Te Amarei Para Sempre
1 Através da Tempestade
Notas iniciais
seguir em frente mesmo com todas as lágrimas.”
“Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida.”
***
Chloe sentia o ar se tornar escasso em seus pulmões, assim como também sentia seu coração bater fortemente contra sua caixa torácica, dando a ela a leve impressão de que o mesmo poderia sair de seu peito a qualquer momento. Sua boca estava seca e suas mãos suavam. Ela torcia com todas as suas forças para que o que acabara de ouvir não fosse verdade, mas sim, uma peça sendo pregada pela sua mente fraca e idiota. Contudo, o olhar sério que o homem a sua frente lhe direcionava provou-lhe que aquele pesadelo era mesmo real. Ela achou que toda a angústia e sofrimento que vinha sentindo durante aqueles sete meses valeriam a pena se no final ela fosse curada, mas agora, tudo o que ela sentia era sua esperança ser esmagada pela triste e sufocante verdade de que o tratamento não havia surtido efeito, e que a partir daquele momento seus dias de vida estavam mais do que contados.
— Chloe, querida, você está bem? — Karen perguntou com a voz embargada, preocupada com o silêncio da filha.
A morena piscou algumas vezes tentando reprimir as lágrimas, mas foi uma tarefa inútil já que as mesmas, sem a sua permissão, já banhavam suas bochechas.
— Então é isso? — direcionou a pergunta ao homem sentado à sua frente — Você me disse que tudo ficaria bem, que tudo iria se resolver. Você fez a mim e a minha família terem esperanças, mas para quê?! Para depois arrancá-la da gente dizendo que a droga do tratamento não funcionou e que eu vou morrer, sem ao menos ter tido a chance de lutar pela minha vida?! — cuspiu as palavras com raiva, sentindo o gosto salgado das lágrimas entrarem em contato com seus lábios — Você é um mentiroso, Doutor! A porra de um mentiroso! — Chloe levantou-se da cadeira completamente exaltada e Karen a acompanhou, pondo a mão em seu ombro para tentar tranquilizá-la.
— Querida, por favor, acalme-se. — pediu docemente, mesmo que por dentro estivesse destruída. Ela, assim como Chloe, também tinha esperanças de uma cura, e saber que não haviam conseguido estava matando-a por dentro.
— Srta. Madsen, eu realmente sinto muito. — começou Steve, pondo-se de pé — Mas como eu havia dito meses atrás, seu Aneurisma Cerebral é de um tipo raro, da qual fazer uma cirurgia seria inviável devido ao seu tamanho exacerbado, por isso optamos pelos medicamentos e pela a embolização. Eles reteriam o crescimento e impediriam o Aneurisma de se romper. No entanto, por termos um conhecimento ainda muito limitado em relação a raridade do seu, as chances de o tratamento dar certo eram muito baixas, mas ainda tínhamos uma porcentagem relativamente boa a nosso favor, então investimos nela. Infelizmente, mesmo que tenhamos usando todos os recursos que possuíamos ao longo de todos esses meses, observamos que a dilatação em um dos vasos sanguíneos se tornou mais extensa e fina, mostrando que o tratamento não surtiu o efeito esperado. — suspirou com pesar — Como profissional, eu errei bastante ao dar falsas esperanças a vocês, jamais deveria ter feito algo assim. Foi inconsequente e irresponsável da minha parte. Sinto profundamente por isso... E eu queria muito, Chloe, muito mesmo que você se curasse e que pudesse viver uma vida feliz e saudável, mas nem sempre as coisas acontecem como queremos e nem sempre falamos o que devemos. Sei que minhas desculpas não farão diferença agora, mas juro que dei o meu melhor em cada segundo desses sete meses.
Steve sentia-se horrível por não ter conseguido ajudar Chloe. Ela era somente uma adolescente cheia de sonhos e desejos, com tanto ainda para viver. Mas a vida era imprevisível e quando menos se esperava, ela vinha e lhe dava uma baita rasteira.
