Te amar não estava nos meus planos
10 Um pedido de desculpas.
Eduardo
Os dias no colégio pareciam longos e monótonos. A não ser quando a garota da blusa manchada se aproximava. Ainda não sabia o seu nome, e isso me deixava irritado. Em todas as oportunidades que me surgiram, vacilei de alguma forma esquecendo-me de tirar minhas dúvidas. Eu ainda permanecia um pouco inseguro, e o pior era ver sua semelhança quase irreal com Maggie, isso fazia com que a minha defesa perto dela duplicasse. Não que eu dependesse de uma defesa, porém, era inevitável. Mas isso não me importava mais.
Não sabia o motivo, mas tinha algo que me fazia querer fitá-la por mais tempo. E me aprofundar nisso para quem sabe entender o por que parecia errado pra mim. E eu não faria, não mesmo. Irritei-a, sim. Fui um tanto rude. Entretanto, assim era melhor, não poderia deixar ninguém se aproximar tanto quando na verdade você não quer confiar em mais ninguém. Fiquei deslocado por vê-la chateada, não queria que ficasse assim, não, me sentia um pouco egoísta por agir desa maneira sendo que quem se beneficiaria seria somente eu.
Mas, depois de tanto tempo com a cabeça girando e não conseguindo pensar em outra coisa a não ser a pequena discussão de hoje mais cedo, percebi que também existia um outro motivo por eu estar tão inquieto: O que ela tinha me dito. Querendo ou não, tocou-me de forma extraordinária. Fazendo-me pensar naquelas palavras o resto da noite.
Eu estava em casa, sozinho em meu quarto sentado numa cadeira em frente ao computador. Ameacei ligá-lo, mas desisti quando encostei o dedo no botão. Fazia muito tempo que eu não entrava em alguma rede social, e eu aguentaria por mais um tempo. Desligar-me do mundo parecia ser menos doloroso, e aos poucos eu poderia voltar, quem sabe.
O que me irritava é que eu parecia ser o único que de fato me importei com algo, e isso me fazia criar mais ódio ainda por Bruno. Não nos esbarramos, mas certo dia, sem querer, o vi próximo a uma mesa rodeado de garotas com minissaias. Isso me fazia lembrar da vida dele e minha antes de conhecer Margareth: Mulheres, festas e loucuras. A parte de mulheres e festas ele sempre curtiu mais, no entanto, eu sempre fui apaixonado por loucuras. Como participar de rachas e pular de um helicóptero em pleno movimento.
Uma coisa era certa, a maior loucura que fiz na vida foi ter me apegado a uma garota, que no final, deixou minha vida até mais cheia de adrenalinas. Agora que eu não tinha mais paciência para bobagens de me entregar a alguma mulher, ou até mesmo de me apegar a alguém que não fosse minha mãe. Havia me tornado duas vezes pior: Praticava rachas quase todos os fins de semanas, geralmente me ligavam pra avisar; conseguia uma bela quantia de dinheiro graças as lutas (ilegais) que eu vencia, e eu sempre vencia; E de vez em quando com algum esporte só pra equilibrar.
Só que agora eu estava o oposto do que eu normalmente sou, fora do colégio, é claro. Estava calmo e pensativo. Sem nenhum tipo de agitação, sem nenhum tipo de movimento a não ser a que minha respiração causava. Cheguei a conclusão que a minha atitude havia sido muito radical.
Teria que dar um jeito de me desculpar e fazê-la dizer ao menos seu nome. Me daria por satisfeito. Assim seria.
Quarta-feira. Fui à aula e aproveitei pra passar o intervalo debaixo da árvore onde havia visto a garota da blusa manchada antes. Felizmente ela não foi ali de novo, e ninguém me encheu a porra do saco. Aproveitei o pouco do tempo que eu ainda tinha e liguei para Ícaro.
Inicio da ligação:
— Já chegou? — Perguntei de forma direta.
— Nem sei porque estou te ajudando. — Ícaro reclamou mais uma vez, escutei o barulho de uma vasilha caindo.
— O que você tá fazendo? Tá fodendo com o plano não né? — Questionei. Ele negou, é claro. — Vem cá, você ainda acha que essa é a solução certa? Porque, velho, pode dá impressão errada. Eu não quero me tornar amigo dela. Nem ao menos colega. — Destaquei. — Quero apenas pedir desculpas, só isso.
— Faz assim: Tenta conversar com ela, hoje. Se der certo e ela desculpar, beleza, eu pego essas flores e mando pra uma gatinha que estou interessado. — Como sempre cara de pau, é, esse é o Ícaro. O conheço desde pequeno, apostávamos corridas e no vídeo-game quando éramos pequenos, o único que mantive algum tipo de contato e que de certa forma confio.
