Teach Me How To Love You
26 Capítulo 26
Notas iniciais
"Você chegou de mansinho, como quem não queria nada. No momento em que tudo estava desmoronando, e com toda paciência foi cuidando de cada ferida, cada dor que eu sentia. Você se tornou aquela pessoa que eu iria atrás, aquela pessoa que eu passaria por cima de todos, que daria, colo, cuidado, carinho, atenção e amor… Se eu pudesse te provar tudo o que eu tenho vontade de te proporcionar, não caberia em mim."
—Vulnerabilizado.
Outro dia amanheci com o som do meu despertador, estava ainda muito sonolenta quando estiquei o meu braço para alcança-lo no criado-mudo e percebi, depois de tatear um espaço vazio, que ali não tinha nada. Abri os olhos me lembrando de que estava na cama da Emma e, como consequência, o móvel ficava do lado oposto ao meu.
— Regina, seu despertador... desliga... — Emma resmungou manhosamente e quase inaudívelmente me cutucando assim que me sentei na cama e a vi puxando o travesseiro para cobrir a cabeça.
Debrucei-me sobre ela para alcançar o aparelho insistente ao passo em que esfregava os olhos com a mão livre, afim de espantar a moleza. Quando o som cessou, tirei o travesseiro de cima dela dizendo: — Prontinho, dorminhoca.
Ela nem se moveu, estava de bruços com o emaranhado de sempre cobrindo seu rosto o que me fez sorrir rapidamente, pois aquela era a minha visão favorita de todas as manhãs. Em seguida, espreguicei-me esticando os braços acima de minha cabeça quando olhei para baixo ao sentir algo quente me envolver e constatar que eram os braços da loira.
— Não vai correr hoje, não. Fica aqui! — Emma pediu no mesmo tom de antes, se aconchegando em meu colo e apertando os braços em meu quadril.
— O que exatamente eu ganho com isso? — Perguntei levando minha mão direita até seu rosto para tirar os fios que o cobria.
— Pelo menos, mais uma horinha abraçada comigo. — Respondeu permanecendo com os olhos fechados e suspirando quando passei a acariciar sua bochecha agora exposta, me fazendo sorrir de lado e voltar a me deitar.
— Acho que estou te mimando demais, nunca vi tanta manha. — Sussurrei logo que me ajeitei de barriga para cima com minha destra deslizando por suas costas e o braço dela me envolvendo pela cintura enquanto seu rosto se escondia na curva do meu pescoço.
Um riso breve e abafado veio dela antes de depositar um leve beijo em meu pescoço e sussurra de volta: — Eu não posso negar que adoro ser mimada por você.
Estaria mentindo se dissesse que não havia cedido a todos os caprichos de Emma desde o acidente, não que esse dengo todo fosse um sacrilégio ou que ela pedisse coisas que estivessem fora do meu alcance. Na verdade, eu me sentia bem ao atender um pedido ou outro de carinho que vinham sendo constantemente requisitados nessas duas semanas.
Após minha declaração, nosso beijo foi interrompido por batidas na porta de Ruby, Lily e Zelena. As três estavam ansiosas para saber sobre o estado da loira e praticamente passaram o resto do dia em nosso quarto querendo saber do ocorrido e tentando anima-la, não pude me sentir mal por terem atrapalhado nosso momento porque era nítido o quão bem aquelas três faziam à ela e o quanto o sorriso e os olhares, que ela lançava em minha direção, comprovavam isso. Naquele dia, depois de algum esforço, acabamos juntando minha cama com a da Emma e, depois de muitas brincadeiras bobas e gargalhadas, nos aconchegamos cada uma em um canto das camas para prestar atenção no filme que coloquei no computador enquanto nos empanturrávamos com os doces que tinha comprado mais cedo. Fazia tanto tempo que eu não tinha uma tarde daquelas que eu só soube suspirar e sorrir ao parar pra pensar naquilo, quando a loira entrelaçou nossas mãos, enquanto víamos o filme, e se deitou em meu ombro.
