Te amar não estava nos meus planos
19 Um porto seguro.
— Só até o final da tarde finja que eu sou a Margareth do pezão e me trata como se eu fosse ela antes dela te magoar? — Quis corrigir-me por saber que esse tratamento poderia implicar em algo mais íntimo, digamos assim. Enquanto meu objetivo era outro. — E, aliás, não leve ao pé da letra. Quero dizer, apenas pelo modo de agir e tal. — Incrível minha capacidade de me enrolar com as palavras e tagarelar quando estou nervosa. Porém continuei, pois ele não se manifestou. — Sem beijos e esses amassos que provavelmente vocês davam. Acho que você entendeu. — Finalizei timidamente enquanto brincava com os fios do meu cabelo caídos do meu coque. Com o rosto totalmente corado de vergonha. Ele riu ao me escutar.
— Sério? — Perguntou surpreso com certo divertindo na voz. Como se apenas se divertisse com o que eu falava. Deixando-me ainda mais nervosa e vermelha.
— Esquece o que eu te disse. Eu não estou batendo bem. Acho que o seu amigo colocou alguma coisa no suco de goiaba, ou de abacaxi. Não lembro bem do sabor do suco, apesar de ter acabado de tomá-lo. — Fingi rir enquanto levantava-me, limpando minha calça com batidinhas de leve nela. Eduardo balançou a cabeça ainda depreciando minha pergunta. Era claro que meu pedido era pra lá de ridículo, eu só esperava que ele não risse de mim. Se isso acontecesse, sem dúvidas não conseguiria jamais olhá-lo sem sentir-me totalmente envergonhada.
Eu estava morrendo de vergonha ainda.
Eduardo levantou-se e puxou-me para um abraço. De começo fiquei na defensiva, mas depois relaxei e retribui o abraço. Ele passou os dedos pelo meu cabelo e o senti sorrir.
— Meu suco preferido é o de manga. — Disse a primeira coisa que veio na minha cabeça, esperando que ela não fosse igualmente boba como meu comentário anterior, a fim de ser menos inútil e que o fizesse esquecer-se do meu pedido totalmente sem sentido. Como se essa revelação fosse capaz de fazê-lo ter uma amnésia.
— Acredite. — Suspirou contra meu ombro, como se não só pedisse, mais implorasse que eu acreditasse em suas palavras. — Você vai preferir que eu te trate como você merece, como você é. Porque é o melhor jeito que eu posso tratar alguém. — Ao falar isso, um sorriso involuntário se expandiu pelo meu rosto. Um sorriso e uma sensação capaz de me fazer esquecer qualquer percepção de timidez e até mesmo capaz de ter efeito oposto, causando, em vez nele, uma amnésia em mim. Deixando-me até avermelhada, porém de surpresa e satisfação.
Abracei-o com mais força, sentindo seu cheiro me embriagar. Era seguro estar abraçada com ele, e delicioso. E eu não tinha mais como impedir que seu abraço se tornasse uma espécie de vicio. Onde me causava arrepios e me deixava totalmente em casa. — Calma. Eu não vou fugir. — Eduardo falou com senso de humor ao notar que eu não queria que ele me soltasse.
Eu não queria mesmo, não sei ao certo por que, só queria que aquela sensação boa durasse por mais tempo.
— Obrigada por me fazer tão bem. — Agradeci ao finalmente me soltar dele com um sorriso angelical no rosto.
Embora fosse tarde da noite, eu não queria ir pra casa. Estava tão bom ali. A noite estava linda hoje, a lua cheia refletida na água deixava a paisagem mais bela ainda. Se é que poderia melhorar.
Mas eu sabia que poderia sim melhorar. Eduardo estava ali, ao meu lado. Deixando-me apreciar sua bela fisionomia e seu jeito único de me deixar com um sorriso idiota no rosto a ponto de me fazer perguntar por pensamento se quando eu chegasse em casa teria rugas ou, pior ainda, todos os músculos doeriam por tanto tempo que eu jamais conseguiria rir ou falar bem novamente.
Tentei parar de sorrir, mas não consegui.
Que se danem as risadas ou as palavras soadas bem, o importante era agir da maneira que meu corpo ou meu instinto quisesse. Sem me importar com mais nada.
Depois que comemos mais um pouco e conversamos que nem dois amigos completamente confidentes enquanto caminhávamos por todo o parque, Eduardo levou-me até uma espécie de ponte sendo que era quase deserta naquele horário.
Meu celular tocou e era minha mãe. O garoto a minha frente que antes prestava atenção nas pequenas ondas que se formavam ali embaixo, encarou-me percebendo finalmente o quão tarde estava. Atendi ainda nervosa, tentando pensar no que eu falaria caso ela tivesse descoberto que eu não tinha saído com a Bianca.
