Tandem Felix
12 Semper bonum et malum
Notas iniciais
No quarto, Félix acordou ao ouvir a porta abrir. Era Niko trazendo o café da manhã dos dois. Sorriram um para o outro e Niko se aproximou pondo a bandeja ao lado e beijando-o.
– Carneirinho... Por que esse café na cama? Que foi que eu fiz? – Perguntou sentando na cama.
– Ué, você precisa fazer alguma coisa especial para eu te agradar?
– Não, meu bem, pode me agradar sempre que quiser! – Sorriu e deu-lhe um selinho. – Mas, por que isso assim hoje? Ontem a gente nem...
– Félix! Eu te amo, gosto de trazer o café na cama pra você, ora! Não precisa a gente ter feito nada pra isso! E faz tempo que eu não trago, né?!
– É, mas... Vem, senta aqui... É que agora você só vive com pressa para ir trabalhar na hora certa!
– Ai Félix, eu sei... Não passa na minha cara, vai!
– Não estou passando nada na sua cara, carneirinho! Não posso mais falar a verdade?
– Pode amor, você pode... Olha, também quando eu acordei ouvi sua barriga roncando e quis fazer um café como você gosta... Só para passarmos mais uns minutinhos juntos!
– Ah, meu carneirinho... – Já estavam sentados lado a lado, e Félix lhe deu outro beijo agradecido. – Eu adorei tá?! Adorei você ter trazido o café! Já fazia tempo mesmo! – Apesar do sorriso, Niko parecia entristecido. – Ei... Que foi, carneirinho? Esses olhinhos de jade não me enganam, o que você tem, hein?! – Perguntava fazendo-lhe um carinho na nuca.
Niko suspirou. – Ah Félix... Eu fiquei pensando no que você me disse ontem à noite... Sobre os meninos... Eu queria tomar o café da manhã com vocês três, mas eles ainda estão dormindo! Eu estive pensando e acho que posso encontrar um dia de folga, talvez... Eu sinto falta de ficar um dia inteiro com meus três amores...
– Você vai encontrar um dia, meu carneirinho! Nós vamos encontrar, tá?!
– Tá bom... – Deu um sorrisinho conformado e um selinho no amado.
Começaram a comer.
– Então... Minha barriga estava roncando é? – Perguntou Félix.
– Estava! Eu dormi encostado em você, quando acordei ouvi...
– Ah... Acho que ontem eu comi muito pouco no jantar...
– Por quê?
– Ah, eu não estava com muita fome, carneirinho... Estava com tanta coisa na cabeça... Você, os nossos filhos, o restaurante... – Suspirou pesadamente. – Não sei, mas... Ontem, antes de você chegar, eu... Não sei Niko, eu me senti mal...
– Como se sentiu mal, meu amor? O que você sentiu?
– Não foi sentir-se mal assim como estar doente, carneirinho, foi mais... Sei lá... Fiquei ansioso, preocupado... Querendo que você chegasse logo...
– Ficou preocupado comigo, amor?
– É... Acho que... Não sei, carneirinho, eu senti uma coisa ruim, não gostei nada... Olhei diversas vezes para a porta antes de você chegar! Ainda bem que você não demorou... Quando você chegou, isso passou!
– Sabe, Félix... Quando eu estava fechando o restaurante ontem eu também tive uma sensação, assim, de estar sendo observado...
– Observado, carneirinho?! Como assim observado? Você viu alguém?
– Calma, Félix, eu olhei para todos os lados e não vi ninguém! Então, eu entrei de novo porque tinha esquecido as chaves lá dentro, depois quando saí dei uma volta na rua pra ver se via alguma coisa, mas nada! Então, vim!
– Niko, cuidado! Você tem certeza que não viu ninguém?! Olha que ladrões aparecem do nada! Eu já te disse um milhão de vezes pra você ficar muito atento quando estiver fechando o restaurante e, de preferência, não ficar sozinho, nem que seja acompanhado daquele garçom magrelo, mas...
