Team Reset
26 Um Mundo feito de Ilusões e a Relação entre Mestre e Discípula
Após voltarem de um mundo alternativo, Shishi, Narumi e Miu se infiltraram eu um dos prédios do Governo Mundial para resgatar J, o robô que fora criado por Hanako e dado de presente para Shishi com o intuito de ajudá-lo a proteger suas alunas e também a Terra por conta de uma nova ameaça eminente. Lá, fingiram-se empregados e passaram algum tempo para descansar. Shishi teve alguns pesados que perturbaram a todos os três, mas o rapaz resolveu deixar para lá.
Então, eles se dirigiram ao laboratório no qual o Veterano viu em seus sonhos, ainda que não tenha comentado nada com as duas garotas. Quando chegaram a seu destino, as luzes do local se acenderam e avistaram um robô igual a J, com exceção de alguns pequenos detalhes. Aquela máquina praticamente derrotou o trio sem precisar de um esforço muito grande. Então, o tal representante do Governo Mundial surgiu, explicando-lhes que havia roubado J para ele, e que havia um meio bem mais útil de utilizar o sistema de teleporte criado por Hanako. O homem abriu um vórtex dentro da sala e puxou Miu para dentro dele. Em um ato inconseqüente e bem imprudente, Shishi derrubou os dois oponentes e saltou agarrando a mais nova e pulando com ela dentro do portal.
Ele tinha a sensação de estar em uma queda-livre para a morte, embora o ambiente estivesse totalmente escuro. Passaram-se pelo menos cinco minutos e não havia sinal de impacto com o terreno. Não conseguia nem identificar se havia algo em baixo deles. Pensou se ficariam em uma queda eterna e que esta seria a morte deles. Mas, e caso o chão estivesse próximo? Os dois sofreriam um impacto grande. Shishi acreditava que eles já estariam em velocidade terminal, o que significava que qualquer impacto seria o fim da linha para ambos. Mas, ele estava determinado a pelo menos salvá-la. Apertou-a mais no braço esquerdo e esticou o direito para lançar um pouco de eletricidade e iluminar o caminho.
Viu que ainda havia pelo menos quinhentos metros até caírem com tudo no chão. Shishi fechou os olhos pensando em algo que poderia fazer. Encontrou o meio de não causar maiores danos em sua kouhai. Concentrou o máximo de energia que conseguia em torno deles. Então, a armadura cinza que antes era típica dele cobriu uma parte do corpo da garota. Fechou os olhos para não se concentrar na queda. Levaram cinco segundos até que ele caísse com tudo no chão. Por um momento, sentiu como se todos os ossos de seu corpo tivessem quebrado, e nisso, perdeu a consciência.
Assim que recuperou a consciência, sua visão estava turva. Sentia uma dor excruciante no braço direito, e quando olhou pra ele, havia uma grande marca roxa nele. Também tinha um corte na altura do bíceps, no qual sangrava bastante. Resmungou um pouco, e então procurou pela garota. Ela estava a uns dez metros de onde ele caiu, dando a entender que com o impacto direto no corpo do rapaz, ele acabou a largando. Observou os pequenos ferimentos que ela tinha. Ajoelhou-se e rasgou as mangas da camiseta para improvisar uns curativos na barriga dela. Respirou fundo e começou a recitar algumas palavras em latim.
– Vulnera Repellas. – Ao pronunciá-las uma energia roxa emanou da mão dele e cobriu o corpo de Miu. Pôde perceber o sangramento sendo estancado. Levantou-se e levou a mão que utilizava o feitiço para o braço machucado. Mordeu os lábios para segurar um pouco a dor imensa. A marca roxa diminuiu consideravelmente e por isso, achou melhor sentar e esperar sua kouhai acordar.
Narumi estava diante de seus dois inimigos, mas não havia nada que podia fazer senão esperar Shishi e Miu. O homem a pegou pelo braço e a guiou até o que seria uma cela dentro do laboratório. – Certo... Acho que eu poderei revelar meu nome pelo menos para você. Se aqueles dois voltarem você será a primeira a morrer... E eles assistiram tudo de camarote.
