Eduardo

Havia desistido definitivamente de querer afastá-la de mim. Mesmo tendo todos os receios, os mesmos que me incomodavam todos os dias, mesmo sabendo que era errado pôr mais alguém na minha vida, sendo que meus pais e Ícaro já deveriam ser de bom tamanho. Todavia, eu tinha certeza que ela era real e não tinha nada a ver com Margareth, não que eu tivesse o mesmo interesse, pelo contrário. Mas, felizmente, Antônia parecia ser verdadeira, transparente e sincera. Mesmo com sua teimosa, isso não mudava o fato dela ser indescritivelmente bela, do jeito dela, mas ainda assim, muito bela.

Quando eu vi, notei que já estava sentindo algum carinho especial por ela.

Merda, isso não poderia ter acontecido. Porque eu havia prometido a mim mesmo que não colocaria outra pessoa em minha vida, que apesar de em certas partes não ter sido o errado, eu não merecia ser feliz novamente. Eu sabia que era errado ter aberto uma exceção para alguém que eu mal conhecia, mas não havia mais nada a ser feito.

Embora não pudesse esconder essas coisas, ainda não era o suficiente para confiá-la tudo o que acontecia comigo, não por ora. Não queria apresentar à ela a pior parte de mim: Fraco, prepotente, ligado ainda as dores de um passado tão presente, que nem amor a própria vida tem.

Por mais que quando eu pude envolvê-la, abraçá-la, tivesse percebido que eu estava vivo ainda.

Vivo. Ai está uma sensação tão comum que eu não sabia mais o que significava. Sentir-me vivo de vez em quanto faz bem.

Porque graças ao contato, a proximidade que em que estávamos e sua respiração tão próxima a minha, de alguma maneira, ensinou meu corpo a respirar de verdade novamente, depois de tanto tempo. E lembrou-me que eu tinha direito de sorrir de forma verdadeira mais vezes. Eu queria que ela continuasse me vendo da forma que aparento ser: Confiante, calmo até, seguro e de bem com a vida. Seria bem melhor. Mesmo que eu estivesse enganando-a ao fazê-la pensar essas coisas que não faziam mais parte de mim, eu faria, parecia menos humilhante. A deixaria por mais tempo comigo.

Depois a deixei em sua casa, já estava ficando tarde. Ao chegar à minha casa, notei uma diferença de quando sai e agora que cheguei: Estava mais leve. Isso parecia ser bom.

Minha mãe estava em casa e sorriu ao ver a expressão do meu rosto diferente. Eu sabia que era novidade.

— Não me olha com essa cara, eu estou bem sim, e é só uma... Colega, se assim posso chamá-la. — Apressei-me em explicar antes que seu interrogatório começasse. Abracei-a e fui para o meu quarto logo após. Minha mãe só riu e assentiu como se fingisse acreditar na minha explicação.

Estava imundo e cansado, me desfiz rapidamente da roupa que usava e deixei de lado, despindo-me completamente. Abri o chuveiro e pude sentir a água escorrer pelo meu corpo levando, além da sujeira, sensações complexas. E embora eu não quisesse, meus pensamentos chegaram a um problema bem visível: A semelhança física de Margareth e Antônia, caso não fosse a cor de cabelo e as personalidades opostas, eu diria que poderiam até serem irmãs gêmeas. Mas não era possível. Não com a inocência e maturidade de Antônia. Não sabendo que Margareth era completamente oposta da garota que passara à tarde comigo, sabendo que jamais Margareth agiria da forma como Antônia age: Sem malícia, sem querer algo mais. Eram definitivamente diferentes. E isso era bom, não me machucaria da mesma forma, a amizade de Antônia seria leve, tranquila e calma. Era o que eu esperava, e no fundo, eu sabia que isso não aconteceria.

Seria complicado conviver com Antônia por conta da aparência, lembraria-me sempre a garota de olhos frios e apáticos. Eu não sabia se conseguiria conviver com isso sem causar-me algum tipo de empecilho ou embaraço, porém, eu tentaria de todas as formas não confundir as coisas. Ou, mais precisamente, as pessoas.

Antônia

Bianca insistiu que eu fosse até Bruno. Já era segunda-feira, estávamos na escola. Para ser mais específica, estávamos a exatamente alguns metros de Bruno, no refeitório. Como sempre ele estava rodeado de garotas, a maioria piranha, e de vários amigos. Ele ria junto com todos, mas por um segundo, percebi que seus pensamentos voaram. As pessoas falavam sem parar e ele fitava a parede como se aquele ponto fosse extremamente interessante, sendo que a parede nada mais era que um pedaço de tijolo pintado com uma espécie de azul manchado. Sua expressão permanecia gélida, e queria saber o que tanto perturbava seus pensamentos.

