“Todos temos uma verdade em comum. Nós nascemos. E morremos. Independentemente do caminho que percorremos nesse meio tempo.”

***

O barulho irritante do despertador em contraste com o silêncio do quarto ainda martelava na cabeça de Chloe após alguns minutos. Ela não havia se mexido por um bom tempo, continuando ali em sua cama, encarando o teto fixamente. Aquela cena vinha se repetindo bastante nos últimos dias, mas não era como se fosse algo realmente premeditado, não era intencional, era somente um reflexo do dia a dia mórbido que agora ela vivenciava. Sua vida, seu cotidiano, tudo parecia uma farsa, e ela sentia-me como uma sombra, um olhar indiferente que evitava o olhar dos outros.

Tentando conter o fluxo interminável de lágrimas que insistiam em banhar suas bochechas em consequência da fragilidade emocional ao qual se encontrava naquele momento, Chloe ergueu seu olhar por alguns segundos, mordendo o lábio inferior com força enquanto observava os feixes de luz solar atravessar a janela de seu quarto, mas a cada momento seu coração se quebrava mais um pouquinho. A cada pequeno movimento um soluço agonizante lhe escapava, pois, um pensamento diferente vinha em sua mente para fazê-la lembrar de tudo o que ela ainda sentia vontade de fazer, mas que provavelmente não conseguiria. Chloe queria ter mais tempo, mas como ela poderia ter mais tempo quando, na verdade, era ele que a tinha? E aquela era a grande ironia da vida, afinal de contas. A gente sempre fazia tudo ao contrário. Tínhamos pressa de crescer e depois nos arrependíamos pela infância perdida. Perdíamos a saúde para termos dinheiro e, logo em seguida, perdíamos o dinheiro para termos saúde. Planejávamos tão ansiosamente o futuro que, ocasionalmente, esquecíamos do presente, e assim, não vivíamos nem o presente e muito menos o futuro. Vivíamos como se nunca fôssemos morrer e, infelizmente, morríamos como se nunca tivéssemos vivido.

Após soltar um profundo e angustiado suspiro, a morena enxugou suas lágrimas, sentindo-se como um buraco negro no espaço, engolindo planetas, estrelas e até mesmo galáxias.

— Querida? — Karen chamou ao adentrar o quarto de Chloe, encontrando a mesma deitada em sua cama, não muito diferente do que vinha encontrando nos últimos dias — Chloe. — chamou novamente.

— Hm... — murmurou, indicando que estava ouvindo.

— Alice ligou, disse que vocês vão ao cinema... Isso é ótimo, filha! — comentou entusiasmada e a morena prontamente ergueu o corpo para sentar-se, encarando a mãe de forma séria.

— Não, ela acha que vamos, mas a verdade é que não vamos... pelo menos eu não vou. — respondeu, fazendo com que o sorriso de Karen murchasse.

— Como assim não vai? Filha, você precisa se dis...

— Mãe. — Chloe a interrompeu — Eu não estou no clima, ok? Então, por favor, não insista. — pediu, sua voz saindo mais rouca do que o habitual.

Havia se passado duas semanas desde o fatídico dia em que Karen encontrou Chloe desmaiada no chão de sua sala, e, após três dias internada no hospital, lá estava a morena, confinada dentro daquele quarto sem qualquer contato com o mundo exterior, não permitindo nem mesmo a entrada de suas melhores amigas. Aquilo não estava fazendo bem para ela e muito menos para Karen que, como mãe, estava desesperada.

— Você nunca está no clima, Chloe. — suspirou pesadamente — Até quando vai fugir de tudo e de todos? — cruzou os braços, encarando a filha de modo cansado. Se a morena havia perdido peso por conta do tratamento, a matriarca da família Madsen parecia ter envelhecido uns bons anos em consequência das preocupações.

— Até eu morrer. E acredite, não irá demorar muito. — respondeu de forma indelicada, quase como um resmungo.

Chloe estava cansada de tudo aquilo. Cansado dos remédios, das tonturas, das dores de cabeça, dos enjoos. Cansada das angústias, dos medos, dos pesadelos. Cansada de se sentir tão quebrada e deprimida o tempo todo. As feridas em sua alma sangravam e doíam mais do que o aneurisma em sua cabeça, e não se era possível tapar buracos feitos com balas de canhão com um simples curativo. A realidade era que Chloe sentia, no mais profundo de seu âmago, que uma parte sua já havia morrido.