— Oi mãe, fala. — Suspirei, tentando novamente demonstrar calma. Sem tirar o celular de perto da minha orelha.
— Já avisei a Bianca, mas ela me disse que você tinha saído com a mãe dela e que ela não foi porque está com muita cólica. Enfim, só liguei pra avisar que você vai dormir na casa dela, filha. — Minha mãe contou-me. Olhei assustada para Eduardo que permaneceu em silêncio. Provavelmente estava imaginando que minha mãe estava me dando um brigueiro por termos perdido a hora.
— Mas mãe, eu posso pedir pro tio me levar pra casa! Não tem proble... — Ela me interrompeu.
— Eu e seu pai aproveitamos que você está na Bianca pra sairmos juntos, não voltaremos antes do meio dia de amanhã. — Notei seu tom de voz e percebi que ela estava feliz por finalmente ter um tempo sozinha com meu pai sendo que eu, e o trabalho deles sugávamos muito o tempo dos dois. Sentia-me egoísta por insistir em ir para casa e estragar o romance que pairava no ar entre eles. — E por que essa voz de quem não está gostando da notícia, senhorita Antônia? Desde quando não gosta de ficar na Bianca? — Estranhou. Disfarcei a voz imediatamente.
— É que... Mãe, eu também não estou muito bem hoje. — Menti, quase roendo as unhas de ansiedade. Eu não tinha pra onde ir, caso não contornasse essa situação. A casa da Bianca era muito longe e mesmo se eu fosse até lá a mãe dela ligaria pra minha mãe avisando que eu chegueiem segurança. Sendo que eu deveria ter chegado em segurança muito tempo atrás.
— Não se preocupe, vou ligar pra mãe da Bianca pra pedir que ela compre aquele remédio que eu dou pra você, depois eu pago ela.
— Não precisa, não precisa preocupar a tia com pouca coisa, mãe. Eu já to até melhorando. Então até amanhã, beijos! E você e o papai se comportem, usem camisinha, não quero irmãozinhos agora! — disse por fim e, antes que ela me respondesse, desliguei o celular imediatamente. Antes que meu pai brigasse comigo por perceber que eu sabia o motivo do uso de camisinhas. Pelo que eu bem conhecia dos dois, usavam o celular no viva voz para ambos escutarem. Meu pai ainda estava naquela fase de aceitação que sua menina agora já estava crescida.
Olhei pra baixo sem coragem de encarar Eduardo e depois me escorei na mureta da ponte.
— O que foi? — Indagou.
— Eu contei uma mentirinha pra minha mãe dizendo que eu ia sair com a Bianca pra ela não me fazer perguntas, e no final da história a safada foi se divertir com o meu pai e espera que eu durma na Bianca, porque pelo jeito ela só chega depois que o sol nascer. — sorri de lado. — Eu não posso ir pra Bianca, a mãe dela vai ligar pra minha mãe. To perdida, eu nunca fui à casa do Gabriel. Não sei onde ele mora. — Confessei soltando um suspiro e finalmente percebendo como estava frio. Eduardo ficou em silêncio por um tempo, notou que eu estava congelando e sem avisar tirou sua jaqueta e colocou-a em mim, esquentando-me. — Você vai congelar sem ela. — Intervi, apesar de estar amando o fato de a jaqueta me aquecer muito bem.
— Eu sobrevivo. Estou acostumado com o frio, esqueceu? — Senti-me idiota por perceber que de fato passou muito tempo fora do país, provavelmente um lugar bem frio. — Vamos. — Ele me puxou desencostando-me da mureta e, embora eu fizesse perguntas, ele novamente voltou a se camuflar no seu silêncio.
Por estar exausta, não insisti em nenhum tipo de comunicação. Por ora bastava estar em sua companhia. E eu poderia jurar que não era a jaqueta que me protegia do frio, e sim seus braços ao me contornar.
Quando vi estávamos de frente a uma enorme casa. Um pequeno jardim a circulava e havia uma passagem feita de pedras planas que nos levava a uma porta. A decoração era belíssima, e também tinha uma garagem. Por ser noite, não conseguia ver muita coisa, além disso, eu já imaginava que deveria parecer com a minha. Havia uma padronização naquelas redondezas, todas tendo uma arquitetura parecida. Quando ele parou de andar, eu perguntei com os olhos se ali era a casa dele, felizmente, ele assentiu. Sorri por vê-la, sorri porque eu não ficaria na rua esta noite.