— Obrigada, Doutor. Obrigada por absolutamente nada! — Chloe sorriu sarcástica — E da próxima vez que um paciente com doença terminal vier ao seu consultório, faça o favor de ser honesto com ele, é o mínimo que você pode oferecer. — completou, movendo o corpo e saindo em passos rápidos do consultório. Ao fundo pôde ouvir os gritos de Karen, pedindo para que ela parasse, mas ela não parou. Ela não queria parar, só queria que aquilo terminasse, só queria poder abrir os olhos e acordar daquele maldito pesadelo.
Quando seus pés alcançaram o lado de fora do enorme hospital, a morena correu, correu cegamente pelas ruas, sem saber ao certo para onde ir. Mas naquele momento tudo o que ela mais queria era simplesmente sumir, desaparecer, ir para bem longe. Mas, infelizmente, para qualquer lugar que ela fosse, a dor iria junto com ela.
Há pouco mais de um ano, estavam Diana, Alice, Mary e ela na casa de férias de seus pais. Era início de verão, estavam todas bebendo e resolveram ir para a cachoeira. Ela tinha pelo menos uns nove metros de altura e a correnteza estava bem forte, contudo, o estado meio embriagado de Chloe não permitiu que ela ligasse muito para aquilo e a mesma pulou mesmo assim. A morena tentou ao máximo ser cuidadosa na queda, mas não adiantou muito e seu corpo bateu com força contra as pedras que estavam no fundo. O baque foi tão forte que ela sentiu o ar sumir completamente de seus pulmões, fazendo com que ela mal conseguisse respirar. Seu nariz ardia por não ter prendido a respiração ao saltar e um frio doentio lhe sobia pela espinha, fazendo com que ela ficasse completamente imóvel e entregue aquela estranha sensação. Chloe chegou a pensar que nunca mais haveria de presenciá-la novamente depois de ter sido resgatada minutos depois, mas estava completamente errada. Ela podia senti-la agora, ainda mais fria, crua e doentia do que antes, como se acabasse de saltar de um avião sem paraquedas. Indo direto para o vazio que precedia o baque silencioso da morte.
Há exatos sete meses, Chloe estava na quadra de basquete bebendo um pouco de água, tentando se livrar de um mal-estar que há algumas semanas vinha se tornando cada vez mais constante. Mas era só concentrar, respirar fundo que passava, sempre passava. O segundo tempo se deu início e o resultado era completamente insatisfatório, estavam jogando como se tivessem cinquenta quilos de chumbo sobre os ombros e a morena sentia uma forte dor de cabeça. Ashley lhe passou a bola em certo momento e ela começou a se desviar das demais jogadoras adversárias, até que restasse somente ela, a bola e a cesta. Entretanto, antes mesmo de a morena conseguir erguer os braços para marcar os pontos, sua visão ficou turva e seus joelhos foram de encontro ao chão. Havia sangue escorrendo de seu nariz, seu estômago se revirava com náuseas e seus olhos estavam doendo, fazendo com que sua visão se tornasse ainda mais embaçada. Chloe sentiu seu corpo amolecer e antes mesmo de questionar que porcaria estava acontecendo, foi levada pela escuridão. Horas mais tarde, já no hospital, a morena foi diagnosticada com um Aneurisma Cerebral de um tipo raro. Em outras palavras, ela tinha uma bomba relógio dentro de sua cabeça que poderia explodir a qualquer momento.
Seu mundo veio a baixo a partir daquele momento. Os amigos que se diziam amigos se tornaram quase inexistentes, seu namorado se afastou com o pretexto de que não poderia lidar com tal situação e a treinadora lhe tirou do time para que pudesse se tratar. Um mês após a descoberta da doença, Chloe saiu da faculdade, já cansada dos olhares de pena, repulsa ou desconforto. As únicas pessoas que ainda pareciam dispostas a permanecer ao seu lado para enfrentar aquela maldita doença, além de sua família, eram Diana e Alice. A morena só não sabia nomear ainda se as duas eram corajosas demais, ou estupidas demais por carregarem aquele fardo junto com ela.