Karen, por outro lado, sentiu seu coração contrair dentro do peito ao ouvir tais palavras saírem da boca de sua filha. Assim como a morena, ela também estava quebrada. Era insuportável para uma mãe saber que sua filha – aquele ser que ela já amava antes mesmo de saber da sua existência – estava morrendo gradativamente. E nenhuma mãe ou pai deveria ver seu filho morrer, pois aquela era a dor mais excruciante, a tortura mais angustiante ao qual poderiam ser submetidos. Mas ela jamais desistiria de Chloe. Jamais desistiria de sua princesinha.

— Eu não admito que você fale desse jeito comigo, ouviu bem, Chloe?! — as lágrimas fizeram caminho pelas bochechas de Karen, enquanto ela encarava a morena a sua frente de modo repreensor — Você está aqui agora! Viva! E eu não permitirei que desperdice seus dias ficando trancada aqui nessa droga de quarto! — exclamou.

Chloe abriu e fechou a boca incontáveis vezes, com o intuito de pedir perdão por ter agido como uma idiota com sua mãe, mas ao invés disso, ela simplesmente desviou o olhar e voltou a deitar-se na cama, dando atenção a uma pequena rachadura no teto.

— Vá embora, mãe, por favor. Não quero falar com ninguém. — sua voz saiu baixa e arrastada.

Karen respirou fundo e saiu do quarto, não querendo dar início a uma discussão. Mas se a morena achava que ela iria desistir, estava muito enganado. Uma mãe sempre faria de tudo por seu filho.

[...]

Os olhos cristalinos de Chloe admiravam o horizonte, apreciando os primeiros resquícios de sol surgirem por trás do oceano. Desde que descobriu sobre sua doença, Steve havia lhe recomendado algumas atividades físicas que ajudariam em seu tratamento, ela então optou pela corrida. Seu relógio despertava todos os dias às quatro da manhã e ela corria pela orla da praia até o sol começar a nascer. Aquela era a sua deixa para descansar. Então a morena sentava-se sobre a areia em forma de pedregulhos e apreciava aquele espetáculo da natureza. Isso, é claro, quando seu corpo não estava dopado de medicamentos, porque aí a exaustão era intensa demais para que ela sequer saísse debaixo dos lençóis.

A brisa fresca trazida pelas ondas soprava contra seu corpo, ajudando Chloe a pensar. Aquela era a primeira vez que ela saia de casa em três semanas. Depois de muito insistir e discutir, sua mãe havia conseguido convencê-la a aproveitar mais os seus dias ao invés de ficar enclausurada em seu quarto encarando uma rachadura insignificante no teto. E naquele exato momento, ela estava ali, sentada à beira mar refletindo sobre as coisas que havia feito, e às que não havia feito também. A morena tinha muitos sonhos e desejos aos quais ainda queria realizar, mas seus dias estavam em uma contagem regressiva para o fim, então ela decidiu reduzir seus grandes sonhos em uma lista de coisas, pequenas coisas, para fazer antes de morrer.

Com caneta e papel em mãos, Chloe começou a listar aquilo que sempre sonhou em ter ou desejou fazer, ficando assim, inerte em seus pensamentos, sem dar-se conta da aproximação de uma certa italiana de olhos achocolatados. Louise fazia sua costumeira caminhada pela manhã e se surpreendeu ao ver aquela cabeleira negra sentada próximo ao mar. Ela reconheceria aqueles fios escuros como a noite a quilômetros de distância. Por alguma razão ainda inexplicável, Louise não conseguia tirar a britânica de sua cabeça, ainda mais após a conversa que havia tido com sua irmã dias atrás. Alice havia lhe contado sobre a doença de Chloe e aquilo a deixou bastante encabulada. Ela sabia que a morena não estava nada bem, mas nunca passou pela sua mente que a mesma estivesse em um estágio terminal de saúde. Aquilo a abalou de início, mas então ela se recordou do sorriso de Chloe e aquilo só serviu para fazer com que Louise sentisse ainda mais vontade de se aproximar, de fazer com que ela se sentisse bem. E encontrá-la ali parecia ser um sinal do destino, ou talvez, a vida estivesse apenas sendo um pouco generosa após ter sido tão cruel com a morena de olhos verdes.