Duas semanas se passaram, depois de dois dias ela já pode para com o antibióticos e ir às aulas usando a bota para não forçar o tornozelo, posteriormente ela foi com a avó até um oftalmologista pegar uma receita para óculos novos e ontem já pode ir na enfermaria tirar os pontos abaixo da sobrancelha além de já poder começar a andar sem a proteção na perna desde que continuasse com a fisioterapia que ela fazia na escola mesmo. Acabei por encontrar com a senhora Swan mais uma vez e pelo menos ela não me tratou como antes, podia não gostar de mim, mas ao menos deixava isso menos exposto.
Os outros alunos também estavam bem, nada mais grave que o estado da minha namorada, porém, por conta do time ter ficado desfalcado, nossa escola teve de se retirar da competição e reconheço que aquilo me deixava aliviada, mesmo que entristecesse um pouco a loira que se esforçou e pudesse soar egoísta de minha parte, mas o que eu menos queria naquele momento era ter de me preocupar daquela forma novamente. Emma, por mais que ainda sentisse algumas dores na torção, parecia uma criança, não parava e não queria ficar quieta, por isso a atenção sobre ela e a necessidade de mima-la me acometiam.
Assim que o celular da loira começou a tocar, ela resmungou se contorcendo e deslizando para fora do meu abraço. Eu não havia nem cochilado, pois depois de acordar era quase impossível me fazer voltar a dormir, diferentemente dela que parecia conseguir dormir até em pé se quisesse. Nos levantamos e descemos para tomar banho e nos arrumar, Emma não fez nada além de me dar um selinho nesse meio tempo, porém eu já estava acostumada, até que seu cérebro finalmente despertasse, o que ocorria após o banho, ela meio que vivia em modo zumbi de sonolência.
No entanto, lá estava ela de banho tomado, óculos no rosto, uniforme no lugar e um prato de rosquinhas acompanhado de um pote de iogurte enquanto continuava mais quieta que o normal durante o café, ao passo em que todos riam, inclusive eu, do relato da desventura de Killian ao tentar mais uma vez conseguir a atenção de Ariel, nossa coordenadora que inúmeras vezes obviamente dispensou o adolescente persistente da mesa. Assumo que o comportamento atípico dela tinha me passado despercebido até receber um cutucão leve da minha irmã o que me fez a olhar sem entender antes de a mesma menear a cabeça em direção a loira que se encontrava do meu outro lado focada na comida a sua frente.
— Emma, está tudo bem? — Perguntei me aproximando e ela levantou o rosto para me encarar.
— Está, sim. — Afirmou. — Só com um pouco de dor de cabeça. — Ela deu de ombros.
— Quer que eu vá com você na enfermaria pegar um analgésico?
— Não, tudo bem, daqui a pouco passa. — Respondeu com um sorriso rápido e voltou a olhar para a colher que usava fazer círculos no pote de iogurte a sua frente.
— Ok... — Suspirei preocupada com aquela desanimação atípica. — Bom, eu já te disse que você está linda hoje? – Questionei, levando minha mão a sua perna, na tentativa de vivificar sua expressões.
— Não que eu me lembre... — Emma respondeu levantando apenas o olhar com um sorriso divertido sendo contido em seus lábios.
— Oh, me deixe concertar esse terrível erro. — Brinquei, levando minha mão até seu queixo para levantar seu rosto. — Emma Swan, você muito linda hoje. — Completei com um beijo em sua bochecha.
— Obrigada, mas eu tenho uma namorada meio ciumenta e acho que ela não gostaria de ouvir você me elogiando desse jeito. — A loira dramatizou séria pegando minha mão e a colocando em meu colo.
— Eu deveria imaginar, como uma pessoa com um rostinho lindo desses estaria solteira? — Rolei os olhos entrando na dela. — Ela é uma pessoa muito sortuda. — Sorri mordendo o lábio inferior para me conter e lhe direcionei uma piscadela.
— Pode ter certeza de que não tanto quanto eu. — Ela disse logo em seguida, cedendo ao sorriso que segurava.
— Ei, vocês duas, ainda estamos no refeitório e está muito cedo para eu ter que ficar vendo um casal meloso se beijando. — Killian disse do outro lado da mesa roubando nossa atenção e nos fazendo olha-lo de imediato.
— Vai te catar Killian. — Deprecie-o lhe mostrando a língua.
— Não temos culpa se sua crush é muito areia para esse seu caminhãozinho. — Emma disparou fazendo um aglomerado de chacotas e risadas serem direcionadas ao moreno.
