Te Darei Para Sempre Meu Coração
1 Prólogo
Notas iniciais
Está é a primeira vez que tento escrever um romance histórico. Mas como sempre, acho divino saber como funcionavam as coisas na alta sociedade, cheia de regras e costumes para depois vir as senhoritas mais ousadas e quebra-las.
Prólogo
Jennie se encontrava sentada na banqueta em seu quarto enquanto as suas costas sua criada pessoal Lucy arfava estupefata. – Corte-o. – Repetiu enquanto contemplava suas longas ondulações. Sabia que poderia ser a última vez que as veria. Santo céu. Provavelmente era a ultima vez que as veria. Ela engoliu em seco. Sempre gostara de seus longos e sedosos cabelos castanhos que lembravam tanto a sua mãe.
– Mas senhorita Powell... – Lamentou Lucy antes de ser bruscamente interrompida.
– Corte-o. – Rosnou entre dentes perdendo a paciência.
– Mas senhorita – resmungou — tenho certeza de que o Conde não gastará nada disso. – a criada estava contendo as lágrimas. Jennie não poderia nem pensar no que aconteceria com Lucy se o Conde descobrisse que ela a ajudara. Sufocando um suspirou pensou que nem sempre sua vida era fácil. Correçāo, quase nunca sua vida era fácil.
– Muito bem. Se não o corta você, cortarei eu. – Jennie arrancou a tesoura das mãos da criada e atacou suas mechas sem nem ao menos piscar. Se perder seus cabelos era o que teria que pagar por sua liberdade poderia muito bem ficar careca e nem se importaria. Jennie logo percebeu que ter Lucy com ela fora um tremendo erro de cálculo, a criada soltava guinchos indefinidos e histéricos, algo haver com o Conde e as duas mortas.
– Oh, Deus – Lucy chorava vendo Jennie dar seus últimos retoques na horrorosa obra que ficaram seus cabelos. Sabia que desprovia de talentos com a tesoura.
– Isto está horrível. Provavelmente Horrorosa tem um corte melhor do que o meu. – Horrorosa era o nome da cadela que Jennie resgatara há alguns meses atrás. Por mais tratada que fosse, a pequena vira-lata nunca conseguia uma aparência melhor, sempre pequena, esquelética e barulhenta. Com seus tufos de pelos brancos desproporcionais e grandes olhos negros e esbugalhados, a pequena cachorrinha logo foi batizada de Horrorosa pela criadagem da casa e quando Jennie se deu por conta o cachorro só respondia por esse nome. Horrorosa.
– Provavelmente. – Concordou Lucy apertando os lábios para não rir. Os olhos da criada ainda continuavam vermelhos e inchados, porém seu humor já estava muito melhor. O humor de Lucy nunca a decepcionava. Uma vez Jennie confessara a seu irmão mais velho John, que sua criada teve pelo menos vinte mudanças em seu humor em uma única tarde. Vinte. Jennie tinha certeza que não tinha errado em suas contas. Claro que o irmão a acusara de estar mentindo. Como se fosse mentir sobre uma coisa dessas! E como se não fosse o bastante ainda a apontara como uma desocupada!
– Lucy! — Sabia do desastre, mas sua criada também nāo precisava ser tāo sincera e concordar com ela.
–Dei-me essa tesoura. – Pediu a criada se ocupando do corte de Jennie. – Céus! O Conde irá enlouquecer quando vir isso.
– Infelizmente o Conde não irá enlouquecer. — Ele nem sequer saberá. – Se o Conde soubesse que sua filha estava pretendendo sair na rua com um corte de cabelo masculino provavelmente iria sim, enlouquecer. Provavelmente esfolaria não só Jennie, mas também a todos que estivessem envolvidos.
Dois anos. Ela tinha passado dois longos anos planejando um meio de abandonar aquela casa. Não que fosse difícil abandonar a Mansão Powell. O Conde raramente estava na propriedade, seu irmão estava em Oxford e a criadagem era fácil de contornar. Porém ela ainda precisava de dinheiro, não podia simplesmente abandonar a casa sem um xelim no bolso. Seria uma tola se tentasse fugir sem dinheiro como teve vontade a dois anos atrás.
De alguma maneira a vida de Jennie havia tido mudanças significativas duas vezes já. Talvez agora tivesse sofrendo mais uma.
