Notas iniciais
Visitas esperadas... Visita inesperada...

– Pai Niko! – Entrou Jayme preocupado no quarto acompanhado por Jonathan.

O loiro já estava acordado, pois Félix o chamou para falar com os filhos e mostrar-lhes que estava bem.

– Oi, meu filho... – Antes de dizer mais alguma coisa, Jayme o abraçou.

– Cuidado, Jayme! – Disse Félix. – Seu pai carneirinho tá machucado!

– O que aconteceu, pai? – Olhava para os dois.

Niko respondeu: — Foi um assalto, meu filho! Mas, graças a Deus não aconteceu nada pior!

– Mas, você tá falando como se tivesse sentindo dor!

Já emocionado, fez um carinho no rosto do filho. – Oh meu filho... É que tá doendo mesmo, mas eu vou ficar bem! É tão tarde... Vocês deviam estar dormindo essa hora!

– Não, pai Niko! A gente queria te ver! A gente ficou muito preocupado quando o pai Félix ligou pra contar onde vocês estavam!

– Oh meu amor, eu sei... – Niko se emocionava cada vez mais. – Mas, não se preocupa tá?! Eu tô bem, vou pra casa logo! E seu irmãozinho?

– Tá lá fora com a Adriana!

Jonathan completou: — Achamos que não era bom ela entrar logo com o Fabrício! Além de ele ser muito novinho, ficaria muita gente no quarto!

– Oh Jonathan... Muito obrigado, viu! Eu sei que foi você que chamou a polícia, não foi?

– Sim, Niko! Eu liguei assim que meu pai saiu atrás de você! Ele estava quase fazendo um buraco no chão de tanto andar de um lado pra outro por causa da sua demora...

– Não é pra tanto, Jonathan! – Exclamou Félix.

– Mas, sinceramente, todos nós ficamos muito preocupados mesmo com você, Niko! Nós te conhecemos e gostamos muito de você, eu tenho um carinho especial, afinal, você é meu padrasto!

– Ah Jonathan... – Niko sorriu. – Vem cá, me dá um abraço também!

Eles se abraçaram e Félix observava a cena com um sorriso de satisfação. Logo Niko disse: — Você é um enteado maravilhoso, Jonathan! Posso te pedir uma coisa?

– Claro!

– Eu não quero que seus irmãos fiquem em um ambiente hospitalar por muito tempo...

– Entendo, Niko! A Adriana ficou com o Fabrício lá embaixo na recepção, só vai subir quando nós descermos, e não vamos ficar muito tempo porque não é horário de visitas!

– Tá bom! – Niko sorriu.

– Pai Niko, eu queria ficar mais aqui com você! – Reclamou Jayme.

– Mas, não pode, meu filho! É quase de madrugada, você tem que dormir...

– Mas, eu não tô com sono! Eu queria ficar com você...

Félix interferiu: — Jayme, já dissemos que não pode! Não deixam ninguém da sua idade ficar num hospital uma hora dessas e não é horário de visitas, isso foi uma ocasião especial porque eu pedi que deixassem vocês verem o Niko, mas não pode!

– É maninho! – Continuou Jonathan. – Vamos descer agora pra a Adriana poder vir com o Fabrício pra ele ver nossos pais rapidinho e amanhã, na hora de visitas, a gente vem!

– Tá bom... – Disse um tanto inconformado. – Tchau, pai Niko! – Deu um beijo no pai. – Fica bom logo! Tchau, pai Félix! – Deu um beijo no pai também. – Eu vou lá chamar então... Você vem, Jonathan?

– Vai indo, eu já vou!

Jayme saiu do quarto enquanto Jonathan permaneceu para perguntar:

– Como foi que tudo isso aconteceu, Niko? Meu pai disse que você quase levou um tiro...

Niko suspirou profundamente. – Ah Jonathan, eu fiquei acuado, fui chutado, humilhado... Quando tive uma oportunidade de fugir dali, eu... Ai não sei, talvez não devesse ter reagido assim, mas... Enfim, eu saí correndo sem olhar pra trás! E o tiro foi por pouco! Se o Félix não tivesse chegado naquela hora e me chamado, gritado meu nome... Eu acho que eu teria morrido!

Félix sentou ao seu lado. – Não diz isso, carneirinho!

Niko pegou em sua mão. – É sério, Félix! Você mesmo viu o delegado explicando que, pela posição, por tudo ali, o tiro provavelmente me acertaria! Só foi de raspão porque eu virei... E eu só virei porque você gritou meu nome!

Jonathan sorriu olhando para o pai. – É pai... Acho que você é um herói sem querer!

Félix por um instante pareceu um tímido diante daquelas palavras de seu companheiro e de seu filho.

– Ah vocês dois... De tanto me chamarem de herói daqui a pouco eu visto uma capa e uma máscara, pronto! Só não sei se estaria mais pra Zorro ou pra Batman!

Os três riram. Niko, então, virou para Jonathan.

