Te Darei Para Sempre Meu Coração
3 Capítulo 2
Dois
A temporada está para começar e o baile da Condessa de Rowlling dará a abertura oficial como todos os anos! Preparem seus trajes meus queridos que esta temporada promete! Lord Buckingham (o conde, não o Duque) finalmente voltou de sua viagem. O que é causa do rebuliço e expectativas entre as damas. Nosso querido Willian Radcliffe, Marquês de Millbury anunciou novamente que poderia estar à procura de uma noiva (o que francamente duvido, afinal nosso Marquês é ótimo em dar anúncios falsos — não se esqueçam de Lady Tessa!- ) e nossa tão falada senhorita Powell continua sem ser achada. A pedido de Lord Powell e Lord Bawlling O Último Grito gostaria (é obrigado) de se retratar, a senhorita Powell continua sim noiva do senhor Bawlling. Segundo Lorde Powell o desaparecimento de sua filha não é motivo para desmanchar o compromisso e Lord Bawlling enfatiza que está em pleno acordo com Lord Powell. Então senhorita Powell está avisada, esteja onde estiver ainda continua comprometida.
JORNAL O ÚLTIMO GRITO, PÁGINA 5
POR SOCIEDADE ANÔNIMA
19 de fevereiro de 1811
Jennie continuava a chamar sem sucesso por Horrorosa. Desde o começo da semana Horrorosa deu por começar a desaparecer. O que era estranho. Desde sua estadia em Buckinghamwood, Horrorosa não saia da vista da dona. A não ser que se considerassem seus passeios por uma ou duas horas. Ou quando Lorde Buckingham ia caçar. Ou quando a cozinheira fazia algum prato com carne. Certo. Talvez Horrorosa não ficasse sempre onde Jennie pudesse vê-la. Mas nunca sumia por tanto tempo. Chamou-a novamente.
Hum. Hum.
- Sabe — ouviu as suas costas. — não deveria chamar a uma dama assim.
- Oh. Horrorosa não é uma dama. — pensou. — Bem, talvez seja. Mas não é uma pessoa. -explicou-lhe distraída. — É meu cachorro. Sumiu.
Quando se virou para ver com quem falava não esperava esbarrar-se com um homem bonito e viril. Nunca tinha visto um homem tão bonito em toda a sua vida. Era até mais bonito que seu irmão John. E John era muito bonito com seus cabelos negros e olhos tão verdes quanto os dela. Esse homem a sua frente não tinha nada de cabelos negros ou olhos verdes. Seu cabelo era de um ruivo intenso, quase cor de fogo e sentia que seu olhar lhe perfurava a alma. Como se conseguisse vê-la por completo. Estava louca. Era claro que o homem a sua frente não conseguiria ver-lhe a alma. E nem saber de seus pensamentos. E nem saber que era... era...
- Chama seu cachorro de Horrorosa? — Ele parecia surpreso. E por que não? Parecia que todas as pessoas que sabiam sobre o nome de Horrorosa ficavam surpresas.
Deu os ombros. — Só atende por esse nome. — Respondeu. Não havia necessidade de dizer que ela tentou de todas as formas possíveis trocar o nome do seu cachorro sem sucesso. Tudo começou como uma brincadeira da criadagem de seu pai e BUUF, a cadelinha só atendia pelo nome de Horrorosa. Se não fosse tão lastimável poderia chegar até a ser engraçado.
- Entendo. — suspirou. — E você é?
- Ginger. Me chamo Ginger, senhor.
- Um ornamento da casa... — Murmurou o homem entre dentes.
- Perdão? — Jennie achava que tinha ouvido mal. Um ornamento? Sou um ornamento? Não sabia por que, mas ouvi-lo chamar-lhe de ornamento a fazia se sentir diminuída. O que era estúpido. Frequentemente Lady Buckingham e Janet referiam-se a ela como um ornamento da casa para contrariar Lord Buckingham. O que ela até de certa forma achava engraçado. Mas quando ouvia esse homem chama-la assim...
- Disse alguma coisa? — perguntou ele confuso. — Sinto muito, devo ter pensado alto. — suspirou. — Sou James. — apresentou-se apenas com o seu nome.