A primeira vez que sua vida havia de algum modo mudado foi há três anos atrás. Com apenas treze anos de idade Jennie sentiu a dor de um adulto. Sua mãe, Lilith, a Condessa de Powell havia padecido de uma doença e morrido. Alguma coisa dentro de Jennie havia mudado com a visão de sua mãe tão pálida e fraca, porém ela ainda não sabia o que era. Mas tinha certeza, ela havia mudado.
A segunda vez que Jennie tinha visto sua vida mudar, foi há dois anos atrás, um ano depois da morte de sua mãe. O conde havia anunciado que ela estava oficialmente comprometida, noiva de Gregor Bawlling, herdeiro de um condado, e quando atingisse a decente idade de dezessete anos iria se casar. Sua temporada em Londres nunca chegaria. Certo. Chegaria. Mas ela já estaria casada. O pior nem era não poder escolher seu noivo, mas havia ouvido os rumores. Todos haviam. O Conde de Bawlling era um velho odioso e avarento com um horrível histórico de espancar suas criadas até a morte. Nāo que se pudesse provar coisa alguma. Mas quem precisava de provas mais concretas do que criadas desaparecidas. E seu filho, Gregor Bawlling, diziam ser ainda pior. Quando Jennie analisou seu futuro como Condessa de Bawlling, o pensamento que estava até entāo inconscientemente guardado desde a morte de sua mãe, explodiu.
Não teria a vida miserável de sua mãe. Nāo teria!
O que todos sabiam era que Lady Powell havia tido o infeliz azar de contrair uma doença pulmonar e falecer. Um infortúnio, disseram. Mas Jennie sabia que esta não era toda a verdade. Não foi a doença que matou a sua mãe, mas sim a amargura. Lilith era infeliz. Recusava-se a comer. Recusava-se a se manter forte. E recusava-se a cuidar de seus filhos. Quando adoeceu já estava fraca. E continuou recusando-se a comer. E o pior, recusava-se a se tratar e a lutar contra a doença. Até que um dia, Jennie acordou e sabia que estava sozinha. Sua mãe se fora. E Jennie não podia alcança-la.
Não. Não. E não. Jennie não culpava sua mãe, mas não seria que nem ela. Não viveria miseravelmente, coberta de amargura e infelicidade.
Não seria sua mãe.
– Senhorita Powell, está feito. – Anunciou Lucy com as bochechas coradas visivelmente orgulhosa de seu trabalho. – Infelizmente não sei bem a moda de Londres, porém tenho certeza que está um corte passável.
– Oh, Lucy... está maravilhoso!
Algumas horas depois Jennie estava galopando para longe da Mansão Powell em um maravilhoso garanhão roubado direto da coleção particular de seu pai. O conde iria ferver em fúria quando desse falta de um de seus estimados cavalos. Felizmente ela estaria nessa hora muito longe de casa para testemunhar a cólera do conde.
O sol estava começando as cair quando Jennie se deu por conta que deveria achar um lugar para passar a noite. Sabia que deveria ter uma estalagem aos arredores, mas não sabia bem ao certo onde. Tudo o que via era e estrada e a densa floresta por onde passava. A ideia de dormir ao relento não era nada convidativa, estaria desprotegida do frio e poderia se tornar alvo fácil de bandidos. Mas demônios! Onde estava? Já fazia algum tempo que Alasão, seu cavalo, parara de galopar. Não queria leva-lo até a exaustão.
Para qualquer um que a visse, Jennie pareceria o filho de um nobre sem muitos recursos. Talvez um filho mais novo. Além do corte de cabelo que provavelmente não seguia a moda atual, estava usando as roupas antigas de seu irmão John, de quando ele tinha seus quatorzes anos, ou seja, de seis temporadas atrás. O engraçado é que não era só a roupa de John que estava usando. Mas as botas velhas e surradas de John. A carteira em desuso de John. Até a faixa que usava para esconder seus seios pertencia a John. Jennie não tinha a menor ideia da utilidade da faixa antes dela ter surrupiado-a. Nunca imaginaria que seu irmão iria se mostrar tão prestativo estando em Oxford. Quando John soubesse que Jennie não só tinha fugido como também havia levado parte de suas coisas ficaria furioso. Provavelmente amaldiçoaria e xingaria durantes semanas.
Mas não a delataria para o Conde.
John detestava o pai tanto quanto ela.
Parte do traje de John não era a única coisa que estava em posse de Jennie. Em sua cintura, ao lado da carteira de John, encontrava-se uma das pistolas de John.
Bem. Talvez, depois de tudo, seu irmão realmente a delatasse ao conde, sim. Como uma forma de vingança por ter levado suas coisas. A pistola provavelmente seria a gota d’agua.