Ela não podia deixar de sentir um pouco de medo diante das palavras dele. Mas, também achou melhor que o senpai tivesse pulado dentro daquele vórtex para ajudar Miu. Apesar de terem uma discreta relação de rivalidade, ela se preocupava com a garota, por terem passado tantas coisas juntas e terem sido colegas de classe desde sempre. Sabia que seja lá onde eles tivessem caído, a mais nova não seria capaz de suportar ficar sozinha num lugar em que não conhece. Narumi fechou os olhos para descansar um pouco, era o melhor a fazer, manter seu corpo descansado para a batalha que estava por vir.
Miu acordou lentamente. Não sentia mais dor de cabeça, seu corpo parecia um pouco mais aliviado do que antes de ser sugado para o vórtex. Não se lembrava exatamente o que tinha acontecido, mas apenas se deu conta de que estava em um lugar totalmente diferente quando viu algo até iluminado ao lado dela. Sentia algo apertando um pouco a barriga, então levantou a blusa e viu o curativo improvisado e o tecido manchado com um pouco de sangue. Olhou para o lado e viu Shishi sentado em uma pedra, aparentemente a observando e esperando que ela acordasse. Percebeu que ele quem fez o curativo e ficou vermelho, por achar que ele teve que tirar sua blusa para fazê-lo. Seu rosto corou imediatamente quando essa ideia lhe passou pela cabeça.
– Olá. – Shishi a cumprimentou. Sua voz estava com um tom diferente, ele parecia estar contido. Instintivamente, levantou também o braço direito para gesticular um cumprimento enquanto falava, mas ao fazer aquilo, sentiu como se um choque de milhões de volts percorresse seu corpo. Acabou deixando escapar um baixo gemido de dor. Um pouco de sangue voltou a cair do braço dele, empapando o curativo improvisado.
Era impossível negar que Miu havia ficado preocupada. Tentou levantar para ajudá-lo, mas percebeu que era bem difícil, quase como se seu corpo estivesse pesado e ela não fosse capaz de movê-lo. Shishi se aproximou e a colocou nas costas. Acabou tendo um pouco de trabalho por só conseguir usar o braço esquerdo.
– Onde nós estamos? – Ela perguntou. O local em que estava era bem escuro, o mínimo de luminosidade que eles conseguiam vinha da eletricidade que Shishi atirava pelos pés para iluminar o caminho em sua frente. Ele fez um gesto negativo com a cabeça e então começou a seguir em frente. – Eu não sei. Tentei investigar um pouco, mas não consegui nenhuma informação concreta. Isso aqui é como se fosse uma caverna.
Continuou andando e tomando todo o cuidado possível, verificando sempre onde estava pisando e atirando quantidades maiores de eletricidade. Queria ter a certeza de que não havia nenhum penhasco. Shishi começou a sentir uma presença poderosa e bem familiar. Virou-se ao perceber que algo vinha de trás, caso não tivesse este reflexo a tempo, Mio poderia ter sido atingida pela rajada cortante de ventania.
– Esse tipo de ataque... Como? – Estreitou os olhos e viu uma silhueta bem familiar, Era um dos seus inimigos de dois anos atrás chamado Joe. Shishi se apoiou discretamente no chão, queria que Miu se afastasse dali por enquanto. – Você consegue andar, Miu-chan? – A garota desceu das costas dele. Suas pernas tremiam um pouco, mas pelo menos conseguia se mover. Ele suspirou aliviado e se levantou novamente.
– Senpai? O que vai fazer? – Ela segurou o braço bom dele, não queria deixá-lo enfrentar o que quer que fosse sozinho, afinal, seu veterano se jogou para salvá-la, e pelo que parecia ainda se machucou gravemente por ela. O rapaz abriu um sorriso e suspirou para deixá-la mais tranquila. – Não se preocupe. Apenas se afaste. Aquele homem não é alguém que você consiga derrotar sozinha, principalmente nesse estado.
Não tinha escolha, então ela se afastou e ficou encarando um pouco mais de longe o encontro daqueles dois. Havia algo entre eles que intrigava Miu. Era possível sentir a tensão que se iniciava naquele ambiente.