Chloe diminuiu a velocidade de seus passos quando seus tênis afundaram na areia em forma de pedregulhos. Ela se aproximou um pouco mais das ondas, apreciando a brisa marítima que soprava levemente contra seu corpo. Sem perder tempo, a morena retirou os tênis e sentou-se sobre a areia. A praia havia se tornado seu refúgio, seu ponto de paz em meio ao caos rotineiro que estava sua vida. Foi ali que ela descobriu o quanto amava o pôr do sol e o quanto o tom alaranjado do entardecer lhe acalmava. Era outono na cidade de Brighton, mas, ironicamente, aquela manhã de sábado encontrava-se ensolarada e os pais aproveitavam para trazerem seus filhos para se divertirem no Pier, enquanto alguns adolescentes deleitavam-se dando um mergulho ou até mesmo praticando alguns esportes. Aquilo era algo que Chloe normalmente faria se estivesse em sua antiga vida. Sim, antiga vida, porque aquelas eram as duas palavrinhas que ela usava para se referir a sua vida antes do Aneurisma. Aquela que não envolvia remédios, injeções, grupos de apoio, crises e dias no hospital. Dentre aqueles meses a morena havia perdido um pouco de peso, estava mais pálida do que o seu normal e sua pele encontrava-se arroxeada em algumas partes por causa das injeções para seu tratamento, que no final das contas, não serviu de muita coisa, somente adiou um pouco mais o inevitável; a sua morte.
Chloe sentiu algo molhado em suas bochechas e logo tratou de levar os dedos até as mesmas para verificar o que era. Lágrimas. Ela já havia até mesmo se acostumado com aquelas que, naquele período de sofrimento, haviam se tornado suas fieis companheiras. Era até meio irônico se fosse parar para analisar. Ela, que sempre fora tão destemida e audaciosa, agora era fraca e medrosa. Vivia trancada dentro de seu quarto, escondendo-se do mundo, escondendo todos os seus temores. Para seus pais e amigas estava sempre se fazendo de forte, tentando demonstrar que estava tudo bem, quando na verdade ela estava desmoronando por dentro, afundando-se cada vez mais em sua própria dor e angústia. Chloe sentia-se como uma garotinha com medo do escuro. Ela nunca havia parado para refletir sobre a morte e agora que esta estava cada vez mais próxima, ela se sentia encurralada, completamente apavorada. Era como estar presa dentro de um cubo, somente esperando o oxigênio acabar para finalmente ser jogada no rio do esquecimento.
A morena estava tão inerte em seus pensamentos que nem se deu conta da aproximação repentina de Diana, que não perdeu tempo e logo sentou-se ao lado da amiga.
— Hey. — cumprimentou, apertando levemente o ombro de Chloe em uma tentativa de tentar lhe passar conforto. Ela odiava ver a amiga tão deprimida.
— Oi. — limitou-se a dizer, sua voz não passando de um sussurro rouco pelo choro contido.
— Sua mãe me contou o que aconteceu. Ela estava prestes a arrancar todos os cabelos de tanta preocupação. Você não deveria ter saído daquele jeito, Chloe. — advertiu, atraindo os olhos verdes da morena para si.
— Eu sei. É só que... — suas palavras morreram no ar e ela suspirou pesadamente, sentindo um nó se formar em sua garganta — Eu só queria ficar um pouco sozinha.
— Eu entendo, de verdade. Mas dá próxima vez... — balançou a cabeça — Só tenta avisar antes, está bem? — Chloe assentiu brevemente e Diana sorriu — Ótimo, agora vamos. Apesar do sol, está ficando muito frio aqui.
Chloe tentou retribuir o sorriso da amiga da melhor forma que pôde e as duas se levantaram, seguindo em passos silenciosos até o carro de Diana, que não perdeu tempo e logo deu partida pelas ruas de Brighton. A morena pôs seu rosto para fora da janela e fechou os olhos. Ela adorava a sensação do vento batendo contra seu rosto, era quase como voar, e de alguma forma, aquilo lhe dava um certo ar de liberdade. E a ideia de liberdade sempre chamou a sua atenção. Chloe gostava de pensar no privilégio que era viver com todas as possibilidades, como se a vida fosse uma casa que precisava ser explorada e que não possuía quartos proibidos com avisos de “não entre”. Porém toda aquela sensação libertadora se dissipou quando ela abriu os olhos e percebeu que estavam seguindo um caminho diferente do que levava a sua casa.