Soltando um suspira ela bateu as rédeas do cavalo. O tempo estava passando e ainda não tinha um lugar para passar a noite. Não queria dormir com os mosquitos e muito menos com...
Ladrões!
Mas que maldito azar.
Silenciosamente ela desmontou de Alasão e os encaminhou para fora da estrada. Os ladrões estavam ocupados assaltando outras vitimas para perceberem Jennie e o cavalo abandonando a estrada. Se entrasse o suficiente na mata provavelmente poderia passar pelo grupo sem ser notada e logo depois continuaria sua viagem sem problemas.
Seria insensível e sem problemas... insensível... e sem problemas... insen...
– Merda. – Praguejou sussurrando enquanto amarrava Alasão em uma árvore de distância segura antes de ir arranjar... problemas.
Não foi muito difícil achar uma grande e desconfortável rocha para enxergar melhor o grupo sem ser vista. A situação parecia um pouco crítica para as vítimas que pareciam ser nobres (a carruagem caríssima denunciava). Haviam três bandidos, um deles estava com a pistola apontada diretamente para a cabeça do Lorde alguma coisa, um senhor de meia idade com algumas mechas grisalhas. Os que pareciam ser o chofer e o lacaio do Lorde alguma coisa eram grandes e musculosos e provavelmente bons lutadores, porém estavam imobilizados pelo medo do seu senhor ganhar um furo na cabeça. Enquanto a criada estava visivelmente engolindo soluços histéricos.
– Oh, George. – Miou uma senhora até então despercebida por Jennie. Ela sustentava um olhar bondoso em direção a Lorde alguma coisa, cheio de ternura e preocupação. E talvez, algo mais. Amor. Ela o amava.
Jennie nunca tinha visto o amor, mas de algum modo tinha certeza, aquela mulher amava o tal de George.
– Cala-se Margaret. – Balbuciou George lançando um olhar de pânico para a mulher. Visivelmente não queria que ela chamasse a atenção dos bandidos para si.
Ele a amava também.
Ele amava a mulher tanto quanto ela o amava.
Tinha que ajuda-los. Não sabia por que, mas tinha que ajuda-los.
Com um novo vigor Jennie passou a analisar a cena mais friamente. Uma brecha. Precisava achar uma brecha.
O primeiro ladrão estava totalmente concentrado na tarefa de apontar a arma para o refém. Provavelmente não poderia ser muito inteligente, já que parecia ter toda a sua atenção nessa tarefa. O segundo ladrão estava ocupado demais em esvaziar a fina carruagem do casal. Não teria uma resposta rápida o bastante a um ataque inesperado. E o terceiro ladrão... bem o terceiro de algum modo parecia estar no comando... mas.... aquele homem tinha alguma coisa que a incomodava. Mas não sabia dizer o que era. Parecia como se fosse algo familiar. Talvez seus gestos. Ou poderia ser seu porte. Ele parecia diferente dos outros dois. De certa forma, parecia... hum... instruído.
Ela sentia-se algo desconfortável analisando ele. Como estar diante de um cheiro ruim ou algo um pou...
Jennie engasgou. Oh, Céus! Sabia o que a incomodava!
Oh, Céus!
Um nobre! É um nobre!
E como se essa fosse a palavra chave, descobriu a segunda razão de seu mal estar.
Meu... Deus!
A criada surtou começando a soluçar.
Jennie tinha uma distração.
Click.
O tempo pareceu parar quanto Margaret ouviu o engatilhar de mais uma pistola. Um garoto (não deveria ter mais de quinze anos) apontava uma pistola diretamente para a cabeça de um dos assaltantes. Santo céu! Já não bastava a tola de sua criada que não conseguia se acalmar e agora se juntava a eles uma criança idiota que tentava bancar algum tipo de herói.
– Muito boa tarde, senhores. – Cumprimentou o jovem com a voz ligeiramente mais fina do que Margaret esperava. – E senhoras. – acrescentou. Levantando o olhar para analisa-lo melhor logo percebeu que se tratava de um jovem bonito. Muito bonito. Apesar das roupas velhas e surradas o garoto era definitivamente parte da aristocracia. Talvez o filho mais jovem de um barão.
Poderia passar-se por uma mulher. Antes que pudesse impedir o pensamento explodiu em sua mente. Céus! O que estava pensando? Claro que o garoto parecia um tanto delicado, mas sabia que existiam alguns que eram assim.
– Oliver! – Gritou o bandido que estava sendo ameaçado pelo garoto.
