Tandem Felix
22 Vox faucibus haesit
Notas iniciais
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– Você?!
– Seu Niko...
– Jéssica?! O que você veio fazer aqui?!
– Eu... Eu vim... Pedir perdão...
– Perdão?! Então... É verdade... Você tem mesmo algo a ver com isso tudo? Com esse assalto? Com esses bandidos?
Ela entrou no quarto e se aproximou.
– Seu Niko... Eu... Eu conheço sim o bandido que atirou no senhor!
– Você é cúmplice deles? Responde Jéssica!
Ela fechou os olhos e lágrimas correram em sua face.
– S-seu Niko... Eu... Eu estou muito feliz que não tenha acontecido nada de mais grave com o senhor... Eu não me perdoaria se acontecesse...
– Você está confessando que sabia o que ia acontecer?! – Ele estava ficando mais nervoso. – Fala Jéssica! Você deu informações aos bandidos, não deu?! Você também estava envolvida no assalto da outra noite?
– S... Sim... — Niko arregalou os olhos assustado e ela continuou. – Eu sabia que iam assaltar o restaurante!
Niko engoliu seco. – Por que Jéssica? Quer dizer que você me roubou?
– Não, seu Niko... Eu juro que não peguei um só centavo do senhor... – Ela chorava enquanto falava. – S-se o senhor me permitir... Eu queria terminar de contar a minha história...
Dando seu último voto de confiança, ele disse sério: — Sente-se!
Ela se aproximou e sentou na cadeira ao seu lado.
– Eu deveria denunciá-la, Jéssica! Depois de eu ter demonstrado confiança em você, você faz isso comigo?! Eu tô aqui machucado por sua culpa, mas o que dói mais é a traição dessa confiança! Eu já confiei muito em pessoas que me traíram das piores formas, e... – Niko falava revoltado consigo mesmo. – Eu deveria ter ouvido o Félix, eu fui muito burro... De novo...
– Por favor, seu Niko... Não peço pra não me denunciar... Mas, deixe-me apenas contar o resto de minha história! Por essa confiança que o senhor depositou em mim...
Niko respirou fundo, e apesar de estar com raiva, ainda sentia sinceridade nela. Então, falou muito sério: — Conte o que quer me contar!
Ela fechou os olhos, respirou profundamente e começou...
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– N-não... Não, não, não... Definitivamente, Niko, você... Você bateu a cabeça quando caiu... Você deve estar delirando, não é possível... – Félix foi até ele colocando a mão em sua testa.
Niko segurou em sua mão sobre sua testa e falou chorando: — Félix... Não tô com febre... É verdade... Ela pode ser mesmo a mãe do Jayme!
Félix ainda não queria aceitar. – Não... N-não, carneirinho, não... Não é possível... – Deu uns passos, pôs a mão na própria cabeça agora e olhou bem para Niko que demonstrava toda sinceridade no que dizia mesmo com os olhos verdes brilhando por causa das lágrimas. Reaproximou-se do marido, sentando ao seu lado e segurando sua mão. – Niko... Se isso for verdade... O quê que ela quer? Por que, ela não tem direito nenhum nem de querer ver o Jayme agora depois de todos esses anos, depois de tê-lo abandonado, de...
– Calma, Félix... – Ele pedia calma, mas estava já com o rosto vermelho pelo choro. – Eu acho que ela não sabe quem é o filho dela...
Félix fez a expressão mais confusa de sua vida.
– C-como... Como que ela não... Como é que é isso, Niko?! Não tô entendendo mais nada agora!
Niko suspirou enxugando as lágrimas. – Eu vou te contar tudo que a gente conversou, Félix! A verdadeira história da Jéssica...
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– Eu já falei do meu grande amor... – Deu um suspiro sofrido. – Que morreu muito jovem... Justo quando eu... Estava grávida...
– Sim! Você já contou essa parte da história, mas parou quando perguntei sobre seu filho...
– S-sim... M-meu filho... – Ela tentou engolir o choro. Sua voz estava embargada.