— Para onde estamos indo? — perguntou, direcionando suas orbes cor de esmeralda para Diana.
— Para a casa da Alice. — respondeu e pela visão periférica viu Chloe franzir o cenho em total confusão — A Louise e a Veronika chegaram hoje pela manhã para passarem uma temporada na cidade antes de entrarem para a faculdade, esqueceu? Combinamos de fazer um almoço de boas-vindas para elas.
— Não combinamos não. Vocês combinaram. — resmungou — Você poderia, por favor, me levar para casa? Não estou a fim de me socializar. — pediu emburrada e Diana bufou.
— Nada disso, você vai sim! — afirmou seriamente e a morena revirou seus belos olhos verdes. Seria uma cena até cômica, se não fosse o teor melancólico que precedia uma possível discussão — O que está acontecendo, Lo? Eu não estou mais te reconhecendo. Você não é mais a mesma. Fala como antes e é como antes, mas... algo em você mudou e... — Chloe soltou uma risada fria, interrompendo a loira.
— Você já parou para pensar que eu tenho a porra de uma bomba relógio na cabeça?! — despejou com acidez — Não acha que é a droga de um motivo suficiente para eu ter mudado?! Eu vou morrer, Diana! — a visão da morena ficou turva por conta das lágrimas — Vocês saem por aí com seus namorados, vão a festas, estudam em uma boa faculdade... Todos vocês têm um futuro pela frente! E qual é o meu?! Levar agulhadas até meu corpo não aguentar mais e então ser enfiada a sete palmos de terra! — completou enraivecida, quase gritando.
Seu peito subia e descia rapidamente devido a exaltação, mas foram preciso somente cinco segundos para que Chloe se arrependesse de ter explodido com sua melhor amiga. Já Diana, por outro lado, tragou a saliva e apertou o volante com força, sentindo o baque daquelas palavras caírem sobre seus ombros.
— Me desculpa, DJ. Eu não queria...
— Não, está tudo bem. — Diana a interrompeu, engolindo em seco. Chloe estava certa, afinal de contas, mas não era motivo para simplesmente entregar tudo de mão beijada, ela ainda estava viva, respirando, e era isso que realmente importava — Mas eu acho que você deveria fazer algo da sua vida ao invés de ficar por aí se lamentando e se escondendo. O mundo não vai ficar mais justo com você trancafiada em seu quarto, Chloe. Então, só por hoje, pelo menos hoje, permita-se ser livre, feliz... Permita-se viver, por mim, pela Alice. — pediu, transpassando calmaria em sua voz, mas por dentro a loira tentava conter a imensa vontade de chorar.
A morena a encarou, absorvendo cada mínima palavra dita pela amiga, dando-se conta de que talvez Diana tivesse razão. O mundo não iria se tornar mais justo com ela, mas talvez se tornasse mais generoso. E ela devia aquilo a suas amigas, que sempre estiveram ali para fazê-la lembrar que, com um pouco de amor, até a mais cruel das dores dava uma trégua para que o coração pudesse respirar.
— Tudo bem. — soltou um longo suspiro antes de os cantos de seus lábios se erguerem em um pequeno sorriso — Vamos para a casa da Alice.
[...]
— Chloe, Diana! Que bom que vocês vieram! — exclamou Amelia, dando um rápido e caloroso abraço nas duas — Como você está, querida? — direcionou sua pergunta a Chloe, afastando alguns fios escuros e rebeldes que insistiam em cair sobre os olhos da morena.
— Estou bem, tia. — sorriu minimamente, para tentar encobrir a inverdade de suas palavras. Ela já havia dado aquela mesma resposta pelo menos umas mil vezes nos últimos meses, e em nenhuma delas havia sido verdade — Onde está a Alice? — indagou, tentando tirar o foco de si.
— Está lá dentro com as meninas. Vamos, entrem. — puxou as duas pela mão e as arrastou até a cozinha. Alice e Veronika, que estavam em meio a uma completa bagunça, pararam o que estavam fazendo para encararem as duas na companhia de Amelia — Meu Deus! Como vocês conseguiram destruir minha cozinha em dois minutos? — questionou boquiaberta, arrancando uma boa risada tanto da loira mais baixa, quanto da negra de corpo esbelto.