– Há quanto tempo, Akamatsu. – O homem tinha aspectos estrangeiros, aparentemente britânicos ou americanos. Ele falava japonês em um sotaque bem diferente. E pelo seu tom de voz dava a entender que conhecia Shishi de alguma maneira. Shishi desembainhou a espada com a mão esquerda e esticou o braço, mesmo que ele estivesse um pouco abaixado.
– Sim, faz um bom tempo mesmo. O que um fantasma como você quer comigo? – A eletricidade no corpo do garoto ficava maior a cada segundo que passava, era como se a raiva estivesse crescendo em seu peito. Miu ouvia a conversa de longe, sem entender muita coisa. Tinha uma pequena noção de quem era aquele homem, provavelmente alguém do passado do Veterano, no qual ele não gostava de compartilhar.
– Eu voltei do inferno para atormentar você. Pro seu azar, você não é mais como antigamente, não tem os poderes em seu nível máximo. Não consegue nem mesmo utilizar sua armadura perfeitamente, não é? – O sotaque daquele homem britânico era bem irritante. Dava para ver que ele planejava tirar a calma de Shishi com as palavras.
– É, você está certo. Eu não sou o mesmo de dois anos atrás. Consigo muito bem derrotar você sem ter aquelas habilidades todas... Joe. – Ao ser provocado, o homem grunhiu e avançou na direção de Shishi, brandindo a zanbatou e claramente focando o braço direito dele. O rapaz teve um pouco de dificuldade em defender o golpe, já que era destro. Abaixou um pouco a espada para que a arma do inimigo deslizasse e assim pudesse evitar o contato direto. Assim que Joe foi posicionado para as costas do veterano, sua perna direita foi coberta por um pedaço de armadura de cor cinza e também de eletricidade. Ele girou o corpo e golpeou as costas de Joe com um chute forte, lançando-o longe e o fazendo se atritar com o chão da caverna.
– E então? Estou esperando pelo todo-poderoso Joe me derrotar. – Provocou novamente. Shishi estava com um sorriso no rosto. Estava bem diferente de dois anos atrás, e o oponente notava isto claramente. Joe movimentou a zanbatou e enviou uma corrente de ar cortante na direção de Miu. Provavelmente, ele sabia que ela não conseguia se mexer normalmente.
Shishi notou o golpe indo na direção dela, mas não conseguiria mandar nada a tempo de bloquear o golpe para ela. Concentrou eletricidade nas pernas e saltou para entrar na frente do ataque. A corrente de ar o atingiu diagonalmente no peito, criando um belo corte no qual começou a sangrar bastante. Entretanto, ele não parecia senti-lo tanto quanto deveria.
– Certo. Você alvejou logo quem estava mais debilitada... Você não mudou nada. – O veterano pegou impulso em seus raios visando se deslocar para perto de Joe. Disparou alguns pequenos trovões utilizando a espada como transmissor. O golpe o atingiu no peito e o fez voar mais uma vez.
Shishi suspirou e esperou o oponente se recompor. Estava cansado daquela batalha, queria encerrá-la o quanto antes, ainda tinha de salvar Narumi. Assim que viu Joe se levantar, se moveu rapidamente do local de onde estava e o cortou no meio com a espada. Surpreendentemente, o homem não respingou nenhuma gota de sangue, somente desapareceu ao ser cortado.
– Hm? Ele era só uma ilusão, mas... – O rapaz olhou para o próprio peito bem onde a rajada de vento o havia atingido, e ainda estava sangrando um pouco. Resmungou um pouco e continuou a andar. Miu, que também já podia caminhar um pouco, se aproximou dele, queria saber mais do passado do veterano, estava claro que ele ainda escondia muita coisa.
– Senpai! – A garota o virou, puxando-o para perto, tocando até mesmo no braço machucado dele. Estava cansada de não saber nada, se sentia farta dele esconder tantas informações. Basicamente, o que as duas sabiam era o que descobriram por conta própria. Shishi já esperava por aquela reação, tanto que não mudou nem a expressão facial.
– O que você quer saber? – Shishi retirou a mão dela de seu braço machucado, tentando ignorar a dor imensa que ela o fez relembrar. Seus olhos cinza e brilhantes na escuridão pareciam ter mil anos de vida, mostrando que ele não estava nada confortável em ter de falar algo sobre o incidente de dois anos atrás para ela.