– Félix... – Niko sorriu calando-o com um selinho. – Calma, amor! Nossa! E você diz que eu que falo demais! Quando você começa...
– Ai carneirinho, pelas joias de Cleópatra, eu não falo demais! É que... Eu fico pensando em você quando você está longe de mim...
– Oh amor! Que romântico! – Niko não resistiu em segurar em seu rosto e cobri-lo de beijos.
– Para, carneirinho, senão eu jogo essa bandeja de lado e não te deixo ir hoje!
– Não, você não faria isso! Eu tenho que ir... Mas, lembra que eu disse que ia te fazer uma coisa bem especial quando eu finalmente me livrar de todo esse trabalho? Eu não esqueci...
– Eu não esqueceria isso, né carneirinho?! Vou ficar lembrando cada dia! Não vejo a hora de esse dia chegar! Já pensou no que vai fazer pra mim?
– Hum... Estou pensando... Sei que você vai gostar!
– Carneirinho, qualquer coisa que você faça eu vou gostar pelo simples fato de ter sido você que fez!
– Ai Félix, como você está romântico, amor... – Beijou-o de novo. – O que deu em você?
Félix sorriu. – Não sei... Acho que você e o Jonathan estão certos, estou mais sensível esses dias... Só tive vontade de ser mais romântico com você, só isso!
Niko mostrava um sorriso bobo apaixonado, olhando em seus olhos, se aproximando para beijá-lo de novo. – E eu adoro você estar assim, sabia?!
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Pouco tempo depois, Niko acabava de se despedir do marido e dos filhos e saía para trabalhar.
– Tchau, meus amores! Até mais tarde! Ah! Jayme... – Aproximou-se do filho mais velho e sussurrou. – Seu pai me mostrou aquela coisa que você estava escondendo...
O garoto olhou surpreso e envergonhado para o pai. Este continuou: — Quando eu chegar a gente conversa se você quiser, viu?!
Jayme ficou sem saber o que responder, mas o sorriso compreensivo do pai o acalmou. – Tá, pai...
Niko outra vez sussurrou: — Filho, o que você quiser saber, eu vou responder! Confia em mim?!
Jayme sorriu. – Claro que confio, pai Niko! – Se abraçaram e Niko lhe deu um beijo na cabeça.
Então, foi para Fabrício que estava no colo de Félix. Pegou o pequeno nos braços. – E você, meu bebê, meu fofo... Dá um beijinho no papai, dá... – Fabrício deu um beijo na bochecha dele e Niko se emocionou. – Ah meu filhinho... Papai tá sentindo tanta falta... – Olhou de relance para Félix e lembrou-se do que ele havia prometido a Fabrício, então repetiu a promessa: — Olha, assim que eu tiver um tempo, a primeira coisa que vou fazer é brincar muito com você, tá bom?!
Fabrício sorriu. – Papai Félix disse isso!
– Disse? Então, olha só, vai se cumprir! Dá um abraço pra eu poder ir?!
Fabrício o abraçou forte deixando Niko com um nó na garganta por não poder começar a brincar com ele nesse exato momento. Para não começar a chorar ali, Niko o colocou de volta no colo de Félix, deu um beijo na testa do marido e saiu.
– Tchau, até mais tarde!
– Tchau, carneirinho! Tchau, pai! – Responderam.
Não fazia dois minutos que havia saído, ele voltou aborrecido.
– Félix! Meu carro não quer ligar de novo!
– O que, carneirinho? Ah não, não é possível! Quer saber, assim que você tiver um tempo nós vamos trocar esse seu carro! Assim não dá! Eu já levei ao mecânico duas vezes, eu mesmo já dei uma olhada e isso acontece de novo?! Já foi umas três vezes esse mês!
– É, eu acho que ele já está meio velho...
– Eu sugeri trocar dois anos atrás, lembra?! O que o senhor disse? Que não, que não precisava, que devíamos gastar o dinheiro com coisas mais úteis...
