Eu não estava com vontade de ir à escola, mas minha mãe desconfiaria ainda mais. Então, com um misto de loucura e desafio, tomei um banho e vesti-me com a blusa do uniforme e uma calça jogada no meio das minhas roupas. Calcei um tênis e, já pronto, desci para tomar café. Mas a fome havia desaparecido, assim como a minha vontade de poder rever duas pessoas que eu deveria afastar-me de uma vez.

Cheguei ao colégio e vi Bianca de longe, ela acenou para mim e veio em minha direção.

— Como está? — Perguntou, como se estivesse me analisando. A fim de procurar algum vestígio de mentira na minha resposta, e se fosse esperta, encontraria. E se não fosse também, porque acredito que o meu estado está tão evidente que não precisa nem ser observadora.

— Estou bem. — Respondi de forma curta e rápida, vê-la também me lembrava de Antônia.

— Eu sei que não é hora disso, mas, acredite, eu estive a todo momento por perto da Antônia e sabia mais do que ela o que estava acontecendo, e ela nunca confirmou, mas acredito que nesse plano que ela teve acabou se apaixonando por você. Eu conheço minha amiga, e sei quando algum sentimento é real. E pode não acreditar, Eduardo, embora não quisesse, foi até você que ela chegou. Tanto que há um tempo, ela teve oportunidades de ficar com Bruno, ele mandou a ela uma mensagem. Sabe o que ela fez? — Neguei com a cabeça, desejando que ela parece de plantar esperanças em minha cabeça.

— Respondeu de volta e decidiu me dar um pé na bunda porque não precisava mais de mim? — Supus. Ela negou com a cabeça, dando uma pequena risada. Aquilo não era engraçado, não pra mim.

— Não. Ela não fez nem questão de ler o que estava escrito. Convenhamos, se o objetivo dela continuasse o mesmo, ela iria abrir dando pulinhos de felicidade. Mas o que ela fez foi muito mais instigante e preocupante. Simplesmente fechou a janelinha e o deixou pra lá, dizendo que quando tivesse vontade leria. Quando ela foi ao banheiro, eu abri sem que ela visse, e vi que Bruno pedia o número dela, para marcarem de sair qualquer dia que ela pudesse ir. E que não aceitava não como resposta, era insistente quando gostava da pessoa.

— Pelo amor de Deus, Bianca. Não implante mais ideias em minha cabeça, por favor. — Praticamente implorei. — Não posso acreditar nisso, porque se fosse verdade, ela teria me pedido para ficar.

— Talvez ela não saiba lidar com os novos sentimentos, Eduardo. Ela nunca se apaixonou, mesmo que achasse sentir isso por Bru... — A interrompi, despedindo-me rapidamente para ir embora. Meus pensamentos e minhas vontades estavam entrando em conflito, e eu sabia quem ganharia se eu não intervisse.

E eu precisava intervir antes de sair correndo à sua procura, despejando todas as minhas esperanças e aflições em cima dela. Mas era impossível, ela não poderia sentir nada por mim, porque se sentisse, teria me falado em algum momento.

Quando passei pelo portão do colégio, vi de longe Antônia caminhando até aqui de cabeça baixa, e com passos lerdos. Então eu sorri ao vê-la, não sei por quê. Memórias vieram de imediato à minha cabeça, fazendo-me perceber que eu sentiria sua falta, mesmo que ela não merecesse. Infelizmente, não podemos mudar sentimentos de uma hora pra outra.

Dei passos rápidos e involuntários até ela, como se minhas pernas tivessem vontade própria. E quando se tratava dela, isso tornava-se comum.

E se o que a Bianca disse fosse real?

— Antônia! — Chamei-a. Ela virou o rosto assustada e me viu, presenteando-me com um sorriso que fazia falta.

Foi então que eu vi Bruno aproximar-se dela mais uma vez, causando-me um estranho desconforto. Quando me viu, sua expressão endureceu.

— O que está fazendo aqui, Eduardo? Não se tocou que sempre estará pra escanteio? — Bruno insultou, seus olhos exalavam uma fúria além do esperado. Se se sentia tão confiante em suas palavras, por que seus olhos diziam que não era bem assim? Talvez porque algo estivesse errado.

— Você deveria aprender a ser gente! — Aproximei-me dele, encarando-o agora com mais raiva também. — E aprender também a não se meter comigo, não tenho paciência mais com você! — Gritei, imediatamente, Antônia colocou-se entre nós dois. Como se quisesse impedir que uma briga acontece, suspirei, por minha parte não aconteceria. Estava cansado de discutir, cansado de insistir nessa situação.

