Tandem Felix
23 Magnae Spes Altera Matrem
Notas iniciais
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... ...
– Seu Niko? Seu Niko!
– Hã?!
– O senhor ficou pálido de repente... Estava falando sobre seu filho...
– Meu... Meu filho...
– Sim, seu filho que o senhor adotou que o senhor estava falando... O senhor o adotou quando era bebê?
Além de pálido, Niko respirava forte, e parecia extremamente chocado.
– N-não... Ele já era grandinho...
– Ah... – Ela viu como ele estava transtornado. – Seu Niko... O que houve? Porque o senhor ficou assim? Quer que eu chame um médico?
– N-não... Não...
– O que quer que eu faça?
– S-saia... Sai daqui!
Ela se entristeceu com aquele pedido quase ordem. Levantou-se da cadeira e foi indo em direção à porta. Antes de sair ainda virou e falou: — Eu... Eu vim apenas esclarecer tudo e pedir perdão por tudo que fiz o senhor passar, mas... Se quiser me denunciar... Eu estarei na minha casa! Não fugirei! Vou aceitar as consequências...
– Jéssica... – Ele a chamou sem olhar para ela.
Ela parou esperando o que ele ia dizer. Niko fechou os olhos por um segundo, respirando fundo. Então, lhe perguntou: — Em q... Q-que abrigo você a-abandonou seu filho?
– Porque essa pergunta, seu Niko?
– Apenas responda... Por favor!
... ...
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Niko não conseguia parar de chorar. Não sabia como aceitar aquilo. Suas lágrimas chegaram a molhar a foto que segurava. Félix, ao seu lado, parecia mais forte, mas estava despedaçado por dentro.
– O pai dele! — Félix completou o que Niko não conseguira dizer.
Eles haviam confirmado. Era a verdade, estava claro. Mas, Félix logo mudou o que ele mesmo havia acabado de falar, levantando-se da cadeira, revoltado.
– Não, não e não! Nada disso, Niko! Os pais do Jayme somos nós! Nós dois!
– Sim, eu sei, nós somos, mas...
– Mas, mas... Mas, nada! E essa mulher que não ouse se aproximar do nosso filho!
– Félix... Quando ela me disse o nome do abrigo... Tudo fazia sentido! Era o abrigo que o Jayminho vivia quando era menorzinho, antes de ser transferido para o das crianças mais velhas que não haviam conseguido a adoção...
– Não! – Félix não queria acreditar. – Mas... Niko! Pode ser que o filho dela seja outro menino qualquer que vivia no mesmo abrigo que o Jayme...
– Sim, Félix, talvez... Mas, olha bem pra esse rapaz... – Mostrou-lhe novamente a foto. – Esse, com certeza, era o namorado dela, o pai do filho dela, e... Antes mesmo de ouvir toda a história dela, quando eu vi essa foto eu achei que ele lembrava o nosso Jayme...
Félix pegou a foto de suas mãos e começou a observar ainda incrédulo, mas, após alguns minutos observando, murmurou insatisfeito: — Pior que ele lembra mesmo... Lembra muito... O sorriso do Jayme...
Niko fez como se fosse levantar da cama. – Félix! O que vamos faze... Ai! – Sentiu dor por causa dos ferimentos e Félix o acudiu.
– Niko, não levanta assim! Você não pode fazer movimentos bruscos ainda! Calma, fica quietinho! – Félix o ajeitou de volta na cama e deu um suspiro. – Tem apenas uma coisa que vamos fazer, carneirinho... Nada!
– Nada?
Félix sentou outra vez ao seu lado e falando mais calmo, respondeu:
– Nada, Niko, não vamos fazer absolutamente nada! Essa mulher sendo ou não a mãe do Jayme, ela não tem direito nenhum de ficar sabendo...
– Félix...
– Não tem, Niko, não tem! – Levantou de novo o tom de voz. – Muito menos, o Jayme...
– Muito menos eu o quê, pai?
Assustaram-se ao que Jayme e os irmãos entraram de repente no quarto. Eles nem notaram, mas o tempo havia passado e já era o horário de visitas. Os filhos haviam chegado.
