Te amar não estava nos meus planos
16 Surpresas.
Ele me deixou sozinha no meio daquela bagunça e foi pegar uma bebida pra mim. Olhei por todo lado ainda deslocada, minha roupa estava completamente diferente das que as mulheres usavam, olhei pela janela e vi a piscina completamente lotada. Faziam churrasco lá fora, todos se divertiam como se amanhã não fosse ter aula. Talvez amanhã a escola estivesse vazia, pois vi muitos alunos passando por mim. Alguns quando me viram, nem acreditaram que eu estava ali. Nem eu acreditaria se me visse aqui neste exato momento.
O Bruno demorava, então fui atrás dele. Quando adentrei a cozinha, o vi. Meu sorriso se desfez involuntariamente, as mãos de Bruno estavam na coxa da garota sentada no balcão. Estavam aos beijos de forma totalmente vulgar. Ela estava quase pelada enquanto ele praticamente devorava seus lábios. A garota roçava seu corpo no dele enquanto Bruno mordia seu queixo e voltava a beijá-la. Abaixei a cabeça deprimida e abracei-me por conta do frio que de repente me embriagou, apesar do calor por causa do acúmulo de pessoas. Lágrimas silenciosas ameaçaram escorrer. Por que me sentia assim sendo que, por mais que eu gostasse dele, ele nunca me veria de outra forma? Era bem óbvio, e no final da noite poderia dizer pra Bianca com todas as letras: Não te falei, não havia nada para você se preocupar.
É o que eu falaria pra ela depois que eu me recuperasse. Se é que conseguiria me recuperar.
Não queria mais ver aquela cena, dei pequenos passos em direção à porta, porém alguém chegou perto de mim oferecendo-me uma bebida. Sem nem pensar duas vezes, despejei o copo na minha boca, queimando minha garganta. E, ao perceber como poderia ficar aliviada aquela noite, aproveitei para beber mais. Arrependi-me quando percebi que estava totalmente embriagada, mas não havia mais nada a ser feito, senão aproveitar o pouco tempo que teria antes da dor de cabeça me atingir. Bruno deixou a garota de lado e aproveitou para beber mais. Parecia um pouco tonto, mas isso não mudava o fato dele parecer totalmente atraente e feliz.
Foi quando de repente, ele reparou em mim, mesmo no meio da multidão. Seu sorriso foi se desfazendo, e eu me perguntei se minha aparência de bêbada me deixava pior do que eu já era. Ou aparentava ser para ele. A música de repente parou de tocar e a única coisa que eu vi foi ele se aproximar de mim, entrelaçou minha cintura com seus braços e aproximou seus lábios dos meus. Mas não me beijou, muito menos os tocou. Automaticamente, enquanto seus olhos fecharam-se, os meus continuaram abertos ainda inertes à situação.
Eu estava em seus seus braços.
Ele parecia confuso, e mesmo bêbado, eu queria experimentar seu beijo para saber se seria como sempre eu idealizei. Seria, também, um modo de provar que eu deveria continuar o que eu tanto insistia em ter: Ele.
Todos os meus planos, as minhas suposições nunca passaram da teoria, de sonhos bobos e patéticos. Por isso não podia afirmar que alguma coisa era real. Mas, a partir de um toque, ou um beijo, eu poderia me aproximar da resposta certa.
— Por que você ficou com aquela garota totalmente vulgar? — Perguntei, como se eu pudesse interrogá-lo assim. Sem aumentar ou diminuir os poucos centímetros que nos separavam.
— Porque ela era gostosa. — Diante da sua situação, sua fala estava meio arrastada. Sua aparência demonstrando seu estado alcoólico deixava-o um pouco mais sincero, e afastava-o um pouco da realidade. No meu caso também, não poderia crucificá-lo, porque sabia que se eu estivesse no meu estado normal, já teria ido embora dali há muito tempo.
— Por que faz isso com você? Por que se deixa agir como um perfeito idiota? — Interroguei como se estivesse brigando com ele. E eu estava. Porque o meu estado embriagado me permitia isso.
— Porque você foi embora. Deixou-me e, além disso, levou consigo a nossa filha. Você nunca deveria ter ido embora, Margareth! Nunca! — Ele apertou meu braço com força, aproximando-me de seu corpo. De repente, eu desejei ser aquela mulher para vê-lo tão dependente de mim. Embora eu não fosse naquele momento, eu poderia ser.