Simplesmente cansado!

(...)

— Eu pensei que estava tão bem, principalmente depois que conheceu aquela garota que parece ser tão boa pessoa. — Minha mãe abaixou a cabeça, mais uma vez eu estava me despedindo dela, e eu sabia que era complicado se despedir mais uma vez do único filho. Às vezes eu tinha vontade de levá-la comigo, mas ela tinha sua vida aqui. — O que aconteceu de verdade para você tomar essa decisão, Eduardo? Me conta a verdade. — Pediu, aproximando-se de mim, sentando-se ao meu lado. Respirei profundamente por alguns segundos, eu não conseguiria mentir a ela mais uma vez.

— Não sei ao certo o por que de eu estar indo mais. Eu só quero ir, e voltar a minha rotina menos conturbada. — Ela assentiu, beijando minha testa. Abracei-a pela cintura, sentindo seus dedos afundarem em meu cabelo para confortar-me.

— Vou sentir sua falta de novo, querido. — Sorriu meio fraco olhando para mim.

— Eu também sentirei.

Assim, tempos depois lá estava eu, voltando à Londres. Meu pai já tinha deixado tudo pronto para minha volta, suspirei quando embarquei, desejando que meus novos desconhecidos sentimentos permanecessem aqui. Que não fossem comigo.

Antônia

De longe eu avistei Eduardo mas preferi não me aproximar. Eu não queria sentir essas coisas, era difícil entender que eu estava finalmente me apaixonando de verdade. Era muito assustador, irreal, e eu não estava preparada para isso. Talvez eu nunca estivesse, talvez eu nunca mais conseguisse sentir isso por outra pessoa. Porque eu sabia que ninguém seria como ele, me marcaria da forma como ele me marcou.

Só que o que eu não esperava, aconteceu. Ele aproximou-se, e logo em seguida Bruno também. Estar junta dos dois depois de tantas descobertas me fez comparar duas escolhes que eu poderia ter.

A escolha era complicada, senão impossível. Ainda mais quando você tem que escolher, selecionar, preferir algo que sempre esteve nos seus sonhos por algo real. Nos filmes, nos livros de conto de fadas que minha mãe contava para mim, lembrava-me que a princesa ou a mocinha sempre escolhia o cara da fantasia, que esteve nas suas fantasias por tanto tempo, o qual se daria por Bruno. Isso poderia ser comparado a minha nova situação totalmente embaraçosa, se não fosse o fato de eu estar longe de ser a mocinha de alguma história. E, além disso, sempre havia apenas um cara que roubara seu coração. Quando olhei para os olhos dos dois, analisando-os e decifrando o que eles me transmitiam, a ficha que por muito tempo ficou quieta, estava aos poucos caindo.

Embora os olhos castanhos, cor de chocolate, estivessem presentes em quase todos os sonhos de uma menina ingênua e inocente, os olhos verdes, de uma maneira inesperada, ofuscavam memórias que iam sendo aos poucos esquecidas por mim. Por novas memórias, mais recentes, que deveriam ser inválidas e não estarem sendo cogitadas neste momento, porque era como se um curto espaço de tempo estivesse competindo por um longo período de fantasias.

Mas, inesperadamente, um curto espaço de tempo fazia diferença. E mesmo que eu não quisesse colocá-las numa balança, não pediram minha autorização para tal ato. E nessas memórias mal educadas, em todas elas, Eduardo estava. Os olhos verdes estavam. Eu não havia sequer pensado antes que, por mais que eu tentasse negar, havia caído na minha própria armadilha. E não tinha como me levantar se sua mão não me erguesse. Somente ela e mais nada.

Eu estava sendo bombardeada de pensamentos e novas memórias de momentos que, de um modo geral, causavam-me saudade. Porque minha ficha caia à minha frente, mostrando que esses momentos haviam sido os melhores da minha vida.

Uma simples ida à lanchonete e o excesso de gordura que o x-tudo e o bacon continha, que levaria ao meu sangue e eu poderia morrer de qualquer problema cardíaco, embora parecesse um pecado a saúde de uma aborrecente, fazia parte dos melhores momentos da minha vida.

A simples ida à praça, o simples fato de podê-lo chamar de um apelido íntimo que ninguém mais tinha permissão de chamar.

A segurança, o modo como me sentia em casa.

Tudo isso porque ele estava, porque, de fato, ele era a minha casa.

Eu não tinha escolha, apenas tinha que aceitar a escolha que meu coração fizera a partir do momento que me aproximei dele.