Com um enorme e radiante sorriso no rosto, Louise apressou seus passos silenciosos em direção a Chloe, observando que a mesma se encontrava concentrada enquanto escrevia algo em um pedaço de papel. Ela até tentou ler o que estava escrito ali ao olhar por cima do ombro da morena, mas sua tentativa não obteve resultados.

— Olha só quem está aqui, se não é a senhorita sou muito boa com vídeo games. — disparou de modo divertido ao sentar-se ao lado de Chloe, que deu um pequeno sobressalto devido ao susto.

Os olhos verdes da morena se arregalaram levemente, surpresos, ao fitarem a italiana sentada ao seu lado. De todas as pessoas, Louise era a que Chloe menos esperava encontrar naquela praia.

— Louise? — indagou, incrédula e um pouco assustada.

— Eu mesma, em carne e osso. — a italiana não conseguiu segurar a risada que acabou lhe escapando devido à cara de espanto que Chloe fazia — O que foi? Por um acaso eu estou tão feia assim? — sua voz soou brincalhona e seus lábios se uniram em um biquinho fofo.

— O quê? Não! Claro que não! — a morena se apressou em dizer, ainda surpresa com a presença repentina da Gutiérrez — Você está linda, na verdade. — completou em tom baixo, desviando o olhar um pouco envergonhada e Louise riu novamente.

— Eu estou bem chateada com você, sabia? — os olhos de Chloe rapidamente se voltaram para ela, confusos.

— Comigo? Por quê?

— Porque você não foi me visitar. — cruzou os braços de forma infantil, e a morena teria rido de sua atitude se não estivesse tão desconcertada. O que Louise tinha de desinibida, Chloe tinha de retraída.

— Ah, isso... — suspirou, um tanto melancólica diante os olhos atentos da italiana — Eu dei uma sumida porque não estive muito bem nessas últimas semanas. — sua explicação veio acompanhada de uma tentativa de sorriso, mas este saiu mais como uma careta. Chloe odiava falar de seus momentos de vulnerabilidade.

— Sem problemas. — Louise tocou na perna da morena por poucos segundos, indicando que estava tudo bem e logo tratou de desviar o foco da conversa, não querendo deixá-la desconfortável — E então, o que você estava escrevendo nesse papelzinho? Parecia tão concentrada.

— Não era nada demais. — Chloe encarou o pedaço de papel em suas mãos e os cantos de seus lábios se ergueram em um sorriso, pois sentia-se satisfeita com o que havia escrito ali — Só estava fazendo uma pequena lista de coisas que quero fazer antes de... você sabe, morrer. — o sorriso da britânica murchou e a Gutiérrez sentiu seu coração se agitar dentro do peito, mas não de uma forma boa. Então ela mirou o oceano por alguns instantes, e a visão dos raios solares sendo refletidos naquela imensidão tão bela fez seu coração voltar ao ritmo normal.

— Uma lista me parece perfeito. — tentou demonstrar animação — Eu sou muito boa com listas, sabia? Fiz uma um tempo atrás, mas infelizmente não consegui realizar um terço do que havia listado. — completou em um falso tom triste.

— E por que não conseguiu? — o interesse da morena fez Louise sorrir de forma travessa.

— Bom, digamos que algumas das coisas que eu havia escrito eram um pouco impróprias, bizarras, ou que poderiam me colocar na prisão. — a revelação fez com que os olhos de Chloe se arregalassem novamente. A Gutiérrez, definitivamente, era o tipo de pessoa que a morena achou que só existisse em filmes de comédia romântica. Encantadora, com uma pitada de humor e uma dose cheia de beleza.

— Prisão? Que tipo de coisas você colocou nessa lista? — questionou, franzindo o cenho em confusão por não conseguir identificar se Louise estava somente brincando, ou falando a verdade. A italiana, por outro lado, encarou Chloe divertidamente.

— Entre as mais leves? Roubar um banco e explodir um carro. — respondeu como se não fosse nada e Chloe arregalou ainda mais os olhos, se é que aquilo era possível. Louise sentiu vontade de apertar as bochechas da morena naquele exato momento, pois ela estava extremamente fofa.