— Relaxa mãe, depois limpamos. — Alice falou como se a imensa bagunça não fosse nada demais, enquanto ia na direção de suas amigas para cumprimentá-las — E aí, Lo, como você está?
— Bem... eu acho. — respondeu e a baixinha lançou-lhe um sorriso triste, porém compreensivo. Diana havia lhe telefonado mais cedo, contando sobre os resultados dos exames de Chloe e de como ela havia ficado bastante abatida.
De todos, Alice parecia ser a mais conformada com a doença da morena de olhos verdes, pois ela sempre foi muito religiosa e acreditava fielmente que o caminho de todos havia sido escrito pela mesma mão, a mão de Deus. E nele ela poderia confiar, mesmo diante a possibilidade de ter seu coração dilacerado pelo sofrimento causado em um futuro próximo.
— As coisas vão melhorar. Você vai ver. — murmurou somente para Chloe ouvir. Esta, por sua vez, apenas limitou-se a um breve aceno — Hey, Veronika, você se lembra das minhas amigas? — direcionou sua atenção para a negra a poucos metros de distância.
— Talvez... — respondeu meio incerta, mas sorriu simpaticamente, aproximando-se para cumprimentar Diana e Chloe com um beijo na bochecha.
Chloe, ao ver que os olhos escuros de Veronika pararam por alguns segundos nas manchas arroxeadas em seus braços, logo tratou de puxar as mangas de seu casaco para baixo antes de enfiar as mãos nos bolsos do mesmo, meio agoniada. Diana, percebendo sua ação, lhe lançou um olhar tranquilo para passar-lhe conforto, o que de certa forma funcionou. Entretanto, de maneira repentina, a porta da varanda foi aberta violentamente, fazendo as cinco mulheres presentes na cozinha se assustarem, enquanto uma italiana sorridente e toda suja de farinha passava pela mesma. Seus cabelos – tão ou mais escuros que os de Chloe – estavam presos em um coque desajeitado, dando a ela um ar despojado e desleixado. A morena recordava-se dela, porém a lembrança não se encontrava tão vívida já que Louise viveu boa parte de sua pré-adolescência em Florença com sua outra mãe. Alice tinha por volta de um ano quando Amelia conheceu Susan, e após quase dois anos de casadas, elas haviam decidido ter outro filho através de inseminação artificial. Então nasceu Louise, tendo puxado totalmente as raízes italianas de Susan. Mas como nem tudo na vida são flores, anos depois as duas mulheres se separam e Louise foi viver com Susan na Itália, exatamente na mesma época em que Chloe e Alice passaram de conhecidas para melhores amigas.
— Lice, as pizzas ficaram uma droga! — reclamou, sem notar a presença da loira e da morena que haviam chegado a poucos minutos.
— Claro que ficaram, irmãzinha, você não cronometrou o forno direito. — debochou, rindo da careta que Louise fez — Mãe, vamos ter que ligar para um restaurante. — avisou, fazendo Amelia bufar.
— Vocês realmente não servem para serem cozinheiras, santo Deus. — resmungou, enquanto ia em direção à sala.
— Ei! Não sabia que tínhamos visitas. — Louise finalmente pareceu se dar conta da presença das duas garotas, então sorriu, indo cumprimentá-las — Vejam só, se não é Diana Johnson nos presenteando com sua ilustre presença. — fez uma falsa reverência antes de abraçar a loira alta bem apertado, fazendo-a reclamar.
— E vejam só, se não é a Gutiérrez, mas conhecida como a Senhorita piadas ruins! — rebateu, recebendo um leve soco no braço.
— Você continua uma idiota. — resmungou divertidamente antes de virar-se para Chloe. Apesar dos anos e do fato de a morena não ter sido tão próxima de Louise como Diana era na época da separação de suas mães, a italiana lembrava-se dela, afinal, olhos como aqueles não se encontravam em qualquer pessoa — E você é a Chloe... Chloe Madsen, estou certa? — a morena assentiu, estendo-lhe a mão para cumprimentá-la. Mas, ao invés disso, a italiana puxou-a para um apertado e confortante abraço.