– Mas, é verdade, Félix...
– E um carro não é uma coisa útil, Niko?!
– Querido, não reclama, vai! Vem me levar!
– Ok! Eu vou...
Então, Niko avisou: — Adriana, meu doce, fica com os meninos que o Félix vai me levar!
– Tá bem, seu Niko! – Respondeu Adriana chegando a cozinha.
Os dois saíram.
Chegando ao restaurante Félix estacionou, mas dessa vez foi Niko que notou algo estranho.
– Félix! A porta tá aberta!
– O quê? De novo? Será que aquela sua assistente atacou outra vez?
– Ai Félix, não fala assim... Não... Não está como naquele dia... – No mesmo instante ia chegando seu garçom e ao se aproximar do restaurante, percebeu a situação além de ver que os patrões haviam chegado.
– Seu Niko, seu Félix... – Foi em direção a eles, assustado. – A porta foi arrombada!
– O quê?! – Os dois correram até lá.
– Como... Como arrombada?! C-como?! – Perguntava Niko confuso e assustado.
Félix já ficara nervoso, mas continuava com sua sensatez de sempre. – Como seria, Niko?! Arrombada! Quebraram a fechadura! Roubaram o restaurante!
– Ai Félix! O que a gente faz? Temos que chamar a polícia!
– Pelas contas do rosário, você já respondeu né carneirinho?! Vamos chamar a polícia, vamos ver lá dentro o que falta e... – Félix lembrou-se do dinheiro escondido. – A gaveta... – Murmurou.
– Quê? Que gaveta?
– A gaveta... O dinheiro, carneirinho! – Ele entrou no restaurante apressado, seguido por Niko e pelo garçom.
– O que você vai fazer, Félix?
– Niko, se levaram o que eu estou pensando, eu até já sei quem vou denunciar por esse roubo!
– Quem? Félix... – Félix passara tão depressa em direção ao balcão que não parou para ver o resto do restaurante. Niko e Carlos pararam.
Félix foi até a gaveta. – Não acredito! – Reclamou ao ver que o puxador estava arrebentado. Mas, quando a abriu, respirou profundamente aliviado. – Está aqui... Ainda está aqui...
Niko mandou Carlos ir ver na cozinha e foi até Félix. – O que está aí, Félix? – Quando viu o dinheiro, exclamou: — Félix! Porque todo esse dinheiro está aqui?!
– Eu havia guardado aqui boa parte do que tirei do cofre... Mas, tinha me esquecido de te contar! – Respirou de novo. – Ainda bem que não acharam! Eu vou levar tudo agora mesmo! – Começou a pegar tudo e guardar nos bolsos.
O garçom voltou da cozinha: — Seu Niko, as portas da despensa e do escritório também foram arrombadas!
– Ah meu Deus! – Niko correu pra lá enquanto Félix acabava de tirar o dinheiro. Logo ele o fez e o seguiu.
– Olha, Félix! Reviraram tudo no escritório!
– Deixa eu ver! – Félix entrou. Os documentos estavam jogados por toda parte. Niko os recolhia. O cofre estava aberto. – Arrebentaram o cofre, Niko! Levaram o que tinha aqui!
– Não tinha muito, você já havia tirado quase tudo...
– Sim... – Félix respirava pesadamente. Todos estavam nervosos. – Que sorte que eu tirei! Já imaginou quanto teríamos perdido?! Eu sabia... Eu já sabia... Minha intuição não falha...
– Calma, Félix...
– Você me pede calma? Como que você me pede calma, Niko? Nós fomos assaltados! Será que eu joguei Moisés do Monte Sinai pra você me pedir calma numa hora dessas?!
– Félix... Eu também estou nervoso... Mas, não adianta ficar desse jeito, nós temos que tomar as devidas providências...
– Ah! Agora você é o sensato? Você é o ser pensante? Você é o racional e eu sou o emocional, é isso?!