Jennie sentiu seus olhos arregalarem-se. Oh, céus! Era James, o Conde de Buckingham, herdeiro de Lord Buckingham! E ela falou com ela como se Ginger fosse seu igual. Ginger não era mais que um lacaio. Pensando bem, talvez fosse sim um pouco mais que um lacaio, sua posição na casa nunca ficou bem definida. Mas era menos que um mordomo. Tinha certeza.
- Sinto muito. — desculpou-se. — Não deveria ter falado com tanta familiaridade com o senhor, Lord Buckingham.
Ele gemeu.
Gemeu?
- Lord Buckingham? — perguntou confusa. Buckingham gemeu novamente com a expressão contraída. Expressão contraída?
— Por Deus. Pare de me chamar assim. Parece que está se referindo a meu pai. — Chiou ele.
- Perdão?
- Meu pai. Lord Buckingham é pai. Eu sou James. Eu não gosto... — Ele começou a balançar as mãos como se tivesse dificuldade em terminar a frase.
- De ser referido como seu pai. — Jennie completou.
- Evito sempre que posso. — Desabafou. — Quando se referem a mim como Lord Buckingham... — suspirou. — sinto-me... Sinto-me como se de alguma forma estivesse tomando a lugar de meu pai... me sinto um tolo por pensar isso agora.
- Não é. Não é um tolo por pensar assim. — Jennie não sabia de onde vinham essas palavras, mas tinha certeza de que eram verdadeiras. James Buckingham não era um tolo por ter medo de tomar o lugar de seu pai. — É admirável. Mas seu pai não seria Sua Graça ou Alteza? — Brincou.
– Talvez. — Deu um sorriso preguiçoso. — mas mesmo assim sinto-me estranho.
James a encarou penetrante, o azul de seus olhos parecia mais escuro do que uns momentos antes e Jennie sabia que seria beijada. Como sabia? Não sabia. Por um momento tinha certeza, esse homem a beijaria. O que era impossível. Afinal era Ginger. Um lacaio. Um ninguém. Um homem.
Hoof! Hooff!
Ela deu um pulo assustada. E o momento passou.
-Horrorosa! — Exclamou exasperada. Não sabia se estava irritada ou aliviada por ter sido interrompida.
A pequena cadela a encarava com um ar severo. Como se soubesse exatamente o que sua dona estava pensando. Estava perdida! James era um homem perigoso, tão perigoso quanto o estranho a surpreendeu no lago. Deveria manter distância dele. Não! Manteria distância dele.
Se o cachorro não os tivesse interrompido James nem poderia imaginar no que teria acontecido. Não. Poderia sim! Um desastre! James o teria beijado. Um verdadeiro desastre. Janet tinha razão, o garoto era diferente. Tinha certeza de que sua irmã não se referia a isso, mas não deixava de estar certa. Diabos! Nunca foi inclinado a esses tipos de coisas! Sabia que tinham homens com essas preferências, mas não ele. Nunca! Gostava de peles macias e lábios carnudos. Gostava de seios fartos e quadris largos. Gostava de... a imagem da garota nua no lago inundou suas mente. Tão divina. Tão perfeita. Tão...
Pare com isso. Pensou mordendo a língua. Tem que se acalmar! Se não o desastre pode tomar proporções épicas.
Conferiu seu relógio. Ótimo. Se caminhassem vagarosamente de volta para casa poderiam chegar na hora exata do café da manhã. E se tivesse sorte, jamais falariam sobre esta bendita manhã. Aliás, falar o que? Não havia acontecido nada.
-Ginger. -chamou. O garoto continuava ainda olhando seu cachorro. Céus! Aquilo era um cachorro? Não se parecia com um. — Se voltarmos agora nós poderemos chegar na hora do café.
Por um momento o garoto o olhou com se tivesse ficado louco. — Eu não tomo meu café junto com a família, Lord Buckingham. — James evitou gemer. Será que o garoto havia esquecido seu pedido? Decidiu deixar passar.
- A duquesa não o avisou? — Perguntou calmamente. Sua mãe frequentemente bolava seus planos e esquecia-se de avisar as partes envolvidas.
- Avisou-me? — o garoto parecia em pânico.
- Bem. Suponho que não. A partir de hoje será meu pupilo. — James informou sentindo uma pequena onda de satisfação em ver o garoto perder sua cor.