– Quem era esse tal de Joe? E por que aquele homem falou que você não foi capaz de proteger sua irmã mais de uma vez? – Em alguns momentos, Miu o balançava inconscientemente. Não iria largá-lo até que obtivesse todas as respostas que queria.
– Muito bem. Aquele Joe era um dos antigos Três Agentes Especiais, formados por Lyall, Kazumi e Joe. Eram os principais membros da Organização até Lyall tirar o comando da Rin-san e revelar seus planos verdadeiros. – Ele deu uma pausa antes de começar a falar sobre o que aconteceu com sua irmã, nunca se sentia bem ao falar daquilo, remetia a uma parte do passado que gostaria de esquecer. O rapaz começou a andar pelo ambiente, seus olhos pareciam ficar vazios novamente. Olhava para o horizonte como se enxergasse o infinito.
– Dois anos atrás... Eu e minha irmã caímos em uma armadilha. Nós fomos abordados pelos três Agentes que eu mencionei antes. Basicamente, era uma emboscada apenas para mim, mas então a Nee-san apareceu e decidiu se meter naquela luta... Inclusive, ela se colocou na frente na hora do golpe final que me acertaria. Resumindo, ela se matou para me salvar. – Shishi passou a olhar pro chão ao se lembrar daquele momento, a raiva que o assolou quando viu sua irmã morrer parecia voltar conforme ele contava.
Ali, Miu não podia negar que sentia uma pontada de tristeza ao ouvir a história dele, apertou as mãos no vestido sujo que estava usando e ficou esperando o Senpai continuar com a história.
– Então, assim que ela morreu. A antiga Chefa da Organização, Suzuko Rin, veio até mim para oferecer uma proposta: Trazer minha irmã de volta a vida por um preço... – Algo veio voando na direção dos dois enquanto conversavam, Shishi conseguiu colocar as costas no golpe e sentiu um choque percorrer o seu corpo. Aquilo foi o suficiente para a garota também sentir uma parcela do ataque.
O veterano estreitou os olhos ao ver a si mesmo de cabelos grandes e com uma das íris escurecidas, quase que em um tom de preto intenso. Shishi chegou a dar uma breve gargalhada enquanto observava aquele Sobretudo preto cobrindo boa parte de seu eu mais novo.
– Ah, irônico. Até eu vim me atrapalhar aqui. Mas pelo menos, tenho uma ideia do que está acontecendo e onde estamos. – Apontou a espada para seu “eu mais novo” e voltou a ficar sério. Os dois movimentaram-se quase na mesma velocidade. Miu sequer conseguia acompanhar os passos dele, apenas escutava sons de relâmpagos e o atrito entre as armas deles. A quantidade de energia que emanava a cada vez que eles entravam em contato era imensa, a garota conseguia sentir a pressão ficando maior no ambiente.
– Eh? Como... – A jovem teve o reflexo para desviar para o lado e evitar que um raio poderoso a atingisse. Não sabia exatamente de onde tirou a agilidade para desviar daquilo, achou que poderia ser algo adquirido durante o treinamento. Levou uma das mãos ao rosto quando um forte clarão se espalhou pelo local. Então, ela viu dois pólos: Um branco e um Escuro se separando. O Shishi atual era a cor branca e voou para perto dela.
– É, até que eu não era nada mal. Mas, meu estilo de luta não mudou tanto assim. E vai ser um pouco difícil ganhar assim e ainda mais no meu estado. – Ele se afastou um pouco e fez um gesto com a mão esquerda bem parecida com o de alguém que tentava meditar. Uma grande quantidade de eletricidade se condensou, formando uma esfera de energia circulada por algumas elipses, bem semelhante ao modelo atômico atual.
– Glorious Burst! – Liberou aquela esfera na direção do Shishi-mais novo e uma grande explosão fora criada, iluminando todo o caminho ao redor deles, quase como uma explosão nuclear de tão brilhante. Em meio a uma cratera criada pela destruição do golpe, Shishi foi até lá e puxou o Sobretudo que estava estranhamente intacto. O rapaz o pegou e o colocou no ombro.
– Isso aqui ainda é meu, moleque. – Ele se voltou para Miu, ainda se mantinha com a expressão bem séria. Pensava se deveria continuar a história para ela, mas achou melhor não. Embainhou a espada e vestiu o Sobretudo, cobrindo o braço direito machucado.