— Vai lá, Tônia, vai logo. — Ela me empurrou, meus pés moveram-se desorientadamente até metade do caminho, virei meu rosto vendo-a e ela gesticulada para eu ir logo, provavelmente irritada. Respirei fundo e caminhei até ele, finalmente. Felizmente minha demora teve seu lado positivo, deu tempo do sinal tocar e todos os que rodeavam ele afastaram-se a fim de seguir até suas respectivas salas de aula. Quando ele levantou-se, eu parei à sua frente.

Não gagueja. Comporte-se. E, finalmente, sobreviva.

Esses desejos eram os que rodavam pela minha cabeça naquele exato momento, um momento decisivo. Bruno abaixou sua cabeça para me olhar, e franziu o cenho perguntando-se o que eu queria ao atrapalhar sua passagem. Deu-me uma enorme vontade de virar-me e correr, só que ele concluiria que eu não batia bem. Meus pés pareciam ter grudado no chão e nada faria eles se moverem até que eu pudesse respirar mais uma vez.

Lembrando-me que havia mais um ponto importante: Não se esquecer de respirar.

— Quer alguma coisa? — Indagou. Quebrando o silêncio. Eu recuei um passo, sem piscar meus olhos. Levantei timidamente minha cabeça depois de expirar o ar, relaxando os meus ombros logo em seguida.

— Eu queria falar você sobre ho-hoje. — Senti a ambiguidade na minha frase, por conta disso procurei refazê-la. Provavelmente porque no modo de pensar dele, poderia achar que eu era alguma garota que tinha ficado e agora estava caidinha por ele. Não que a última parte esteja errada, mas jamais havíamos sequer dado um selinho. — Quer dizer, hoje na sala. O professor fez as duplas para a lista de exercício de física e não sei como nos colocou junto. — Ri por dentro, sabendo que graças a isso eu tinha uma desculpa de ter o abordado.

— Ah, sim. Eu me lembro de você. Mas, como sempre, você que vai fazer, não é? — Pareceu confuso.

Ele se lembra de mim. Essa simples frase não saia da minha cabeça.

— Sim... Quero dizer, não. — Embolei-me nas palavras, fazendo-me sentir mais desajeitada. — Em partes. Meus pais estão viajando e eu estou na casa... Hum... De uma tia cheia de filhos pequenos, que ficam chorando a cada segundo. — Mentira, minha mãe é filha única e os meus tios por parte de pai moravam bem longe. — Então eu pensei: Seria legal tirar uma nota boa nesse trabalho por você estar precisando, e eu também. Então... — Ele me interrompeu, provavelmente entendendo onde eu queria chegar.

— Não tem problema. Deve ser difícil mesmo fazer cálculos com criança chorando, se eu no silêncio da minha casa não consigo, imagina com a choradeira. — Suspirei ansiosa pro que ele iria sugerir. Quem sabe marcaria em algum lugar para fazermos, ou no shopping, ou em uma praça. Qualquer lugar com ele seria... Ideal. — Que tal fazermos lá em casa? Qualquer dia desses, quem sabe na sexta, ou na quinta, quando você puder. — Sugeriu, finalmente, fitando-me. Engoli um nó seco, mesmo eu sentindo algo a mais por ele, a insegurança de estar em sua casa me causava arrepios.

Só que para o meu azar, ou a minha sorte, ele jamais olhou pra mim de outra forma. Isso faria com que não houvesse problema. Ou talvez fosse o maior deles. Eu não podia dar aquele passo importante na vida de toda garota... E se ele soubesse que eu era virgem, com toda certeza eu estaria oficialmente ferrada, pois ele jamais se interessaria por alguém assim.

Lembro-me que uma vez Bianca chegou ao meu quarto e me contou que ele havia deixado de ficar com uma menina por ela ainda ser virgem. Sabia disso, pois era amiga dela e a menina a confiou esse segredo e sentiu-se muito mal durante uma semana. Ela me contou também que era a primeira atitude que tinha admirado dele, pois essas são as mais fáceis de serem persuadidas. Nas palavras dela, seria fácil para ele levá-la para cama e depois deixá-la plantada em algum motel da cidade. Porém ele não fez isso, e deixou que a virgindade dela continuasse intacta.

