— Esquece. E espero que não tenha visto o que aconteceu hoje mais cedo. — Eduardo continuou a falar. Por incrível que pareça, demonstrou estar envergonhado pelo que aconteceu. Eu sorri com isso. Deitei minha cabeça cautelosamente em seu colo com medo de machucá-lo e fechei meus olhos tentando respirar tranquilamente mais uma vez.

Meio inquieto e sem jeito, Eduardo colocou as mãos no minha cabeça e brincou com o meu cabelo parecendo bem entretido.

— Posso confessar uma coisa? — Pedi mexendo no fio solto da minha jaqueta.

— Claro. — Murmurou como se fosse óbvio.

— Tenho ódio dessa Margareth do pezão por ter feito duas pessoas se odiarem assim. — Confessei como se fosse algo errado demais para sentir, uma confissão que deveria estar só comigo, e mesmo que por gostar dela ainda Eduardo me afastasse ou brigasse comigo, eu não me importava por ora. Porque era a verdade, poderia soar mesquinho eu sentir tanto ódio de uma pessoa que eu nunca vi na vida, só que não tinha como evitar.

Cerrei os olhos, demonstrando toda minha raiva.

Eu não virei o rosto para vê-lo, tinha medo de ver sua reação. Apenas o senti deixar de lado definitivamente a tensão, isso me fez ter coragem para virar o rosto finalmente. Ele abaixou a cabeça e olhou-me anestesiado.

— Margareth do pezão? — Estranhou, parecendo se divertir.

— É uma forma, hum... carinhosa de apelidá-la. — Garanti, dando de ombros. Pela primeira vez depois da briga e de toda tensão pude vê-lo sorrir verdadeiramente. Isso alegrou-me.

Alegrou-me porque ele não brigou comigo por xingar a garota que talvez ainda gostasse, alegrou-me ainda mais por notar que não havia traços de mentiras no seu sorriso.

— Vai logo pra sala antes que alguém te veja aqui. — sussurrou bem perto do meu ouvido. O surpreendente é que me arrepiou. Levantei atordoada, sentindo-me tonta mais uma vez, acho que devia ser a falta de sais minerais na minha alimentação. E, antes de ir embora, fiquei a sua frente encarando-o suavemente.

— Você vai ficar bem? — Perguntei sem jeito. Ele demorou um bom tempo antes de me responder. Eu sabia que sua resposta seria verdadeira, independente de qual fosse, porque sua feição demonstrava isso. E eu esperava do fundo do coração que a resposta fosse positiva.

— Ficarei. — disse por fim. Sorrimos como confidentes. E eu fui embora, deixando-o levar a sua punição por causa da briga. Provavelmente ligariam pros pais do Bruno, ele não estava livre dessa.

— Onde você estava? — Bianca começou a interrogação quando entrei na sala na segunda aula, o tempo que faltou eu fiquei esperando na quadra.

— Eu só fui ver como o Eduardo estava. — Respondi de forma casual. — E ainda bem que ele está bem. — Sorri verdadeiramente alegre por perceber isso.

— Pelo jeito você está muito... Muito focada nesse plano né. Está atuando muito bem, Antônia! — Comemorou analisando-me. Eu sorri de lado.

Ao ouvi-la, paralisei. Eu ainda não tinha contado para ela que, de repente, Bruno pareceu não ser mais tão interessante quanto antes. Mas, infelizmente, ele precisava de mim. Isso deixou-me contente por saber que eu não era tão imprestável assim. Eu o ajudaria, e o melhor a se fazer, era fingir que meu interesse continuava o mesmo. Que eu não havia me aprofundado na situação, que estava me enfiando onde não fui chamada, somente para ajudá-lo. Erra errado, muito errado. E perigoso, eu ainda sentia algo por ele.

Não contar para Bianca o que tinha acontecido não era falta de confiança, mas a conhecia o suficiente para saber que ela jamais aceitaria, mesmo que não fosse da escolha dela, me ajudar. Poderia estar ao meu lado, até me apoiando como sempre fez, só que aquilo ainda era particular. E eu ainda estava perdida, tinha muitas coisas ainda para descobrir.

Como ela entenderia algo que nem eu mesma entendia? Primeiro, as coisas deveriam estar mais claras. E desejava do fundo do coração que as respostas fossem simples e fáceis.