– Félix! – Já começava a ficar com a voz embargada e os olhos marejados. – Como você acha que eu estou me sentindo? Acha que não lembro que ontem eu me senti observado? E se minha sensação era real? E se os bandidos que fizeram isso queriam me assaltar e decidiram atacar o restaurante?
Félix se acalmou um pouco e o abraçou. – Não, não carneirinho... Não quero nem pensar se... Se você fosse o alvo... Não! Não quero nem pensar!
– O que fazemos agora?
– Bom... Vamos ligar pra polícia, registrar a ocorrência... Ver se roubaram mais alguma coisa além do dinheiro que estava no cofre... E, é isso...
– Tá, eu ligo, ou você liga?
– Liga você, enquanto isso eu vejo com o Carlos se levaram mais alguma coisa...
Niko foi ao telefone no balcão. O garçom já estava na cozinha.
– Falta alguma coisa aqui, Carlos? – Perguntou Félix.
– Não, seu Félix, parece que não levaram nada daqui... Não tem quase nada fora do lugar também... Deviam estar atrás só do dinheiro mesmo!
– Pois é... Mas... Como sabiam onde estava o cofre?!
Félix voltou para o escritório. Foi à despensa. Voltou à cozinha e, então, foi para a parte principal do restaurante. Daí notou algo que o deixou muito intrigado. O escritório era o único lugar que estava completamente bagunçado. Nem a despensa, nem a cozinha haviam sido reviradas daquela forma, muito menos o salão principal onde apenas uma das mesas estava virada, fora do lugar, como se a tivessem empurrado com força.
Niko desligou o telefone e lhe falou: — Disseram que já vêm! – Pediu para o garçom: — Carlos, por favor, coloca a placa de fechado, não podemos abrir hoje!
– Sim, seu Niko!
Niko notou o quanto Félix estava pensativo observando tudo.
– Amor... – Pôs a mão em seu ombro.
– Carneirinho... Está tudo no lugar...
– Eu vi, ainda bem que não reviraram tudo...
– Ainda bem não... Isso não tem nada de bom...
– Por que não, Félix?
– Por que não?! Eu vou te dar um exemplo... – Félix levou-o para a cozinha e pediu: — Fecha os olhos!
– Félix, isso não é hora pra brincadeira!
– Vê se eu estou com cara de quem quer brincar, Niko! Fecha os olhos!
Niko mesmo sem entender, fechou. Logo Félix ficou de frente para ele e levantou os braços pondo as mãos atrás da cabeça, então pediu:
– Agora, abre os olhos e faz um favor... Pega a chave do meu carro!
– A chave? – Niko não estava entendendo, mas começou a revistar Félix em busca da chave. Pôs as mãos em seus bolsos, por dentro da camisa, até chegar em suas mãos. – Aqui! – Ele escondia a chave do carro numa das mãos.
– Muito bem! Agora, fica olhando pra mim... – Félix pegou a chave e escondeu no bolso junto ao dinheiro. – Agora, pega a chave, carneirinho!
– Mas... Eu vi onde você guardou! – Foi direto no bolso dele e pegou a chave. Uma das notas veio junto.
Félix deu um meio sorriso e o encarou: — Exatamente! Se você não sabe onde está, você procura! Se você sabe onde está, você vai direto pegar! — Pegou de novo a nota da mão dele.
– Félix... O que quer dizer com isso? – Niko começou a compreender. – Você está querendo dizer que os ladrões sabiam onde estava o cofre?
– Niko, presta atenção! – Pôs as mãos no rosto dele. – Você viu bem como está o restaurante? Está tudo no lugar! Poucas coisas jogadas aqui e ali... O único lugar que viraram de cabeça pra baixo foi o escritório... Justo onde está o cofre! O que acha que isto significa?
– Q-que eles sabiam o... O que procuravam e... E onde estava?
Félix confirmou com a cabeça e completou: — E mais, carneirinho... Como sabiam? Pelo que eu saiba nenhum ladrão é adivinho!
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