— Jogo? — Indagou aparentemente confuso.

— Não se faça de bobo, Eduardo. Você. A maneira como está agindo. — Expressei-me enquanto o encarava.

— O que tem de errado? — Perguntou enquanto arqueava uma sobrancelha, sem deixar de me olhar.

— Deixa pra lá, isso não me diz respeito mesmo. — Dei de ombros, relaxando os ombros, mas sem tirar meus olhos dos dele. — Só não se isola muito, eu sei como isso faz mal. Eu já fiz isso e sou a prova viva de como é ruim. Por mais que pareça... Necessário. — Não havia mentira em minhas palavras, eu sentia a necessidade de dizer isso a ele. E era verdade. Eu já havia me comportado exatamente como ele, não permitindo que ninguém se aproximasse. Mas tudo mudou quando Bianca conseguiu passar pelo escudo que eu havia feito, de repente havíamos virado melhores amigas sem perceber. E hoje, sinto que isso foi a melhor coisa que já me aconteceu.

No meu caso não havia um motivo específico, era só o meu jeito. Sempre me achei diferente das garotas que me rodeavam, e esse meu jeito sempre pareceu ruim. Porém isso nunca me fez mudar, porque eu sabia que um dia ia achar alguém parecido comigo e com os mesmos pensamentos que eu. Ai a Bianca chegou e vi que a minha teoria estava completamente certa.

— Nem sei o seu nome e já quer me dar lição de moral? — Sua pergunta foi totalmente fria. Assim como seus olhos. Dava pra sentir a ríspidez a metros de distância.

— Desculpa. — Sussurrei, afastando-me um pouco. Desviei meu olhar tentando arrumar um jeito de me desvencilhar dali. Desencostei meu braço da cadeira, possibilitanto minha saída. — Desculpa-me por achar que eu poderia quem sabe te ajudar como você me ajudou. Mas, você é cheio de faces. Não sei com qual estou lidando agora, mas não gostei dela. Mais uma vez, desculpa. — Continuei sussurrando o suficiente para que ele escutasse e lhe dei as costas, deixando-o para trás.

Ele havia me irritado de uma maneira sem igual. Quem ele pensava que era para ser grosso comigo só porque tentei ajudá-lo? Tudo bem que eu não era a pessoa mais certa para lhe dar algum conselho, mas eu havia tentado, e não era disfarce. Não dessa vez.

Ele me chamou, fingi que não tinha escutado e aumentei meus passos até a minha sala. Pela primeira vez eu estava sentindo que era uma péssima ideia esse plano. Não porque daria errado, mas porque Eduardo era um completo imbecil.

Um imbecil que no final das contas me levaria até Bruno.

A tarde se passou sem muitas novidades. Aproveitei a noite para me divertir assistindo meu seriado preferido e detonei um pote de sorvete que tinha na geladeira. Provavelmente minha mãe descobriria e ia começar a encheção de saco, só que me preocuparia depois com isso.

Gabriel ligou-me e eu ouvi a voz de uma garota atrás do telefone, e fiquei assustada quando comparei a voz com uma das meninas da minha sala, a tal de Patrícia. Eu esperava que fosse coisa da minha cabeça. Era só o que eu esperava. Quando terminei tudo o que me dava vontade de fazer, peguei meu celular e coloquei umas músicas, escutando-as enquanto meus olhos estavam fechados. Estava de qualquer jeito jogada no sofá, com os pés pra cima e os cabelos bagunçados. Meu celular apitou e era uma mensagem da Bianca.

''Estou na pracinha, perto da sua casa. Vem pra cá, tô sozinha. Beijos e não demora, lerda!''

Revirei os olhos ao ler, até parece que eu demoro pra me arrumar. Pelo contrário, ela é quem demora séculos só pra escolher entre duas blusas exatamente iguais. Eu não a entendia e preferia não entender. Subi para o meu quarto que nem um bicho preguiça de tão indisposta e cacei uma roupa qualquer. Achei uma blusa preta e de manga cumprida no canto do guarda-roupa e a vesti, Pois provavelmente lá fora estaria fazendo frio. Ela era fininha, esquentava o suficiente. Vesti uma calça e calcei uma rasteirinha qualquer, prendi o cabelo em um coque e estava pronta.

Peguei um pouco do meu dinheiro guardado e caminhei entre as ruas a caminho da sorveteria que ficava em frente a pracinha. Era o ponto de encontro de quase todo mundo, por ser perto das casas de muitos alunos e por de vez em quando ter algumas brincadeiras e competições ali.

— Até que não demorou. — Falou ao me ver chegar, sorrindo. Sorri de volta, em paz. — Então, vai pegar sorvete? — Perguntou arqueando uma sobrancelha. Provavelmente já sabia a minha resposta.

— Claro, né. — Respondi revirando os olhos. — Quando eu recuso sorvete? — Me fiz de indignada. Bianca apenas riu, ajeitando-se na cadeira.

— Nunca, sorveteira. — Brincou. Assim que a garçonete chegou fiz meu pedido e logo trouxeram. Enquanto comia olhava o movimento da pracinha, hoje estava calmo e não tinha visto nenhum conhecido ainda.