— Eu não estou atuando. — Retruquei.

—Não? — Estranhou.

— Não. Eu acho que a nossa amizade está sendo... Real.

— A conversa está tão animada ai. Poderiam vir aqui compartilhar o assunto com os colegas, senhorita Bianca e Antônia? — O professor perguntou de modo irônico. Nos ajeitamos na carteira e pedimos desculpas. Ele continuou a aula e dessa vez Bianca não fez mais nenhuma insinuação. Pelo contrário, esqueceu esse assunto.

Quando cheguei em casa liguei a webcam para conversar com o Gabriel. O que eu nunca imaginei é que realmente nos tornaríamos amigos a ponto dele confessar o que sentia em relação a Bianca e eu em relação a situação em que me encontrava. Ele me dizia que não tinha jeito de se aproximar da Bianca de outra forma, que ela já havia notado e estava evitando. Eu conheço a amiga que tenho e sei que ela não fazia isso por mal, apenas estava assustada com o que poderia acontecer caso não evitasse.

Bianca nunca se apaixonou, pelo contrário, sempre tomou cuidado com as relações que teve para que não se aprofundasse. Não que ela não quisesse, só tinha medo de acontecer o que aconteceu com a mãe dela. Era uma história bem longa. Eu tinha contado pra ele que o pai dela batia na mãe dela, porém isso acabou quando o pai da Bianca foi encontrado morto na esquina com uma garrafa de cerveja do lado. Aliás, eu era a única que sabia disso, por isso pedi que ele não comentasse com ela e nem com ninguém. Quando ela se sentisse preparada, diria para ele.

Apenas quando ela se sentisse preparada, e tudo o que ele deveria fazer, é esperá-la, no tempo dela.

— Sério que ele te confundiu com a tal Margareth? — Gabriel indagou curioso.

— Sim. Mas, convenhamos, ele estava totalmente embriagado. É natural que isso acontecesse. — Respondi.

— É muito estranho essa situação toda. Vi uma garota tentando de todo jeito se aproximar do Eduardo na sala de aula, e apesar de ser educado com ela toda vez que ela investia, ele não pareceu aberto como foi pra você. Ligando isso a fato de Bruno ter te chamado... Você sabe, é muito estranho isso tudo. — Confessou. Deitei na cama mais confusa ainda.

— É. Eu sei. Mas não vou me aprofundar nessa história. De qualquer forma essa Margareth do pezão morreu mesmo. Eu não tenho nada a ver com isso, nunca sequer a conheci. O importante é concluir o meu objetivo. — Tentava mudar de assunto, decidida a fingir que meu objetivo continuava o mesmo. Embora eu nem soubesse mais qual objetivo de fato eu seguiria, de qualquer forma, o importante era aproximar-me do Bruno o suficiente para fazer com que ele não se sentisse mais da mesma forma, eu não poderia fazer muito, porém daria o meu máximo.

— Se eu fosse o Eduardo e soubesse disso tudo, jamais te perdoaria. — Gabriel reprovou, lembrando-me mais uma vez da pior parte.

— É. Nem eu me perdoaria. — abaixei a cabeça, com pesar. — Mas... Ele não vai saber. E no final isso valerá a pena, tenha fé, Gabs. Acredite em mim. Só quero consertar o que a tal Maggie fez, eu sei que essa intenção não é muito, eu só quero que as coisas melhorem para nós três. — Confessei, Gabriel sorriu.

— Pode contar comigo se precisar. — Deu uma pausa pequena. — Os amigos são assim né, estão contigo até nas piores loucuras. Estarei alegre por você se conseguir concluir de fato seu objetivo. Mas também estarei ao seu lado caso caia do cavalo. E eu sei que por mais que a Bianca tenha esse gênio dela, também estará. Lembre-se disso. — Sorrimos um para o outro e ele se despediu, desligando a webcam.

No outro dia quando cheguei a escola a novidade era: A bela suspensão que os participantes da briga levaram. Depois dos dois primeiros dias movimentados por causa da briga, o resto da semana se acalmou.

Até que a sexta chegou.

