Tandem Felix
13 Verba ex amore
Notas iniciais
... ...
– Ele tá saindo! Vamo ficar dentro do carro! Esperem até eu mandar!
Na porta do restaurante, Niko trancava tudo para ir para casa. Seu garçom havia saído pouco antes e já ia mais longe, na outra calçada.
– O que ele tá fazendo? Por que não sai logo?
– Calma, já disse! Ele já vai...
– Parece que tá procurando alguém, chefe! Será que viu a gente aqui?
– Não! Cala essa boca! É claro que não viu! Daqui não dá pra ver a gente!
Niko chamou o nome do garçom, mas viu que ele já ia longe. Foi indo então em direção ao carro.
– É agora... – Sacaram as armas.
– Espera chefe! Ele tá voltando!
– Mas que droga! Aonde esse viado vai agora?
– Ele tá voltando lá pra dentro!
– Vamo ver... Se ele demorar a gente entra com ele lá dentro mesmo!
Niko entrou. Um minuto passou. Um dos que observavam sacou novamente a arma e saiu do carro.
– Vamo entrar assim mesmo, galera?
– Não! Espera aí! Se esse playboyzinho não sair em dois minutos a gente entra com tudo!
– Olha lá, tá saindo... – O que havia saído se abaixou escondendo-se atrás do carro.
– Beleza! Vai embora agora! Vamo sair, dar a volta no estacionamento e ir pelo outro lado... Vamos entrar pela porta da frente, galera! – Falava debochado o líder. – Vê aí se ele já foi! – Deu a ordem para o que já estava do lado de fora.
O comparsa foi saindo de detrás do carro devagar.
Niko entrou em seu carro e ajustou o retrovisor. Foi quando viu algo que lhe pareceu um vulto e olhou para trás.
– Merda!
– Que foi?
– Ele ainda não saiu! Não sei se me viu, chefe!
– Mas tu é burro mesmo!
Ouviram o som do motor do carro e a luz dos faróis acendendo. Niko partiu e os três começaram a sair.
– Ele tá indo embora! É nossa hora! – Comemorou um deles. Dois saíram na frente e já se dirigiam para o restaurante enquanto o terceiro que ficou mais atrás viu o carro do sushiman dando a volta na rua. Então os chamou:
– Ei, pessoal, fica esperto, ele tá voltando!
Os dois se esconderam como puderam. Um deitou no chão ficando escondido nas sombras do beco escuro que divide o estacionamento do restaurante, o outro que ainda estava mais atrás conseguiu esconder-se atrás do carro. O outro permanecia lá dentro.
Niko, então, após dar a volta naquela rua, foi finalmente embora.
O que estava no chão levantou e chamou os comparsas.
– Beleza! Você fica aqui fora no carro de vigia e liga se aparecer alguma coisa, e a gente arromba a porta e entra! Vamo direto no cofre!
– Tem que ver se não tem alarme!
– Não, eu perguntei pra a Jéssica, ela disse que não viu alarme nenhum!
– É bom que ela não esteja mentindo! Você quase se dá mal da última vez!
– Não, ela não mente mais pra mim! Ela sabe muito bem o que pode acontecer com o tal fedelho dela!
– Mas tu nem sabe onde que tá a criança, cobra!
– E daí?! Enquanto a idiota continuar acreditando que eu sei onde foi parar aquele moleque dela e continuar viciada no pó, eu vou continuar fazendo com ela o que bem quiser! Agora, menos papo e mais ação!
Um deles voltou para o carro como combinado e o líder e o comparsa foram para frente do restaurante. Arrombaram a porta principal e entraram.
– É isso aí! Tamo dentro! Agora pra cozinha... Deve ser pra lá!
Foram até a cozinha. – Ali as duas portas como ela disse!
– E como que a gente vai saber qual a certa, chefe?
– Com minha visão de raio-X! – Foi sarcástico. – O que você acha, imbecil?! A gente arromba as duas e vê!
Assim fizeram. E um deles descobriu. – Aqui o cofre!