– Ahn, o que vamos fazer agora? – A garota se aproximou dele, ficando do lado de seu braço bom. Encarou-o, olhando diretamente para o mais velho. Começou a pensar os motivos de aquele outro Shishi ter aparecido, e o que poderia ter causado aquela mudança repentina, tanto de aparência quanto de atitude. Por enquanto, achou melhor não perguntar nada e deixar que ele explicasse quando se sentisse à vontade.
– O que vamos fazer? Sairemos daqui. – Shishi se sentou em posição de meditação, mas já que seu braço direito estava praticamente imóvel, ele posicionou apenas a mão esquerda em frente ao corpo. Fechou os olhos para poder se concentrar melhor. – Miu-chan... Estou contando com você pra me proteger. Deixarei minha vida em suas mãos até que o Feitiço termine. E ele é um pouco longo.
– Pode contar comigo, Senpai. Eu prometo que vou te proteger. – Sua expressão ficou séria conforme dizia aquelas palavras. O próprio Shishi percebeu a determinação dela, tanto que acabou abrindo um sorriso ao ouvi-la. Começava a pensar que elas estavam crescendo pouco a pouco, cada uma da sua maneira, lembrando basicamente o seu próprio crescimento e o de seus amigos mais tarde. Agradeceu-a silenciosamente e iniciou os cantos necessários para o feitiço.
Lentamente, a jovem observava que o ambiente ia ficando mais claro sempre que algumas palavras eram “cantadas” pelo veterano. Um pequeno círculo se abria a duzentos metros na frente deles. Miu estreitou os olhos e interpretou como se aquela fosse a saída deles. Então, sentiu uma presença maligna mais uma vez, bem semelhante a que acometeu o local antes de Joe aparecer. Três sombras se formavam ao redor dela, já que havia se afastado um pouco de Shishi para aumentar seu campo de visão ao redor dele.
Observou três silhuetas se formarem, uma era uma jovem com características asiáticas misturadas a ocidentais, pele relativamente bronzeada, olhos azuis intensos. E os cabelos presos em um rabo de cabelo. Do lado dela, havia uma pessoa com exatamente as mesmas feições, indicando que provavelmente seriam gêmeas, tendo como diferença apenas os olhos castanhos, o cabelo solto nos ombros. Utilizava roupas mais informais, como uma camiseta que pendia mais para um lado, calça jeans clara e algumas pulseiras na mão esquerda.
Miu tinha a sensação de que as conhecia de algum lugar, mas não se lembrava de onde. Tentava vasculhar em sua própria mente o motivo daqueles rostos lhe eram familiares. Acabou viajando demais em seus pensamentos, quando se deu conta, a de Olhos Castanhos estava com uma pistola em mãos e pronta para disparar na direção de Shishi. Apontou a arma na direção do garoto e disparou um projétil de luz nele. Miu rolou para o lado rapidamente e desviou o curso do projétil com uma das adagas que materializou. A outra moça tinha um leque em cada mão, balançou-os e criou várias rajadas de vento feitas de energia pura e enviou na direção da garota. Os olhos de Miu brilharam e então o chão começou a ser congelado em volta dela. Logo em seguida, ela ergueu as adagas em um movimento rápido, quase como uma dança, e ergueu um muro de gelo para bloquear a investida. Bem após impedir o ataque o muro se transformou em cristais de gelo.
– Vai ser bem difícil de lutar contra essas duas, mas... Ainda falta um. Talvez se eu conseguir impedir que ele apareça... – Procurou os resquícios da outra silhueta e a encontrou atrás das jovens. Notou que a sombra estava demorando mais para se formar do que quando as gêmeas apareceram. Lançou as duas adagas na direção das duas para distraí-las e então se movimentou rapidamente para chegar mais perto da ultima sombra e trazer consigo uma forte corrente de ar frio. Pouco a pouco, os cristais de gelo formavam um grande pilar que envolvia aquela sombra, impedindo sua materialização completa. As adagas voltaram para as próprias mãos e as gêmeas vieram em sua direção para golpeá-las com o leque e lhe acertar com algumas coronhadas. Acabou sendo atingida por uma rajada de energia vinda do leque, que acabou fazendo um corte no braço esquerdo dela, ainda que tenha conseguido impedir a coronhada com a adaga. Olhou para o sangue escorrendo do ferimento e resmungou alguma coisa sobre precisar tomar mais cuidado na hora de atacar.
