com esses sintomas ou conhecesse alguém com eles, deveria procurar assistência médica o mais rápido possível. Minha jovem vizinha estava com estes sintomas e ela já me havia informado que iria ficar em casa, eu me ofereci para cuidar dela, assim como fiz com seu pai. Era o mínimo que eu poderia fazer como um ainda saudável.

Quem me visse, poderia me considerar um homem forte, imponente e gentil, mas eu apenas queria a ver outra vez. Além disso, eu estava fadigado e com uma dor de garganta, por dias, então com toda certeza, eu não era imponente e forte. Todo dia a acordar e depois de colocar minha filha para dormir, eu olhava o retrato de Ariadne. Retratava a fielmente e me fazia sentir quente, quase como se estivesse a abraçando. Mesmo que fosse só uma pintura, retratava seu sorriso tão fielmente que me fazia lembrar-se daquele corredor, daquelas pradarias, daquele sol, daquelas flores... Daquela mão a me puxar para ser alguém melhor. Ariadne, minha amada alma gêmea, me proteja.

Eu não dormi direito nenhuma das noites, eu dormia cedo de manhã assim que voltava de casa, mas somente cinco horas, para assim passar o restante do dia com minha filha. As noites que passei ao lado de minha jovem vizinha cuidando dela me fizeram pensar melhor sobre minha vida. Como em exemplo, eu havia concluído o que era Ariadne. Ela era minha chave, mas tinha algo á mais. Eu entendi que aquela porta era o simbolismo perfeito de alguém “cego”, porém consciente de sua cegueira. Eu não era capaz de ver além daquela porta, pois não tinha a chave. Eu não tinha Ariadne, mas, além disso... Eu não tinha amor. Viver era amar. Eu não possuía nada além de uma hipócrita reclusão por tudo. Ariadne conseguiu me fazer ir além daquela porta por causa disto e agora... Eu havia perdido tudo, bem quase tudo. Ainda tinha a pequena criança que dormia em segurança e vigilância na casa ao lado.

Naquele quarto pela segunda vez, eu consegui vê-la de novo. Eu apenas estava quieto deitado virado um pouco contra o estofado do sofá, a olhar para um ponto único perto dos meu pé esquerdo. O sofá era contra a parede no canto do quarto, enquanto a cama onde minha vizinha estava era mais a frente no meio do quarto. Um ângulo mais do que privilegiado.

Perto da cama, imponente, inclinando-se sobre minha vizinha e depois se reerguendo. Não fechei meus olhos tentando evitar ver a cena. Não. Eu queria ver, embora novamente a mesma sensação de querer ficar quieto me esmagasse, eu a vi. E pude ver, a sombra estava a me olhar de volta. Embora, eu não visse seu rosto. Eu simplesmente sabia, sabia e sabia que ela estava a me olhar. Eu era o próximo? Perguntei-me instantaneamente, lembrando-me que quando ela apareceu para meu vizinho, ela havia colocado suas mãos sobre as costas de sua filha e logo depois, cá está. Ela está morta. Não. Não. Não. Eu não poderia ser o próximo. Minha filha. Eu tinha de cuidar dela.

Quando a vi se afastar pela sombra do quarto, partindo. Eu conclui que ela havia ido embora, mas eu não quis me mexer. Eu apenas voltei a focar no ponto invisível perto de meu pé esquerdo. Somente quando a vela do quarto apagou-se horas depois, veio-me a ideia de verificar minha vizinha. O mesmo ciclo, ela havia falecido. Voltei para casa fatigado, mais do que o normal dos últimos dias. Brinquei e permaneci com minha filha por toda à tarde daquele dia. Dois dias depois, meu único servo demitiu-se, fugindo da cidade e com toda certeza da epidemia. Agora seria somente eu e minha filha. Foi o que pensei.

Meu diagnóstico chegou dois dias depois, eu havia contraído a epidemia. Eu nunca me amaldiçoei tanto. Desculpe-me Ariadne, decepcionei-te, não é? Nossa filha ficará sozinha no mundo. Quando me aproximava de minha filha, sempre cobria minhas mãos, nariz e boca. Não a deixava tocar em minhas roupas, nos lenços que eu usava ou em meu rosto. Ela só tinha um ano e meio. Talvez, ela não se lembrar de nada desse período seja o melhor para ela. Liguei para minha irmã, implorando-a para que viesse para a cidade e depois de muita conversa, consegui convencê-la. Não a informei sobre meu estado. Ela ficou na casa onde minha outra falecida irmã e mãe moravam.