A culpa era dela. E ela era uma burra. Ter não só Bruno totalmente aos pés dela, como também Eduardo.
Eu poderia me arrepender eternamente pelo passo que eu daria, mas eu sabia que, de qualquer forma, quando eu estivesse sóbria, culparia a bebida pelos meus atos.
Tomei seus lábios, mesmo assustado, Bruno retribuiu o beijo urgente que eu dava em seus lábios. Seu beijo era bom, não havia como negar. Só que, infelizmente, alguma coisa estava errada ali.
Susto foi o que eu tive.
Beijava-o agora com mais intensidade, a fim de encontrar a essência que nossos beijos tinham em meus sonhos. Mas, mesmo insistindo em procurá-la em seus beijos, não a encontrei.
Isso me desesperou completamente.
Desespero juntou-se ao susto.
Seus braços permaneceram à minha volta, embora eu estivesse tão perto dele, a segurança que eu queria sentir também havia desaparecido. A bebida seria a culpada de novo, obviamente.
Por um segundo supliquei em meus pensamentos que a bebida melhorasse o fato de algo desejado não existir, como se fosse sua obrigação inventar ao menos uma ilusão.
Mas, não existia ilusão. Não mais. E a bebida não poderia fazer milagres.
Muito menos existia outra coisa a não ser troca de saliva, a não ser a decepção de aquilo aparentar ser um beijo comum. A multidão parecia intacta à nossa volta, notei isso ao abrir os olhos e o ver sorrir. Paramos de o beijo por falta de ar, ele tentou beijar-me outra vez, porém neguei.
Bruno quase caiu, a sorte era que eu consegui segurá-lo. Por ver seu estado, levei-o até seu quarto, mesmo estando bêbado, conseguiu me guiar. A todo segundo ele tentava mais uma vez me beijar, só que eu não conseguia fazer isso sabendo do seu estado. E do meu estado. Deitei-o na cama, com cuidado, tirei seu sapato para se sentir mais confortável. Quando ameacei ir embora, Bruno de repente chamou por Maggie. Deveria ser o apelido da tal Margareth, era a única coisa certa que consegui perceber sem pensar muito. Minha cabeça agora doía, porque eu sabia que descobrir a verdade doía.
Muito pior que isso, descobrir que Bianca estava certa o tempo todo. Não no sentido dele ser um idiota que não vale a pena o amor de ninguém. Por que, pelo que eu via à minha frente, um menino amedrontado totalmente carente da presença de alguém que o ame, não parecia ser um idiota, e muito menos alguém que brinca com os sentimentos de outras pessoas. Apenas não permite que ninguém mais brinque com os seus, e embora isso pareça egoísta, para ele, é necessário. Porque talvez outra decepção ele não suportaria.
E, sem mais nem menos, involuntariamente, associei essa suposição a Eduardo. Sua decisão em fazer com que as pessoas se afastem dele. Sua decisão em se reservar dessa forma, o fato dele nunca contar muito sobre sua vida e sempre parecer alguém insensível e impenetrável. Sua insistência em me fazer acreditar que ele não era nada do que aparentava ser. Porque era verdade, quando ele está sozinho, talvez aja da mesma forma que Bruno. Não sendo um total galinha ou idiota, mas de outra forma que eu ainda não sabia o que poderia ser. E tinha medo de descobrir.
— Maggie, você foi embora de novo?
Senti-me abatida, deslizei lentamente pela parede e abaixei a cabeça. Confusa com o turbilhão de pensamentos e ligações que eu fazia na minha mente. Desejei que quando eu acordasse amanhã cedo, na minha cama, não me lembrasse de mais nada que aconteceu hoje nesta festa. Eu continuaria sendo uma boba e leiga no quesito realidade, mas ao menos eu estaria na minha bolha, na minha zona de conforto.
A música alta que tocava no andar debaixo e chegava neste andar parou. E a casa se silenciou. Levantei-me e com passos apressados e mal dados cheguei à sacada, vi um casal gritando e mandando todos embora. A casa ficou vazia. Os pais do Bruno pareciam inconformados e decepcionados.
— O que faremos com ele, Marcos? — Indagou tristemente para o marido.