Jayme passou indo direto para perto dos pais. Jonathan, que vinha com Fabrício nos braços, passou empurrando a porta que não se fechou totalmente atrás dele.
– Por que vocês estavam falando de mim? Muito menos eu o quê, hein?!
Niko e Félix se olharam sem saber o que responder.
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Em casa, Jéssica esperava a polícia ir atrás dela a qualquer momento. Sozinha, lembrava-se da própria história após tudo que havia contado para Niko. Pensava que nada mais em sua vida tinha sentido. Não havia mais pelo quê lutar. A luta estava perdida. Não tinha mais esperança de reencontrar seu filho, nem de largar as drogas, nem de ter uma vida digna.
– Seu Niko é tão bom... Tão especial... Alguém como ele é uma verdadeira raridade... – Suspirou e ficou com os olhos marejados. – Ele foi capaz de me ouvir, me compreender mesmo depois de tudo... Queria que houvesse alguém como ele assim... Pra mim! Se eu tivesse encontrado alguém tão bom quanto ele eu teria sido finalmente feliz depois de tudo...
Começou a lembrar-se de toda sua procura por seu filho. Toda sua trajetória de vida e como era diferente da vida daquele homem tão doce.
– O seu Niko tem uma família linda... Tem amor... Filhos lindos... Todos dois! O pequenininho é uma graça, apesar de eu tê-lo visto só uma vez... E o maior... Ele falou comigo tão simpático, tão educado... Também é um menino lindo... – Ela começou a lembrar de quando falou com Jayme e começou a lembrar bem do seu rosto, seus gestos e seu jeito de falar.
Pensava no garoto, pois ficou observando-o durante alguns minutos depois de ter falado com ele no outro dia. Porém, havia ficado realmente curiosa pelo motivo da última reação de seu patrão.
– Por que o seu Niko ficou tão diferente quando começou a falar dos filhos? Ele me mandou sair de repente... E porque ele me perguntou o nome do abrigo onde eu deixei meu bebê? Por que querer saber isso? Que diferença faz? Se pelo menos ele pudesse me ajudar a encontrá-lo, se ele soubesse onde é, alguma informação, sei lá...
Foi então que, de repente, um pensamento que de início achou maluco lhe veio à cabeça, mas que no fundo tinha algum sentido. Imagens dos últimos dias vieram a sua cabeça. Imagens de todos que conhecera, mas, de um em especial.
– Aquele... Aquele garoto... Aquele jeito de falar, de olhar... O sorriso daquele menino... Me lembra... Me lembra o... O dele...
Levantou arrepiada com o que havia acabado de imaginar. Pegou sua bolsa e começou a procurar desesperadamente a foto do seu antigo namorado.
– Não é possível... Será? Será que... Não, não pode ser... Mas... Seu Niko disse que havia adotado ele... – Se arrepiou de novo ao lembrar: — Adotado... Já grande!
Procurou, procurou, mas não encontrava de jeito nenhum a foto do seu antigo amor.
– Cadê? Cadê a minha foto? Eu sei que a foto dele tava na minha bolsa... Cadê?!
Enquanto procurava os pensamentos lhe perturbavam.
– E quando eu disse o nome do abrigo, o seu Niko começou a chorar... Será possível que... Meu Deus... Não é possível, mas... – Começou a lembrar do rosto do seu antigo amor. – Ele se parece... Aquele menino se parece com o Marcelo... Como não percebi isso antes?! E eu falei com ele! Se ele for... – Encheu os olhos de lágrimas. Tremia com a emoção da possibilidade. – Se ele for... Meu filho?! Se... Se aquele garoto for... O meu filho?! Será que o seu Niko o adotou?! Ah meu Deus... Meu... Filho... Pode ser o filho do seu Niko...
Como não achava a foto, então tomou uma decisão.
– Se foi o seu Niko que adotou meu menino... Preciso falar com ele de novo! E preciso ver aquele garoto outra vez!
Saiu de sua casa depressa para o hospital.