As gêmeas se movimentaram quase na mesma velocidade de Shishi anteriormente, a de olhos castanhos estava no céu, distante em pelo menos três metros em cima da garota. Apontou a pistola na direção dela e iniciou uma sessão de disparos de balas de energia. Desta vez, não havia tempo para poder desviar ou bloquear o ataque. Vários projéteis passaram de raspão por ela e causando vários cortes em seu corpo. A outra jovem se aproximou e movimentou os leques, criando ventanias fortes e a lançando para perto de onde seu Senpai estava. Olhou discretamente para ele e agarrou um punhado de terra com as mãos. Sentia o poder que ele estava emanando enquanto meditava. Precisava protegê-lo a todo custo. Por mais que costumasse sentir medo ou fugir de situações perigosas, aquele não era o momento para isso. Uma aura branca começava a delinear o corpo dela lentamente, até mesmo a expressão da garota ficava séria. Era seu dever completar aquela missão, protegeria Shishi mesmo que aquilo custasse sua própria vida.
– Vocês não vão tocar nele... Eu não vou deixar! – A aura esbranquiçada de Miu se tornava mais intensa conforme ela se levantava. Fez um gesto semelhante ao de uma oração, juntando as duas mãos e as erguendo para o céu. O Ar frio se tornava muito maior, tanto que a respiração da garota era visível. Ela desceu os braços e os apontou na direção das gêmeas. Todo aquele ar frio fora disparado na direção delas, os cristais de gelo tomavam conta do que estivesse tocando, congelando tudo a sua frente. As duas não tiveram como reagir, desapareceram assim que aquele ataque passou por elas. A de cabelos castanhos piscou e olhou para o caminho na frente dela. Não tinha se dado conta de que fora ela própria quem causou todo aquele congelamento dentro da caverna.
– Ah... Acabou? – Olhou para as próprias mãos e viu os cristais de gelo nelas, se dissolvendo lentamente e a água pingando e molhando o chão. Levantou o rosto e encarou o portal, agora muito maior do que quando olhou da primeira vez. Ela e Shishi poderiam muito entrar ali sem grandes dificuldades.
– Bela luta, Miu-chan. Você congelou quase tudo aqui. – Ao ouvir a voz de Shishi, Miu tomou um pequeno susto, não esperava que ele fosse recobrar a consciência tão depressa. O veterano colocou a mão sobre a cabeça dela e fez-lhe um pequeno cafuné, bagunçando os cabelos dela. Olhou com atenção para o portal que havia aberto. – Está pronto. Mas antes eu preciso dar um aviso, nós vamos entrar com tudo ali. Esteja preparada para um contra-ataque deles. E principalmente: Vamos resgatar o J e a Narumi-chan também.
Ela concordou e então ajeitou as adagas na cintura. E se esticou os braços pra cima para se espreguiçar. Seus ferimentos incomodavam um pouco, mas não parecia nada comparado ao que Shishi já havia sofrido, pelo menos, era isso o que ela pensava. Os dois começaram a correr na direção do portal e saltaram nele. Assim que o corpo deles encostou foram imediatamente sugados para dentro. Sentiram a mesma pressão de quando foram lançados no primeiro vórtex.
Shishi gritou para que a mais nova segurasse sua mão, dessa forma evitariam que o portal não os levaria para locais diferentes. O rapaz disse algo sobre o feitiço não garantir cem por cento um teleporte seguro como o que J proporcionava.
Enquanto isso, o inimigo andava de um lado pro outro no laboratório, observava Narumi ao mesmo tempo. Tinha certo olhar de interesse nela, mas era difícil saber se o motivo era por ela ser aluna de Shishi, ou se possuía alguma habilidade em especial que o interessasse. – E então, minha cara? Já perdeu a esperança de seus colegas te salvarem?