— Acho que está na hora de sermos mais rígidos. Isso não pode continuar assim. — Ele abraçou-a, dando um beijo na testa da mulher. Entrei no quarto do Bruno e ele estava dormindo em sua cama, provavelmente embriagado e sujo. Tentei acordá-lo, em vão. Depois de muito sacrifício consegui fazê-lo abrir os olhos. Ele piscou em minha direção e sorriu.
— Margareth, está de volta mais uma vez? — Perguntou levando suas mãos até o meu rosto. Eu prendi o choro e sorri torto.
— Estou sim, querido. — Ele sorriu mais largo ainda, agachei-me e continuei a fitá-lo. — Você deveria dar uma chance a Antônia, a garota que estuda com você. Ela é minha amiga, e quer ser sua amiga. —
— Não consigo. Vê-la me faz lembrar de você. Pode não acreditar porque estou bêbado, mas vocês são quase gêmeas. — Assustei-me ao ouvi-lo dizer isso. Não fazia sentido, sempre imaginei Margareth uma garota perfeita, para ser sincera. Por mexer tanto com os dois. Mas fingi acreditar. Tranquilizei minha expressão, a fim de fazê-lo perceber que minha vontade,ou melhor, a de Margareth, continuava a mesma. — Ok. Ela parece ser uma boa pessoa, embora todos digam que é apaixonada por mim. Não vai ficar com ciúmes, certo?
— Certo. — Sussurrei, acariciando mais uma vez seu rosto. Eu não tinha a intenção de fazer com que esse pedido soasse um ''Namore com Antônia. Ela te fazerá feliz.'' Pelo contrário, incrivelmente, esse sonho afastou-se de mim sem esforços. Mas sim na intenção de, quem sabe, ajudá-lo em algo que eu não poderia nem sonhar em consertar completamente. Só queria estar ao seu lado, porque ainda que estar com ele não fosse uma obrigação, um carinho estranhamente real sempre existiria. Pareceu certo usar da sua alucinação, para o seu favor. Mesmo sabendo que esse poderia ser um erro que futuramente me arrependeria.
Mas Bruno parecia necessitado. Além disso, parecia extremamente urgente. Bruno não tinha muito tempo para se reerguer, ele se mataria um pouco mais a cada dia que passaria.
Margareth não voltaria.
— Você precisa de um banho, vamos. Levante-se. Não tenho força pra te deixar em pé. — Falei passando meu polegar em seu rosto.
— Para eu ficar de pé novamente, eu só preciso que você esteja ao meu lado. Não me deixa de novo, eu sei que você estava naquele dia fugindo para mim, mas de qualquer forma não chegou. — Sussurrou ao sentar-se na cama. Levantou logo em seguida.
Respirei fundo tentando lembrar que o que ele falava era por causa da bebida. Ele seguiu até o banheiro reclamando de dor de cabeça e eu ouvi os passos dos pais dele subindo. Foi quando pela minha visão periférica vi os pais de Bruno encararem minhas costas, por conta da minha posição.
— Já não mandei todos irem embora, por que ainda está aqui, garota? — A mãe dele perguntou indignada e estrando minhas roupas, que não tinham nada a ver com o clima da festinha do Bruno.
— Desculpa, senhora. — Pedi timidamente enquanto me virava para vê-los. Quando a mulher levantou a cabeça para ver meu rosto, sua boca fez um ''o'' de surpresa. — É que Bruno estava num estado não muito bom, a ponto de não conseguir nem mais andar sozinho, e eu tive que fazê-lo ir tomar banho, provavelmente amanhã irá acordar com uma super dor de cabeça, mas já estou indo. — Desculpei-me mais uma vez enquanto andava em direção à porta.
— Espera. — O pai dele pediu. Meus pés de repente pararam de se mover. — Você não estava morta? — Perguntou. Eu franzi o cenho, aparentemente confusa.
Ai estava mais uma prova que o fato de Bruno estar totalmente bêbado não o fazia mentir, então, eu realmente era muito parecida com a garota que destruiu seu coração. Suspirei, sabendo que mesmo sem conhecê-los, provavelmente os dois já estavam me odiando. Porque querendo ou não, Bruno estava daquele jeito por causa dela. E agora, por minha causa.
— Desculpa, senhor. Não estou entendendo. Como assim morta? — Indaguei, precisando de um choque de realidade.