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– M-muito menos... Muito menos... – Félix tentava explicar. – Ah Jayme, não estávamos falando precisamente de você, é que... Ah! Seu papi carneirinho está aqui todo sensível, todo choroso, por que... Estava lembrando a conversa que tivemos com você e ele ficou preocupado por você não ter mais tocado mais no assunto e... E pensou que talvez ainda restasse alguma dúvida e eu dizia... Não tem dúvida, Niko, não tem... Muito menos o Jayme, ele entendeu bem o que conversamos sobre... Sobre todas aquelas coisas que você queria saber né?! Era isso que eu falava... Você entendeu, não foi, meu filho?
Félix procurou na hora a desculpa para disfarçar a conversa quase flagrada, e então, quando Jayme respondeu: — Sim, pai Félix! Pai Niko, eu entendi! Fica tranquilo! – Félix respirou aliviado, mas não menos preocupado com a hipótese recém-descoberta.
Os três se aproximaram mais dos pais. Niko, que havia conseguido controlar um pouco o choro, olhando para Jayme, pediu:
– Meu filho... Desculpa, é que... Eu sou assim... Vem cá, me dá um abraço?!
– Claro, pai! – Jayme o abraçou. – Mas, o que você tem? Por que tá chorando? Ainda tá sentindo muita dor?
– Oh meu filho... Meu filho... – Enfatizou as duas últimas palavras. – É... Estou, estou sim, mas vai passar...
– Eu sei que vai, a gente vai cuidar muito bem de você quando você for pra casa!
Niko deu um sorriso. – Eu sei que vão! – E fez um carinho no rosto do filho que já estava sentado ao seu lado, entre os dois pais. – Já estou ficando melhor...
Fabrício, que havia acabado de descer do colo de Jonathan também correu para a cama do pai. – Também quero abraço, papai!
– Oh meu bebê, como é ciumento! Vem dar um abraço no papai! – Ele e Fabrício se abraçaram e depois o pequeno logo correu para o colo de Félix, enquanto Niko dizia: — Agora dá um abraço no seu papi!
Fabrício deu um abraço em Félix e ficou em seu colo, sentados na cadeira ao lado da cama, enquanto Jayme ficou onde estava e Jonathan se encostou na cadeira atrás do pai.
Félix, numa tentativa de mudar de assunto, perguntou: — Só vieram vocês três? Adriana não veio?
Jonathan lhe respondeu: — Não pai, é que o marido dela estava com febre por causa da gripe e ela foi ficar com ele! Eu disse que podia ir que eu ficava com meus irmãos!
– Ah tá...
Jayme, preocupado com o jeito de Niko, perguntou: – Pai Niko, e você? Tem certeza que tá melhor?
Niko olhava para o filho pensando na possibilidade de aquela mulher reaparecer e vir com a terrível verdade de que Jayme era mesmo seu filho. Mesmo assim, tomou toda coragem para fazer uma pergunta ao filho.
– Sabe, meu filho... Você é e sempre será meu filho... Eu te amo muito, você sabe disso né?!
– Eu sei, pai, eu também te amo!
Félix olhava para o marido com receio, pensando que seu carneirinho, por ser tão sensível e emotivo poderia acabar falando mais do que devia, afinal, não existia uma certeza, apenas suposições de aquela mulher ser a mãe de Jayme.
Niko continuou: — Filho, eu... Eu queria saber... – Pausou procurando as palavras. – Você... Você estava confuso por causa do que aqueles meninos lhe diziam e... Por conta da própria puberdade e porque você está gostando de uma menina pela primeira vez... Mas... – Pegou na mão do filho. – Filho, você... Você sente falta de uma figura feminina pra falar com você também? Quero dizer... – Respirou tomando coragem para perguntar. – Você já sentiu falta de ter... Uma mãe?
Todos naquele quarto se surpreenderam com a pergunta de Niko, mas apenas Félix sabia o motivo. Para não confundir mais as coisas, ele pediu para Jonathan: — Filho, distrai o Fabrício... Olha, tem umas revistas ali, mostra a ele!