–Eh! É disso que eu tava falando! Agora vamo abrir essa belezinha e pegar tudo e sair daqui!
Enquanto um tentava arrombar o cofre o celular do outro tocou. Era o comparsa que ficara no carro.
– Que foi?
– Chefe, eu vi uma viatura passando lá na outra rua! É bom vocês apressarem aí!
– Ok! Já achamos o cofre, isso vai ser rápido!
O outro conseguiu abrir. Mas, quando viram, o líder não gostou nem um pouco.
– Mas... Que merreca é essa?! – Pegou todo o dinheiro que tinha, reclamando. – Como que depois dum final de semana essa porcaria tem tão pouca grana?!
– Deve ter em mais em algum outro canto né?!
– Deve ter! Vamo procurar, nem que a gente tenha que revirar isso de cabeça pra baixo! – Ele já estava furioso. Saíram os dois em direção ao balcão.
– Chefe, já sei o que foi... O dono deve ter voltado aquela hora pra aqui pra dentro justo pra pegar a grana e levar!
– Deve ter sido! Filho da mãe... – Pegou a arma da cintura. – Se ele tivesse na minha frente agora... – Apontou a arma para o nada.
– Vamo parar de perder tempo! A gente procura onde agora?
– Procura lá naquela sala mesmo, vai que tem mais de um cofre! Eu vou ver aqui no balcão!
Enquanto um ia para a cozinha, o líder começou abrindo algumas portas e gavetas quando o seu celular tocou de novo.
– Que é? – Perguntou impaciente.
– Chefe, é melhor saírem! A viatura tá voltando, se passarem de frente podem ver a porta arrombada e...
– Mas que merda! – Meteu com raiva a arma no puxador da gaveta dos talheres. – Já sei, já sei! Tamo saindo!
O que estava no escritório voltou e perguntou: — Que foi, chefe? Não encontrou?
– Não! E você?
– Não! Eu revirei tudo lá dentro, mas nada de grana, só uns papel, uns documento...
– Droga! Tem uma viatura rondando por aqui por perto! É melhor a gente dá no pé!
Foram saindo pelo salão principal. – O que me dá mais raiva é sair só com essa mixaria! – Nervoso, ele empurrou uma das mesas com o pé.
– Vamo simbora, cobra! Não dá pra descontar em nada agora!
Saíram. Foi apenas o tempo de voltarem para o carro que a viatura passou lá perto. Os três se abaixaram ficando escondidos dentro do carro e logo que o carro da polícia se foi, eles foram embora.
... ...
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Niko e Félix voltaram para casa antes da hora do almoço, após registrarem a ocorrência na polícia. Ao saírem do carro, ambos se abraçaram e Félix entrou com o braço em volta da cintura de Niko que ainda estava perturbado pela situação. Ao chegarem, Adriana e os filhos estavam preocupados.
– Pai, o que houve? – Perguntou Jonathan. – Você saiu pra levar o Niko e não voltou mais... E você, Niko? Por que não está no restaurante?
Ambos suspiraram e Félix contou. – Filho, o... O restaurante foi assaltado!
– O quê?! – Perguntaram Jonathan, Adriana e Jayme quase que ao mesmo tempo.
– Gente do céu! Mas, isso foi agora, seu Félix? – Perguntou Adriana.
– Não, foi durante a madrugada! Quando nós chegamos a porta estava aberta, ou melhor, arrombada! Arrombaram também as portas da despensa e do escritório que fica lá na cozinha e levaram o que tinha no cofre! Sorte que eu já tinha tirado a maior parte dos lucros da semana de lá, senão teriam roubado tudo, o prejuízo seria imenso... – Ele olhou para Niko. – E sorte também que o carneirinho não estava, né carneirinho?! Imagina... Sabe-se lá a que horas esses bandidos entraram lá...
– É Félix... – Suspirou Niko. – Graças a Deus não assaltaram o restaurante com ninguém lá dentro... Mas, eu ainda estou meio chocado com tudo isso...