— Vamos, Tônia. Eu não quero que a minha mãe te veja. — Confessou dando passos em direção à porta. Caminhei por trás dele entristecida por suas palavras.
Por que teria vergonha de mim? Estava decepcionada. De repente dormir na rua pareceu uma ótima ideia. Dei meia volta deixando-o para trás e coloquei as mãos no bolso da minha calça, após retirar sua jaqueta e colocá-la sobre o primeiro móvel que vi na frente.
Eduardo gritou meu nome uma vez e na terceira eu respondi que estava indo embora. Porém ele insistia em uma explicação da minha ida, eu não queria mostrar que estava abalada por suas palavras, mesmo que eu estivesse. Queria ser menos fraca. E, possivelmente, menos dependente dele quando estava com ele.
— Eu não quero dormir na casa de um amigo que tem vergonha de mim. — Ao dizer isso, magoada por suas palavras, pedi ao meu subconsciente que não deixasse alguma lágrima presa por mim escapasse. Felizmente, ele foi gentil.
— Você entendeu errado! Venha cá, está muito frio pra você ficar na rua. Provavelmente está cansada. — Fingi não ligar, mesmo ele estando certo. Eu era orgulhosa também, e isso ninguém mudaria.
— Eu nunca teria vergonha de você. — Puxou meu braço, fazendo-me virar e vê-lo. Analisei sua expressão, tentando achar algum vestígio de mentira. Não encontrei. Seu olhar transbordava súplica e desespero, mesmo que aparentasse estar calmo.
Eduardo soltou meu braço ao perceber que sua força fez aparecer uma vermelhidão no local que seus dedos prensaram. Logo em seguida, estendeu a sua mão como se pedisse que eu me aproximasse dele, que eu aceitasse suas palavras e eu acreditasse nelas mais uma vez. E, como a verdadeira fraca que eu era, acreditei mais uma vez.
Quando cheguei à sua frente, estendi minha mão para que ele a pegasse. Assim ele fez, não só a pegou, como a moldou entre seus dedos encaixando-os com os meus. E, como esperado, embora minha mão se perdesse nas mãos dele por ser muito menor e mais frágil, a gelidez se esvaiu e minha mão ficou completamente aquecida. Eduardo sorriu. — Vem. Você precisa descansar. — Continuou.
Antes que eu respondesse, puxou-me para debaixo de seus braços abraçando-me. Agarrei-me mais em sua cintura tentando cessar o frio completamente, obtendo sucesso. Quando estávamos subindo as escadas eu vi uma mulher olhando completamente espantada para mim como se eu fosse uma assombração. Ou pior que isso, eu já estava me perguntando se eu era feia a ponto de fazer as pessoas se apavorarem.
Descobri que sim, eu estava feia a ponto de fazer as pessoas se apavorarem, quando me olhei pelo espelho. Lá estava minha imagem refletida, a roupa suja que eu usava e meus olhos pesados, cobertos por olheiras. Edu pegou uma toalha pra mim e eu tomei banho no seu banheiro. Enquanto enxugava meu cabelo ouvi barulhos do Eduardo mais uma voz feminina no quarto dele.
— Não minta pra mim, Eduardo! Eu a vi chegando com você! — A pessoa que gritava parecia aborrecida. Era voz de mulher. Será que ele tinha uma namorada? Mas como? Tudo bem que ele era bonito, bonito não, gato. Só que o jeito dele, a decisão dele de se não apaixonar novamente como antes tinha ido para o espaço desde quando? Estava revoltada com ele. Pois não me contou sobre ela, suas palavras pareciam sinceras.
— Mãe, é a Antônia. Uma amiga de escola minha, você sabe que não tem sentindo isso que você está falando. Você mesma foi no enterro dela. Depois a gente conversa, pode ser? Ela vai sair agora mesmo do banheiro e... — Antes que ele continuasse a se justificar com a mãe, eu sai do banheiro terminando de me secar e a vi ali. Fiquei aliviada quando percebi que era só a mãe dele. Não havia namorada.
— Desculpa-me, senhora. É que eu não tinha pra onde ir esta noite e o Eduardo foi legal comigo me chamando pra cá. Mas, pode deixar, não vou dormir aqui, no quarto dele... Até porque somos amigos, né? Vou pra sala, o sofá me pareceu confortável. Aliás... — Parei de falar quando percebi que já estava tagarelando. Eu e a minha mania de tagarelar quando estou nervosa.