Chloe logo sentiu seus músculos ficarem tensos devido à surpresa. Fazia tempos que ela não aceitava nenhum tipo de afeto de qualquer que fosse a pessoa, incluindo sua mãe. Para ela aquilo poderia simbolizar pena, e tudo o que ela mais odiava era que as pessoas sentissem pena dela. Mas com Louise estava sendo diferente, ela podia sentir na forma como os braços da italiana estavam abraçando tão protetoramente seus ombros. Foi então que ela permitiu-se relaxar ao envolver a cintura da mesma e, pela primeira vez em meses, a morena deixou-se ser abraçada. Louise sorriu e afastou o rosto da curva do pescoço de Chloe para poder olhá-la nos olhos. Ela podia ver perfeitamente através das orbes extremamente verdes da britânica que ela não estava bem. Ela parecia cansada e um pouco abatida, mais ainda assim, a italiana não pôde deixar de notar o quão bonita ela ainda permanecia.
— É bom te ver novamente, Srta. Madsen. — disse bem humorada, fazendo a morena abrir um mínimo, porém verdadeiro sorriso. O primeiro em semanas.
— É bom te ver também, Srta. Gutiérrez. — devolveu completamente hipnotizada pela imensidão achocolatada que eram os olhos de Louise.
[...]
Estavam todas sentadas no chão da sala após um almoço bem descontraído. A TV estava sintonizada em um canal qualquer, que nenhuma das que estavam ali prestavam muita atenção. Estavam mais concentradas nas histórias que Louise e Veronika contavam sobre suas vidas em Vancouver. Chloe estava calada e, quando não, falava apenas o necessário. Ela preferia assim. Estava mais uma vez ouvindo atentamente uma das histórias malucas das meninas quando seu telefone tocou. Ela pediu licença e dirigiu-se até a cozinha, vendo a foto de sua mãe brilhar na tela.
— Oi, mãe. — falou em um tom baixo.
— Chloe Elizabeth Madsen, onde diabos você está que ainda não apareceu em casa? Quer me deixar maluca?! — questionou do outro lado da linha, soltando um suspiro de alivio ao ouvir a voz da filha. Karen estava quase enlouquecendo de tanta preocupação.
— Desculpa, mãe. Estou aqui na casa da Alice, a irmã dela e uma amiga acabaram de chegar. Mas não se preocupe, já estou indo para casa. — avisou.
— Nada disso! — Karen se apressou em dizer. Pela primeira vez em meses sua filha havia saído com as amigas e ela não poderia estar mais feliz — Fique aí e se divirta um pouco, você precisa se distrair filha... só não se esqueça de suas vitaminas, já está quase na hora. Beijos, te amo. — se despediu apressadamente, encerrando a ligação logo depois, sem dar a Chloe a chance de retrucar, como Karen sabia que ela faria.
— Também te amo, mãe. — declarou para o silêncio que havia ficado após a ligação ser encerrada, e soltou uma leve rizada. Sua mãe era bastante eufórica às vezes.
Ela não deveria ter dito onde estava, agora teria de ficar ali mais do que pretendia. Não que a morena não estivesse gostando de estar ali. Na verdade, ela adorava passar um tempo com as amigas. Porém, naquele exato momento, tudo o que ela mais ansiava era poder estar debaixo de seus lençóis, refletindo sobre sua vida e o que faria antes de se tornar apenas mais um fragmento de poeira cósmica.
Em passos preguiçosos, Chloe dirigiu-se até a geladeira e retirou da mesma uma garrafa de água. Logo em seguida retirou do bolso os dois frascos de vitaminas e os tentou abrir, porém suas mãos começaram a tremer levemente, fazendo com que a tarefa momentaneamente simples se tornasse quase impossível. Tentou mais uma vez e praguejou baixinho quando, novamente, não conseguiu.
— Precisa de ajuda? — perguntou Louise, e a morena quase deixou os frascos com as vitaminas caírem ao chão tamanho susto. A italiana parecia ter um dom um tanto irritante para assustar pessoas com as suas entradas repentinas.