Fabrício vinha descendo as escadas e ao ver os dois pais ali juntos a essa hora da manhã, se alegrou e correu para abraçá-los.
– Papi Félix, papi Niko!
O pequeno abraçou suas pernas e ambos se olharam. Niko logo se soltou de Félix, abaixando-se para pegar seu filho nos braços, abraçando-o forte, emocionado.
– Oi, meu bebê!
– Papi Niko...
– Oi?
– Não vai pra o restaurante hoje?
Niko, mesmo com os olhos marejados, deu um sorriso e um beijo no filho.
– Não, meu filho! Hoje papai Niko vai ficar o dia todo com você! – Fabrício alegre agarrou-se a seu pescoço, causando-o mais emoção. Niko olhou para Jayme e estendeu uma das mãos. – E com você também, meu filho! Vem cá, me dá um abraço!
Ele foi e os três ficaram abraçados. Félix não resistiu e abraçou os três de uma só vez, estendendo uma das mãos para chamar Jonathan a se juntar com eles.
– Vem cá, Adriana, você também é da família! – Niko a chamou para o abraço coletivo.
Logo após se soltarem, Niko comentou: — A polícia vai tentar achar alguma pista, e creio que depois de amanhã a gente já abra o restaurante! O importante é que estamos todos em segurança e... – Sorriu. – Eu vou poder passar esses dois dias ao lado dos meus amores né?!
Mas, Félix interrompeu: — Carneirinho, você pode aproveitar para passar o dia todo com os meninos, até com o Jonathan, mas eu vou sair!
– Como sair, Félix? Pra onde você vai?
– Como pra onde eu vou?! Eu vou investir na nossa segurança, Niko! Imagina a gente ser assaltado de novo, e não ter uma câmera de segurança, um alarme, uma tranca reforçada, um vidro blindado, nada! Não dá né?! A gente já sofreu um assalto aqui em casa, agora foi o restaurante... É o apocalipse não fazermos nada enquanto qualquer bandidinho por aí acha que pode entrar e revirar o nosso negócio, nossa fonte de renda, assim quando bem entender!
– Bom, nisso eu tenho que concordar com meu pai, Niko! – Disse Jonathan. – Ele está certo! Vocês já tinham que ter investido na segurança desse e dos outros restaurantes há mais tempo!
– Obrigado, filho! Você é sensato e perspicaz, puxou a mim! – Comentou Félix.
– Eu sei... Eu concordo com vocês também! A gente reforçou a segurança daqui de casa depois daquele assalto... O Edgar mandou colocar câmeras de segurança lá no restaurante de São Paulo e no do Rio também tem! No da praia tem uma que o Félix mesmo controla daqui de casa já que é bem pertinho... Só nesse mais novo é que ainda não tem, porque não deu tempo mesmo de pensar nessas coisas...
– Mesmo assim, Niko! Deveriam ter pensado nisso antes e instalado nem que fosse uma câmera ou um alarme antes da inauguração! – Falou Jonathan.
– O Jonathan tem toda razão, carneirinho! Depois do almoço eu vou tratar de providenciar todas essas coisas e não adianta dizer que eu estou exagerando que eu não vou te ouvir!
Niko preferiu não falar nada.
– Quer que eu vá com você, pai?
– Ah sim, Jonathan! É melhor porque você me ajuda a ver o que tem de mais moderno nessas coisas... – Voltou para Niko. – E você, carneirinho, não ouse reabrir aquele restaurante enquanto eu não instalar tudo que puder! Nem que dure um mês! É para sua segurança!
Niko apenas concordou com a cabeça. Mesmo achando que Félix estava se preocupando demais com o que havia ocorrido, também achou melhor não discordar do marido. E de qualquer maneira, aquilo havia servido para ele ter um tempo para ficar com sua família.
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Depois do almoço, Félix e Jonathan saíram e Niko já estava mais tranquilo e contente, pois finalmente passaria uma tarde com os filhos como há dias já não tinha. Mas, seus planos de ficar com os dois foram temporariamente atrapalhados.