– Tá pai! – Jonathan pegou o irmãozinho e levou para um canto do quarto onde havia um suporte com revistas e jornais que logo Fabrício começou a bagunçar. Jonathan, porém, enquanto o olhava continuou ouvindo a conversa, sem saber o que estava acontecendo para Niko fazer uma pergunta dessas para Jayme.
– Por que tá perguntando isso, pai Niko? – Perguntou Jayme.
– Por... Por nada, Jayme, eu só... Só queria saber... – Nesse momento, Jéssica chegou ao quarto do hospital. Ia bater na porta, mas ouviu que Niko não estava sozinho e desistiu, como não tinha coragem de falar com mais ninguém além dele. Começou então a ouvir e espiar pela fresta da porta.
– Só me responde, meu filho... – Pedia Niko com a voz embargada. – Me responda com toda sinceridade... Você sente falta de... De ter mãe?
Dentro do quarto, Félix esperava a resposta. Lá fora, Jéssica, aflita e surpresa, também esperava a resposta. Não sabia por que Niko estava fazendo essa pergunta ao filho, mas já tinha na mente a possibilidade de aquele menino ser seu filho e, se assim fosse, provavelmente o chefe já teria descoberto.
Jayme, porém, era o único ali que não tinha dúvida alguma no que responder. Respondeu de forma clara e definitiva.
– Não!
– N-não?
– Não! Eu não sinto falta de uma mãe, pai... Por que eu tenho vocês! – Isso já fez os corações de Niko e de Félix baterem forte de emoção.
– M-mas filho... É diferente... – Disse Félix confuso e emocionado.
– Mas, pai... – Olhou para os dois. – Vocês mesmos dizem que não é diferente! Bem, diferente sim porque vocês são dois homens, mas não diferente no amor que sentem um pelo outro e por nós! Nisso eu até acho que é maior que o que muitos pais heteros por aí sentem! Não digo a maioria, mas eu sei que tem gente por aí que não ama de verdade seus filhos! Acho que... Talvez... Meus pais fossem assim... Os que me tiveram...
– Você gostaria de ter conhecido seus pais biológicos? – Perguntou Niko.
– Não sei se gostaria de ter conhecido, pai Niko... Por que eu não sei porque me abandonaram, mas... Querem saber? – Apertou mais forte a mão de Niko e pegou na de Félix. – Seja pelo que tenha sido, e eles estejam vivos ou não... Eu sou até agradecido por eles terem me deixado no abrigo...
– A-agradecido, filho? Por quê? – Niko mal conseguia falar.
– Por que se eu não estivesse lá, você, pai Niko, não teria me achado e se tornado meu pai... E nem o pai Félix teria aparecido na sua vida também... E seríamos os três sozinhos, cada um no seu canto, com sua vida chata... – Era incrível, tanto para Niko quanto para Félix como Jayme tinha essa compreensão sobre eles. – E assim, não teriam realizado meu maior sonho...
– Q-qual era seu maior sonho, meu filho? – Perguntou Félix.
– Meu maior sonho... Era ter uma família completa! Uma família grande, com irmãos, avós, tios, primos... E nem precisava ser rica... Só queria que gostassem de mim!
Niko, banhado em lágrimas, exclamou. – E nós te amamos muito, meu filho!
– Eu também amo vocês, pai! Vocês já são como se fossem meus pais e mães ao mesmo tempo! Não tem como eu sentir falta de nada! Eu tenho tudo que poderia querer, tenho até mais... Eu tenho vocês!
Niko não conseguiu falar mais nada. Chorando, se ajeitou na cama, levantando um pouco para abraçar outra vez seu filho. Agora, mais forte que sempre e com mais emoção que nunca. Félix também não aguentou segurar as lágrimas e levantou para abraçar os dois, não sem antes brincar: — Ai, eu devo ter sido perdoado por salgar a santa ceia pra merecer ter umas coisas tão lindas como vocês na minha vida! Depois não reclamem quando eu estiver igual um pote de geleia, tão meloso quanto o carneirinho!
Com os três abraçados, Fabrício viu e correu até eles. – Ei! Não vão me abraçar não?
Eles riram enquanto Fabrício pulava na cama os abraçando. Jonathan também foi até eles, vendo que o problema de quando chegaram, fosse qual fosse, já tinha sido resolvido.