– Você vai falar ou não?!
– S-sim... – Enxugou as lágrimas que não ficariam secas por muito tempo. Antes que ela pudesse começar a falar mais alguma coisa, Niko perguntou:
– Jéssica... Afinal... O que aconteceu com seu filho? Você o teve ou não?
– Tive...
– E?
Titubeou, mas falou claramente envergonhada. – Eu... O abandonei...
– Você fez o quê?! – Niko demonstrou com a expressão em seu rosto o quanto achava aquilo desprezível.
– Eu não tive escolha...
– Sempre há outra escolha, Jéssica! – Falou com revolta. – Qualquer escolha é mais digna que abandonar um filho!
Ela apertou os olhos, não suportando aquelas palavras.
– Eu fui uma covarde... Depois que meu noivo morreu, eu não tive forças para me reerguer, pra cuidar do meu filho... – Niko continuava a ouvi-la indignado. – Uma... Amiga... Um dia, me ofereceu uma coisa pra eu me acalmar... E aí começou meu carma...
– Como assim?
– Eu passava noites em claro... Eu não tinha paciência pra cuidar do meu bebê quando ele chorava... Não tinha leite pra dar de mamar... Também não tinha dinheiro pra comprar o leite especial pra recém-nascido...
– E como você fazia?
– Me virava com o que me davam... Com o que dava pra comprar... Eu trabalhava num restaurante nessa época e o dono era amigo do esposo da minha tia, o que me ensinou a cozinhar... Ele me ajudou financeiramente, deu um empréstimo pra eu comprar as coisinhas que meu filho precisava, mas... Eu fiz tudo errado...
... ...
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Enquanto Niko contava a história de Jéssica, Félix lembrava-se da entrevista que fizeram com ela e tentava encaixar as coisas.
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– E seus antecedentes?
– Ant-antecedentes?!
– Sim... Os outros lugares que você já trabalhou... Do que você achou que eu estivesse falando? Antecedentes criminais?
– Bom, eu já trabalhei num restaurante... Mas, saí... Por que não gostava muito de lá...
– Simplesmente saiu porque não gostava?
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– Ela falou isso, Niko...
– O quê?
– Na entrevista... Ela falou sobre ter trabalhado num restaurante e que não ficou muito tempo... Claro... Não ficou porque teve que parar quando teve o filho! – Nesse momento Félix se assustou com o que ele mesmo pensou. – E de acordo com o currículo dela, isso faz exatamente treze anos!
Niko continuou contando tudo que Jéssica lhe confessou...
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– O que você fez errado?
– Nessa época eu fiquei muito mal, só dormia com remédio, e quando dormia assim, eu acordava com dor de cabeça e com meu bebê chorando de fome... Eu o deixava numa creche quando ia trabalhar, e à noite... – Ele falava como com revolta dela mesma. – Eu mal cuidava dele de tão... Irresponsável que era!
– Irresponsável sim... Mas, você estava passando por um momento muito difícil... Precisava de ajuda...
– Sem uma família presente e sem dinheiro... Pobre não tem ajuda não, seu Niko!
– Eu entendo, Jéssica! Eu não nasci rico, também tive uma infância pobre... Mas, ao pobre ainda resta o maior tesouro de todos... A fé!
– Acho que foi isso que me faltou, seu Niko! Fé! Eu fui fraca demais...
Niko suspirou. – Então... Continua contando o que aconteceu!
– Foi então que uma amiga... Bom, que se dizia amiga... Me ofereceu uma coisa que disse que ia me relaxar... Que ia... Me fazer esquecer os problemas...
– Eram... Drogas?
– Era! Eu me viciei... Precisava de mais dinheiro para tudo... Para comprar as coisas do meu bebê e para comprar a maldita droga...
– Você roubou pra conseguir esse dinheiro?