— Meu Deus! — exclamou incrédula — Se essas eram as mais leves, não quero nem imaginar quais eram as pesadas. — Louise riu com o comentário.

— Boa escolha, porque se você soubesse correria o risco de ficar traumatizada. — ergueu as sobrancelhas com humor e Chloe não conseguiu segurar a gargalhada.

— Céus! Você é maluca! — balançou a cabeça negativamente enquanto tentava controlar a risada.

— Só às vezes. — Louise sorriu, admirando o quão bonito e expressivos eram os olhos da morena. Eles mais pareciam duas imensas galáxias possuindo bilhões de estrelas, do que somente duas orbes verdes — Eu posso ver? — pediu, referindo-se à lista.

A morena ponderou por alguns segundos e, não vendo mal algum, entregou o pedaço de papel para a italiana, que analisou atentamente as palavras escritas pela caligrafia um pouco desajeitada de Chloe.

— Dançar na chuva. Fazer uma tatuagem. Acampar no alto de uma montanha. Quebrar uma regra e jogar uma garrafa ao mar com uma mensagem. — leu em voz alta, antes de encarar Chloe novamente — Só isso? Nada de pular de paraquedas ou de roubar uma loja?

— Não sou tão maluca quanto você, Louise. — debochou e a italiana fez uma careta, pondo a mão sobre o peito teatralmente, fingindo estar ofendida — E essas são só pequenas coisas que sempre quis fazer, mas por algum motivo, nunca fiz. — deu levemente de ombros.

— Tudo bem, eu posso lidar com isso. — sorriu — Então, por onde começamos? — questionou entusiasmada e a morena franziu o cenho.

— Espera... Como assim “começamos”?

— Não sabia que você era tão lerda, Madsen. — Louise riu antes de prosseguir — Isso quer dizer que eu vou te ajudar.

Chloe ficou em silêncio por longos e torturantes minutos, apenas encarando a italiana de forma séria. Ela odiava admitir, mas Louise tinha algo que a encantava. Talvez fosse sua forma de viver ou tratar as pessoas, sempre descontraída e despreocupada, mas a questão era que Chloe não poderia se dar ao luxo de se afeiçoar a ela, fosse para criar um laço de amizade ou qualquer outra coisa que envolvesse se apegar de forma sentimental. Dali a alguns meses – ou até mesmo dias – a morena se tornaria somente mais uma lembrança dentre tantas outras e, de forma alguma, queria deixar a italiana abalada pela sua partida, mesmo que, lá no fundo, soubesse que seria algo já inevitável. Enquanto isso, ao seu lado, Louise se questionava mentalmente se havia dito ou feito algo de errado para Chloe ter ficado tão quieta de repente. Ela já estava começando a ficar aflita quanto a britânica finalmente resolveu quebrar o silêncio.

— Louise, veja bem, eu... eu estou... Droga! — Chloe suspirou pesadamente e fechou os olhos por alguns segundos, em busca das palavras certas — Bom, vamos lá. — murmurou para si mesma — Você já deve estar sabendo que eu estou doente, com uma bomba relógio em minha cabeça prestes a explodir... — começou, encarando as próprias mãos — E pode parecer idiotice ou até mesmo grosseiro, mas... a questão é que eu não quero criar laços com qualquer que seja a pessoa. Não sei quanto tempo ainda tenho, mas ao que tudo indica, é pouco demais para que eu me dê o luxo de ferir mais alguém com a minha partida, por isso não quero me apegar às pessoas e muito menos que as pessoas se apeguem a mim. — sua voz falhou — Quando descobri sobre o Aneurisma meses atrás, muitas das pessoas a minha volta se afastaram e eu levei um tempo até entender o porquê. Às vezes, é mais fácil permitir-se esquecer. Você deixa o passar do tempo apagar de sua memória os rostos, os endereços, os números de telefone, os sorrisos e as vozes. Você se esquecia de que aprendeu a esquecer, que um dia forçou a si mesma a esquecer. Então, ocasionalmente, a perda de alguém que um dia significou tanto para você passa a ser mais suportável, até mesmo irrelevante, porque, como você poderá sentir falta de algo que não lembra? Com meus pais e as meninas, no entanto, os laços estão profundos demais e a dor será inevitável. Mas nossos laços são recentes, Louise, ainda há chances de cortá-los. Não quero que você faça parte dessa equação dolorosa e imprevisível praticada pela vida, entende? — finalizou, erguendo o olhar para a Gutiérrez, encontrando os olhos tempestuosos da mesma fixos nos seus.