– Como assim sair, Jayme? Pra onde você vai?
– Pai Niko, é que eu combinei com a Angélica de encontrar com ela antes de ela ir viajar pra devolver o pen-drive que ela deixou comigo!
– Ah filho, tem que ser hoje? Justo hoje que eu vou ficar em casa com vocês?
– Mas, pai, eu não posso deixá-la viajar sem eu vê-la... Pra devolver o pen-drive né?! É dela...
Niko entendeu. – Tá bom, filho! Pode ir! Aonde que vocês vão se encontrar?
– Aqui perto, na praia mesmo!
– Ok! Vá, mas não demore muito viu!
– Tá, pai, tchau! – Saiu.
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No centro da cidade, Félix e Jonathan conversavam.
– O que você acha, Jonathan? Eu deveria contratar um segurança para ficar na porta do restaurante?
– Aí já é um pouco de exagero, não?
– Nada é exagero quando se trata da segurança do Niko e dos meus filhos!
– Incluindo eu?
– É claro, né Jonathan?! Você é meu filho, também prezo pela sua segurança!
– Bom saber, pai! Sabe, é que tem ocorrido furtos misteriosos lá na faculdade...
– Não acredito! É o apocalipse isso! Nem estudando você está mais seguro...
Jonathan começou a rir. – Tô brincando, pai!
– Ah ah... Muito engraçado...
– É que eu gosto de te ver preocupado comigo!
– Ai Jonathan... Só você... – Félix pôs o braço em volta de seus ombros, abraçando-o. – Não sei a quem você puxou ser tão doce... Por que eu, sua mãe, a mami poderosa não somos assim, o papi é que não era mesmo...
– Acho que puxei a minha bisa Bernarda...
– Ah! Só pode! Vovó magnífica... Que saudade dela e do Lutero, os dois velhinhos gagás mais fofos que existem!
– Ah pai... Você não existe!
– Existo sim, criatura! – Ajeitou a sobrancelha com o dedinho. – Se não você não existiria! – Ambos riram. – Bem... Whatever... Não vamos perder mais tempo, que eu quero providenciar logo umas dez câmeras de segurança no mínimo...
– Que exagero!
– Tá bom, então, oito já basta...
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Em casa, Niko aproveitava a tarde com Fabrício. Porém, o pequeno não parecia muito disposto.
– Que foi, meu filho? Não quer mais jogar bola com o papai?
– Não...
– Quer brincar de outra coisa? Quer ir lá pra dentro?
– Quero...
– Vamos!
Os dois entraram. Niko estava estranhando Fabrício estar tão quieto e parecer não querer brincar muito. Já estava ficando aflito.
– Filho, quer fazer o quê? Ah, já sei! Quer que o papai te ensine a fazer um barquinho?
– Hum... Não...
– Não quer? Mas, você não queria ser sushiman igual ao papai?
– Eu não quero mais!
– Não?
– Eu quero ser administador igual papai Félix!
– Ah... – Niko se entristeceu, mas ao mesmo tempo achou bonitinho. – E... Você já disse ao papai Félix que quer ser igual a ele?
– Já!
– Já? – Pensou: — Porque o Félix não me contou?
– É! Eu quero porque eu quero ficar em casa com ele, eu não quero ir pra o restaurante o dia todo que nem você!
Niko encheu os olhos de lágrimas. Não soube o que falar e abraçou o filho.
– Oh meu bebê... Papai Niko vai ficar dois dias inteiros com você! E, olha, mesmo quando eu voltar a trabalhar, eu vou ficar um dia toda semana e vou chegar mais cedo pra contar suas historinhas antes de dormir...
– O papi Félix conta!
– Ah... Ele conta? Claro...
– E ele tá me ensinando a ler!
– Tá te ensinando a ler? Que bom...
– O papi me ensina tudo! Tudo que eu pergunto ele sabe!
– É, filho... Seu pai é muito inteligente... – Mesmo que não quisesse, não conseguia deixar de sentir um pouco de ciúme da relação de Félix com Fabrício. Eles eram muito apegados e o pequeno ficava cada dia mais parecido com Félix no jeito de ser.