Chloe moveu o corpo e deu de cara com Louise apoiada na porta da cozinha, com um doce e singelo sorriso desenhando seus belos lábios. A morena estava tão concentrada na tarefa de abrir os frascos que nem percebeu quando a italiana se aproximou do cômodo.
— Não, está tudo sobre controle. — recusou gentilmente a ajuda, oferecendo-lhe um sorriso envergonhado antes de tentar mais uma vez retirar a tampinha do remédio, em vão.
A Gutiérrez soltou uma leve risada ao aproximar-se de Chloe para retirar os frascos de suas mãos, abrindo os mesmos sem esforço algum. A morena resmungou dizendo que havia facilitado a tarefa com suas três tentativas falhas e Louise riu novamente, mas logo ficou séria enquanto a observava atentamente tomar algumas das pílulas.
— Obrigada. — Chloe agradeceu, sua voz não passando de um sussurro após tomar o último gole de água que havia no copo. Ela se sentia um pouco desconfortável por ter Louise ali a observando, mas diferente do que imaginou, a italiana não a olhava com pena, muito pelo contrário; seu olhar era caloroso e compreensivo, mesclado a algo que a morena não soube bem identificar.
— Tudo bem. — Louise sorriu mais uma vez — Você está com fome? — o questionamento fez Chloe franzir o cenho um tanto confusa — É por que notei que você comeu muito pouco. E sei que o bolo de chocolate que fiz estava horrível, mas você nem mesmo provou para fingir que ficou bom como as outras fizeram. — disse com humor, mas seu tom continha também um certo ar de indignação. Chloe sorriu minimamente e guardou os frascos de vitaminas no bolso de seu casaco.
— Desculpa, não foi minha intenção ofender. O bolo estava com uma aparência deliciosa, mas meu estomago anda um pouco revoltado essa semana. — explicou, se surpreendendo com o tom divertido que saiu de seus lábios.
— Tudo bem, eu te perdoo. Mas só porque sua desculpa foi muito convincente. — pontuou empurrando de leve o ombro da morena, e então as duas riram.
Chloe estava surpresa consigo mesma. Fazia tanto tempo que ela não soltava uma risada tão sincera quanto aquela, que já havia até esquecido o quão boa poderia ser a sensação. Já Louise, por outro lado, apreciava o brilho espontâneo e vívido que surgiu nos olhos da morena por alguns segundos. Ela estava fascinada pelas orbes extremamente verdes de Chloe e achava um ultraje elas aparentarem estarem tão tristes e vazias.
— Bom, acho melhor eu ir para casa. — a morena comentou após ambas cessarem as risadas, se sentindo um pouco sem graça por Louise a estar encarando tão fixamente. Mas, estranhamente, ao mesmo tempo se sentia leve. Aquela era a primeira conversa de verdade que ela tinha com alguém sem se sentir deprimida em um período de sete meses.
— Casa? — a italiana questionou um pouco confusa ao sair do transe momentâneo que os impactantes olhos verdes haviam lhe causado — Ah, sim! Casa! — exclamou ao se dar conta do que Chloe havia dito e então sorriu — Se não me falha a memória, recordo de você morar perto daqui. Então vou te acompanhar, assim você saberá que tem a obrigação de voltar para me ver. — avisou, deixando a britânica um tanto surpresa.
— Certo. Como você preferir, Srta. Gutiérrez. — fez uma reverencia exagerada que arrancou uma gostosa gargalhada da italiana.
— Assim que eu gosto. — ergueu o polegar de forma positiva e Chloe riu enquanto saia da cozinha, com Louise em seu encalço.
A morena se despediu de Veronika e de suas amigas que, imploraram para que ela ficasse um pouco mais, já que eram raras às vezes em que Chloe saia de casa e aquilo era um grande feito para Diana e Alice. Mas a morena não cedeu e seguiu para fora da casa acompanhada da italiana. Por alguns minutos, as duas caminharam lado a lado em passos silenciosos pela rua.