O homem que até então estava vasculhando a carruagem pôs a cabeça para fora.
– Oliver. – chamou o garoto calmamente. – Sugiro que continue onde está. Posso ser bem rápido quando quero. E sei que não me importaria nem um pouco de explodir a cabeça desse senhor.
– Sabe... se tivesse certeza de que nunca o vi em minha vida, acharia até que isto é pessoal.
– Isso com certeza não têm nada de pessoal, meu senhor. Ou deveria chama-lo de milorde? –Milorde?– Seu pai com certeza não ficaria satisfeito de saber de suas atividades. E seu irmão? O que pensaria?
– Meu... meu...meu... – Gaguejou o ladrão perdendo a cor do rosto. Estava visivelmente nervoso. Milorde. Interessante. Talvez o garoto não fosse tão idiota quanto parecia.
– Pai? – ajudou o garoto. – Sim. Se me lembro bem é Lorde Aubrey. Imagine a reação de Lorde Aubrey quando souber que seu filho mais novo é um ladrão?
Santo céu. Esse é o filho mais novo do Visconde de Aubrey. Robert Stockley.- pensou Margaret extasiada. - Um nobre! Estavam sendo roubados por um nobre! Mas isso é... um tremendo escândalo! O filho mais novo de Aubrey... Um ladrão. Pode se tornar o escândalo da temporada.
O titulo do Visconde iria parar na lama. Aubrey sempre foi conhecido por reclamar da estupidez de seu filho mais novo a quem quisesse ouvir. Mas isso? Era bom demais. O garoto era quase um legume de tão burro. Um legume em pânico e desesperado. A pior combinação possível. Robert Stockley parecia um animal ferido e encurralado. Não tinha nada a perder. E Margaret Rezou. Rezou para que conseguissem sair dali com vida.
Hooff...hooff...
Se Margaret não estivesse em uma situação tão implausível teria certeza de que havia escutado um...
Hooff...
Cachorro.
Um cachorro. Ela estava vendo... bem... algo que poderia ser um cachorro. Era uma coisinha branca horrível e subnutrida.
– Que coisa feia. — Murmurou a criada sessando o choro e prestando atenção a estranha nova criatura.
– Horrorosa! – Exclamou o garoto perdendo a compostura fria.
Neste momento para surpresa e desilusão de Margaret quatro coisas aconteceram...
Stockley vendo uma brecha tentou arrancar a pistola do garoto. Surpreso pelo ataque o garoto perdeu o equilíbrio e começou a cair de costas com Stockley por cima.
Ao mesmo tempo, Gilderoy, o chofer de George, aproveitou a mesma brecha para tentar salvar o seu senhor. Atracou-se contra o bandido de George para desarma-lo.
Gilderoy devia ter achado um jeito de mandar Tinny, o lacaio, tentar (com muita dificuldade) imobilizar o bandido chamado Oliver e...
BUUM!
Uma pistola foi disparada.
Margaret sentiu o ar de seus pulmões falharem. George!, pensou, enquanto sentia-se levemente surda. Mas seu marido estava bem e vinha correndo em sua direção. Gilderoy estava lutando contra o assaltante de George, a pistola havia sido atirada para longe. O cachorro latia sem parar. George vinha em sua direção, mas não a via. Seu olhar se encontrava um pouco mais a frente. Oh, céus!
O garoto!
O garoto se encontrava tremulo no chão com a roupa salpicada de sangue, havia perdido sua cor e estava apavorado. Ao seu lado, estava Robert Stockley praguejando enquanto retorcia-se de dor. Havia levado um tiro no ombro. Quando viu que tinha sido Stockley que levara o tiro e não o garoto, para sua surpresa se sentiu aliviada.
Margaret queria ir em direção ao garoto. Precisava ajuda-lo. Mas antes mesmo de dar o primeiro passo sentiu alguém a segurar pelos ombros. George.
– Preci... – ele pôs um dedo em sua boca calando-a. Percebeu Gilderoy e Tinny passando rápidos como balas por eles.
George a abraço.
Já fazia quase uma hora que tentavam fazer Jennie parar de tremer. Estava apavorada. Tinha atirado em um homem. Atirado. E em Robert Stockley. Devia estar louca quando pensou em se meter no meio de ladrões.
E se o filho do Visconde morresse?
Seria uma assassina. Iria para a forca! Ou pior... seria deportada para a Austrália. Sempre foi uma boa atiradora. Melhor que a maioria. Melhor que a maioria dos homens. Seu irmão havia ensinado a atirar muito bem. Mas nunca tinha sequer caçado. Nunca tinha atirado em nada vivo. Até... hoje.
