Notas iniciais
Demorei um pouquinho, mas estou aqui!!! Muito obrigada por todo o apoio, vocês são os melhores!! Boa leitura.

No dia seguinte estiquei a mão para alcançar meu celular que tocava como de costume, ás seis e quarenta da manhã, desde que eu me lembre. Até nos fins de semana pois odiava acordar tarde. Assim que o trouxe a meu campo de visão, desliguei e me sentei levando os braços acima de minha cabeça e me espreguiçando.

Pouca luz entrava no quarto pelas janelas através das cortinas, mas pude notar que a cama do lado oposto estava feita e não havia mais ninguém no quarto.

Na última noite, quando voltei para cá, somente me troquei e fui para cama, então não sei se a novata levanta muito cedo ou simplesmente não dormiu no quarto. De qualquer forma, ela estaria encrencada se a pegassem fora do dormitório depois do horário permitido. Porém isso não diz respeito a mim e fazia me sentir mais lenitiva em não ter de fazer um “passeio” com ela.

Como não teria de cumprir o trato me levantei a fim de cumprir minha rotina diária, ou seja, meia hora de corrida antes de tomar banho e tomar café. Pelo menos, esse era meu plano até pegar meus tênis e a porta se abrir com cautela. Suspirei contrariada ao ver Emma entrar, novamente de cabelo preso, vestida com o uniforme e olhando para si mesma de uma forma nada agradável.

— Bom dia... – Emma falou ao me ver e foi ao seu armário guardar algo que segurava.

— Parece que não está exatamente bom para você. – Disse colocando minhas coisas de volta e pegando o uniforme.

— É essa coisa de ter de usar uniforme. – Ela bufou mexendo na saia.

— Você se acostuma. Ou a senhorita rebeldia vai dar um jeito de deixá-los a seu gosto? – Perguntei, me virando para olha-la já segurando as coisas que precisaria para me arrumar.

— Você fala como se eu fosse uma daquelas meninas mimadas e revoltadas com os pais porque as obrigaram a estudar em um colégio horrível, e que qualquer ato que desafie um pouco as regras elas põem em pratica.

— Não acha que anda vendo muitos filmes ou lendo muitos clichês? – Perguntei unindo as sobrancelhas.

— E não é assim que me vê? – Ela perguntou de volta sentando na cama e cruzando os braços.

Olhei a por alguns segundos pensando em como era engraçada a forma com que ela se expressava e sempre questionava.

— Uma vez, uma garota inquietante me disse que não podemos julgar uma pessoa se mal a conhecemos e que as pessoas são muito mais do que parecem.

Emma me olhou com estranheza ao mesmo tempo que em seus lábios foram tomados por um sorriso tímido, ela sabia que me referia ao que ela disse na última noite.

— E eu conheço essa garota? — Seus olhos pareciam ser sempre cheios de vida assim como ela. Contorci a boca e me repreendi por quase ver algo de Liz nela.

— É provável. – Disse sem parecer afetada e me apressei em sair.

Estava com raiva de mim, raiva de não conseguir agir como queria perto de Swan, raiva de tudo que vinha acontecendo em menos de 24 horas. Na verdade, estava com raiva de tudo e de todos desde aquela maldita festa que fui quando tinha quatorze anos. Já fazem quase três anos mais não consigo me livrar desse sentimento.

Estava debaixo do chuveiro, mais uma vez, com isso me atormentando. Minha cabeça parecia que iria explodir, então simplesmente dei um soco, com o lado de minha mão direta fechada em punho, na parede do lado do box e comecei a chorar.

“Eu tinha um coração tão ingênuo, tão bonito. Mas agora tá tudo tão vazio, não tenho mais vontade de pedir, ou dar carinho. Não tenho vontade nem de conhecer alguém. ”

— Tati Bernardi

Após alguns minutos me peguei sentada, abraçando meus joelhos, com a água caindo sobre mim e levando as lágrimas. Era ridículo o que estava fazendo, me descontrolava daquela forma de vez em quando e aquilo se tornará mais frequente depois que Eliza se foi. Sentia-me uma idiota, duvido que alguém ainda se importaria depois de tanto tempo.

Havia um motivo pelo qual não me abria as pessoas, pelo qual preferia a companhia de pessoas fictícias, pelo qual preferia que Emma não fizesse tão difícil a tarefa de evitá-la.

Ninguém daria a mínima, pois eu também não iria. Levantei-me enxaguando o rosto. Iria fazer essa coisa tediosa que prometi e só, nada além disso. Podia ser quem sempre fui com os outros. Eu conseguiria, só não podia me machuca novamente.