Então, obviamente, se ele descobrisse que também sou, a pequena chance que nem sei se tenho cairia para zero. E eu não poderia deixar isso acontecer.

— Na sexta será perfeito. — Respondi dando um meio sorriso, e virei o rosto um pouco envergonhado enquanto mexia no cabelo. Bruno encarou-me por um segundo, e logo após despediu-se para ir à sala.

Quando me recuperei, ali sozinha no meio do refeitório, respirei fundo por dez segundos e segui o meu caminho. As aulas passaram-se normalmente, e hoje a Bianca foi para a minha casa. O Gabriel não pôde. Quando chegamos no meu quarto, joguei minha mochila em qualquer canto e contei a ela sobre o acontecido.

— Na casa dele? Você tá louca, garota? — Gritou ao descobrir. Estava evitando contar por causa disso, sabia que ela não estaria nenhum pouco de acordo. — Tudo bem se estivéssemos falando de Robert Barelli, o maior nerd da sala, ou de qualquer outro garoto que não fosse o Bruno. Mas, é o Bruno, Antônia. Ele pode ser o amor da sua vida, o príncipe dos seus sonhos, o parafuso que falta na sua cabeça, porém nem isso irá torná-lo confiável. — Seu tom de voz havia abaixado, mas mesmo assim sentia calafrios a cada vez que ela falava.

— É um trabalho, só isso, Bianca. Relaxa. Se você me encher de neura ai sim eu não vou conseguir chegar lá. Precisamos de nota. — Ela me interrompeu.

— Ele precisa de nota, você não. — Corrigiu-me.

— Então, ele precisa de nota. Vou ajudá-lo. — Dei de ombros, enquanto sentava na minha cadeira de frente ao computador.

— Foda-se ele, Antônia. Você não vai. Isso é uma loucura, a não ser que os pais dele estejam em casa. O que eu acho difícil. — Ela disse grosseiramente jogando-se na cama. Levantei já estressada e fitei-a.

— Eu vou sim, e não tem nada que me faça mudar de ideia. Isso vai ser bom pra mim, não posso recuar. E, aliás, ele nunca olhou pra mim de outro jeito. — Dei de ombros, fingindo não ligar, porém saber disso me magoava profundamente. — Eu não tenho nada a temer. — Joguei-me na cama, ficando ao lado de Bianca. Ela suspirou profundamente e abraçou-me, beijando o topo da minha cabeça.

— Eu só espero que você saiba o que está fazendo. E não se machuque. Qualquer coisa liga pra mim, que mandarei a policia ir até lá, estarei com o celular na mão pra qualquer tipo de alerta que me enviar. — Sussurrou ela, eu apenas sorri.

(...)

Terça passou-se rapidamente. Assim como os outros dias da semana, até que finalmente, a sexta havia chegado.

Nesses últimos dias não aconteceu nada de interessante, a não ser o fato de Eduardo ter jogado ketchup na minha roupa enquanto comíamos um super x-tudo na lanchonete perto da casa dele. Entretanto, lhe dei o troco ao jogar muita maionese na sua blusa nova. Ele ficou revoltado e jogou pedaços de bacon em mim; o garoto de cabelos claros e sorriso reluzente, capaz de iluminar cidades na escuridão, não gostava de bacon, então deixou no canto da bandeja, já eu amava, por isso com um ar de superior peguei aquela delícia e comi. Não me importando com minha falta de modos, estava totalmente à vontade. Em casa, segura.

Eduardo estava tornando-se um bom amigo. Apesar de às vezes aparentar ser diferente, mais frio. Como se fosse outra pessoa.

O dia esperado havia chegado. Como não estava fazendo tanto calor, coloquei uma blusa de manga comprida de cor clara, uma espécie de azul bebê, e fiz uma calça preta perdida na bagunça do meu guarda-roupa entrar em mim. Deixei meu cabelo preso e aproveitei pra por meus óculos. Calcei a primeira coisa que vi e desci, avisando aos meus pais que iria sair pra fazer um trabalho da escola. Só permitiram que eu saísse depois que eu comesse, então fui obrigada a pegar umas rosquinhas e tomar um suco de goiaba que minha mãe tinha preparado.