— Me desculpa pela má impressão, querida. Apenas te confundi com outra pessoa. Não precisa me chamar de senhora, é Fabiana pra você. Antônia, certo? — indagou, agora com a voz e expressão mais calma. Assenti com a cabeça enquanto enxugava meu cabelo com a toalha. — E não tem problema, desde que não durma no sofá está tudo ótimo. — Sorrimos uma para a outra. De repente ela havia acreditado que eu e o filho dela éramos apenas amigos. Deve ser uma daquelas mães ciumentas, por isso estavam discutindo. Ou, como a mãe do Bruno, pensando que eu era outra pessoa. Perguntei-me até quando as pessoas agiriam assim. — Amanhã vocês tem aula. Então durmam bem e caso precise de algo estou no quarto ao lado! — Despediu-se de nós dois e deixou o quarto.
Eduardo relaxou os ombros e tirou o tênis, jogando-o em qualquer lugar.
— Você prefere dormir no quarto de hóspedes? — Perguntou enquanto tirava a camisa pra entrar no banheiro. Perdi o foco enquanto o acompanhava se desfazer de seu cinto e por um momento esqueci como responder. Todavia, uma hora teria que voltar ao normal e ser forte. Ao menos aparentar ser forte como se o simples fato dele estar se despindo (não totalmente, é claro) em minha frente não me deixasse fora do eixo.
Não conseguia disfarçar ser forte, percebi isso ao ver Eduardo se divertir com a minha falta de controle e concentração em suas palavras. Mas, porra, como ele queria que eu prestasse atenção em suas palavras enquanto estava quase seminu em minha frente? Era quase uma missão impossível.
— Cla-claro. — Balbuciei a primeira resposta que me veio à cabeça. Eduardo sorriu e finalmente foi para o banheiro. Eu sorri aliviada por minha resposta ter sido coerente a pergunta que ele havia feito, porque eu sequer consegui escutá-la com aptidão.
Joguei-me em sua cama, e antes de cair no sono, conferi o livro que ele estava lendo. Parecia legal, iria procurar na biblioteca amanhã pra começar a ler, e se não tivesse, compraria em alguma livraria. O sono pegou-me de surpresa e rapidamente adormeci.
Eduardo
Quando terminei de tomar banho e vesti qualquer cueca para ir dormir (geralmente eu durmo pelado, mas hoje eu não poderia porque tinha visita), sai do banheiro.
Me surpreendi quando vi Antônia deitada na minha cama totalmente em paz. Estava pegando quase toda a minha cama, totalmente à vontade. O forro tampava apenas suas pernas, deixando que todo o pijama da minha mãe que ela vestia ficasse à mostra.
Vi meu livro sobre sua barriga, ela havia folheado algumas páginas. Com cuidado tirei suas mãos do livro e o coloquei, agora fechado, sobre o criado-mudo. Vendo-a ali na minha frente, vi uma chance de respirar em paz mais uma vez depois de tanto tempo. Abaixei-me e com o polegar encostei no rosto delicado da garota de cabelos escuros, contornando todas as suas curvas. Atrás de seu pescoço estava mais uma prova que ela jamais poderia ser a Maggie, não tinha nenhuma pinta ali. Aquela área estava totalmente lisa, sem nenhuma marca. Sorri com isso, surpreendentemente.
Feliz por não serem as mesmas pessoas, feliz por Antônia ser tão diferente da garota que me apaixonei há muito tempo.
Era natural a reação da minha mãe ao ver a semelhança física entre Antônia e Margareth, se eu não soubesse que uma estava morta, diria que até que são, de fato, as mesmas pessoas. Era uma semelhança assustadora, que às vezes deixava-me extasiado. Embora as risadas, os sorrisos, o comportamento fossem totalmente opostos.
E o inesperado passou pela minha cabeça, algo que eu jamais pensei ser possível. Acompanhar sua respiração calma, como se no mundo não houvesse mais problemas, fez com que meus pensamentos conturbados cessassem, como se tivesse me trazido aquela paz que eu tanto procurava.
E ao mesmo tempo, confundia minha imaginação fazendo-me parecer um psicopata. Era estranho, e eu não sabia o que era porque nem com Maggie havia experimentado tal sensação.
Eu só sabia, a única ficha que caía, era a que eu precisava dela.
Precisava. Essa palavra soou muito mais tranquila do que deveria ser, porque era preocupante precisar de alguém. Porque quando a gente precisa de alguém, sempre nos tornamos mais fraco. Ainda mais quando você não está totalmente recuperado. Só que isso não foi capaz de fazer algo dentro de mim se fechar para ela, pelo contrário.
Eu precisava de Antônia para trazer o antigo Eduardo que por muito tempo não existiu mais. Com ela, ele voltava, com ela, era possível eu ser eu mesmo sem fingimentos, sem culpa e sem pressão. E, inesperadamente, sem passado, sem feridas e angústias.
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