Logo as coisas pareciam ter melhorado, Emma continuava meio quieta, mas parecia mais leve que antes. As aulas correram normalmente, eu já não me preocupava tanto mais, minhas notas estavam boas, as competições já estavam quase ganhas e meu foco agora era uma prova em especial, que eu faria em algumas semanas, a qual eu vinha me preparando a bastante tempo. De um período para cá, passava algumas tardes depois das aulas em uma das salas de estudo em grupo na biblioteca com a minha irmã para que me ajudasse com algumas matérias nas quais eu ainda tinha certa dificuldade e como ela já havia feito tornava todo o processo mais fácil. Tudo bem que eu poderia pedir aulas com outras pessoas já que Zelena não é a mais indicada quando se precisa de uma concentração por um período de tempo longo, mas a ajuda dela talvez fosse um pretexto para que eu passasse um tempo extra ao seu lado já que a minha ficha, de que em menos de dois meses ela se formaria e não estaria mais ali, estava caindo.
Eu estava em mais um daqueles meus momentos melancólicos internos olhando para ela, que marcava algo na apostila dela enquanto esperava que eu terminasse os exercícios sobre o assunto que tinha acabado de me explicar, quando comecei a apreciar cada um do traços daquela ruiva linda que ela havia se tornado, me lembrando de quando eramos pequenas e ela reclamava da pele ser muito pálida ou dos cabelos serem cacheados demais apesar de sempre ter achado ela muito mais bonita do que eu, por sempre chamar atenção com o carisma e aqueles grandes olhos azuis que dão inveja a qualquer um. Admito que sua sensatez e senso de responsabilidade não são dos melhores, mas nenhum desses quesitos fazia o amor imenso que sinto por ela diminuir. Zelena é como uma parte essencial minha, como se aquela voz na nossa consciência, que faz todos não desistirem das coisas e sempre serem otimistas, tivesse se materializado em um ser de puro amor, diversão, carinho e um pouquinho de apreço pelo caos bem ao meu lado. Minutos depois, percebi que meus olhos começaram a marejar e os fechei respirando fundo para me conter chamando a atenção dela.
— Alguma duvida?
— Não, eu acho que entendi. Olha... — Falei lhe entregando a lista de exercícios para ela que pegou e foi conferindo como gabarito.
— A número sei está errada. — Ela me mostrou estendendo a folha e indicando a correta.
— Mas os leucócitos monócitos agranulares se tornam macrófagos, não é? Fiquei em dúvida com os linfócitos. — Juntei as sobrancelhas em uma expressão confusa relendo a alternativa.
— Não, Gina, essa parte está certa, mas olha no começo onde diz que são células anucleadas e o que foi que eu te disse? — Ela perguntou grifando a parte a qual se referia.
— Só as hemácias são células anucleadas... — Bufei espalmando as mão sobre a testa. — Odeio quando erro por coisa boba que eu sei.
— Relaxa, você está ótima. — Zelena replicou com um sorriso.
— Ótima pode não ser o suficiente.
— Ok... — Murmurou pegando a lista na minha frente e arrumando para logo depois fechar sua apostila. — Já disse para parar de se cobrar tanto, acho que por hoje chega.
— Eu sei que está louca para terminarmos e você correr para ver o Graham treinando. — Revirei os olhos pegando minhas coisas espalhadas e colocando no estojo.
— Na verdade, se você não estiver louca para correr até seja lá aonde a Emma está, eu gostaria de passar um tempo com você. Conversar, andar um pouco... — Zelena deu de ombros fazendo o mesmo que eu.
— Por que parece receosa quanto a pedir um tempo comigo? — Perguntei arqueando as sobrancelhas ao estranhar seu comportamento.
— Não estou.
— Está sim, normalmente você só me puxaria para algum canto enquanto tagarela sobre algo e agora parece que está chamando alguém para um encontro. — Retruquei fazendo-a parar o que fazia e me olhar.
— É só que...- Pausou suspirando. — parece que você não anda tendo mais tanto tempo para mim. Não que eu ache isso ruim, é importante que você tenha outras coisas para fazer e tal, mas...
— Não me diga que está com ciúmes do tempo que eu passo com a Emma. — Zombei segurando uma gargalhada.