— E se ela não aceitar as desculpas?
— Ai tu faz o que você planejou já, mano. Só toma cuidado pra ela não se apaixonar em, porque flores sempre deixa as mulheres... você sabe... — Ícaro alertou-me. Sorri de lado.
— Relaxa. Nem nos conhecemos direito para ela fazer esse tipo de suposição, e, aliás, normalmente as flores vermelhas é que representam algo. Peguei só violetas mesmo, pareciam as melhores.
— Por que não pegou uma de cor clara? Deve ter um significado melhorzinho né. — Reclamou.
—Ih, veadinho. Vou discutir a cor da flor não. Deixa essas flores na porta dela e some, desaparece. Não deixa ela te ver. — Disse por fim. O intervalo acabou então tive que desligar o celular.
Levantei e fui para a sala, perguntando-me porque não pus uma câmera pequena no buquê para ver sua reação.
No mínimo seria estranhamente gratificante.
Antônia
O dia de repente mudou de cara. A chuva começou a descer, eu estava ensopada, pois já me encontrava no meio do caminho da escola. Não tinha trago sombrinha, por mais que minha mãe insistisse que eu trouxesse, fiz pirraça. E aqui estou eu, arrependendo-me amargamente de não ter escutado-a. Apressei-me com os passos e por estar vestindo um casaco, pude me aproveitar um pouco do capuz. Quando cheguei no colégio, tirei o casaco e pedi uma sacola para a tia da cantina, que me deu sem problemas. Coloquei o casaco dentro da sacola e pus na minha bolsa para que não molhasse meus livros e cadernos.
As primeiras aulas se passaram direto, ainda bem. Pelo tempo estar frio, sentia um sono infernal e uma vontade insaciável de ir para casa e dormir o dia inteiro se eu puder.
(...)
— Bianca, eu não acredito que você fez isso. — Arregalei meus olhos encarando-a. Ela assentiu e colocou o canudinho na boca sem se arrepender do seu ato.
— Fiz. E na próxima faço de novo. — Falou de forma debochada.
— Pelo jeito você adora mesmo cutucar a onça com vara curta. — Revirei os olhos.
— Aquilo tá mais pra capivara né. — Murmurou.
Não aguentei e ri novamente, prendendo as mãos na barriga ao imaginar a cena. Ela definitivamente não batia bem, e tudo isso por causa de apenas um motivo: Ciúmes. Nunca pensei que o ciúmes poderia me fazer gargalhar tanto. Ela tinha me contado que flagrou o Gabriel conversando com a tal Patrícia na maior intimidade, e por conta da raiva que sentiu, caminhou cinicamente até eles e, quando não aguentou mais as provocações vindas da tal Patrícia, despejou seu suco nela alegando ser sem querer com a cara de abusada dela que eu bem conhecia.
— Só pra constar, foi ela quem pediu. — Bianca deu de ombros ao comentar. Ri mais uma vez, acho que agora suas ideias clareando mais uma vez, ela devia estar percebendo o quanto seu temperamento era engraçado. — Mais uma vez ele está olhando para cá. — Notou. Ameacei me virar, ela me impediu. — Não vira agora, não dá tão na cara. Eu sei que você quer se ''reconciliar'' com ele por causa do plano, mas vai ser muito melhor você se fazer de difícil. Ver se nesse tempo ele te procura e da a entender que você só aceitou suas desculpas por conta da atitude dele, não se desespera. — Alertou-me, e eu sabia que ela tinha razão.
— Ele não vai procurar, está se lixando pelo modo que me tratou. — Suspirei ao dizer o óbvio, brincando com o canudinho conformada.
— Ei, na verdade ele está acostumado. — Corrigiu-me.
Dane-se o motivo.
Eu tinha que mudar essa situação para me aproximar. Tudo por uma causa maior, eu suportaria. É.
— Mas pelo jeito que ele está olhando pra cá, não parece que está se lixando. Tenho quase certeza que ele vai te procurar, sim. Mas não aceita de imediato, pode aceitar as desculpas numa próxima tentativa.
— Se houver. Porque uma tentativa será um milagre, imagina duas. — Revirei os olhos, não tinha sentido. Ele não tinha motivos para querer se desculpar, ao contrário de mim, que tinha.