Encontrava-se em um dos quartos de estalagem que tinha procurado com tanto afinco. Se a tivesse achado antes não estaria metida nessa confusão. Alasão estava na estrebaria sendo tratado e ganhando comida, de algum modo tinha apontado na direção em que o cavalo estava escondido. E agora era ela que estava presa naquele quarto com estranhos tentando interroga-la e quase que desejando estar no lugar de Alasão. Não podia voltar para o Conde. Não voltaria.
– George. Acho que ele esta voltando a si.
– Por amor de Deus Margaret. Deixe-o em paz.
– Não blasfeme. Olhe! Parece mais em si.
Soltando um suspiro o senhor chamado George tocou-a no braço. – Rapaz... como se sente?... Céus! Ainda não responde. E o patife nem está morto.
– Como? – Perguntou Jennie sentindo uma onda de esperança.
– Stockley. Está mais vivo e barulhento do que nunca.
– Robert... está vivo?
– Sim. Aubrey está vindo buscar o garoto. Vai decidir o que fazer com ele. – Jennie sentiu uma onda de alivio percorrer por seu corpo. Não iria para a forca.
– Isto é maravilhoso. – suspirou.
– Como disse? – George arqueou as sobrancelhas e estufou o peito fazendo Jennie se sentir um tanto intimidada.
– Sinto muito senhor. — Não tinha bem certeza do por que se desculpou, porém parecia ser o certo.
– Sua Graça.
– Perdão?
– Meu titulo. Sua tolice quase matou a Duquesa de Buckingham. – Jennie sentiu suas recentes forças se esvaírem. Estava perdida.
– Pare com isso George! Está assustando-o. Ele nos salvou!
– Margaret. Esse tolo quase nos matou. – retrucou ele virando-se para Jennie. – Como se chama?
– Ginger, sua graça. – Mentiu em pânico.
– Ginger? Que tipo de nome é esse? Não me parece o nome que escolheriam para um garoto. – Retrucou o Duque irritado.
– E não é, Sua Graça. – Respondeu Jennie encarando seus pés enquanto tentava esconder um sorriso de satisfação. No meio do pânico acabou por falar um nome que já conhecia. Ginger era um dos lacaios do Conde. Todos na Mansão Powell conheciam a história do nome de Ginger. – Minha mãe veio das colônias, Sua Graça. Casou-se com meu pai aqui na Inglaterra. Quando engravidou tinha certeza de que seria uma menina. Queria tanto uma menina. Infelizmente, morreu ao dar-me a luz. O senhor meu pai, amava-a muito, portanto deixou-me o nome que ela escolheu.
– Oh. Sinto muito. – Arfou num meio fungo a Duquesa de Buckingham. Parecia tocada por sua história, não muito, mas o suficiente para Jennie sentir uma pontada de culpa.
– E seu pai? Tem um pai, não têm?
– Na verdade, Sua Graça. O senhor meu pai faleceu. – O que poderia ser muito bem verdade.
– Nenhum parente? – As faces do Duque começavam a corar alarmantemente e uma veia parecia latejar. Ele estava começando a perder a paciência.
– Sou um órfão, Sua Graça. – Jennie começou a desejar que as perguntas parassem. – Apenas um lacaio.
– Usa roupas muito finas para um ser um lacaio. – Notou o Duque com uma leve ponta de ironia.
– Um presente. – salientou Jennie.
– E o cavalo também? – Rebateu o Duque. Sem uma resposta pronta Jennie teve a decência de corar. – Foi o que pensei.
A Duquesa vendo o que acontecia decidiu intervir. Não ia deixar George intimidar o pobre garoto. Não passava de uma criança. – Ora, George. Pare de atazanar o coitado. Ele nos salvou. – salientou. – Iremos leva-lo...
– Margaret... – Rosnou o Duque possivelmente sabendo em como acabaria aquilo. Mas ora! Quem se importa?! George era um tolo e sempre parecia rosnar.
– Acharei alguma coisa que possa fazer. Poderia ser seu criado pessoal.
– Margaret, não acho... – A veia da têmpora do Duque parecia querer começar a latejar novamente.
– Oh. Cale-se George. Sou uma Duquesa. E se não posso carregar quem quero não me serve de nada este título. – Concluiu a Duquesa carregando Jennie para fora do quarto.
E acrescentou.
– Ginger querido, trouxemos também aquela coisa que parece um cachorro. É sua, não é?
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