— Eu com ciúmes? De você? — Zelena desdenhou se levantando e revirando os olhos.
— Ai que linda que você fica com ciúmes. — Alfinetei me levantando, a seguindo e cutucando sua lateral com o indicador fazendo-a se contorcer.
— Acho que estou me arrependendo de querer passar mais tempo com você. — A ruiva bufou e só consegui rir da situação.
— Eu também te amo. — Falei e depositei um beijo em sua bochecha.
Seguimos pelos corredores até a saída da biblioteca, andamos pelo campos até nos sentarmos perto da fonte do pátio principal aonde passamos algum tempo conversando e brincando até que começou a escurecer e decidimos ir tomar banho. Zelena falou que iria ver o namorado depois, então eu iria ligar para Emma, mas o celular dela estava no quarto. Tentei encontrar algum dos nossos amigos, pois ela provavelmente estaria com um deles, porém Ruby me informou que ela falou que ia praticar um pouco de música depois da fisioterapia.
Assim que cheguei à porta da sala, pude ver o cabelo solto de Emma sobre suas costas pela pequena janela, ela estava sentada no banco do piano como inúmeras vezes já havia presenciado. Abri a porta já com a boca aberta para chama-la enquanto entrava, mas fiquei muda de imediato ao ouvir o som que era produzido pela mesma. Ouvi-la tocando não era uma novidade, inclusive amava quando ela ia praticar um dos instrumentos e me chamava para assistir, ficava praticamente babando com a visão maravilhosa daquela pessoa tocando com excelência seja qual partitura ela escolhesse. No entanto, Emma tinha essa pequena chama rebelde dentro de si que sempre a fazia escolher músicas pop ou mais animadas, mas dessa vez não era o caso. Ela dedilhava uma música calma que ao mesmo tempo passava uma intensidade tão grande ao preencher aquele espaço de melodia e algo como.... carinho.
Emma estava tão absorvida e concentrada que não notou minha presença e para que não acabasse parando por minha causa acabei fechando com cuidado a porta atrás de mim, permaneci parada e fechei os suspirando enquanto deixava as notas instigar cada átomo meu. Era incrível como ela podia me fazer sentir relaxada e totalmente encantada somente tocando o piano sem nem ao menos ter a pretensão de fazer aquilo já que não sabia da minha presença ali. Em poucos minutos a música parou e abri os olhos com o objetivo de ir até ela, quando meus passos cautelosos deram lugar à passos apressados quando ouvi um som como soluço vindo dela.
— Amor?! – Disse, colocando a mão em seus ombros, fazendo a mesma dar um pulo e se virar rapidamente ao mesmo tempo em que meu rosto foi tomado por confusão ao notar seu rosto vermelho e meio as lágrimas que passaram a ser secadas ligeiramente pelas mãos da loira que me olhava assustada.
— Re-Regina, eu... — Ela gaguejou ainda secando os vestígios de choro, o que me alarmou, me fazendo sentar e segurar seu rosto.
— O que houve? Alguém fez alguma coisa? — Perguntei de forma séria analisando seu rosto. — Porque olha se alguém tiver...
— Não, calma. — Emma respirou fundo retirando minhas mãos se si e as levando para o seu colo.
— Então foi eu? — Questionei apreensiva de que tivesse feito algo sem me dar conta.
— Não, minha linda. — A loira disse em um tom baixo, fixando seu olhos nos meus e apertando minhas mãos na dela. — Você seria o último motivo para que eu ficasse assim.
— Então, eu não entendo... O que houve?
— Eu só não queria te encher com essas coisas. — Respondeu abaixando os olhos para seu colo e respirando fundo. — Estou bem, só precisava ficar um pouco sozinha e pensar.
Ela estava louca se pensava que aquela resposta me sossegaria, ainda mais depois de encontra-la naquele estado. Doía em mim vê-la chorando e não ter ideia do que fazer, acho que nunca a vi derramar uma lágrima antes. Emma é do tipo radiante e cheia de vida, não é insensível, mas é tão otimista que achava ser impossível testemunha-la triste daquela forma. Não conseguia lidar com aquele sentimento de impotência e incapacidade que me afligiram ali. Logo, precisava de uma solução para aquele sentimento que fervilhava no fundo do meu estômago.