— Como se chama, querida? — A mãe dele perguntou olhando-me com curiosidade. Senti-me mais deslocada ainda. Sua expressão furiosa estava desfazendo-se, agora só me olhava atenta.
— Me chamo Antônia, senhora. Nem era pra eu estar aqui, o problema é que pensei vir estudar com o Bruno e quando cheguei estava tendo essa bagunça. Fiquei só para ajudá-lo, ele acabou exagerando um pouco na bebida... Eu já estava indo, mas... — Ela me interrompeu do meu exagero de explicação. Eu só queria ir embora, deitar na minha cama e esquecer tudo o que aconteceu hoje.
— Obrigada por ter ajudado nosso filho. Me chamo Rebeca. E desculpe pelo meu marido, ele acabou te confundindo com uma antiga... Antiga amiga do nosso filho.— Ela sorriu de lado. Notando alguma diferença entre mim e a tal amiga do filho deles. Veio até mim e tocou meu rosto com sua mão delicada, analisando-me atentamente. Estava quase correndo dali por pensar que os pais dele eram verdadeiros loucos. Mas eu sabia que não era, estava-me sentindo uma experiência científica, como se eu não fosse normal. Ela pegou uma mecha do meu cabelo e colocou atrás da orelha, deixando meu rosto mais exposto. Senti-me envergonhada. — Vocês são realmente parecidas, uau. — Em sua voz havia surpresa, admiração. Eu não sabia o que fazer. Como agir e o que dizer. — Está tarde. Deixe que meu marido te leve até em casa — Cortei-a.
— Não precisa.
— Faço questão. É perigoso andar nesse horário sozinha na rua. Ainda mais uma jovem bonita como você. Tchau, Antônia, foi um prazer conhecê-la. — Apenas assenti e caminhei atrás do Marcos. Desesperada para chegar em casa.
Rebeca
— Só pode ser ela, Margareth. — Meu marido comentou ao sentar-se ao meu lado. Virei-me enquanto pensava. Não podia ser ela, não tinha como. Por mais que fossem parecidas fisicamente, aquela garota tinha um ar diferente. Querendo ou não, quando a falecida chegava em algum lugar, fazia questão de ser notada e nunca deixou-se intimidar.
Sempre de nariz empinado, segura de si e totalmente confiante. Diferente dessa menina, que nos tratou com tanto respeito por sentir medo da nossa reação por vê-la ali. Pude notar pelo pequeno contato que tive com ela, ao olhá-la nos olhos e perceber sua igenuidade.
Jamais, em hipótese alguma, Margareth demonstraria ser assim. Por mais que tentasse.
— Não é, querido. — Sussurrei calma, o suficiente para ser escutada. Marcos franziu o cenho, totalmente confuso. — Tenho certeza que não é. Se fosse, eu saberia dizer. Conheço aquela lá como a palma da minha mão. Antônia de fato é só ela, apenas parecida fisicamente com o fantasma do Bruno. — Deixei que a minha intuição falasse mais alto, como sempre fiz, e até agora nunca falhei.
— Fantasma não chega nem perto do que ela foi para o Bruno, Rebeca. Sabemos que Margareth o destruiu. É por causa dela que ele está assim! — Disse mais alterado. Subiu as escadas aproximando-se do quarto do nosso filho. A porta estava escorada, abri e pude vê-lo finalmente descansar em paz sobre a cama.
Talvez seus sonhos estivessem melhores agora, já que parecia mais sereno. Embora soubéssemos que por mais que o tempo passasse, certos pesadelos ainda rodavam em sua mente. Não de fato pesadelos, pior que isso, recordações. Lembranças que ele vivenciou.
— Ela morreu, Marcos. Não devemos nos preocupar com essa menina, não por enquanto. Você notou algo estranho enquanto a levava para casa? — Perguntei. Ele calou-se por um tempo, e logo em seguida suspirou. — Então? — Insisti.
— Não. Nenhum sinal de perigo. Porém ainda não sinto seguro com ela por perto. Não quero que tudo volte a ser como era. Ele não aguentará. Muito menos a gente. — Confessou seu receio que tanto deixava-o abalado, e me abalava também. Abracei-o encostando meu queixo em seu peito e olhando-o com um sorriso de lado no rosto.
— Não será. Margareth está morta, vimos o caixão dela juntando-se à terra, querido. Não tem com o que se preocupar. — Tentei convencê-lo e, felizmente, pareceu dar certo.
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