— Então, Chloe... me fale um pouco sobre você. — Louise pediu, quebrando o silêncio. Chloe tinha a leve impressão de que a italiana era agitada demais para contemplar um pouco da quietude que às vezes o mundo nos proporcionava.
— O que você quer saber? — devolveu, chutando uma pedrinha que estava em seu caminho.
— Quais são seus hobbies, sonhos... desejos bizarros. — seu tom de voz era curioso e a morena a encarou, vendo que Louise mais parecia uma criança ansiando para que seu desenho favorito começasse logo.
— Hmm... Deixa-me ver... — franziu o cenho levemente — Acho que jogar vídeo game. — deu de ombros e a italiana riu — O quê? É sério! Eu sou muito boa nisso.
— Claro que é. — debochou — Vamos lá, Chloe. Quero saber de coisas produtivas. — pediu novamente e a morena riu do biquinho fofo que Louise havia feito.
— Tudo bem. — Chloe parou alguns segundos para pensar — Bom, eu adoro escrever, muito mesmo. E gosto bastante de tocar violão também. Foram formas que encontrei de me acalmar e de ficar mais relaxada. Agora, quanto a desejos bizarros... — a morena riu levemente — Bem, eu não tenho nenhum. — completou.
— É isso aí, começamos bem. — Louise sorriu lindamente e Chloe se deu conta de que já estavam em frente à sua casa.
— Bom... esse é o ponto final. — avisou, indicando a residência com um aceno de cabeça.
— É uma bela casa. — a italiana refletiu antes de voltar seus olhos para a morena parada ao seu lado — Bom, então até a próxima, Chloe. Foi muito bom conhecer você, ou melhor, reencontrar você... Eu já nem sei! — exclamou confusa e a britânica riu para valer.
— Acho que os dois. — quando seu rizo cessou, um sorriso de canto de lábios surgiu — Até a próxima, Louise. — acenou, mas então a Gutiérrez se aproximou, apoiando-se em seus ombros para depositar um beijo demorado em sua bochecha.
Sentir os lábios quentes de Louise entrar em contato com sua pele fria fez com que o coração de Chloe se aquecesse, e ela estranhamente adorou aquela nova sensação.
— Te vejo por aí. — afastou-se da morena, seguindo seu rumo graciosamente pela rua.
Quanto a Chloe... bem, ela ficou ali parada, encarando fixamente a italiana. Odiando admitir o quão adorável Louise estava naquele vestido azul claro, que se modelava perfeitamente em seus quadris um tanto avantajados.
— Pare de olhar para a minha bunda, sua pervertida! — a voz extrovertida de Louise ecoou pela rua, fazendo a morena rir.
— Não estou olhando para a sua bunda! — rebateu, aumentando sua tonalidade sonora, já que a italiana estava a uns bons passos de distância.
— Ah, você está sim, Madsen! — devolveu divertida, seguindo seu caminho tranquilamente ainda sem parar para olhar para trás.
Chloe riu novamente e balançou a cabeça de modo negativo, enquanto subia os poucos degraus da varanda de sua casa, pensando no quanto àqueles minutos ao lado de Louise haviam sido um dos melhores que ela já tivera em meses. A Gutiérrez, de alguma forma, havia conseguido arrancar-lhe mais sorrisos em um dia do que suas amigas conseguiram em semanas. Mas bastou adentrar sua casa para que todo aquele momento de leveza, incluindo seu sorriso, se dissipassem. Sua visão começou a ficar turva, enquanto o mal-estar se instalava em seu estômago. A dor de cabeça não demorou a chegar, fazendo com que Chloe cambaleasse devido à tontura. Ela já deveria ter se acostumado com aqueles sintomas, afinal de contas, ela já os vinha sentindo há meses. Mas mesmo assim, cada vez que eles surgiam era como se fosse à primeira vez. Era angustiante e sempre a deixava deprimida, pois ela sabia que cada vez que sentia aquilo era mais um passo que dava em direção ao temeroso precipício chamado de morte.
Com um pouco de esforço, Chloe tentou caminhar até o sofá, porém suas pernas fraquejaram no meio do caminho e ela se viu indo de encontro ao chão, já sentindo sua consciência ser levada pela tortuosa e tão familiar escuridão.
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