Algum tempo depois, eles finalmente tinham encontrado uma coisa para se divertirem. Fabrício chamou o pai para mostrar as revistinhas que Jonathan havia lhe dado. Niko podia ver que Fabrício estava mesmo aprendendo muito com Félix, e se sentia orgulhoso por isso, apesar do inevitável toque de ciúme. Ainda mais porque sentia que estava perdendo fases únicas na vida dos filhos, a primeira paixão de Jayme e as primeiras palavras que Fabrício aprendera a ler.
Emocionado e orgulhoso, ouvia atento o filho lendo algumas frases num dos gibis.
– “E ess... Esse é mais um pa...” Que palavra é essa papai?
– Plano, filho!
– E a outra?
– Infalível! – Niko sorria cada vez que o pequeno parava para lhe perguntar.
– Ah... “E esse é mais um plano infalí-vel meu, Cas... Casca...” Que palavra é essa?
– Cascão, filho! É o Cebolinha falando pra o Cascão, aquele que não gosta de tomar banho!
– Ah... – O garoto parou de ler para comentar. – Papi, o papi Félix me deu banho na banheila de vocês...
– É banheira, filho! Você falou igual ao Cebolinha agora!
O pequeno se deu conta e riu.
– Então, o papi Félix lhe deu banho na banheira? Por que?
O menino fez carinha de quem tinha feito uma travessura e Niko logo percebeu.
– Fabrício... Que foi que você fez?
– Eu ia botar o suco pra mim, mas o copo escorregou!
– Escorregou?! Assim sozinho? – Pôs as mãos na cintura. – Ah Fabrício... E qual foi a roupinha que você molhou, hein?!
– A cinza que papai Félix deu! Mas, ele tirou, porque ele disse que ia ficar amarela! E a dele era vermelha e ia ficar amarela, vermelha e laranja no meio!
– Não acredito... Quer dizer que você derramou suco no seu pai também?
– Foi... – Deu um sorrisinho travesso.
Niko também riu. – Ah filho, não faça mais isso viu! E logo na camisa vermelha do Félix... O que ele não terá reclamado...
– Papi não reclamou não! Ele disse que ia ficar brega!
Niko riu mais. – Ai, o Félix... – Ele teve, então, a ideia de se divertir mais com o filho, assim como Félix já havia feito. – Fabrício, você gosta de tomar banho na banheira?
– Eu gosto de tomar banho! Não sou que nem o Cascão!
Niko riu. – Não, filho, não é... Ainda bem né?! Você é cheiroso... Aliás, me deixa ver se papai Félix está dando banho direito em você, deixa eu ver se tá cheiroso... – Chegou perto brincando como se fosse cheirá-lo e começou a lhe fazer cócegas. – Hum... Acho que não... Precisa de outro banho depois de jogar bola no jardim... – Fabrício caiu na gargalhada com as brincadeiras do pai.
Finalmente, Niko estava tendo uma tão merecida tarde com o filho menor, só faltava o maior.
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Na praia, Jayme esperava Angélica no local combinado: uma pedra perto do mar. Como demorava, Jayme pensou que talvez ela não fosse mais. Como não tinha muita vontade de voltar logo pra casa, pegou uma pedrinha e começou a riscar na pedra maior onde estava sentado. Fez seu nome. Pensou um pouco e começou a fazer o nome dela. Riscou o A, o N, e quando ia fazer o G, viu uma sombra bem perto e se assustou.
– Jayme!
Ele quase escorregou da pedra com o susto.
– A-Angélica!
– Oi! – Ela sorriu. – Você quase cai!
– É... Quase...
– O que você estava fazendo?
– É... E-eu? Eu nada!
Ela viu na pedra seu nome. – Ah, você escreveu seu nome na pedra! Ficou bom!
– É... Ficou né?!
Ele tentou tapar as outras letras, mas ela pegou em sua mão, levantando-a.
