Teach Me How To Love You
9 Capítulo 9
Notas iniciais
“Porque eu estou ainda muito inseguro de mim mesmo, e não acreditando absolutamente que alguém possa me curtir bem assim como eu sou. Eu não tenho quase experiência dessas transações, me enrolo todo, faço tudo errado — acabo me sentindo confuso. Tudo isso é tão íntimo, e eu já estou tão desacostumado de me contar inteiramente a alguém, tão desacreditando na capacidade de compreensão do outro, sei lá, não é nada disso, sabe? Conviver é difícil — as pessoas são difíceis — viver é difícil.”
—Caio Fernando Abreu
Eu não tinha aula extra em nenhum clube, então depois das 15:15 praticamente não faria nada. Por mais que tivesse evitado devanear durante as aulas, assim que cheguei no quarto fui direto agachar para olhar debaixo da cama, onde guardava o álbum de fotos.
Peguei, tirei os sapatos, me sentei na cama recostando na cabeceira e comecei a folheá-lo. Pulei algumas fotos indo direto nas que continham Elizabeth e eu. Inevitavelmente as lágrimas já começavam a se formar quando vi a primeira foto. Não tinha como não olha-las e não sentir nada.
A minha preferida é uma em que nós duas estamos encostada de lados opostos em uma árvore no campus, imitando a imagem da capa do filme "Sr. e Sra. Smith" que havíamos acabado de assistir e se tornou o nosso favorito daquele dia em diante. Estava claro ainda porque a sessão de filme semanal do ensino fundamental é separada da dos mais velhos.
Virei a página e mesmo com as lágrimas escorrendo um sorriso se formou em meu rosto. Nessa estávamos no quiosque de sorvete depois de terminarmos um trabalho, ela ao meu lado direito e Mulan ao meu lado esquerdo apontando sorridentes pra mim que estava de cara amarrada e braços cruzados, além de toda melecada pelas duas terem esfregado o sorvete de suas casquinhas em mim por ter reclamado de algo que nem lembrava mais.
Quem olhasse minha relação recente com Mulan, ou outros alunos mais conhecidos na escola, não imaginaria o quão próximos éramos até os 14 anos. Liz continuou amiga deles apesar de respeitar minha decisão de me afastar e nunca tivemos desavenças por causa disso.
Quando dei por mim já estava olhando todas as fotos rindo ao vir em minha memória cada uma das situações e não doía tanto olhar aquilo como antes.
As vezes em que fui na psicóloga, o que não foram muitas levando em conta que me obrigaram a ir lá pelo menos umas cinco vezes, foram o contrário do que se é esperado. Ao invés de falar como me sentia, fiquei calada me forçando a não me encolher no sofá e entrar em prantos enquanto ela falava que sabia como eu estava me sentindo e que com o tempo o que é doloroso passa a ser suportável. Tenho de admitir que ela tinha certa razão, aos poucos as situações ficam menos dolorosas e podem até serem divertidas.
Depois de algum tempo fechei o álbum em meu colo e levantei o olhar para o outro lado do quarto. Estava totalmente diferente. O estilo de Emma não se parecia em nada com o de Liz. A loira gosta de coisas mais neutras no máximo uma ou outra coisa coloridas, já Liz amava cores e a junção delas. Emma é diferente, porém familiar porque se assemelha muito ao meu gosto.
Por alguns minutos pensei sobre a conversa em que tivemos. Eu não sabia o porquê de ela querer fazer isso e também não entendia a razão de eu ter dito que posso tentar não ser tão defensiva.
“Talvez eu queira demais. Não só de mim, entende? Dos outros também. Espero que descubram, por trás dos meus disfarces, toda a coisa. Porque as nossas angústias usam máscaras. E eu tenho uma mania de ser valente, dá até medo. “
—Clarissa Corrêa .
Havia duas possibilidades, a primeira seria porque andava me sentindo mais sozinha que o normal e me importando até demais com isso e a segunda seria a minha completa inabilidade de dizer não para ela, mas me recusava aceitar que a segunda poderia ser verdadeira. Era totalmente involuntária a forma como acabava cedendo as coisas que pareciam importantes para ela.