– Não. Eu tenho certeza de que eles vão vir. Aqueles dois nunca deixariam ninguém na mão. – Afirmou com tanta certeza que esboçava até um sorriso provocativo. Estava sentada em uma cela do laboratório. Tamborilava os dedos no chão enquanto esperava os companheiros voltarem.
– Ah, é? Então acabarei com você aqui e agora, para não dar chance dos seus amigos verem você viva. – O homem apontou a mão na direção de Narumi, a garota chegou até mesmo a fechar os olhos por estar achar que o pior aconteceria, e quando menos se esperava duas vozes ecoaram em uníssono no laboratório.
– Como se nós fossemos deixar isso acontecer! – O portal fora materializado bem próximo a cela, cuspindo Shishi e Miu para fora dele. Os dois apareceram desferindo um chute bem no peito do inimigo e o afastando de Narumi. A mais nova encostou as mãos em algumas partes da grade e as congelou. Em seguida, Shishi cortou as barras da cela com sua espada. A de mecha branca se aproximou e abriu um sorriso irônico, mas ainda parecia bem mais aliviada do que seu sorriso mostrava.
– Vocês demoraram, hein? – Provocou como costumava fazer, colocou as mãos na cintura, praticamente dando uma bronca nos outros dois. Naturalmente, eles não podiam deixar de sorrir diante daquela situação.
– Ainda bem que chegamos a tempo, Narumi. Acho que você deve uma pra gente. – Miu provocou também. Eles se sentiam bem melhores quando estavam juntos, mas acabaram esquecendo temporariamente quem era o inimigo ali.
– Espero que não tenham se esquecido de mim agora que estão juntos novamente. – O homem se levantou e ficou diante deles mais uma vez. O Falso J se juntou a ele com aquele olhar vazio e escuro. Shishi sentiu a raiva crescendo em seu peito novamente, apontou a espada na direção do homem e a eletricidade começou a percorrer sua lâmina. – Narumi-chan e Miu-chan, vocês devem salvar o J. Eu seguro esse cara!
Assentiram discretamente e correram para a parte central do laboratório. O Falso J as perseguiu, entrando na frente delas. Basicamente, ele era o único empecilho para salvarem o robô feito por Hanako.
Enquanto isso, Shishi também estava impedindo o homem de ir atrás das garotas. O rapaz não tirava os olhos dos movimentos dele. O único problema era que ele sentia as dores dos ferimentos ficando maiores, sabia que seu limite estava próximo.
– Devo lhe dar meus parabéns, Herói. Você conseguiu escapar da ilusão que eu criei para você. – O homem bateu palmas ironicamente, estava até com um sorrisinho discreto no rosto, que se assemelhava bastante ao de Basco até. – Como presente, direi a você o meu nome. Eu me chamo Takasugi. E este será o ultimo nome que você ouvirá.
– Ah, é? Veremos então! – Os dois se movimentaram numa velocidade impressionante. Takasugi estava com uma espada na mão direita e tentou cortar Shishi exatamente onde já havia um ferimento. O rapaz teve reflexos rápidos o suficiente para bloquear o golpe utilizando o braço esquerdo. Estava claro que o oponente exercia uma forte pressão no professor. Os machucados dele começavam a latejar e a derramar mais sangue. O braço direito dele precisava de cuidados imediatamente, o próprio rapaz acreditava que talvez ele estivesse quebrado, e quanto mais tempo ficasse sem tratamento, pior seriam as sequelas.
O homem bateu com o cabo de sua espada no peito de Shishi e bem na altura do coração. Uma sensação de fogo subiu pelo corpo dele, quase como se estivesse entrando em combustão. O veterano caiu de joelhos e sem emitir nenhum som de dor, não poderia mostrar fraqueza a Takasugi.
– Nada mal, Herói. Você continua insistindo em não demonstrar nenhum tipo de ponto fraco nas lutas. De fato, isso indica sua melhora de dois anos para cá. – Takasugi se abaixou e em seguida sumiu da vista de Shishi. O rapaz só o notou novamente quando fora golpeado com tudo na altura do coração e fora lançado longe até se chocar com a parede do laboratório. Sentia que sua consciência se esvaia a cada segundo que passava.