Cheguei em casa muito cansada por conta da semana louca e o telefone tocou, minha mãe percebeu que eu não ia levantar do sofá então foi atender. Quando entrei no meu quarto, ouvi um barulho estranho pra mim caso não tivesse me acontecido uma vez. Eu sabia o que era, e pra confirmar, me virei e sorri ao ver a pedrinha pequena caída no chão perto do tapete. Corri até a janela e fiquei feliz por ter esquecido de fechá-la hoje antes de ir à escola.

— Me seguiu de novo, maníaco?

— Não foi preciso. Sou capaz de gravar o caminho. — Falou enquanto presenteava-me com seu perfeito sorriso torto. Eu ri e gesticulei pra que ele me esperasse, corri até o meu guarda-roupa e troquei o uniforme por uma roupa confortável. Preferi nem pentear meu cabelo, fiz um coque apenas e escovei os dentes por ter me enchido de chocolate no caminho de casa.

Desci as escadas e avisei que ia sair com a Bianca. Provavelmente ia ser um interrogatório daqueles se eu contasse a verdade. Meus pais sempre tem a capacidade de achar qualquer garoto que se aproxima de mim é um abusador de garotas inocentes. O que irritava-me sempre, era legal esse papo de pais protetores, até o momento que eles não abusam desse título.

— Pra onde vamos hoje? — Expressei minha dúvida ao me aproximar dele.

Eduardo apenas sorriu e caminhou ao meu lado em silêncio, sem tirar dúvidas minhas, e quando ele se comportava assim me fazia querer esganá-lo. E ao mesmo tempo, admirá-lo por ter uma fisionimia tão perfeita. Aproveitava o caminho para perceber como seus olhos realçavam graças aos raios solares, e como incompreensivelmente conseguia, mesmo de forma inocente, transpirar sensualidade. Eram coisas míninas, bobas. Porém excitantes e belissímas.

Ao atravessarmos uma ponte chegamos a um lugar tranquilo e verde. Vi de longe um riacho com alguns coqueiros embelezando ainda mais o lugar. Tinha um gramado enorme, e alguns casais faziam piquenique com a família debaixo das árvores. Foi quando eu olhei e vi um lugar sem ninguém, e por Eduardo ter me guiado até ali, percebi que foi reservado pra gente.

— Como conseguiu fazer isso e ir me buscar? — Estranhei. Era praticamente impossível ele ter ido me buscar e antes ter feito aquilo, não só porque as comidas estariam devoradas pelos pequenos animalzinhos ali presentes, como formiga, e além do mais, ele não deixaria aquilo tudo sozinho para ir me buscar.

— Não fui eu quem fez. Confesso que tive a ajuda de um amigo que arrumou isso e cuidou enquanto estávamos vindo. — Sorriu de lado, como se eu descobrir desse detalhe diminuasse o fato dele parecer fantástico, só que não diminuia. Sinceramente, só me deixava mais sem fala ao notar como suas pequenas surpresas me faziam ficar admirada e feliz. Eu sorri ao notar isso.

— Isso não é um encontro não, né? — Perguntei receosa.

— Não, claro que não. Eu sei que sou tão horrível, aliás, não sonharia tão alto assim. — Pareceu brincar, corei, totalmente envergonhada por ele insinuar que o fato de estar comigo seria sonhar alto demais. Sendo que era impossível, em mim não havia nada interessante a ponto de fazer com que alguém ao menos sonhasse. Preferi não dizer nada, era melhor. Embora minhas inseguranças fossem perceptíveis, ainda sonhava que ele não tivesse as descoberto.

— Não. Não se preocupe. — Tentou me tranquilizar. Possivelmente pensando que meu rosto estava vermelho por ainda rotular aquilo como um encontro, quando, no máximo, era apenas uma saída de novos, porém bons amigos. — Apenas estava cansado de ficar em casa no tédio por causa da suspensão, então decidi te trazer. É um dos meus lugares preferidos, me acostumei vir muito aqui enquanto morava com minha mãe antes de ir para Londres morar com o meu pai. — Contou enquanto sentava-se pegando um pouco do suco e colocando no copo.

Sorri mais tranquila e sentei-me ao seu lado. Saboreando finalmente o clima, o aroma do ambiente, o ar puro, e, finalmente, a maravilhosa companhia que subitamente tornou-se tão agradável a ponto de me fazer sentir completamente à vontade. Eu sei que seria bom para mim se isso fosse mais do que a amizade, quero dizer, não que eu quisesse.