Exalei, exausta daquele dia, mas não tinha quase nada para fazer e não estava nem um pouco a fim de começar o trabalho de matemática. Resolvi trocar de roupa e andar um pouco.
Uma das coisas que eu mais gostava de morar em Cambridge é sua imprevisibilidade e em relação ao clima. Apesar de já estarmos quase no verão e as temperaturas estarem por volta dos vinte graus, as chuvas viviam indo e vindo. O clima nunca é muito quente, mas em compensação no inverno eu congelaria se não tivessem aquecedores em todos os lugares pois a temperatura chega ao negativo e os ventos são cortantes.
Depois de alguns minutos andando e observando alguns alunos, considerei ir ver o treino de natação e, antes que pudesse contestar a mim mesma, estava entrando pelas portas de vidro na área da piscina e me sentando perto da grade na frente da arquibancada que ficava de frente para a piscina.
Os cachos loiros de Emma estavam ocultos pela touca, mas pude facilmente distingui-la quando subiu para a superfície ao chegar na borda e colocou os óculos na cabeça. Ela não me notou ali, apenas ouviu algo do professor e voltou para série. Era interessante vê-los nadando, ainda mais para quem não consegue ficar cinco segundos flutuando sem afundar como uma pedra e se desesperar ao engolir metade da água da piscina. Isso aconteceu quando eu tinha 10 anos e é uma experiência que não almejo repetir.
Pelo que percebi havia chegado no final da aula porque cinco minutos depois o professor apitou encerrando. Assim que o professor se despediu, a loira subiu as escadas junto dos outros e sorriu conversando com um garoto enquanto tirava a touca indo até um banco próximo a arquibancada. Nem percebi em que momento havia levantado até que sai da estagnação, na qual havia entrado ao vê-la sair da água de maiô, a vi me notar e se enrolar na toalha enquanto vinha rápido até onde estava, mas do outro lado da grade. Ao contrário do que pensei seu sorriso sumiu, estava séria.
— Você está bem? — Ela pergunta ainda séria me fazendo estranha-la.
— Estava, até você me ver e parecer que estraguei seu dia.- Respondi já me arrependendo de ter ido ali.
— Como assim? — Ela falou se abraçando para se proteger do ar ameno que tinha ali.
— Eu não sei. Você estava toda sorridente e do nada ao me ver ficou toda séria e quase correu até aqui.- Disse dando de ombros — Quer saber, eu não deveria ter vindo. — Termino me virando enquanto ela me fita.
— Não, espera! — A loira pede me viro novamente — Eu só fiquei assim porque me surpreendi. Falei para você vir se precisasse de alguma coisa, então achei que tivesse acontecido algo. — Senti-me estranha, ela parecia, não sei, preocupada. — Mas gostei que você tenha vindo. — Ela fala começando a sorrir e vejo seus lábios começarem a tremer.
— Eu gostaria é que você fosse tomar um banho e se aquecer antes que acabe doente.
— Está preocupada comigo? — Ela perguntou com um sorrisinho malicioso.
— Na verdade, estou preocupada com minha noite de sono que pode ser atrapalhada por um nariz fungando e espirros. — Retruquei sua provocação a fazendo revirar os olhos.
— Você vai me esperar? — Ela perguntou em seguida.
— Você quer que eu espere?
— Claro, podemos fazer algo hoje à tarde.
Confirmei balançando a cabeça e ela assentiu indo ao vestiário. Um meio sorriso surgiu automaticamente.
Dei a volta me sentando em um dos bancos e apoiando meu queixo sobre minha mão direita cujo cotovelo apoiei em meu joelho. Mal percebi o tempo em que fiquei esperando. Quando vi Emma já estava me chamando para irmos.
— Aonde vamos? — Perguntei a acompanhando.
— Eu não sei. Você conhece a escola melhor do que eu. Aonde podemos ir em uma tarde de quarta-feira, que por incrível que pareça está ensolarada, mas continua fria?
— Podemos conversar perto da banca do café? Preciso muito de um expresso e quem sabe algo para comer. — Falei já ansiosa lembrando do aroma do café que eu tanto gostava.