Enquanto isso, Miu e Narumi foram interrompidas pelo falso J. Notaram uma pequena falha na altura do peito dele. Um provável dano que fora causado por Shishi antes dele pular no vórtex para salvar a mais nova. Narumi sussurrou para a amiga sobre aquele pequeno ferimento, e se ele poderia ser explorado a favor delas. Miu concordou, contando um rápido plano sobre como poderia utilizá-lo para ganhar a batalha.
Rapidamente, Narumi atirou três flechas feitas de trevas na direção da cópia. Os projeteis foram facilmente rebatidos pelo braço dele. Ao mesmo tempo, Miu saltou por cima dele, utilizando o ombro da máquina como apoio. Concentrou a corrente de ar frio em volta da adaga e desceu com todo o impulso que lhe foi dado pela força da gravidade. Causou um belo corte no peito do robô, e ainda por cima congelou onde havia atingido. Aproveitou também para desferir um chute na junta dos joelhos do Falso J para derrubá-lo e fazê-lo cair de joelhos.
A jovem de cabelos longos apontou uma flecha bem onde estava a parte danificada pelo Veterano. Ela puxou o fio escuro e a energia começou a se concentrar no centro do arco. Aquele poder negro se dividiu em dois e formou duas flechas conforme ela falava. – Acabou pra você, J do Camelódromo. – Então, Narumi soltou o fio que prendia os dois projéteis e os liberou no peito da cópia, perfurando-a e destroçando seu interior, deixando um vazio nele.
Quando o robô desabou no chão, Miu andou para perto da mais velha, movia a cabeça lentamente à procura de Shishi. Tocou no ombro de Narumi e apontou para alguns pontos de destruição. Claramente, era ali que estava se desenrolando a batalha entre eles. Correram para mais perto e entraram no ambiente coberto de fumaça e poeira. Avistaram Shishi sendo agarrado pelo pescoço e erguido. O homem utilizava a mão que estava livre para golpear na altura do coração do rapaz. E a cada ataque, Shishi deixava escapar um gemido de dor. Parecia querer gritar, mas estava se contendo o máximo possível.
Um aperto no coração acometeu as duas garotas. Estavam vendo o rapaz que as protegeu inúmeras vezes coberto de sangue e derrotado daquele jeito. Elas correram na direção de Takasugi e o empurraram com o ombro para que assim pudesse largar o veterano. Ao cair no chão, Shishi tossiu uma grande quantidade de sangue e ficou agonizando no chão, sentia o corpo derreter, como se seus ossos não existissem mais. Era difícil até para se mexer.
– Meu trabalho já foi feito, crianças. Tenham um bom dia. – Ele se camuflou nas sombras e sumiu. As duas garotas tentaram ir atrás dele, mas não conseguiram nem chegar perto. Resmungaram alguns xingamentos e voltaram a atenção para Shishi. Ele estava de joelhos e com uma cara imensa de frustração. Levantou-se e ignorou discretamente suas discípulas.
– Senpai? – Narumi tentou chamar a atenção dele, mas não obteve nenhuma resposta. O rapaz continuava as ignorando, ou se realmente não estivesse ouvindo, provavelmente sua cabeça viajava por outro mundo.
Caminhou até onde estava J e cortou as cordas que o prendiam. Colocou a “carcaça” dele em seu ombro e andou até a frente das garotas. Fez um circulo com a espada no ar e algo bem parecido com aquele vórtex se abriu, mas com a diferença de que não havia nenhum poder de sucção vindo dele. Na palma da mão do braço direito, ele concentrou a mesma energia arroxeada que utilizou para curar totalmente as duas garotas, deixando-as sem mais nenhum ferimento. Apontou a espada na direção do portal, seu tom de voz continuava sério. – Entrem. É uma ordem.
Antes de obedecerem, Miu se virou para o Veterano. Olhou de maneira preocupada para ele, sentindo também um aperto maior no peito. Apertou a mão na barra da saia e andou na direção da passagem que fora criada. Narumi apenas observava a expressão de tristeza que sua companheira fazia, tinha uma pequena noção do que poderia estar se passando pela mente dela, mas achou não melhor perguntar por enquanto.
Enquanto Miu e Narumi entravam, Shishi saiu sozinho do laboratório carregando J nos ombros. O que ele pretendia fazer ainda permanecia um mistério.
Continua...
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