Lá fora, Jéssica chorava após ouvir a declaração tão bela de Jayme para os pais.
Saiu da porta do quarto, mas não conseguiu ir embora. Preferiu sentar-se. Não tinha forças para sair dali.
Sua cabeça era um mar de dúvidas. Não tinha certeza de nada. Só sabia que o jeito de falar e de sorrir daquele garoto eram iguais aos do seu antigo amor. Naquele momento, a única certeza que tinha era que se Jayme fosse seu filho, ele era um menino feliz.
Alguns minutos depois, os irmãos Corona-Khoury saíram do quarto. Félix os acompanhava. Nesse instante, deram de cara com Jéssica que estava perto da porta. Ela ainda queria falar com Niko.
Todos olharam pra ela, mas Félix a encarou com incerteza nos olhos. Incerteza se sentia medo ou não. Tudo que ele queria saber era o que ela estava fazendo ali.
– Ei! – Jayme chamou a atenção. – Você não é a assistente do meu pai?
Ela o olhou por alguns segundos antes que conseguisse responder. Sua voz soou mais doce como nunca.
– Sou...
– Veio visitar?
– Sim... – Ela não conseguia falar muito, apenas o olhava.
Félix não estava gostando nada disso e apressou os filhos.
– Bom, tchau, meus filhos, vão logo porque daqui a pouco começa o horário de movimento e o trânsito fica um caos pra você voltar dirigindo, Jonathan! Vão, que eu vou ficar mais um pouquinho com o carneirinho, vou depois!
– Tá, pai... Tchau! – Respondeu Jonathan, pegando Fabrício no colo, e sem entender a pressa do pai. Ele foi saindo e Jayme foi indo logo atrás, mas antes de continuar, Jéssica pegou em seu rosto. O garoto sem entender parou.
Nesse momento, o coração de Jéssica bateu mais forte. Ela ficou com os olhos marejados e as mãos trêmulas.
Jayme pegou em sua mão. – Tá se sentindo mal, senhora?
– Esse jeito de olhar... – Ela sorriu emocionada. O garoto continuava sem entender e Félix interviu.
– Vai, Jayme, vai com seu irmão! – Mandou soltando as mãos deles. Mas, Jayme ficou curioso. Pegou de novo na mão dela.
– O que tem meu jeito de olhar?
– É que... – Jéssica olhou para Félix que, apesar da cara de poucos amigos para ela, estava, na verdade, com o olhar assustado, os olhos marejados e quase fazendo um pedido silencioso para ela ficar calada. Ela compreendeu muito bem. – É que... Seu jeito de olhar é muito... Muito bonito, muito simpático... Me lembra alguém que conheci...
– Ah tá... Quem?
– Quem?! É... – Ela titubeou e então disse com sinceridade. – Me lembra... O olhar do meu pai!
Félix não entendeu o que ela queria, mas mandou outra vez. – Filho, vai logo! Eu já disse! Senão fica tarde e eu e o Niko não queremos vocês dentro de hospital muito tempo!
– Sim, pai, já vou! Tchau! – Soltou a mão de Jéssica e sorriu dizendo: — Tchau, senhora!
Ela o acompanhou com os olhos e assim que ele sumiu pelo elevador, ela falou baixinho: — Tchau... Meu filho!
Obviamente, Félix ouviu seu sussurro e pegou em seu braço com força, levando-a para dentro do quarto.
– Que é isso?! Jéssica?! O que você faz aqui? – Se surpreendeu Niko.
– Ela estava aqui fora, Niko!
– O senhor tá me machucando... — Disse ela.
– E vou machucar mais! Por sua culpa que o Niko está aqui!
– Félix, para, solta ela... Não foi ela quem atirou em mim...
– Não, não foi, mas foi o bandidinho que ela deve conhecer muito bem... – A encarou. – Não é, dona Jéssica?! Fala na minha cara que não conhece aquele bandido, fala!
– Eu... Eu já disse pra o seu Niko que eu conheço sim...