— Você só pode ter ouvido meu estômago. — Emma brinca e vamos até lá.
Depois de pegarmos nossos pedidos nos sentamos embaixo de uma árvore e não sabíamos ao certo como abordar uma conversa, porém aos poucos o diálogo foi fluindo sem esforço.
— Não sei se faz mal perguntar, mas eu notei que, as vezes, você murmura algo e parece não ser para ninguém especificamente . Por que você faz isso? — Ela perguntou bebendo um pouco do café que pediu.
— É um habito bem estranho que adquiri com os anos. — Disse com receio olhando para o liquido preto em meu copo — Tipo, eu me lembro de frases de autores ou livros que já li e que se encaixam naquilo que estou passando no momento e simplesmente falo baixinho. — Dei de ombros ao finalizar.
— Não é estranho, é uma coisa sua e é bem mais normal do que muitas coisas que as pessoas fazem. — Ela disse arrumando as pernas que estavam cruzadas sobre a grama assim como as minhas.
— O que, por exemplo? — Perguntei arqueando as sobrancelhas, curiosa.
— Melhor nem saber, acredite em mim quando digo que a ignorância é uma bênção. — Emma falou em tom de suspense, mas logo sorriu me contagiando a fazer o mesmo.
— Vou tentar me poupar disso, então. — Articulei de forma cumplice ao seu suspense e logo em seguida dei um gole em meu café.
— Boa menina. — A loira sacudiu a cabeça em aprovação e sorriu novamente — E então... — Ela falou mudando de assunto — Você consegue se lembrar de alguma agora?
— Para falar a verdade, sobre o momento não me vem nada, mas você me faz lembrar um poema da Clarice Lispector.
— E qual seria? Quais são os pensamentos obscuros que tem a meu respeito? — Ela brincou.
— Não é nada disso. Na verdade, não sei porque você me lembra ele se mal a conheço. — Disse tentando não enfatizar importância naquilo.
— Ah, vai. Me conta?
— E o que eu ganharia com isso além de vergonha gratuita?
— O que você quer ganhar? — A loira perguntou já sabendo que não seria tão fácil.
Pensei por um momento antes de dizer:
— Já sei! Você gosta de música, então quero que em troca você fale algum trecho de música que você acredite que me descreva.
— Posso pensar em algo. — Emma retrucou meneando a cabeça.
— Olha lá o que vai falar em?! — Falei em tom de aviso apontando-lhe o dedo indicador.
— Anda logo!!
— Ok, é assim: — Falei respirando fundo — "Ela é assim! Pronto. Mas assim como? Explica! Ela é assim um mix de tudo que se possa imaginar dentro de uma grande capacidade de apenas não ser nada em definitivo. Ela é aquilo que não consegue se encaixar em moldes pré-existentes, parece que ninguém nunca foi antes dela. Ela se incomoda com isso, às vezes, muito. Ela é cheia de sentimentos, parece que suas experiências se manifestam é no dorso do seu colo, e quase sempre, de vez em quando, tudo isso pesa. Mas não tem modo, não existe maneira que a faça ser diferente. E ainda, graças a Deus, ela é diferente. Algo que pesa e que tem o dom da leveza, algo que chora e que se manifesta em sorrisos, algo de forte, mas que se desmancha quando encontra a água."
Emma ficou estática me olhando como se de repente ficasse muda, sem expressar coisa alguma.
— Vai ficar parada me olhando?
— Ah... — Ela resmungou balançando a cabeça para voltar ao foco — me desculpe é que... deixa para lá. Bom, o trecho que pensei é da Lily Allen. Por favor, não me entenda mal, não penso em um sentido ruim, mas de certa forma te vejo nessa música — Ela falou com uma expressão atípica de receio o que me deixou ansiosa — " Você diz que você perambula em sua própria terra, mas quando eu penso nisso eu não vejo como você consegue. Você está sofrendo, você está se machucando e eu posso ver a dor em seus olhos."
Quem havia ficado muda a partir daquele momento era eu. Meu coração simplesmente disparou e senti minha boca secar sem conseguir focar em nenhuma das coisas que vinham em minha mente, sem conseguir articular uma frase coerente.
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