— Emma, eu te amo. Você sabe, não é? — Disse calmamente, passando os polegares sobre suas mãos que continuavam junto das minha e ela me olhou.
— É claro que eu sei, eu também te amo e muito.
— Pois, parece que não. — Falei logo em seguida, e acho que soei um pouco autoritária demais, pois ela arregalou os olhos levemente, então tentei ameniza a forma com que falava. — Pessoas que amam umas as outras confiam nelas para qualquer coisa. Eu sei que você tem essa sua mania de querer me proteger de tudo, de não querer me sobrecarregar com assuntos "desnecessários" e o que eu quero que você entenda é que, por te amar como amo, nada quem venha de você é desnecessário. -Dizia olhando firmemente em seus olhos que começaram a marejar novamente, levei meu polegar direito a sua bochecha, depois de tirar seus óculos e colocar em meu colo, para secar uma lágrima que desceu e acariciei sua bochecha continuando. — Não é somente você que tem o papel de proteger, só quero ser o melhor que você merece e para tal também tenho que fazer o melhor que posso. Mas para fazer isso, meu amor, tem que se abrir comigo. Eu, mais que ninguém, sei como dói algo que escondemos ou guardamos independentemente do tempo. — O rosto dela começou a ficar vermelho novamente e eu notava como ela comprimia os lábios para impedi-los de tremer. — Não estou dizendo que tem que fazer isso agora, não quero que se sinta pressionada, porque eu tive o meu tempo para me abrir e você também tem que ter o seu. Somente quero que tenha em mente que pode confiar em mim para contar ou desabafar sobre tudo e que o que sinto por você nunca vai diminuir por conta desse fato. — Suspirei profundamente antes de concluir com um beijo em sua bochecha, encarar suas feições me doía, mas eu me forçava a manter forte.
Emma se agarrou em mim escondendo o rosto em meio peito e se entregando ao choro, mesmo que minha necessidade de respostas gritasse, compreendia que ela precisava daquele momento para se acalmar. Portanto, a envolvi em meus braços acarinhando seus cabelos e costas e depositando beijos em sua cabeça enquanto aguardava sem pressa, até que ela se sentisse melhor.
— Podemos ir para o quarto? — A loira murmurou ainda com o rosto escondido depois de uns quinze minutos, quando seu choro havia cessado e sua respiração voltado ao normal.
— Lógico que podemos, quer que eu compre algum doce para você? — Perguntei e ela negou com a cabeça se afastando e enxugando o que restou em seu rosto.
Levantei-me, depois de lhe entregar os óculos, junto dela e segurei sua a mão assim que saímos e ela trancou a sala. Andamos em silêncio e quando chegamos no quarto ela se desfez de seus calçados me puxando para sua cama e se deitando em meu peito. Outra alternativa que não fosse lhe passar calma era inexistente em minha cabeça. Então, fiquei deitada olhando para as nossas estrelas fluorescentes e passando a mãos pela extensão de suas costas enquanto ela desenhava com as pontas dos dedos em minha barriga.
— Meu bem, lembra no seu aniversário quando eu disse que deixei de morar no Brasil quando eu tinha onze anos? — Emma sussurrou, depois de bastante tempo, ainda em sua posição inicial.
— Lembro, sim, por quê?
— Eu tive que me mudar porque há exatamente seis anos meus pais faleceram. Talvez soe como bobagem eu me sentir tão mal nesse dia depois de tanto tempo... mas eles eram tudo para mim e sempre senti como se tivesse certa culpa por eles terem partido. — Ela confessou e pudi ouvi-la engolir em seco.
— Culpa? — Questionei sem entender, olhando para os movimentos que ela ainda fazia em mim.