– Não... Não imediatamente! Eu pedi outro empréstimo onde eu trabalhava, mas o meu chefe não podia me dar, eu pedi adiantamento de salário, mas também não... O pouco que me restava eu usei... Cometendo o maior erro da minha vida...
– Qual?
Ela engoliu seco com dificuldade de falar. – Eu... Conheci um cara que disse que podia me dar um trabalho... Eu ia ganhar muito bem! Ele me fez promessas, disse que eu tinha futuro como chef de cozinha... Me fez acreditar em cada coisa que ele dizia... Mas... Uma vez, disse que precisava que eu pagasse para ele comprar o meu... Uniforme...
– E ele te roubou?
– Não, ele realmente comprou algo pra mim... Mas, não era o uniforme para trabalhar... Era... Uma roupa provocante, sensual...
Niko, que já estava completamente concentrado na história, se surpreendeu: — Ele... Ele queria que você trabalhasse como...
– Como garota de programa!
– Jéssica...
– Mas... Eu não queria, eu não faria isso! No dia que eu descobri, eu recusei! Aí ele... – Recomeçou a chorar. – Ele tentou... Me violentar...
Niko não dizia mais nada, apenas continuava ouvindo, surpreso, indignado, e já com pena dela.
– Nisso eu já suspeitava que ele também era traficante, porque ele já havia arranjado a droga pra mim outra vez e ele mandava em outros caras... Nesse dia, eu tentei fugir, disse que ia denunciá-lo, mas foi aí que ocorreu a desgraça...
– Que desgraça?
– Estávamos no escritório dele... Ele pegou uma arma que tinha escondida e me ameaçou, dizendo que eu tinha que fazer o que ele mandasse... Não sei como eu consegui agarrar na mão dele e brigar com ele, mas ele era bem mais forte, me empurrou, pôs a arma na cintura e começou a me agarrar... Na mesma hora um dos que trabalhavam pra ele chegou sem saber que estávamos ali... Aí ele se distraiu e eu puxei o revólver da cintura dele e...
– E... O quê, Jéssica? O que você fez?
As lágrimas escorreram incontroláveis. – Eu... Atirei nele... Eu atirei pra me defender... Pra ele sair de cima de mim...
– Meu Deus! Você... – Niko ficou com os olhos marejados. – Você matou um homem?
Ela mal conseguia falar pelo choro. – Eu... Eu não queria... Mas, foi... O único jeito...
– O que houve depois?
– Eu nem sei bem como eu fiz aquilo... Ele caiu no chão... Achei que o tiro tivesse acertado na coxa dele, na barriga dele, nem sei direito onde foi... Mas ele desmaiou! O cara que trabalhava pra ele, ficou me olhando e eu achei que ele fosse me fazer alguma coisa, mas ele pôs a mão no pescoço do patrão e disse que eu havia matado ele! Eu fiquei muito assustada e ele me tirou de lá antes que alguém mais chegasse!
– Então... Ele te ajudou a fugir?
– Foi... Mas, eu preferia ter ido pra cadeia...
– Por quê?
– Por que... A partir daí... Esse cara passou a ser minha sombra...
– Sua sombra?
– É... A cobra que me envenena...
– Cobra? – Niko se lembrou do bandido que atirara contra ele e da grande tatuagem de cobra que ele tinha no braço. – Jéssica... Esse cara que te ajudou a fugir era aquele bandido não era? O que assaltou meu restaurante... Que tentou atirar em mim...
– Era... Era ele...
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– Então, o desgraçado que atirou em você, Niko, era o mesmo que a ajudou a fugir depois de ela matar o cara?
– Foi o que ela disse!
– Que ótimo! – Foi levemente irônico. – Que bonito! Os dois cúmplices enfiados no nosso restaurante... Continua carneirinho!
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– Jéssica... Por quê? Porque você fez parte desse assalto? Você podia ter me avisado, me contado tudo antes, eu te apoiaria, eu estaria prevenido pelo menos...
Ela apenas baixou a cabeça.
– Jéssica... Você falou desse cara...
– Ele gosta de ser chamado de cobra...