O intervalo acabou. Segui com a minha amiga em direção à sala de aula. E, de repente, Eduardo estava no corredor escorado na parede me olhando como se pedisse que eu fosse até ele. Fingi que não o vi e segui direto, olhei por cima do ombro, vendo-o se afastar da parede e nos seguir encarando-me de forma até exagerada, com uma seriedade tremenda e parecendo impenetrável.
— Vai logo, antes que eu me irrite com ele seguindo a gente. — Bianca murmurou.
Deixei-a e virei-me, indo até ele. Ao perceber que estava caminhando em sua direção, Eduardo deu um sorriso articuloso.
— Sempre segue meninas indefesas dessa maneira, maníaco? — Indaguei arqueando a sobrancelha, fazendo-o soltar uma risada pela primeira vez. Sorri ao perceber como era raro atitudes dele assim, e que, por mais que seu jeito confiante e autoritário fossem legais, seu jeito descontraído parecia ser melhor ainda. Parei de sorrir no momento que já estava dando na cara demais. — Fala logo o que você quer. — Não me importei em ser grossa.
— Queria, é... — Eduardo desviou o olhar, não demorou muito e olhou-me novamente, agora fixamente. — Pedir desculpas pelo modo que falei com você. — Fiquei em silêncio por um tempinho. Iria aceitar, eu queria ficar de bem para seguir com o plano. Mas as palavras de Bianca me vieram à mente, e, por mais que eu desejasse aceitar suas desculpas agora, seria interessante ver o pedido se repetir.
— Então toda vez vai ser assim, né? Vai me tratar mal, como deve tratar todo mundo e depois vai vir pedir desculpas? — Fingi uma cara de inconformada. — Desculpas não aceitas. Dispenso-as. — Sem mais delongas, virei-me e caminhei até a minha sala, deixando-o estático ali, no meio do corredor, me vendo entrar na sala de aula. Fiquei com receio que o pedido não fosse se repetir, porém, qualquer coisa iria até ele e diria que com muito sacrifício o perdoaria porque odeio guardar mágoas. É.
As aulas se passaram, e ainda bem que na volta não chovia. Por isso desisti de ligar para casa a fim de pedir que viessem me buscar. A primeira coisa que fiz foi pegar a blusa na sacola e tomar as devidas providências. Sim, dar pra minha mãe que ela saberia o que fazer — E o que não fazer. Meus pais saíram para trabalhar e eu corri até o meu quarto, tirei minha roupa e vesti um top e um shortinho folgado, prendi meu cabelo num rabo-de-cavalo alto e minha franja numa presilha para que não me atrapalhasse. Desci. Lavei a louça suja escutando música. Comecei a limpar a casa, gostava de arrumar principalmente quando eu estava sozinha. Por mais que eu gostasse de escutar música alta, não deixei o volume lá em cima, mas um pouco acima do suficiente. Gostava apenas de pop rock e rock mesmo. Depois de apertarem a campainha umas mil e uma vezes, escutei-a. Corri até a porta e não tinha ninguém. Estranhei. Fechei a porta e franzi o cenho, perguntando-me se sempre brincavam dessa forma.
Mas foi ai que eu me lembrei que tinha visto algo meio roxo no chão. Abri novamente a porta e vi um buque no chão. Achei mais estranho ainda. O peguei e tranquei a porta. Perguntei-me por pensamento se era pra minha mãe, não tinha sentido alguém enviar para mim. As flores eram lindas, e estavam em um arranjo muito bonito também. Havia amado.
Apesar de ficar intrigada com a cor das flores. Aproveitei que o google estava aberto no meu notebook, e procurei o significado daquela pigmentação: calma, autocontrole, dignidade e aristocracia. E, sem querer, essas qualidades lembrou-me apenas de uma pessoa: Eduardo. Isso me deixou um pouco curiosa, e por conta disso conferi se tinha algum cartão ou coisa do tipo. Era patético essa atitude — esperar que fosse dele. E ao mesmo tempo, revigorante. Nunca havia recebido flores, e por mais que fosse nada demais se tratando dele, uma pequena alegria havia surgido dentro de mim. Acabei encontrando o que eu tanto procurava. Era simples e as letras eram delicadas. Provavelmente ele mesmo escreveu. Por mais delicada que fosse a letra, numa possível tentativa de ser amistoso, estava claro que estava masculina demais pra ser de alguma mulher.
'' Garota da blusa manchada,
Venho por este cartão pedir suas desculpas pelo modo que a tratei naquele dia. Normalmente não pediria, normalmente não me importaria, mas estou aqui pedindo que apague o meu erro e, de alguma maneira, possa compreender meus motivos.
Eduardo. ''
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