Notas iniciais
Este é o epílogo. Tenham uma boa leitura e espero que gostem.

Epílogo

Levantei o olhar e a vi, Ariadne. O mesmo vestido rendado branco longo, os mesmos cabelos negros pouco encaracolados, as luvas rendadas, os olhos pequeninos verdes, o nariz de botão, os lábios levemente secos e finos, o rosto em forma de coração. Minha amada.

[...]

Você é sempre tão descuidado... – A mesma voz suave e baixa – Por isso que eu sempre disse, deixe-me guia-lo.

Lágrimas vieram aos meus olhos antes que eu pudesse sequer imaginar. Eu sorri alegremente e puxei minhas pernas, aproximando-me ajoelhado de onde ela estava a pegando pelo braços e a olhando mais de perto. Sua mão aproximou-se de minha bochecha, acariciando com as pontas dos dedos delicadamente. Aquele toque, aquele carinho, como eu sentia saudades. Era quente, reconfortante.

Por que está chorando? Oh, querido... Eu sempre lhe disse, não fique triste. Eu estou aqui. Eu sempre estou aqui.— Eu balancei a cabeça, negando sua frase.

Eu te decepcionei, não foi? Afinal, eu a deixei...

Não diga isso. Nunca diga isso. Eu não estou decepcionada com você, você viveu pela nossa filha. Você viveu por si e é isto que importa. Você sempre se preocupou com nossa filha... Até mesmo em preservar minha memória para ela, você o fez. Obrigada. É claro que... Eu conclui que você deveria me esquecer e ser feliz com outra pessoa, mas você escolheu ficar sozinho, você...

— Eu jamais poderia ficar com outra pessoa para achar minha felicidade... Você é minha felicidade.

Você sempre sabe como me deixar emocionada, não é? Sempre tão perfeito...

Eu não sou perfeito... Não vê? Eu... Senti tanto sua falta.

A abracei com força e foi recíproco, eu a ouvi rir meio ao abraço. Separamo-nos e a olhei no fundo dos olhos mais uma vez. Nunca poderia me cansar disso. Eu sentia tudo de volta. O sol, as flores, a mão a me guiar. Encostei nossas testas e rimos um pouco. Ariadne encostou suas duas mãos sobre meu rosto e nos beijamos. Naquele instante único, eu senti o calor me envolver por completo, além de uma incrível sensação de leveza, eu sentia-me alto. Como a me elevar cada vez, mais e mais. Não consegui abrir mais meus olhos, nunca mais nesta vida.

[...]

O rapaz após o beijo caiu sobre o peito de sua amada, sendo segurado sutilmente pelos braços. A face da mulher estava neutra de reações, em completa oposição, ao rosto suave e gentil que expressava agora há pouco. Apenas a olhar para o corpo do homem se desfazer em seu colo, transformando-se em apenas “essência”. O vestido branco tornou-se negro aos poucos, formando-se uma túnica e um capuz a lhe cobrir o rosto, enquanto sua altura eleva-se mais e mais. Seu belo rosto claro ainda inerte de reações foi coberto por linhas negras até fica completamente escuro. Sem um rosto.

Uma criatura tenebrosa havia se erguido, alheia desde sua criação, as dores, perdas, caos, beleza e esperança que construía este mundo. Não possuía uma paixão pelo prol de sua existência, mas respeitava suas obrigações e as cumpria sem demora. Tudo que tinha era uma melancolia que provinha do respeito e até do pouco de encantamento pelos outros. Pelos que sofreriam pelas suas ações. Talvez este fosse seu fardo... Não ser capaz de sentir. Embora, sentisse grande parte dos momentos de sua existência, sua melancolia, por não entender aqueles que chegavam até suas mãos... Admitiria mesmo que apenas para si, que não sentir, não compreender, era necessário para sua existência.

Ainda que vagasse de maneira aterradora pelas eras, pelas sombras, pelos sonhos, até mesmo pelas células de cada ser vivo. Estava aqui, mas também não estava em nenhum lugar. Afinal, se diz que sua existência é uma farsa, tudo é questão de "transformação". Porém, isso não vem ao caso. Possuía inúmeros títulos adquiridos pelos longos das eras, mas somente um era tão "Universal" ao ponto de todos entenderem.

Eu sou a Morte. — Com a enorme foice em uma das mãos e a essência em outra, virou-se vagando calmante sobre o solo daquele floresta. Onde somente com o arrastar de sua túnica sobre o solo o enfraquecia e o mortificava, logo retornando ao normal quando se distanciava – Sou eu a última coisa que você verá. Eu estou sempre ao seu lado, sempre a lhe observar. Dia após dia, hora após hora, minuto após minuto, mas você não deve me ver, pois não estou com você. Não estou aqui, não estou em nenhum lugar. Tudo é questão de existir e para o seu infortúnio e de todos aqueles que foram agraciados com a Vida... Eu existo. Hoje e para todo sempre. Ninguém pode me atrasar, ninguém pode me burlar, pois sou absoluta. Não me odeie, pois sou piedosa... É claro, para aqueles que me respeitam. Talvez, só talvez, você mereça uma gota de... Benevolência, antes de partir. Quem é sua pessoa importante? Afinal, eu tenho de me entreter ao longo das eras... Sua história pode me ser interessante.

Apertou de leve a essência em sua mão, aproximando-se da saída da floresta. Se pudesse definir-se com uma palavra diria que era... Bondosa, mais do que sua contraparte. Afinal, enquanto Eladava a luz, uma luz que traria tristeza, arrependimentos, desespero, a única coisa que poderia oferecer era... Alívio. Livrava as essênciasde sofrerem pela eternidade,mas grande parte não reconhecia esta última parte. Era sempre a vilã.

A essência que estava em sua mão havia visto sua amada antes de morrer. No fundo, ao menos no inicio, poderia se sentir incomodada por tomar a forma de uma pessoa querida e iludi-la com palavras que omortoqueria ouvir. Porém, era a única coisa que poderia fazer para aliviar o que deveria ser o verdadeiro alívio. Também admitiria que tomar a forma de alguém simples e ignorante era algo... Sublime? Algo como... Poder enfim fechar os olhos após três dias sem dormir? Sim, era uma boa definição.

Ao finalmente sair da floresta, se pudesse voltar a assumir a forma da jovem amada de pouco tempo atrás, sorriria. Afinal, gostava da ingenuidade alheia, pois era através dela que as melhores histórias nasciam. Quanto mais interessantes, melhor para si. E... Essa história, infelizmente, acabou.

Estou bem aqui do seu lado...

Notas finais
Agradeço-lhe por ter chegado até aqui. Espero que nos encontremos em uma próxima vez. Até mais.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!