– Tá... Você falou desse tal cobra de um jeito que não é de alguém que você tenha agradecimento por ele ter te ajudado a fugir... É como se você tivesse mais um ressentimento, uma mágoa... Um desgosto...
Ela o olhou de forma diferente. – O senhor é mesmo incrível, seu Niko... Parece que vê o que se passa na alma...
Niko deu um leve sorriso ao lembrar que seu amado Félix já lhe disse muitas vezes coisas parecidas.
– Eu só... Tento compreender as pessoas... Até onde elas mesmas não compreendem!
Com isso, Jéssica se pôs a chorar ainda mais. – Eu fico com muito remorso de ver o senhor aí nessa cama, ferido...
– Você podia ter evitado que isso acontecesse!
– Eu tentei, seu Niko! Eu tentei! Eu juro que tentei! E-eu falei com o cobra antes de ele entrar no restaurante, eu disse pra ele não ir, eu pedi, implorei... Eu disse várias vezes que daria todo meu salário pra ele, mas ele não me ouviu, ele achava pouco, ele queria mais... Eu... Eu não pude impedi-lo... Não de roubar... Mas... O impedi de fugir...
– De... Fugir? Então... Foi você quem esfaqueou aquele bandido, não foi? Foi mesmo você quem pegou a faca do restaurante e o atacou?
– Sim, fui eu! E essa é uma das poucas coisas de que não me arrependo!
– Por que você fez isso?
– Por que eu pedi pra ele não fazer nada contra o senhor! O senhor foi tão bom comigo o tempo todo... Confiou em mim desde o primeiro dia... Eu... Estava vendo tudo quando ele atirou contra o senhor, eu fiquei assustada, pensei que tivesse acontecido o pior! Então... Como eu já tinha pegado mesmo a faca eu usei...
– Jéssica, eu não entendo... Se esse cara te ajudou primeiro, como que depois acabou assim, você tendo tanta raiva dele?
– Eu... Na época que ele me ajudou... Eu estava muito só... Viciada e com um bebê muito novinho... Ele foi a única pessoa que me estendeu a mão... E, sabe seu Niko... É muito fácil pegarmos o fruto que uma cobra nos oferece quando estamos morrendo de fome...
Niko continuava atento a ouvi-la.
– A gente nem se importa se vai ser mordido, se vai morrer com o veneno... E... Eu... Morri... – Ela voltou a chorar. – Morri quando me apaixonei por ele...
– Você se apaixonou por esse cara?
– Sim... Pelo menos foi o que achei, mas talvez fosse só por que ele me ajudava, ele me dava uma falsa alegria... Ele me dava drogas e um dia, meu antigo patrão percebeu que eu tinha usado... Ele me demitiu e o pouco de dinheiro que eu ainda tinha se acabou...
– Jéssica, você não tinha mais ninguém?
– Não... Minha mãe era uma pessoa cheia de problemas de saúde e... A verdade é que... Ela não aceitava o meu filho...
– Por que ela não aceitava o próprio neto?
– Por que... Ela nunca aceitou o meu namoro com o pai dele! Nos éramos classe média, não tínhamos muito dinheiro, mas também nunca nos faltou nada... Já o pai do meu filho era muito pobre, órfão... E negro! Sim, seu Niko... Minha mãe era preconceituosa demais para ver a única filha casada com um negro favelado como ela o chamava...
– Deixa ver se eu entendi... Sua mãe era racista? Por isso que você foi morar com seu namorado, abrindo mão de sua casa, de suas coisas?
– Sim! Quando ela descobriu a minha gravidez ela disse que se eu saísse de casa nunca mais precisaria voltar... E eu saí! Fui embora com ele pra a favela! Ficamos juntos até que a tragédia aconteceu e meu filho nasceu! Foram vizinhos que me levaram pra o hospital quando eu ia ter meu bebê... Eu nunca mais vi minha mãe até dois mil e dezessete quando eu soube que ela estava muito doente e sem ninguém... E eu cuidei dela até sua morte!
