Notas iniciais
Oiii! Desculpem pelo atraso, mas faz uma semana que voltaram às aulas e não tenho mais tempo para respirar. Alguém me salva porque dez horas na escola e mais trabalhos e provas não são fáceis. Enfim, espero que gostem do capítulo e muito obrigada pelo incentivo!

"Um dia você acorda e vê que as coisas não funcionam como pensa. Percebe que aquele sonho que pareceu tão real nem transcendeu aos seus limites… aos seus sorrisos. Ficou na memória mas você pede e implora “por obséquio, volta aqui em minha mente, penetra no meu cérebro e me deixa sentir isso novamente”. Somos tristes ao fenecimento. E neste mero aposento, pudera apenas observar: traços, fatos, rastros de um breve resquício de passado. Onde nossa mente, em pensamentos fugazes inflama e nossos próprios delírios nos aconselham a ter cuidado. Carregamos um fardo de incertezas e certezas, não tardamos, na maioria das vezes falhamos, mas até esse silêncio atordoa, ecoa, causando alarde. A mente diz: pare! Antes que o coração dis(pare). Guardamos esses devaneios, pois essa breve loucura é o remédio para que a inspiração não enfarte."

—Tombo na realidade, Ecoares de mãos atadas com Completas

Apesar da escola distribuir variedades de alimentos em todas as refeições, havia vários quiosques pelo campus e o de café era um dos meus favoritos. Fui até lá, comprei meu expresso duplo com creme e me dirigi para o refeitório. Peguei uma bandeja, coloquei algumas frutas e torradas e me sentei em uma das mesas menores, perto das janelas grandes que davam visão para o lado de fora do lugar.

Normalmente, enquanto comia, Elizabeth e eu conversávamos sobre tantas coisas aleatórias que, por exemplo, começávamos falando sobre comida e quando percebíamos estávamos rindo de uma piada interna sobre o professor de cidadania. Depois do mês passado, vim ocupando todo tempo em que ficávamos juntas com leitura e estudos. Entretanto, naquela manhã eu não tinha a menor vontade de ler. Algo deixará minha mente inquieta.

O dia, por algum milagre, estava claro a ponto de ver o sol que normalmente era escondido pelas nuvens. Fiquei observando, enquanto comia, os alunos conversando animadamente, andando, sentados nos bancos, nos gramados, rindo ou irritados. O mesmo acontecia dentro do refeitório, mesas lotadas, brincadeiras, brigas ou qualquer que fosse. Essas coisas que eu os observava fazer me fez, pela primeira vez, sentir incomodo ao permanecer sozinha.

"Olho através de uma janela para a luz de um dia terrível, que embrulha meu estômago. Ninguém mais se sente assim? Estarei completamente louco?"

— Pedaços de um caderno manchado de vinho

O que mais ocasionou o rombo imediato em meu peito, naquele momento, foi perceber que eu já fui idêntica a eles, cheia de vida e amigos, e que agora eu me assemelhava a um robô. Praticamente não transparecia as emoções, não me abria para elas e aquilo se tornou um habito que, até então, não notará o quando me fazia mal.

Porém, olhando por outro lado, aquela forma de agir foi o que me protegeu por tanto tempo. Apesar de Liz sempre ter dito que sobreviver não é viver e que eu não podia me comportar daquela forma para sempre, nunca dei ouvidos. Em minha cabeça sempre ecoou um mantra para me lembrar do porquê de me afastar de todos os meus amigos, que primeiro estranharam, mas que aos poucos foram se afastando.

"Não quero passar por aquilo novamente."

Inevitavelmente, meus pensamentos foram direcionados á Emma. O que, afinal, ela tem no que diz para que me faça ter um momento de epifania? É totalmente insana a forma como cada coisa que ela fala ou cada coisa que faz fosse como um abalo sísmico no pequeno mundo onde vivo. É como se eu morasse em um planeta semelhante ao do pequeno príncipe e ela fosse a flor que chegará para me atormentar, mas não quero de jeito algum que ela se torne tão importante para mim quanto a flor se torna para o príncipe. Emma está aqui a quanto tempo? Um dia? Se é que faz esse tempo todo.

Balancei a cabeça espantando toda aquela discussão interna e voltando a focar o olhar em volta. Respirei fundo e olhei para a comida na bandeja que mal tinha sido tocada, mas só de vê-la me sentia mal. Empurrei a cadeira para trás, peguei meus livros e sai deixando o resto ali.

Assim que sai pela porta, sem saber ao certo para onde ir, o sinal tocou. Sentia que minha cabeça girava confusa e parecia desnorteada, entretanto logo me vi indo para a aula de história após passar em meu armário. Como cheguei ao prédio de aula, eu não fazia ideia. O dia passou como um borrão, como se eu estivesse no modo automático. As pessoas a minha volta não notaram a mudança de comportamento, não esbarrei com minha irmã e como sempre não conversei com ninguém.