Meu rosto avermelhou-se ainda mais com a confusão de pensamentos, e notei Eduardo olhar-me impressionado, possivelmente perguntando-se o que diabos estava acontecendo comigo, e também quando eu explodiria.

Incrivelmente, eu me fazia a mesma pergunta: Por que diabos eu não explodia e sumia daquela situação constrangedora imediatamente? Como isso não era possível, contentei-me em tentar a partir de agora agir de maneira mais normal.

E, obviamente, parar de pensar.

Peguei meu Ipod e coloquei uma música para relaxarmos enquanto comíamos e brincávamos. Ele não parecia mais aquele cara cheio de máscaras do dia em que nos conhecemos. Não parecia ser o mesmo cara enfurecido e cheio de mágoas que olhava para Bruno segundos antes de socá-lo.

Pelo contrário, Eduardo parecia leve, sereno. Como se, de repente, não desse a mínima para o aquecimento global ou o desmatamento. Como se, mesmo que uma bomba explodisse a poucos quilomêtros daqui, isso não tirasse a sua paz.

Isso deixou-me alegre, porque, querendo ou não, eu não parecia ser uma péssima companhia para ele. E surpreendentemente, eu não tinha o que reclamar, o simples fato de vê-lo bem, sorrindo como se nada o abalasse, fosse motivo suficiente para que todos os pesadelos acabassem, para que todas as guerras cessassem.

Era só uma merda de sensação boa, que fazia meu coração derreter a cada vez que ele me fazia rir ou gargalhar, ou até mesmo odiá-lo temporariamente por roubar meu morango ou por me enganar ao fingir colocar uma uva na minha boca e afastá-la assim que eu tentasse comê-la . Só que, tempos depois, lá estávamos nós paracendo duas crianças distantes da realidade cruel e monótona.

Quando notei, tínhamos comido tudo e eu havia deitado minha cabeça no colo De Eduardo enquanto ele estava sentado encostado na árvore.

— Você amava muito a Margareth, não é? Pelo que eu vi... — Sem querer toquei no assunto que o deixava inquieto.

— Como sabe dela? — Pareceu totalmente surpreso.

— Não importa isso agora. O importante é que eu sei. — Dizia firme. Ele se silenciou. Eu fiquei por algum tempo em silêncio também. E, coincidentemente, a música havia parado de tocar, finalizando a última música da minha playlist. — Sabe... Eu queria que um dia alguém me amasse dessa maneira que você a amou. Porque eu percebo pelo modo como você fica inquieto quando falamos dela ou como esse ódio permanece vivo e intacto quando olha pro Bruno, por mais que ele tenha errado com você, não é comum isso. Você não sente ódio só dele, e sim dela também. É um amor que se converteu. E você joga tudo isso nele. — Proferi enquanto brincava com o relógio em seu pulso.

— Um dia você vai encontrar alguém que vai te amar da maneira que você merece. — Ele disse de forma gentil, ignorando minha opinião, isso me fez chegar a conclusão que eu estava certa. Tentava também engolir tudo o que eu havia lhe falado. Provavelmente ninguém chegou tão fundo para perceber isso. E ouvir isso deve ter o ferido um pouco. Mas eu não me importava, porque estava na hora dele superar e perceber que o mundo não acabou, a vida está ai, só esperando que ele viva novamente.

— Eu acho que não. — Susurrei triste. Desencostei minha cabeça do seu colo e apenas fiquei sentada ao seu lado. Eu sabia que estava vacilando agora e que isso não seria nada legal para o que eu tinha bolado há pouco tempo. — Eu sei que é errado, mas... — Ele me interrompeu, levando a minha cabeça com o polegar fazendo-me olhá-lo.

— Mas? — Insistiu.

Notas finais
Ai está, queria ter postado mais um pouco por conta do tempo sobrando (coisa rara) haus infelizmente, tem pessoas que fazem de tudo para te desanimar e te derrubar.... E tiram totalmente o seu bom humor. Impressionante o baixo nível que se submetem :$ Mas, não quero falar de coisas ruins sendo que este cap está repleto de coisas boas, não é? K. Agora vamos torcer para que o Brasil vença no jogo de amanhã, bjss da ana e até o prox