– Que... Triste... Você devia ter muita mágoa...
– Tinha, mas... Pelo menos, antes de morrer ela disse que me amava...
... ...
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– Na hora, Félix... Eu me lembrei de você, amor! De você me falando com entusiasmo no dia que seu pai disse finalmente que te amava e te chamou de filho...
Félix estava com os olhos marejados, mas respondeu de forma um tanto ríspida:
– Você está me comparando com essa mulher agora, Niko?
– Não, amor... Mas... Digamos que eu vi nos olhos dela algo que vi nos seus! Não esqueça que os olhos são o espelho da alma e nos seus eu vi o homem bom, maravilhoso, que se escondia por trás de uma armadura de ódio e amargura!
Félix respirou fundo e pediu: — Tá, tá bom, carneirinho... Continua!
Ao mesmo tempo, Félix recordava a entrevista.
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– Sim, eu estou vendo seu currículo e está incrível... Incrivelmente detalhado! Por isso mesmo, eu dei por falta de alguns períodos de tempo nele! Por exemplo, você diz que começou trabalhando com dezoito anos, e que ficou um ano no emprego, mas aqui falta um período entre os anos de dois mil e cinco e dois mil e seis, justamente quando você tinha dezoito anos...
– É que... Eu não fiquei um ano completo no emprego, eu... Eu fiquei uns oito meses... – Ela havia ficado claramente nervosa e Félix obviamente notou.
– E você ficou desempregada nesse período que falta no seu currículo?!
– S-sim!
– E depois em... – Olhou no currículo. – Dois mil e dezessete... Você também ficou quase dois anos sem emprego?
– Pois é... Eu tive que parar de trabalhar para cuidar da minha mãe! Ela já estava com a idade avançada e... E acabou falecendo...
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Félix pensava consigo: — Então, ela falou a verdade nessa parte...
Niko continuava contando sua conversa com ela.
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– Minha mãe só dizia que gostava de mim quando eu era pequena... Depois, só foi dizer que me amava quando estava prestes a morrer... – Ela chorava inconsolavelmente.
Niko também já chorava com aquela história. – Eu... Sinto muito por você...
– O senhor é muito bom, seu Niko! Dizer que sente por mim depois de tudo... Mas... Não sinta!
Niko se surpreendeu. – Como assim não sinta?
Ela deu um longo e sofrido suspiro. – Eu mereci cada coisa pela qual passei... Desde que abandonei o meu filho... Há treze anos... Eu venho sofrendo tudo na esperança de encontrá-lo um dia...
– Há... Treze anos?
– Sim... – Ela finalmente mostrou um breve sorriso em meio às lágrimas. – Eu sei que hoje meu filho não é mais um bebê, já é um rapazinho... Talvez tenha sido adotado por pessoas boas, talvez esteja tendo uma boa vida...
– Por que você o abandonou, afinal?
– Por que... – Ele suspirou. – O senhor se lembra do meu currículo? Lembra que eu fiquei um bom período sem trabalho nessa época em que eu tinha dezoito anos?
– Sim, acho que lembro...
– Pois então... Eu não fiquei tanto tempo sem trabalhar por causa da gravidez, pelo contrário, eu trabalhei até quase o meu filho nascer... Depois fiquei pouco mais de dois meses sem trabalhar porque tinha acabado de dar a luz e porque estava totalmente deprimida pelo acidente fatal do meu noivo...
– E quando você voltou a trabalhar foi quando você pediu empréstimos ao seu patrão, não é isso?
– É...
– Então?
– É que... – Ela baixou a cabeça envergonhada e contou: — Eu saí do restaurante por causa da promessa de trabalho desse homem que tentou abusar de mim... Depois que tudo aconteceu, que o Danilo, o cobra, me ajudou, nós ficamos amigos e ele me ajudava, me dava umas coisas, ele chegou a dar fraldas pra o meu bebê... Mas, aí, um dia ele me convenceu a... – Respirou profundamente. – A ajudá-lo a roubar o restaurante que eu trabalhava...