Louise ficou quieta por alguns segundos, absorvendo as palavras de Chloe e então, para a surpresa da morena, a italiana começou a rir. Chloe franziu o cenho completamente confusa. De todas as reações possíveis que ela poderia ter, aquela definitivamente não era a esperada.

— Por que você está rindo? Eu disse algo engraçado? — perguntou sem entender.

— Não... — Louise respirou fundo em busca de conter a risada — Eu estou rindo porque você é uma completa idiota.

— Idiota? Por quê? — questionou ainda mais confusa, e, um tanto ofendida também.

— Porque você não pode impedir as pessoas de se aproximarem de você por medo de feri-las, Chloe. Se machucar ou não é uma escolha delas e não sua. E a partir do momento que você cativa alguém com a sua presença, mesmo que tenha sido mínima na vida da pessoa, ela sempre recordará de você. — pontuou, deixando de lado a postura divertida para poder encará-la de forma séria.

— Você não entende, não é? — a morena riu sem humor enquanto balançava a cabeça — Não me importa de quem possa ser à escolha, Gutiérrez. Eu só não quero deixar para trás um rastro de dor e sofrimento! Esse fardo eu prefiro carregar sozinha! — rebateu um pouco irritada.

— Sofrer pela morte de entes queridos não é algo negativo, Chloe. Isso só mostra o quanto aquela pessoa que partiu era importante para outras. — Louise moveu o corpo para poder ficar de frente para a morena — E por mais que você grite, esperneie, ou seja rude, isso não mudará a realidade... assim como não mudará o fato de que eu não irei embora. — Chloe abriu a boca para retrucar, porém a italiana não permitiu — Você não pode controlar tudo a sua volta, Lo. Por isso não seja tão idiota. — Louise sorriu minimamente — Vamos lá, ponha a mão sobre o seu peito. — pediu, fazendo a morena olhá-la intrigada.

— Como? — franziu o cenho — Louise, eu acho que...

— Não discuta comigo, Madsen. Apenas faça o que estou pedindo. — a interrompeu e mesmo estando confusa, Chloe a obedeceu — Ótimo, agora feche os olhos. — voltou a pedir e a britânica a olhou um pouco desconfiada, mas ainda assim, obedeceu sem protestos — Muito bem... O que você está sentindo? — perguntou após alguns segundos.

— As batidas do meu coração. — respondeu ainda de olhos fechados.

— Exatamente. E sabe o que isso significa? Que as batidas de seu coração representam o relógio da sua vida, tiquetaqueando a contagem regressiva do tempo que ainda lhe resta. — Chloe abriu os olhos e encarou a italiana, prestando bastante atenção em suas palavras — Um dia ele parará. Isso é cem por cento garantido e não há nada que você possa fazer a respeito. Portanto, não dá para perder um único precioso segundo. — Louise suspirou — O que eu quero dizer com tudo isso é que você não pode simplesmente afastar as pessoas que se importam e que só querem o seu bem pelo fato de estar doente, Chloe. E daí que você irá morrer? Todos nós iremos. É claro que alguns partirão antes que outros, mas no final das contas, somos todos viajantes desse tempo e desse lugar. Somos apenas passageiros destinados a observar, aprender, crescer, amar, e então para casa novamente retornar. Por isso você deve parar de agir como uma idiota. Por isso deve aproveitar o máximo do tempo que ainda possui com coisas produtivas. Seja fazendo uma lista... — a morena sorriu, sentindo seu coração acelerar dentro do peito — Ou simplesmente aproveitando do carinho e atenção distribuídos por aqueles que te amam. A vida é curta e às vezes injusta? Sim, ela é, mas as lembranças que podemos deixar duram uma eternidade. — concluiu com um pequeno sorriso, deixando que a emoção fosse refletida através de suas orbes achocolatadas.