– Deixa eu ver! – Ao ver as letras que ele havia começado a escrever embaixo, olhou para ele e perguntou: — Você ia escrever meu nome?
– Q-quê? – Ele ficou ruborizado. – N-não... Não...
– E quem é que começa com A, N?
– A... N-não... Não é um nome só... Era... Com N tem meu pai Niko... E com A? Tem... Ah! A Adriana! E eu ainda ia fazer F do pai Félix e do Fabrício... É isso...
– Ah... Tá... – A menina ficou um tanto decepcionada. Então, Jayme respirou e mudou o que disse:
– M-mas... Se você quiser, Angélica... Eu escrevo o seu nome...
Seus olhos brilharam e ela percebeu que ainda não havia soltado a mão dele. Então, soltou ficando ruborizada também. – A-ah... Eu... Eu quero!
Os dois sentaram na pedra e Jayme começou a riscar o resto das letras para formar o nome dela. Logo os nomes dos dois estavam lá gravados.
– Você acha que nossos nomes vão ficar aí pra sempre, Jayme?
– Não sei... Acho que ficam! A não ser que destruam essas pedras ou que o mar apague com o tempo!
– Eu acho que o mar não apaga, e ninguém vai destruir essas pedras aqui na beira da praia... Então, eu acho que vão ficar aí!
Ele virou pra ela. – Pra sempre? – Foi quando percebeu como estavam próximos.
– É! Pra sempre... – Ela sorriu virando também para ele.
Foram aproximando cada vez mais os rostos, quando ele pôs a mão em cima da dela sem querer. Ao perceberem esse gesto os dois ficaram vermelhos e tão rápido quanto tiraram as mãos, ela escorregou da pedra.
– Angélica! Cuidado! – Ele segurou em seus braços, puxando-a de volta.
Com o susto ela o abraçou assim que foi puxada. Respirando forte ela murmurou: — Quase que eu caio no mar! Você me salvou!
Ele sorriu e sem jeito respondeu. – Não foi nada...
Ela o soltou e baixou a cabeça envergonhada. Mas, perguntou: — Se... Se eu tivesse caído, você... Você me salvaria?
– Quer saber se eu pularia no mar pra te salvar?
– É...
– Claro que sim! – Ele mal percebeu quão convicto e depressa havia dado essa resposta. Logo ficou ruborizado de novo com a própria sinceridade.
Mas, ela sorriu. Os dois riram e ela disse: — Eu tenho que ir agora...
– Já?
– É... Tchau, Jayme... – Ela lhe deu um beijo na bochecha rápido e desceu da pedra. Ele, surpreso, não respondeu nada. Ela saiu andando, porém, cinco passos adiante, parou e voltou com um sorriso envergonhado.
– Esqueci o pen-drive...
– Hein?! Ah! É mesmo... O pen-drive... – Ele tirou do bolso, desceu da pedra e a entregou.
Ao pôr em sua mão, as mãos de ambos se tocaram e o silêncio se fez presente. Havia apenas a melodia das ondas do mar. Estavam um de frente para o outro e, enfim, se aproximaram mais.
Jayme respirou fundo e sentiu suas pernas e mãos tremerem.
– P-Po-Posso f-fazer uma co-coisa? – Perguntou gaguejando como nunca.
Ela deu um passo à frente. – P-pode...
Suas mãos permaneciam paradas uma sobre a outra enquanto a outra mão de Jayme foi ao seu rosto. Angélica respirou fundo. Os dois se olharam sem saber o que fazer. Apesar da tensão, ao notarem que estavam perdidos em suas ações, sorriram um para o outro.
Pararam de gaguejar e pareciam estar mais tranquilos quando um se despediu do outro ainda nas mesmas posições.
– Tchau... Angélica!
– Tchau... Jayme!
E quando mais pareciam que iam simplesmente sair dali, o que deveria ser um passo pra trás foi um passo pra frente e os rostos se aproximaram em questão de segundos para o que já era inevitável ocorrer: o primeiro beijo de Jayme e Angélica.
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