A casa dele não era tão longe assim, mas eu tinha que andar um pouco. Já estava entardecendo, por isso apressei os passos. Queria chegar logo, e ao mesmo tempo, queria voltar pra casa. Insegurança talvez. Só que não podia fazer isso, não deveria ser covarde eternamente. Estava na hora das coisas mudarem, e pensando nisso, me deparei com uma casa grande e bonita, com as paredes todas pintadas de amarelo meio alaranjado, que graças à iluminação, deixa-a muito receptiva, junto com as flores que podia avistar na entrada. Ouvi um som estranho. Parecia estar tendo algum tipo de festa, não sei.

— Devo ter me atrapalhado com o endereço. — Disse pra mim mesma não querendo acreditar que ele tinha se esquecido do trabalho.

Contei até três e abri os olhos, o restaurante estava lá, aquele que eu ia direto com meus pais. Só podia ser ali, não tinha como. Abri o portão que estava encostado e passei por um grupo de adolescentes que eu nunca vi na vida. A música estava bem alta, tinha muitas mulheres andando só de biquíni pra lá e pra cá. Outros estavam na agarração, bem próximos à parede. Apressei meus passos indo até a porta tentando passar com dificuldade entre as pessoas, até que senti alguém por a mão na minha cintura. Virei e um cara aparentemente drogado sorria pra mim. — Me solta! — Gritei. Porém ele não o fez, puxou-me mais para ele e eu senti medo.

— Qual é gatinha? vamos nos divertir! — Ignorou minha cara de pânico e tentou me agarrar. Eu queria soltar-me dele, porém o garoto era mais forte. Até que ouvi alguém gritar o meu nome. Eu reconheci de imediato àquela voz. E sorri.

— Solta ela! — Bruno ordenou ao se aproximar da gente. O garoto soltou minha cintura e eu pude finalmente respirar aliviada.

— Ei, calma! É sua mina? — Perguntou rindo à toa, era óbvio que estava drogado. E não queria nem pensar no que aconteceria caso Bruno não aparecesse.

— Sim, agora dá o fora antes que eu quebre a sua cara! — Sua expressão era séria, Bruno estava ao meu lado e eu estava aos poucos voltando ao normal. Eu era de fato pequena, mas naquela situação, diminui mais ainda por sentir-me tão indefesa. Ainda estava chocada e meu sangue parecia correr pelo meu corpo mais rápido. — Tá tudo bem? O que tá fazendo aqui? — Perguntou ao virar-se para mim, com uma sobrancelha franzida.

— O trabalho. — Sussurrei confusa. Ele colocou a mão na cabeça, desnorteado.

— Não acredito que esqueci. — Murmurou.

— Não tem problema, eu vou embora. Marcamos pra outro dia, não tem pro-problema mesmo. — Sem querer gaguejei, querendo ir embora dali rapidamente. Não estava acostumada com este ambiente, eu não me encaixava. Por isso queria ir embora.

— Não. Aproveita que está ai e se diverte. Pode ficar a vontade, Antônia. Meus pais só chegam amanhã, então não tem problema. — Quando ouvi ele dizer meu nome e logo em seguida me presentear com um sorriso lindo, acho que por dentro os fogos de artifício estavam começando a se agitarem.

Afinal, eu não era tão invisível.

Ele sabia o meu nome.

E estava me pedindo pra ficar. Aquilo não parecia real. Não mesmo.

O funk parou de tocar e começou outra coisa, uma eletrônica. Todos dançavam enlouquecidamente com bebidas alcoólicas nas mãos, aquilo parecia ser a perdição. E literalmente era. — Quer uma bebida? — Bruno me ofereceu. Eu apenas assenti ainda em choque e pensando como conseguiria formular simples frases, mas quando não conseguisse, iria recorrer ao meu simples e tranquilo sim.

Notas finais
Eu acho que até passei do limite de palavras que normalmente coloco. Mas achei necessário pôr neste capítulo essas informações todas, para que o capítulo tenha de fato conteúdo. Eu queria ter continuado, colocado bem mais, só que preciso reformular as ideias que tenho a fim de decidir o que acontecerá nessa festa do Bruno... O problema é que eu nem sei se ele será um mocinho ou um vilão!! kkkk Mas enfim, garanto que muitas encrencas essa ida a festa irá acarretar, prometo!! Adoro confusões hahahaha q. Desculpem-me a demora. Espero que estejam gostando, e pra quem torce por Eduardo e Antônia, garanto que em breve terão surpresas! ahuas porém não posso dizer o que é. Bjssss porque estou falante demais hoje, é isso. ♥