– Eu sei, o Niko sabe, a polícia sabe... E quer saber como eu sei disso? O delegado que está investigando nesse exato momento o conteúdo das câmeras de vigilância me ligou antes de eu vir pra cá e disse que uma mulher com o uniforme do restaurante aparece nas filmagens com uma atitude muito suspeita!
– Então, Félix... Você já sabia que a Jéssica conhecia os bandidos?
– Já, Niko, já! Eu soube quando estava vindo pra cá, mas não queria te contar pra não te preocupar! Acontece que quando eu cheguei você já estava todo nervoso por causa da visitinha dessa aqui que eu até me esqueci de te contar! Mas, o delegado me contou o que descobriram nas câmeras! Primeiro um vídeo dela falando com o bandido que tem uma baita tatuagem de cobra! Em outro, ela limpando uma das facas do restaurante e escondendo na bolsa!
Félix já estava levantando o tom de voz, alterado.
Niko pedia: — Félix, calma! Fala baixo, ainda estamos no hospital!
– É, carneirinho, ainda estamos, mas você não teria nem dado entrada aqui pra começar se essa desgraçada não tivesse atravessado seu caminho! – Félix a soltou com força.
Ela começou a chorar descontroladamente.
– Félix! – O próprio Niko estava assustado com a atitude agressiva do marido.
Félix olhou para ele e respirou fundo tentando se acalmar.
– Desculpa Niko... Mas, é que só de pensar que te fizeram mal, te enganaram... Meu sangue ferve... Tanto que eu... – Ficou com a voz embargada. – Eu... Quase volto a ser o Félix de antigamente...
– Félix... – Lágrimas começaram a rolar outra vez dos olhos verdes.
– Você não entende, Niko, mas... Se eu ver alguém que faz mal a você ou aos nossos filhos, eu... Eu sou capaz de... Eu nem sei... – Ele respirava forte, com raiva.
– Félix, para... Por favor... Vem cá, vem pra perto de mim!
Ele foi indo ainda reclamando. – Não sabe a vontade que tenho de jogar essa mulherzinha e os comparsas dela numa caçamba e enterrar!
– Félix! – Agora Niko levantou o tom de voz ao chamar sua atenção. – Chega! – Pegou em sua mão, apertando seus dedos num carinho intenso, fazendo com que Félix se acalmasse. – Meu amor... Calma! Calma! – Olhou para Jéssica. – Você sabe quem ela é! Quem ela é de verdade!
Félix respirou fundo, mas não disse uma só palavra.
Já Jéssica, tentando parar de chorar, indagou como se suplicasse por uma resposta:
– Quem eu sou, seu Niko? Quem eu sou de verdade?
Niko pediu para Félix. – Amor, me dá sua carteira!
Félix a entregou. Niko tirou a foto que havia achado.
– Eu te respondo, se você me responder, Jéssica! Você já me contou toda sua história... Eu acredito em você! Diga-me... Você viu meu filho, Jayme, agora quando iam saindo, não viu?!
– Vi!
Félix interrompeu: — Ela... Ela disse que o sorriso dele lembrava o do pai dela!
Niko olhou para ela. – Lembra mesmo?
Com a voz embargada, ela respondeu: — L-lembra... Muito...
– Também achei que lembrava o sorriso dessa pessoa aqui... – Pegou a foto e estendeu a mão entregando-a.
Ela pegou a foto e chorou. – Marcelo... Meu amor... O grande amor da minha vida...
– E o pai do seu filho! Não é? – Continuou Niko.
– É sim!
Niko deu um suspiro profundo e sofrido e falou: — Jéssica... Nós três sabemos... Q-qual pode ser a verdade!
Ela enxugou as lágrimas. – Sim, seu Niko! O meu filho pode ser...
– Não! O seu não! O meu... O nosso filho! Meu e o do Félix!
Ela baixou a cabeça com aquela que não era mais que a verdade. – Sim, seu Niko... O filho de vocês... Aquele menino que acabou de sair... Pode ser aquele mesmo bebezinho que eu deixei abandonado num abrigo, treze anos atrás!
– P-pode! E se fosse... O que você faria?
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