Chloe estava completamente desconcertada e desarmada enquanto tentava digerir tudo aquilo. Para os cientistas, a luz viajava mais rápido do que a escuridão, mas para Chloe, eles estavam completamente errados. Não importava o quão rápido a luz viajasse, no fim das contas a escuridão sempre chegava antes, de forma fria, sufocante e impiedosa. Mas algo havia mudado naquele exato momento, e era graças às palavras de Louise, que havia alcançado as profundezas de seu subconsciente, de seu coração. E então a morena se viu sendo puxada daquela tortuosa escuridão, daquele poço de dor e sofrimento que havia se tornado sua casa. Era como se Chloe finalmente houvesse alcançado a famosa luz no fim do túnel.

— Sabe de uma coisa? Você está completamente certa. — a morena abriu seu melhor sorriso, aquela que há meses permanecia adormecido — Eu não posso ficar aqui me lamentando e perdendo tempo enquanto tenho pessoas importantes para amar... e uma vida para desfrutar. — o coração da Gutiérrez se aqueceu ao ouvir aquelas palavras, feliz por ter alcançado seu objetivo. Chloe poderia ser cabeça dura, mas ela era mil vezes mais — Obrigada, Louise. Obrigada por abrir meus olhos e por me fazer enxergar o quão idiota eu estava sendo.

— Sempre que precisar, Srta. Madsen. — as duas riram abertamente e, pela primeira vez, Chloe sentiu que as coisas finalmente poderiam dar certo para ela.

Havia um sentimento estranho em seu coração, talvez fosse sua memória muscular lembrando quem ela realmente era. E, poderia até mesmo parecer contraditório, mas ela só estava tentando se encontrar através dos olhos de outra pessoa após ter passado muito tempo perdida em si mesma. E Louise era a pessoa.

— E então, por onde começamos? — questionou, fazendo uso das mesmas palavras que a italiana havia utilizado minutos atrás.

— Ahn... Deixe-me ver... — Louise inclinou a cabeça um pouco para o lado, pensativa — Já sei! — estalou os dedos de forma animada — Vamos começar pelo número 4.

— Quebrar as regras? — indagou ao olhar a própria lista.

— Exatamente. — a italiana sorriu abertamente — Você tem patins?

— Ahn... Acho que sim. — respondeu um pouco duvidosa — O que você tem em mente?

— Quando chegar a hora certa você saberá. Agora vá para casa e tome um banho, daqui uma hora vou te buscar. — se pôs de pé e Chloe logo a acompanhou.

— Você é muito mandona, sabia? — resmungou, seguindo os passos de Louise em direção a orla da praia.

— É... Já me disseram isso. — ela fez uma careta e as duas riram novamente, parando uma de frente para a outra — Não se esqueça dos patins, ok? — lembrou quando chegou a hora de se despedirem.

— Não esquecerei, pode deixar. — Chloe sorriu quando Louise apoiou-se em seus ombros para depositar um demorado beijo em sua bochecha, assim como havia feito em frente à sua casa semanas atrás.

Após se afastarem, cada uma seguiu seu caminho, sem terem a menor ideia de que aquela pequena lista mudaria suas vidas para sempre, mesmo que em um curto espaço de tempo.

[...]

— Louise, espera. — Chloe a segurou pelo braço, impedindo que a mesma adentrasse o estabelecimento de fachada chamativa — Não seria melhor deixar isso para amanhã ou... depois? — o nervosismo era nítido em sua voz.

— Você está com medo? — cruzou os braços ao encará-la com atenção.

— Eu não gosto muito de agulhas, Louise. — abaixou o olhar, meio desconfortável. A verdade era que Chloe já havia tido experiências o bastante com agulhas durante seu tratamento, e já começava a se arrepender de ter escrito aquele segundo item em sua lista.

— Ninguém gosta, Lo. Mas é só uma tatuagem. — se aproximou da morena e segurou em suas mãos, em uma tentativa de passar-lhe conforto — Vamos lá, vai ser só uma dorzinha de nada e quando você menos esperar, já vai ter acabado. — Louise piscou os olhos de forma adorável e aquele pequeno gesto fez Chloe praguejar baixinho.

Em poucos dias a italiana já havia descoberto como convencê-la a fazer qualquer coisa, e para isso bastava apenas fazer aquela carinha de cachorro que caiu da mudança.