Mas aquele dia foi o último dia que o vi, foi o último dia que senti meu coração se agitar de forma espantosa mais uma vez. Os próximos dias, meu coração pareceu se congelar, tudo voltou ao normal, a não ser por uma coisa: A minha vida parecia não ter mais sentido.

Às vezes Bianca e Gabriel me obrigavam a acompanhá-los ao boliche, ou ao shopping. Mas a vontade de me divertir e sorrir novamente havia desaparecido. Eu sei que deveria acordar novamente, sair dessa monotonia que deixava-me agoniada, eu só não conseguia.

Um dia eu fui descobrir o que tinha acontecido com ele, indo até sua casa que não era muito longe, e descobri que Eduardo havia voltado para a casa do pai.

Ainda não entendia ao certo de onde vinha a minha vontade de ligar para ele, ou enviar-lhe uma mensagem. Eu sempre pegava o celular e lutava comigo mesma para não enfraquecer desse modo.

Não era orgulho, nem nada disso, eu só sabia que não adiantaria nada. E lá talvez ele estivesse bem, melhor do que aqui. Lá não existia nenhum Bruno e nenhuma Antônia que brincaria com ele como eu fiz.

Olhei para a nossa foto, a única que tiramos juntos, e sorri, sem perceber que uma lágrima escorria por meu rosto. Não me importava mais com as lágrimas, elas lembravam-me que alguma coisa havia sido real. Eram companheiras, e me traziam a esperança de que uma hora iriam cessar. Nunca pensei que tanto líquido poderia sair de mim, a partir daqueles dias.

O que mais me dói não é simplesmente perdê-lo, e sim não ter a chance de dizer a ele como eu me sentia diante disso.

Minha mãe me obrigou ir ao psicologo quando cansou de me ver abatida desse jeito. Usando apenas um pijama por preguiça de trocar-me, sentei-me no banco de trás do carro vendo eu estar próxima de um lugar aonde só pessoas loucas vão. Talvez eu estivesse enlouquecendo, não me assustaria.

No fim da sessão, a resposta da mulher foi certeira: Senhor e senhora, a filha de vocês está bem, em partes. A não ser por um detalhe: Está completamente apaixonada, uma paixão com o estágio avançado. Podendo até ser até usada agora a palavra amor. Experimento fazê-la respirar novos ares, conhecer outras pessoas, talvez ajude.

Algumas semanas se passaram, Bianca e Gabriel finalmente estavam juntos. Não namorando, mas com ficadas sérias. Eu estava feliz por meus amigos, confortava-me saber que pelo menos alguém ao meu lado estava realmente feliz, chegava até a me contagiar com suas alegrias e risadas quando estavam por perto. Mas era só eles saírem por minha porta, indo embora, deixando-me mais uma vez sozinha, que a dor e a solidão tornavam-se presentes em minha vida.

Mas eu também não me importava com isso.

As memórias tornando-se mais frequentes em minhas ideias fizeram-me notar que eu estava a ponto de cair em um abismo no meu próprio eu que poderia não ter mais volta. Então eu entendi o que Eduardo passou quando Margareth o deixou.

Fechei meus olhos e a sensação de seus lábios nos meus causaram-me calafrios, então eu abri os olhos, e a ilusão espalhou-se pelo ar. Até as coisas mais simples, como trocas de sorrisos e palavras, desencadeavam alguns sentimentos bons.

Se isso não era paixão, eu não sabia o que era. Portanto, eu já sabia que estava condenada eternamente.

Assim era o meu ritual de dia, quando o sol ia embora trazendo a noite, eu só caminhava até o meu quarto, deitando-me na cama e deixando mais uma vez as lágrimas me dominarem.

Meus pais cansaram de me ver assim, então tomaram uma medida que jamais tomariam, nunca permitiram que eu viajasse sem eles. Ligaram para o meu tio paternal e ele ficou feliz ao saber que eu o visitaria por um tempo. Quer dizer, ficaria lá por alguns graças as minhas férias.

Lá eu seria obrigada a visitar pontos turísticos, blá blá blá e etc.. Aqui, provavelmente, eu passaria os dias apenas respirando e meus pais sabiam disso.

Pensando bem, acho que uma viajem me faria bem. Com esses pensamentos positivos, arrumei a minha mala com a intenção de fingir estar bem. E, inesperadamente, consegui.

Estava pela primeira vez orgulhosa de mim.

Notas finais
Postei mais um porque estava devendo isso a vocês (: Agora é assistir o jogo e desejar que o Brasil vença (y bjssss ana