– Como fez comigo, não é?
– Sim... — Ela o olhou. — A diferença, seu Niko, é que eu nunca trabalhei pra o senhor... Mas, ele me convenceu a pedir de volta meu emprego e como o meu ex-patrão gostava de mim, assim como... Assim como o senhor... Ele me aceitou de volta! Mas, eu já estava tão viciada na droga, eu já estava tão enfeitiçada pelo infeliz do Danilo que eu... Eu passei a ele todas as informações sobre onde e como meu patrão guardava o dinheiro, enfim... Ele assaltou o restaurante!
– Exatamente igual...
– Sim... Menos por uma coisa... Meu patrão descobriu que eu estava envolvida e me denunciou... Danilo se escondeu junto com seus comparsas e me disse pra fugir... Eu fugi... Mas, pensei... – Ela encheu os olhos de lágrimas, agarrou-se nos próprios cabelos como que com raiva de si mesmo. – Pensei... Fugir com um bebê nos braços... Eu não vou conseguir! Então, eu... Eu o deixei na porta de um abrigo...
Niko não conseguia pronunciar uma só palavra. A emoção que sentia era de pena e de revolta.
– Eu... Eu o deixei... Mas, uma pessoa viu... Acho que era uma assistente social, não sei... Sei que ela me viu e me perguntou o que eu estava fazendo, se ia deixar o bebê ali, ela o pegou... E eu... Eu não sei se eu respondi alguma coisa, porque eu tinha acabado de usar os últimos grãos de pó que me restavam...
– Você... Você se drogou com seu filho nos braços?
– F-foi... Foi... Eu... Eu acho que ela percebeu, não sei... Ela pegou meu menino... E eu... Eu fugi... Mas aí... Noutro dia, eu estava na cadeia... Me pegaram pelo roubo do restaurante e eu fiquei presa alguns meses... De qualquer maneira, já era tarde... Eu tinha deixado meu menininho em um abrigo... Abandonado...
– Onde você o deixou? Você sabe?
– No começo eu não lembrava... Mas, depois, quando eu saí da cadeia e passei pelo local eu lembrei onde era... Mas, não tive coragem de perguntar... Eu tinha muita vergonha por tê-lo deixado lá... Tinha vergonha por que a mulher que o pegou tinha notado que usei drogas... Tinha vergonha e medo... Medo de ter meu filho de volta e não ter nada pra dar pra ele... Por que eu não tinha mais nada, nem pra mim!
Niko enxugou as próprias lágrimas após ouvir toda a história e perguntou:
– Depois de todos esses anos, você não o procurou mais?
– Aí é que está, seu Niko! Eu refiz minha vida como pude! Trabalhei aqui e ali... Me afastei das drogas... Mas... Falhei ao confiar de novo no infeliz do cobra! Quando o reencontrei, oito anos depois, ele parecia ter mudado, foi gentil comigo e o que eu sentia por ele meio que renasceu... Eu pensei que poderia ser finalmente feliz! Mas, não... Nós namoramos e, por influência dele, eu voltei a usar drogas! Ele prometeu que me ajudaria a achar meu filho... Mas não fez nada! Ele só queria que eu ficasse com ele! Eu só soube que ele realmente procurou uma vez que foi ao abrigo que eu disse que tinha deixado, mas meu menino já não estava mais lá!
– Ele foi adotado? Você não procurou saber?
– Só o que sabemos... Ou melhor, o que o Danilo descobriu pra mim, é que tinham adotado meu filho há pouco tempo! Alguém o adotou quando ele já era grandinho, com uns oito anos... E que mesmo que não tivessem o adotado, se aparecessem os verdadeiros pais não tinham direito nenhum de levá-lo assim, depois de abandoná-lo nas circunstâncias que foi abandonado...
– Quer dizer que ele nunca fez realmente nada de fato para você reencontrar seu filho?