— Assim não vale, você está jogando baixo. — resmungou emburrada.

— Só estou usando as armas que tenho, baby. — sorriu, lançando uma piscadela travessa para a britânica — Agora vamos, porque eu estou louca para saber como ficará a sua tatuagem.

As duas entraram no estúdio e em questão de minutos Chloe já se via deitada sobre uma maca, reproduzindo diferentes caretas sempre que o objeto metálico de ponta fina entrava em contato com a sua pele. Ela, definitivamente, não possuía nenhum apreço por agulhas.

Enquanto isso, na sala ao lado, Louise teve que se conformar em ficar à espera já que a morena havia a proibido de acompanhar o procedimento da tatuagem, pois queria fazer suspense em relação à mesma. Então, só restou a italiana ficar divagando enquanto os minutos pareciam levar horas para se passarem. E foi em meio a essas divagações que as lembranças daquela manhã de domingo vieram à tona em sua mente. Ela havia levado Chloe ao shopping para cumprir a quarta tarefa de sua lista, quebrar uma regra. Louise recordava-se perfeitamente da cara de pânico que a morena havia feito quando ela contou que as duas iriam andar de patins pelo shopping. Foi difícil convencê-la, mas bastou um pouco de insistência e uma carinha adorável para que conseguisse dobrá-la direitinho. Aquele havia sido um dos dias mais divertidos de toda a sua vida.

As duas já haviam patinado por quase todos os corredores do shopping quando, inesperadamente, os seguranças começaram a persegui-las por todos os lados. Com a adrenalina à flor da pele, as duas patinaram desesperadamente por entre as diversas pessoas que faziam suas compras tranquilamente, às vezes até esbarravam em uma ou outra. Mas as coisas só se tornaram complicadas para valer quando Chloe – em completo desespero – acabou fazendo uma curva errada, e como consequência do movimento mal calculado, a morena se viu indo de encontro ao chão e, se não bastasse, ainda levou a Gutiérrez junto.

Louise ainda podia sentir a eletricidade percorrendo cada célula de seu corpo sempre que se lembrava do exato momento em que seu rosto se encontrava a sentimentos do de Chloe. As duas compartilharam do mesmo ar naquele curto período de tempo. Compartilharam do mesmo coração acelerado, que por mais que negassem, não estava acelerado somente pela exaltação repentina. Compartilharam das mesmas pupilas dilatadas, do mesmo olhar confuso, assustado, admirado. Da mesma vontade, do mesmo desejo, dos mesmos tremores, do mesmo rubor. Algo extremamente forte começava a nascer entre ambas, entretanto, elas preferiram ignorar todas aquelas sensações tão estranhas, mas ao mesmo tempo tão intensas e desejosas, para não se apegarem a algo que poderia não ser concretizado.

Louise foi tirada de seus devaneios quando o tatuador chamou a sua atenção, dizendo que já havia terminado seu trabalho e que Chloe a estava esperando para mostrá-la o desenho. A italiana não perdeu tempo e logo adentrou a sala, encontrando a britânica em frente a um enorme espelho.

— E então, como foi? — perguntou ao se aproximar, encarando Chloe através do espelho. Naquela manhã, especificamente, as orbes verdes da morena encontravam-se em uma tonalidade bem mais clara que o seu habitual. Era um verde tão cristalino quanto as águas do mais belo rio já encontrado.

— Doloroso. — respondeu entortando os lábios em uma leve careta e Louise abafou uma risada — Mas devo admitir que valeu super a pena. — Chloe sorriu abertamente e aquilo só deixou a italiana ainda mais curiosa.

— Então deixa de enrolação e me mostra logo a droga dessa tatuagem, Madsen! — exclamou impaciente, fazendo o sorriso da morena se transformar em uma gargalhada.

— Tudo bem, apressadinha. — brincou antes de erguer a lateral de sua blusa.

Chloe não pôde evitar se sentir desconfortável diante as manchas arroxeadas em sua pele por conta das injeções, mas esse desconforto se dissipou no exato instante em que ela sentiu os dedos gélidos de Louise tocarem sua pele na altura das costelas, onde estava situada sua recém-feita tatuagem. Aquele simples e pequeno gesto a fez estremecer, mas ela preferiu acreditar que aquela reação havia sido somente uma consequência por sua pele ainda estar muito sensível naquela região. Pobre Chloe, estava mentindo para si mesma.