- Está... está... — Ginger começou a granar com a voz um pouco fina demais. Se não soubesse que era Ginger, James poderia ter confundido com a voz de uma mulher.
Uma mulher? Não seja ridículo James. É um garoto.
— Estou certo de que está na hora de voltarmos. – Avisou. — Aliás, não me informou como se chama.
- Ginger.
- Sei que é Ginger, mas e o resto? — Retrucou irritado enquanto começavam a voltar.
- Só Ginger, Lord Buckingham. — Respondeu enfatizando o titulo de James. De propósito! O garoto estava fazendo de propósito. Se o garoto queria a guerra, a guerra teria!
James retornou todo o trajeto de casa irritado com Ginger em seus calcanhares. E se tivesse que apostar, apostaria que o humor do garoto estava tão sombrio quanto o dele. As inúmeras maldições que o garoto chiava quando achava que ele não estava escutando eram uma pista.
Até alguns momentos atrás Jennie sentia-se feliz. Desde que veio morar em Buckinghamwood fez todo o possível para desempenhar bem seu papel na criadagem. Admirava Lady Buckingham e de certa forma havia, na medida do possível, até criado uma amizade com Janet, que adorava. Sempre teve inveja das refeições da família, e até se imaginou em algumas delas. Porém agora que estava realmente participando de uma delas sentia-se com vontade de esmurrar alguém.
Um certo alguém.
Ainda era feliz. Mas nesse momento estava irritada e contrariada e tudo por causa da pessoa que estava sentada ao seu lado.
James.
Não era mais Lord Buckingham, milord ou Buckingham. Era James, o salafrário! Era James, que ela deveria manter-se longe. E acima de tudo, era James, que deveria passar algumas horas do dia sendo seu tutor. Tutor!
E por alguma razão James parecia feliz passando manteiga em seu pãozinho! Feliz! Enquanto ele estava feliz mastigando seu pãozinho ela tinha era vontade de jogar o resto dos pãezinhos contra ele.
- Está com uma expressão horrível. — murmurou James.
- Não me lembro de dar-lhe permissão para tanta familiaridade. -retrucou.
- Não me lembro da criadagem ter que dar-me permissão para algo.
- Não me lembro de você tutorear a criadagem.
- Então admite que não é parte da criadagem? — Os olhos de James brilharam quando ele se virou para encara Jennie.
- Eu... eu... — Gaguejou Jennie, mas antes que pudesse pensar em uma resposta foi interrompida pela entrada da Duquesa.
-Não sejam tolos. Fiquem onde estão. — Falou a Duquesa quando percebeu que os dois iam levantar. — Não ligo para essas coisas. Estamos em família.
- Não creio que estejamos só em família. — alfinetou James. Era um ogro!
-Oh, Ginger querido! Que maravilha que esteja aqui. Pedi para que Wilfred o chamasse, mas vejo que foi em vão. — Disse Lady Buckingham visivelmente ignorando o comentário de seu filho.
- Foi muita generosidade de sua parte convidar-me, Sua Graça. — como sempre, Jennie sentia-se tímida perto da Duquesa. Era tão brilhante e sorridente. Percebeu que James a interrogava com o olhar. Pelo visto ele não imaginava que ela pudesse ser educada ou ter modos apropriados.
- Oh, não diga isso! Sabe que está sempre convidado! — Lady Buckingham provou um toucinho. — Já provou isto? Estão divinos! — E num impasse pôs uma porção no prato de Jennie. Se Lady Buckingham não fosse Duquesa e Ginger não estivesse no nível da criadagem Lady Buckingham teria sido muito descortês. O que não ajudava muito, pois Jennie sempre odiou toucinhos. Arght. Agora teria que os comer.
- Mamãe, não deveria servir o ornamento da casa. É a Duquesa de Buckingham. — Espetou-lhe James novamente. Se ela não estivesse tão ocupada em encarar seu nojento toucinho teria lhe dado um chute.
- Não seja tolo James. Se não posso servir quem quero, não me adiantaria de nada este título.