– Não... E o pior é que... Ele passou a me ameaçar quando deixei de acreditar que ele encontraria meu filho...
– Te ameaçar como?
– Ele fala que se eu não faço o que ele manda... No dia que ele achar meu filho... Ele... Ele...
– Ele ameaçou fazer alguma coisa com seu filho?
– Sim... E por medo de que isso aconteça um dia, eu faço tudo que ele quer...
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– Mas... Espera aí, Niko... Só por essas informações você acha que o Jayme é o filho dela? Criatura, pode ser só uma coincidência... Ela podia estar falando de qualquer outra criança, de qualquer outro abrigo...
– Félix, ela me disse o nome do abrigo que deixou o filho...
– E... Era o mesmo que você adotou o Jayme?
– Não...
– Então?
– Mas, quando eu estava no processo de adoção, no abrigo me disseram que ele e outras crianças haviam sido transferidas de um abrigo pra outro no ano de dois mil e dez! O Jayminho era o mais velho dentre essas crianças!
– E no que isso ajuda a deduzir que justo o nosso Jayme seja o filho dela?
Niko respirou fundo e continuou contando.
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... ...
– Jéssica, você se contentou então com tudo que aconteceu?
– Não, mas... O que eu poderia fazer, seu Niko? Eu tomei consciência de que não poderia ter meu filho de volta... Nunca mais! Eu o perdi quando o deixei... Nunca cuidei dele direito pra falar a verdade...
– Quer dizer que você desistiu de procurá-lo?!
– Não! Como eu já disse, eu acreditei que o Danilo, por ter muitos contatos como ele dizia, poderia achar meu filho, nem que fosse só para eu vê-lo de longe, saber como ele estava, se tinha sido adotado por boas pessoas... Acredite, minha maior alegria seria saber que meu filho está sendo criado por gente de bem, gente que o ame como eu nunca fui capaz de amar... Mas, o Danilo só me engana, ele nunca vai achar meu filho!
– Essa... Essa história toda mexe muito comigo, Jéssica... Eu lutei muito pra ter meus filhos comigo... Se não fosse o meu marido, o Félix, eu não estaria hoje com meu Jayme nem meu Fabrício...
– Seu Niko, o seu filho menor é seu filho biológico?
– Sim, ele é! Foi gerado por barriga solidária, mas essa barriga não foi muito solidária a mim, sabe... Enfim, é uma longa história... Eu quase perdi meu bebê, tentaram sequestrá-lo... E graças ao Félix que me ajudou a recuperá-lo estou com ele hoje!
– Perguntei porque naquele dia que o senhor os apresentou, eu achei o pequeno realmente bem parecido com o senhor...
Niko deu um meio sorriso. – É o que todos dizem, que ele é minha cara...
– E é... E o outro?
– O Jayme? O Jayme eu adotei... – De repente, Niko parou de falar e ficou com o olhar fixo no nada.
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– Foi nessa hora, Félix, que tudo veio a minha cabeça como num turbilhão... Tudo que ela tinha dito sobre o filho, as datas, a idade da criança, tudo... E eu comecei a achar que podia ser o Jayme...
– Mas, Niko, pelas botas de Judas, eu já falei que tudo pode não passar de uma coincidência...
– Félix, não foi só o que ela havia me contado que veio a minha cabeça, mas também outra coisa... Cadê aquela foto que eu pedi pra você guardar?
– Ah, tá aqui... – Félix pegou a foto da carteira. – Mas, o que tem?... Espera... Você não tá pensando que...
– Sim... – O loiro pegou a foto das mãos do companheiro. – Olha bem... Olha bem pra esse homem... Esse sorriso, esse olhar... Não lembra alguém que conhecemos?
Félix observou bem a foto e viu que era verdade o que Niko queria dizer.
– Félix... Se o filho que a Jéssica abandonou for o Jayme... Esse era o... O... – Encheu os olhos de lágrimas e não conseguiu falar. Félix completou:
– O pai dele!
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