Uma lufada de ar finalmente preencheu meus pulmões e voltei a mim quando fechei a porta do armário, ás três e quinze, me dando conta do fim as aulas obrigatórias do dia e de que estava na hora da aula de hipismo. Poucos minutos depois eu já estava no vestiário, da ala de esportes, me vestindo. Ao entrar nos estábulos o professor ainda não havia chegado, porém já era de costume eu já estava montada enquanto ele e os outros alunos chagavam. Então coloquei a sela e a rédea em Rocinante e o levei até o picadeiro, ou seja, a área cercada onde treinávamos. Montei com facilidade, depois de tantos tombos quando mais nova, e comecei a correr pelos obstáculos. Aquele sempre foi o meu momento preferido, os saltos, as curvas e o vento em meu rosto, me sentia no controle de pelo menos algo em minha vida.

Quando fiz oito anos tive que escolher, pelo menos, um clube para fazer parte. Passei por artes, mas meu dom está em aprecia-las, não em faze-las. Tentei música e teatro, também fui um desastre nos dois. Esportes? bom, quase me afoguei em natação, esgrima foi uma experiência de quase morte, odiava futebol, handebol ou qualquer coisa que envolvesse uma bola que parecia ter um carinho muito grande pelo meu rosto. Culinária só se quisessem que eu pusesse fogo na escola, a aula acabava e havia mais comida em mim do que nos pratos. Tecnologia e design até foram bastante legais. Entretanto, como só permitem que escolhamos três aulas a mais, para que não inventássemos desculpas de falta de tempo, optei por hipismo (que foi paixão a primeira cavalgada), literatura estrangeira (que, mesmo já tendo na grade curricular, era um curso com mais profundidade no assunto) e aulas de português.

O esporte em questão me chamou a atenção porque, não saciada pela adrenalina que correu por minha veias na primeira aula, fui pesquisar tudo o que podia e aquilo não se trata apenas de pular e desvia de obstáculos, se trata de disciplina, prontidão e elegância, exigindo perfeita sintonia do conjunto. E desde o primeiro momento me senti ligada a meu cavalo como não sou a mais nada, crescemos e evoluímos juntos, em conjunto.

Depois de alguns minutos desacelero ao ver os outros alunos entrando e cavalgo até a porta da cerca onde vejo o professor apoiado, olhando para o cronômetro que sempre ficava pendurado em seu pescoço.

— Ótimo tempo, mocinha. — Ele disse ao levantar os olhos e sorrir para mim.

— Então, agora eu sou mocinha? — Perguntei o provocando e inclinando a cabeça para o lado.

O senhor Knight, ou Merlin, (como o chamava por parecer o próprio mago com todos os seus conselhos "que ainda me fariam crescer muito" ele dizia) é o único professor que posso considerar como um amigo. Ele é moreno, alto, engraçado e muito inteligente. Acredito que seja uma das poucas pessoas em quem ainda confio e que me fazem sentir como a velha Regina.

— Já que ficou tão incomodada, volte para os exercícios, ainda falta uma hora. Não quero ver ninguém ultrapassando seu tempo. — Ele falou em seguida e tirou sua prancheta debaixo do braço.

Após uma hora, de mente limpa e fresca, levo Rocinante de volta para o estábulo e o professor me ajuda a tirar as coisa dele enquanto conversamos.

— Eu não tenho culpa, você sabe que sou alérgica a qualquer coisa que envolva números. — Falei quase sorrindo depois dele ter feito piada da minha nota baixa em física.

— Quem sabe agora você não consiga melhorar? Sua amiga pode te ajudar. — Merlin retrucou colocando a sela junto das outras em frente a bainha enquanto me sentava.

— Amiga? — Perguntei retirando meu capacete e colocando no banco ao meu lado.

— Sim, hoje cedo vi você entrando aqui com uma garota.

— Não somos amigas. Fui injustamente escolhida para dividir o quarto com ela. — Rebati fechando a cara ao me lembrar da pessoa citada.

— Vocês pareciam se dar bem. Não é de vir com ninguém aqui. — O professou falou se sentando ao meu lado em um banco dali.

— Eu vim porque estava com saudades dele — Aponto para Rocinante que comia apressadamente a ração que lhe dei — e por circunstâncias desagradáveis ela estava comigo.

— Por que tão teimosa e cabeça dura? Qual o problema de se tornar amiga dela? — Merlin cruza os braços.

— Não gosto de tocar nesse assunto, você sabe. — Disse e senti minha expressão murchar junto da adrenalina de poucos segundos.

O homem suspirou e olhou para o chão por um momento antes de voltar a me encarar.

— Uma vez, você citou uma frase para mim quando tinha doze anos e descobriu que eu tinha perdido minha namorada. Não sei se lembra, mas acho que serviria bem para você agora: “Amadurecer talvez seja descobrir que sofrer algumas perdas é inevitável, mas que não precisamos nos agarrar à dor para justificar nossa existência."

— Eu me lembro. — Sussurrei abaixando a cabeça — É da Martha Medeiros, mas não acho que...

— Olha, não fala nada agora. Só pensa sobre isso, ok? — Ele me interrompeu e assenti pensativa.

Notas finais
O que acharam? Críticas ou elogios deixem nos comentários e irei responder todos. Beijos e até o próximo!