— Ficou incrível! — Louise elogiou maravilhada, enquanto contornava delicadamente o desenho com as pontas dos dedos — Mas por que um pássaro?

— Porque... apesar de todo o caos em minha vida, essa é a primeira vez que eu me sinto realmente livre. — Chloe moveu seu corpo para poder ficar de frente para a latina — Os pássaros enfrentam as tempestades noturnas, tombam de seus ninhos, sofrem perdas, dilaceram suas histórias. Pela manhã, eles têm todos os motivos para se entristecerem e reclamar, mas cantam em agradecimento por mais um dia. E, agora, eu sinto como se pudesse voar para qualquer direção do horizonte, pousar em qualquer canto do mundo, cantarolar as mais belas canções. Por isso eu escolhi um pássaro, porque ele representa renovação e o desejo pela minha liberdade. — concluiu, recebendo um beijo carinhoso em sua bochecha.

— É muito bom ouvir isso, sabia? — a italiana sorriu de forma genuína, completamente hipnotizada pelo verde brilhante dos olhos de Chloe. Existia um certo mistério nos olhos dela, que Louise não conseguia decifrar, mas que a fazia ficar ainda mais encantada cada vez que os via — Eu queria tanto roubar seus olhos para mim. — declarou baixinho.

— Meus olhos? Por quê?

— Porque eles são lindos e marcantes. O verde que eles possuem me dá a sensação de estar observando a galáxia mais bela do universo, cheia de cometas, planetas e estrelas. Eles carregam tanta coisa... — suspirou — E são bem melhores que o castanha sem graça dos meus.

— Ei, não diga isso. — Chloe a repreendeu, levando suas mãos até as bochechas da Gutiérrez para acariciá-las — Eu acho seus olhos lindos.

— Não precisa mentir só para me agradar, Lo. — abaixou a cabeça, mas a britânica logo tratou de erguê-la novamente.

— É sério! Não estou mentindo. O castanho pode não ser a cor mais linda, mas em seus olhos, Ise, é como se eles não fossem um castanho sem graça. — retirou algumas mechas escuras da frente do rosto da italiana — No mundo você vai encontrar várias pessoas com olhos azuis, verdes, âmbar e até mesmo pretos, mas os castanhos dos seus é o mais belo que poderia existir. É uma cor tão única que não deveria ser chamado de castanho, ele merecia um nome único somente dele, porque são seus, e isso faz deles extraordinários. — declarou com um pequeno sorriso, e Louise não conseguiu conter uma pequena lágrima que escorreu por sua bochecha, lágrima essa que Chloe prontamente secou.

— Ninguém nunca elogiou meus olhos dessa maneira. — sussurrou, sentindo a respiração da morena em ritmo com a sua.

— Bem, eu elogiei. — a italiana soltou uma breve risada pelas palavras de Chloe e se afastou minimamente dela para se recompor. Louise costumava ficar bastante emotiva quando estava naqueles dias, ou pelo menos era nisso que ela preferia acreditar.

— Bom, agora chega de melodrama e vamos embora. Quero muito ver a reação da Alice ao mostrarmos a sua tatuagem para ela.

— Ela vai adorar. — Chloe ironizou e Louise caiu na gargalhada, puxando-a pela mão em direção a saída do estabelecimento. Ambas sabiam da pequena aversão de Alice por desenhos permanentes na pele, mas, ainda assim, a histeria da mais baixa não deixaria de ser divertida.

Chloe sentia como se houvesse retirado um peso de suas costas. Havia demorado, mas graças a Louise, aprendera que apesar de todos os acasos, era necessário continuar respirando, continuar caminhando, enfrentando todos os seus monstros caso ela quisesse uma vida escrita por ela mesma, com as quedas e os fracassos, os choros e os desesperos, as alegrias e os desamores, e não somente linhas rabiscadas pela força do tempo. Ela ainda sentia medo, ainda tinha os seus momentos de torpor onde a angústia parecia torturá-la, mas havia aprendido que a vida era aquele perfeito contraste entre o tudo e o nada, e que as pessoas eram meros atores daquela peça sem ensaios, com pouco público e com um final incerto.