-Mamãe, está obrigando Ginger a comer toucinhos novamente? — Meteu-se Janet sentando-se a mesa. — Troque comigo, Ginger. — Rapidamente Janet trocou os pratos e Jennie sentiu-se aliviada. James observava a cena incrédulo. De certa forma Jennie entendia, quando estavam em família os Buckingham era totalmente descorteses e inapropriados, se esse fato caísse nos ouvidos na nobreza provavelmente seria um escândalo, dado que Lord Buckingham, o Duque, era extremamente sério e reservado quando não estava só entre a família. O prato de Janet parecia bem mais apetitoso que o seu próprio. Não havia sinal de toucinhos. Jennie deliciou-se com um pãozinho, queijo e geleia.
-Toucinhos. — Escutou James murmurar intrigado. Mas antes que pudesse retrucar escutou Lady Buckingham.
- Janet. Seus cabelos. — Informou Lady Buckingham comprimindo os lábios. — A camisola.
- Mamãe! — Exclamou Janet contrariada.
Lord Buckingham pigarreou pouco antes sentar a mesa carregando um exemplar do Times . — Janet. Está indecente. — avisou-lhe por trás do jornal. — Ginger. Vejo que decidiu sentar-se hoje conosco.
- Estou em casa. Em família.
- Ginger está conosco. — Respondeu Lord Buckingham.
- Tenho certeza de que Ginger não se importa.
- Também certeza disso. Afinal que homem se importaria em ver a nudez de minha filha?
- É horrível. — Anunciou Janet impetuosa contra seu pai antes de levantar-se. — Como sempre irei acabar minha refeição em meu quarto. Sozinha.–Enfatizou.
-Espere! — Exclamou Lady Buckingham atraindo a atenção de todos. Limpou a garganta. — Tenho um anúncio a fazer.
- Receio que seja um pouco tarde para avisar-nos de que Ginger está à mesa. — Espetou o Duque por trás do jornal.
Lady Buckingham lançou-lhe um olhar mordaz antes de continuar. — Quero avisar a todos — limpou a garganta novamente. — que a partir de hoje, James, meu filho — por um momento encarou o filho com se o desafiasse a se opor. — será tutor de Ginger. — Satisfeita a Duquesa sentou-se novamente.
Tudo teria ocorrido tranquilamente se Lord Buckingham surpreso não tivesse cuspido involuntariamente o conteúdo de sua boca sobre seu jornal. Janet dava um sorriso afetado em direção ao pai enquanto via-o se engasgando em um acesso de tosse. Lady Buckingham surpreendida lhe estapeava as costas. Céus. Quando se afogasse Jennie tinha certeza que ficaria bem longe da Duquesa. James correu para ajudar seu pai e livrar-lhe dos tapas da mãe. Agora, Janet soltava gargalhadas no meio da confusão.
- Pare de rir! — Ralhou-lhe James nervoso.
- Oh! George. Esta exagerando de novo. Eu sempre soube que essas reações exageradas não lhe fariam bem. — murmurou Lady Buckingham.
- Preciso... de...preciso....de ar. — Ofegou o Duque. Seu ataque de tose estava passando e a veia de sua têmpora latejava mais que nunca. — Está louca! — ofegou ele antes de se levantar e sair. Lady Buckingham murmurou algo incompreensível antes de sair atrás do marido. Jennie achava que a palavra parecia-se com tolo ou ao similar.
Assim como Jennie, James e Janet continuaram na sala.
- Bem... -começou Janet servindo seu prato. — foi um espetáculo imperdível.
- Não deveria rir. Quase matou papai.
- Ora, James! Papai está muito bem. Não é um pedaço de pão que irá mata-lo. — E sem avisar levantou-se abandonando a sala com um enorme prato de comida em suas mãos.
-Pergunto-me o que ela irá fazer com toda aquela comida. — Murmurou James mais para si mesmo do que para Jennie. Então virou-se bruscamente para ela como se acabasse de perceber que ela ainda continuava ali. — Toucinhos. — Murmurou incrédulo como se não acreditasse no que dizia. Antes que Jennie pudesse responder qualquer coisa James deixou-a ali. Sozinha. Acabando seu café da manhã.
Deveria ter imaginado. O café da manhã dos Buckingham sempre acabava de maneira desastrosa. Revirando os olhos engoliu seu último pedaço de queijo.
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