— Você não sabe da melhor. — Bianca fingiu estar animada enquanto falava, embora eu soubesse que queria na verdade re revirar os olhos e vomitar. Sinal que a notícia não seria muito boa assim.

— O quê? — Perguntei colocando a colherzinha cheia de sorvete na boca.

— Gabriel dispensou vir pra cá porque como ele diz — Deu uma pausa preparando-se para imitá-lo. — ''Estou fazendo o trabalho com a minha dupla. E é a Patrícia sim, mas não tem nada a ver, Bia. Agora me deixa em paz, até amanhã minha loira. '' Ah, tomar no cu dele. Ficar dando intimidade pra essa ai. E ainda me chamar de minha loira? Que eu saiba a única loira dele é a Patrícia! Aquela loira de farmácia! — Reclamou. Eu não aguentei me segurar e soltei uma risada. Ela encarou-me. — O que foi? Eu disse algo errado? O palhaço da história é ele! — Exclamou mal-humorada. Parei de rir na hora, tentando me conter ao máximo que conseguisse.

— Não tem nada de errado, amiga. Só que é hilário ver você... Bem, com ciúmes do Gabriel. — Expliquei. Ela revirou os olhos.

— Eu com ciúmes? Agora é você que está dizendo algo completamente sem sentido. — Murmurou.

— Não vou discutir, mas que você está com ciúmes, está. — Insisti. Bianca cerrou os olhos. — Mas vamos esquecer isso porque, caso contrário, você explode, nunca te vi tão vermelha. — Levantei as mãos rendendo-me.

— Acho bom. Ele pode fazer trabalho com quem quiser. — Assenti, concordando com ela. De repente, ela não aguentou ficar quieta e voltou a falar sobre ele. — Mas está na cara que a Patrícia dá em cima dele descaradamente. E que de longe dá pra perceber que a cor do cabelo dela não é natural. Parece uma franga de cabelo loiro. — Acabou voltando ao assunto sem querer. Eu ri dela, por mais que tentasse esconder, estava clara sua insegurança.

— Ninguém é mais linda que você, amiga. E posso garantir que o Gabriel sabe disso melhor que ninguém. — Confortei-a notando sua enorme insegurança. Pelo visto ela gostava dele, e sabendo disso, sabia que a opinião dele era a que mais importava. Ela suspirou, provavelmente tentando acreditar nas minhas palavras.

— Tem certeza? — Sua expressão era de dar dó.

— Absoluta. — Confirmei pegando na sua mão, sorrimos juntas.

— Ok. Vamos falar outra coisa. — Bianca pediu voltando ao normal e tirando sua mão da mesa. — Como vai o plano maligno? — Perguntou exagerando nas palavras.

— Acho que você estava certa. — Sussurrei enquanto abaixava a cabeça. Voltei a olhá-la. — O plano era perfeito, a não ser por um detalhe. — Murmurei mexendo a colherzinha na vasilha.

— Qual? Além dos muitos que você não quer nem imaginar?

— Ele é um imbecil. Um grosso. E, aliás, eu prefiro me aproximar da Jéssica do que dele. — Dizia emburrada. Ela entreabriu a boca confusa.

— Ops, isso é um mau sinal. Vai desistir? — Fez a pergunta que rodeava minha cabeça desde cedo. Era difícil respondê-la agora. Suspirei contrariada.

— Não sei. Talvez o Bruno faça com que valha a pena todo o esforço que eu depositar nesse plano. Mas confesso que será um desafio e tanto fingir que não me incomodo com o jeito rude dele. — Confessei, terminando de tomar meu sorvete.

— Ele é tão rude assim? — Bianca custava acreditar pelo jeito.

— A frieza que ele coloca nas palavras faz a palavra rude parecer fichinha perto da vontade que ele tem de querer afastar as pessoas. Ele meio que se camufla, eu não sei explicar, pois não o conheço direito. Mas ele é cheio de reações, totalmente distintas. Uma hora eu me aproximo e até consigo soltar alguns sorrisos verdadeiros sabe, e em outra hora ele é um grosso fazendo comigo o que faz com todos. Querendo me afastar dele. Como se isso fosse um objetivo de vida. — Suspirei frustrada. Bianca sorriu desconfiada.

— Não sei por quê. Entretanto, acho que tem algo por trás disso tudo. O bom de você continuar com esse plano é que, se você conseguir ultrapassar esse escudo, descobrirá os motivos dele. Mas não devem ser tão horríveis a ponto de ele ter matado alguém. Relaxa. Deve ser apenas os hormônios masculinos falando mais alto. — tentou me tranquilizar, arregalei meus olhos.

— Mas... — Dei uma pausa, prendendo a respiração por alguns instantes. — E se por acaso ele matou alguém? — Continuei com os olhos arregalados.

— Qualquer coisa você anda com uma arma na calcinha, amiga. — Falou naturalmente. Eu ri, pegando uma batatinha da porção que ela havia pedido e jogando em sua direção.

Notas finais
Desculpem a demora. Ai está, até o proximo que talvez postarei essa noite. Bjsss