Voltei ao quarto já vestida, guardei minhas coisas e a loira começou a tagarelar alguma coisa, enquanto eu pegava alguns livros para a aula, mas mal prestei atenção. Ela notou e acabou parando e pegando os seus materiais e colocando em uma mochila.

Andamos por todo o campus praticamente em silêncio, menos quando Emma tentava iniciar uma conversa e eu logo a cortava ou quando eu explicava sobre os locais por onde passávamos.

Quando passamos pela área de hipismo não pude deixar de entrar nos estábulos para dar uma olhada em meu cavalo, que ganhei dos meus pais quando tinha doze anos depois de me apaixonar pelo esporte e por cavalos.

— Eles são lindos! – Emma falou deslumbrada ao entrarmos e ir até algumas das divisórias e fazer-lhes carinho.

— Não mais que meu Rocinante. – Disse andando a sua frente e indo até a divisória que me importava.

— Rocinante? – A loira perguntou vindo até mim.

— Sim, meu cavalo. — Respondi colocando os livros em um dos bancos próximos.

Antes mesmo que eu pegasse uma das cenouras, que ficavam dispostas em cestos presos na parede, Rocinante colocou a cara para fora de sua bainha e relinchou.

— Parece que alguém me reconheceu. – Disse para ninguém especificamente e afaguei sua cabeça esticando a outra mão até a cesta de cenouras.

— Ele é realmente muito bonito. Posso? – Ela perguntou hesitante fazendo menção de toca-lo.

Meu corpo se retesou por um momento. Eu sou uma pessoa muito possessiva e aquele cavalo era uma das coisas que mais tinha ciúmes. Ninguém, além de mim e do professor, o tacava.

Rocinante relinchou, enquanto mastigava o vegetal, me assustando e voltei meu olhar para ele afirmando com a cabeça. Por mais que isso não fosse um hábito, sabia que ela não o machucaria, ela me passava segurança.

— Então, porque esse nome?

Entramos na bainha Emma alisava seu pelo enquanto lhe dava mais comida. Eu estava do outro lado passando a mão devagar e observando aquele animal que eu amava tanto.

— Quando ganhei ele era super desengonçado – Comecei a fala me lembrando de quatro anos atrás – e isso me fez lembrar do cavalo de Dom Quixote.

— Você é criativa. Eu nunca fui muito boa com nomes, uma vez tive um porquinho da Índia e o chamei de Indiana Jones. – Pude ouvir sua risada do outro lado e também tive vontade, mas continuei prestando atenção no que dizia. – era meio estranho porque sempre que dizia seu nome o imaginava pulando de um penhasco segurando em um cipó. – Fechei os olhos apertado fazendo uma careta e segurando a risada.

Encostei a testa naquele pelo marrom e macio e respirei fundo. Por sorte meu relógio de pulso começou a apitar.

—Temos de ir. – Falei ao recuperar meu tom neutro e sair da bainha depois de dar um beijo em Rocinante e recolhi meus livros. – O tour acabou.

Emma não falou nada, parecia receosa ao meu lado a manhã toda, tirando esse momento no estabulo e para mim seria melhor se fosse daquela forma. Ela então pegou sua mochila depois de fechar e portinhola e me seguiu.

Quanto estávamos quase no refeitório ela voltou a falar.

— Você não gosta muito de pessoas, não é?

Era bem fácil de se pressupor isso levando em conta que por onde passávamos quase todos se cumprimentavam e conversavam ou simplesmente se agarravam apoiados em alguma árvore.

— Na verdade, gosto de pensar como Sean Wilhelm: "As pessoas falam sobre vida social como se fosse algum mérito ter milhares de amigos, mas nem percebem que a maioria das pessoas se isolam exatamente pra curar as feridas causadas pela sua socialidade exagerada." – Falei andando ao seu lado.

— Então, você não tem amigos por medo de se machucar? – Ela perguntou parando abruptamente, me fazendo para poucos passos a frente e sentir meu sangue gelar.

— Não... não foi isso que quis dizer. – Respondi me virando e me praguejei por gaguejar.

Novamente seus olhos me observavam como se quisessem me ver por dentro e aquilo me fazia sentir desconfortável.

— Espero que agora consiga se virar, se me dá licença preciso comprar meu café. – Falei ajeitando a postura, dando as costas e me apressando antes mesmo que ela pudesse dizer algo.

Notas finais
O que acharam? Críticas, dicas, dúvidas? Um beijo e até o próximo!!