— Sim, porque quando eu fiz dez anos eles decidiram me contar sobre minha adoção e eu simplesmente coloquei na cabeça que precisava conhecer meus pais biológicos como se isso fosse fazer alguma diferença. Senti por alguns meses que não pertencia tanto aquela família quanto antes, inseguranças da cabeça de uma criança após descobrir que nem tudo em que ela acreditava até então era verdade. — Ela contou inalando ar com força e eu sabia que se segurava para não chorar novamente. — Eu sabia que eles não estavam tão confortáveis com a minha decisão, mas fizeram tudo o que podiam para encontrar meus outros pais e contata-los. Me lembro de conversar com eles por e-mail depois que os encontramos e marcamos de nos encontrar no fim de junho quando eu estaria de férias na escola. Então, quando chegou perto do dia em que embarcaríamos para casa da minha avó que ficava á uma hora de Chicago, que é onde eles moravam, meu pai disse que teríamos de adiar a viagem em uma semana porque teria uma reunião importante com alguns sócios do café e aquela altura eu simplesmente havia passado de uma criança que não desgrudava dos dois por nada nesse vida, para uma que mal os olhava e ganhava tudo através de chantagem emocional ou birra. Hoje, nem eu entendo o que se passava na minha cabeça, mas no final acabei os convencendo depois de muito choro a me mandarem antes deles, na minha mente aquilo tinha muito sentido mesmo que não adiantasse de nada porque eu iria ficar na casa da minha avó de qualquer forma até que eles pudessem ir para lá... — Emma fez uma pausa e respirou fundo antes de levantara a cabeça e se deitar no travesseiro para que eu pudesse vê-la. — Ai, eu viajei sem nem me despedir direito, os dias em que os esperei não atendia suas ligações ou respondia mensagens, só tinham informações de que eu estava viva pela minha avó que já estava perdendo a paciência comigo aquela altura. Foi quando... — Seu olhos fraquejaram e senti que sua voz embargaria. Levei minhas mãos entrelaçando as dela para que continuasse. — Pelo dia em que eles embarcariam, acabariam chegando em uma manhã de sábado. Eu acordei naquela manhã e me arrumei esperando que fossemos aquele dia mesmo para Chicago, mas as horas foram se passando e eram quase duas da tarde quando meus tios ligaram para minha avó contando o que havia acontecido... Na noite em que... — Sua boca se fechou tremula junto de seu olhos que já deixavam escapar algumas lágrimas. Era dilacerante ouvir aquilo e não poder fazer nada além de ouvir. — na noite em que saíram para o aeroporto, estava chovendo e o portão eletrônico da nossa casa costumava sempre a dar problemas, a gente tinha que fechar manualmente e foi o que minha mãe ia fazer. Só que tinha um cabo da cerca elétrica que havia arrebentado e uma das pontas arrastava no chão perto de onde ela andou... pelo o que eu soube ela ficou estática quando a água com carga entrou em contado com ela e soltou uma faísca da ponta do fio fazendo meu pai imediatamente ir tirara ela de lá, mas a corrente acabou passando para ele também e... — A voz dela já estava tão sufocada pelo choro que era difícil entender o que dizia, logo a puxei a abraçando e ela continuou: — não sei exatamente o que houve depois, parece que vizinhos acabaram vendo os dois no chão e chamaram a ambulância. Eles chegaram ao hospital em estado crítico e acabaram não resistindo... Quan-quando me contaram eu fiquei uns dez minutos em pé olhando para um ponto no chão da sala aonde eu estava e, quando a ficha realmente caiu, senti tudo e nada ao mesmo tempo. Me tranquei no quarto e comecei a gritar esperneando no chão, tudo em mim doía, parecia que toda a dor havia se tornado física, mas ao mesmo tempo me sentia extremamente vazia como se não acreditasse... — Interrompeu-se por falta de ar e a apertei mais contra mim. — como se eu fosse acordar de um pesadelo e correr para o quarto deles, pular na cama, abraça-los e repetir milhares de vezes o quanto os amava enquanto me desculpava pela péssima filha que eu estava sendo. Mas eu não acordei, dias se passaram, eu voltei para o velório e para empacotar minha coisas porque minha guarda havia sido entregue para minha avó, que foi para onde me mudei...
Emma se entregou aos soluços compulsivos se encolhendo em mim e eu a abraçava como se quisesse tirar pelo menos um pouco da dor que ela passou. Era impossível, eu sabia, mas talvez se eu a apertasse bem forte aqueles seus pedaços se uniriam novamente assim como ela fez com os meus.
— Eu te amo muito, Emma. Você nunca mais vai precisar se sentir vazia, eu prometo que sempre vou estar aqui. — Murmurei.
Fale com o autor