Dois dias depois de sua chegada a convenci de ficar com minha filha pela noite. O que separava o conjunto de sete casas onde eu morava, da mansão onde ela estava, era uma floresta. Em uma manhã, depois do almoço com minha filha em meus braços, balançando-a com calma. Eu a vi, debaixo da macieira, olhando para a janela do segundo andar, onde eu estava. A mesma sombra. Ela havia vindo me buscar naquela noite. Olhei a criança em meus braços e conclui que não poderia deixa-la comigo, para me ver morrer. Com os lenços a cobrir meu nariz e boca, além do rosto da minha filha. Eu a carreguei pelos braços, caminhando durante a noite pela floresta, depois que enfim ela havia caído no sono. Não temia está morto da manhã seguinte, pois sim, eu estaria. Eu contrariava todas as prescrições médicas e os pedidos de descanso de meu corpo. Eu teria de ir até o fim.

Durante a caminhada pela floresta, tendo cuidado de não derrubar ou acordar minha filha, eu a vi pela quinta e última vez. A sombra fantasmagórica. Não. Por favor, agora não. Abracei minha filha que estava apoiada a sentar sobre um de meus braços com o outro braço, apertando o passo. Olhando para trás. Eu imaginava que seria assim. A morte a me perseguir, mas com o tempo eu entenderia que ela estava somente a me vigiar. Não adiantava correr. Quando olhei em minha diagonal a frente, a vi saindo de trás de uma árvore, olhando diretamente para mim. Eu não conseguia ver seu rosto, mas ela me olhava. Comecei a suar frio, olhando ao redor, girando sobre o calcanhares, sentindo meus pulmões arderem e minha garganta irritar ao máximo. Sangue, eu estava tossindo sangue. Porém, não somente isso. Meus olhos começaram a lacrimejar enquanto eu olhava ao redor. Eu havia me perdido.

Abracei minha pequena filha mais forte, mas com cuidado para não acordá-la. Ariadne, me ajude. Por favor, me ajude. O fio de Ariadne havia ajudado Teseu a sair do labirinto. Ajude-me, Ariadne, a sair desse labirinto. Por favor. Minha filha se remexeu sobre meu braço e procurei relaxar meu corpo ao máximo. Ficar nervoso iria acordar a minha herdeira e era a última coisa que eu queria. Olhei ao redor e vi ao céu, a lua sair de trás das nuvens, iluminando ao noroeste primeiro até sua luz chegar a mim. Que seja a ajuda. Que seja. Se era a ajuda ou não, o caminho estava certo, ao noroeste dava as mansões conjuntas onde uma delas era de minha irmã. Entreguei minha amada filha a uma das servas que perguntava se eu estava bem. Apenas acenava que sim, olhando fixamente para o rosto adormecido de minha filha. Ela não fazia ideia de ideia e que continuasse assim. A entreguei uma carta e ela entendeu que deveria ser dada à minha irmã. Sai sem lhe explicar mais.

Assim que aquela serva contasse meu estado a minha irmã e ela me procurasse, encontrando-me morto, ela entenderia tudo e iria embora com minha filha para bem longe daqui. Para longe do perigo. Para longe do triste fim de seus pais. Desatei o nó do lenço que cobria meu nariz e boca, pois estava a me dar dor de cabeça. No entanto, continuei a usar o mesmo sobre eles, apenas com minha mão agora a segurá-lo constantemente. Eu estava sempre olhando ao redor. Procurando-a. Conclui que talvez ela me esperasse chegar a casa para poder me visitar corretamente. Sendo assim, eu voltei a divagar no oceano de minha mente, como há muitos anos não fazia. Embora, tivesse de interromper minha linha de pensamentos às vezes pela tosse e sangue que me rompia, eu não me desconcentrava tanto.

Até que tropecei, tossindo sangue, meu lenço caiu um pouco longe e era o último. Acho que eu havia lesionado a perna. Com minha perna direita deitada sobre o chão, finquei maior força sobre o joelho esquerdo, arrastando-me para alcançar o lenço, mas antes de alcança-lo alguém o pegou e o entregou para mim. Aquele perfume, aquela risada... Levantei o olhar e a vi, Ariadne. O mesmo vestido rendado branco longo, os mesmos cabelos negros pouco encaracolados, as luvas rendadas, os olhos pequeninos verdes, o nariz de botão, os lábios levemente secos e finos, o rosto em forma de coração. Minha amada.

Notas finais
Espero que tenha gostado. Beijos.