– Jonathan... Eu achei tão bonitinho você falando com seu irmão agora a pouco...

– O que foi que eu disse?

– Não sei se você percebeu... Mas, você disse pra o seu irmão que iam descer para que a Adriana e o Fabrício pudessem ver seus pais... Você disse “nossos pais”...

– Ah! – Jonathan percebeu. – Foi como se eu te chamasse de pai também, né?! Ah Niko, quer saber? Se você fosse um pouquinho mais velho, talvez... Eu não me importaria... Quantas vezes desde que você e meu pai se casaram que eu precisei de um conselho e você sempre foi meu melhor amigo?!

Niko sorriu e Félix olhava orgulhoso para os dois. Mas, logo soltou uma das suas piadinhas.

– Quer dizer, Jonathan, que você até chamaria o Niko de pai se ele fosse mais velho, é isso?! Tá me chamando de velho tá?!

Ele riu. – Eu não disse isso, pai! Eu disse que não me importaria se vocês quisessem, até porque como mais eu poderia considerar o Niko senão como um pai também! Claro que não vou chamá-lo assim, porque não consigo, mas é como se ele fosse... Um segundo pai, um irmão mais velho... Bom, o Niko é meu melhor amigo e o melhor conselheiro! – Mudou o tom sério para piada. – E você, pai, tem que admitir que tem uma diferença de idade considerável dele...

Niko riu e Félix logo respondeu:

– Olha aqui, Jonathan... Olha, eu devo ter dado injeção na bunda do Faraó pra primeiro me chamarem de herói e logo depois de velho! Sabe muito bem que a diferença entre minha idade e a do carneirinho não é tanta assim...

– É, mas... Você esconde alguns fios brancos que eu sei...

– Jonathan! Fios brancos tem a vovotrix, tá bom?!

Niko interrompeu rindo. – Félix... Na verdade, de vez em quando, aparece um ou outro fio branco no seu cabelo sim...

– Ah não, carneirinho... Até você?! Já vi que eu devo ter assaltado os Reis Magos pra merecer isso... Quer que eu saía e você fica aí conversando com o Jonathan sobre meus cabelos grisalhos, quer?!

Jonathan e Niko riam.

– Ai amor, deixa de ser exagerado, você vai demorar pra ficar grisalho...

– É pai, a gente só diz isso pra te chatear!

– Ah ah ah... Tô achando muita graça...

Félix estava o tempo todo sorrindo, contente por ver Niko se divertindo depois de tudo que havia passado. Nessa hora, Adriana entrou com Fabrício.

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– Ah seu Niko! Que bom que o senhor tá bem! A gente ficou morrendo de preocupação!

– Sim, estou bem Adriana! Volto pra casa logo, talvez amanhã já!

– Eu trouxe uma roupa limpa pro senhor, como seu Félix pediu!

– Obrigado, Adriana! – Disse Félix. – Aí você leva a outra, tá?! Eu já separei...

Fabrício já estava sentado na cama, entre Niko e Félix que o segurava sentado ao lado para que ele não machucasse Niko sem querer. Mesmo assim, o pequeno curioso, tocava no pai por todos os cantos perguntando:

– Papai, dói aqui?

– Não, filho...

– E aqui?

– Não...

– E aqui?

– Não...

– E aqui?

– Ai! – Niko sentiu quando Fabrício bateu de leve no lado onde ele havia levado os chutes.

Félix logo segurou suas mãozinhas inquietas.

– Fabrício! Seu papai carneirinho tá dodói! Cuidado!

O pequeno olhou para o pai com os olhinhos pidões. – Tá muito dodói, papai?

– Oh meu filho, tô um pouquinho! Mas, logo papai vai ficar melhor e vai pra casa, tá?!

Félix falou baixinho ao filho: — Sabe o que vai fazer o papai ficar melhor mais rápido Fabrício? Se você der um beijinho nele!

Fabrício se aproximou e deu um beijinho no rosto de Niko que logo se emocionou com o gesto de carinho do filho e do marido.

– Ah meus amores...

Ambos os pais, além de Adriana, acharam ainda mais fofo quando Fabrício pôs a mãozinha sobre o corpo do pai, onde ele havia sentido dor e começou uma suave massagem, dizendo: — Vai passar logo, papai! Eu vou dar massagem e você vai ficar melhor!

– Oh meu bebê lindo... – Niko já tinha os olhos marejados com tanta ternura.

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Logo eles foram embora, e outra vez, Félix ficou só com Niko.

– Ai amor... Estou tão cansado...

– É... É por tudo que você passou... E os remédios dão sono... – Félix tinha a voz um tanto triste.

– O que você tem? Desde que nossos filhos foram embora tô te achando meio distante...

– Eu? Nada...

– Félix, você não me engana! Que foi, hein?!

Félix levantou da cadeira ao seu lado e deu alguns passos.

– Eu não queria falar nada enquanto estavam aqui, mas... Estou com medo de... Quando você ficar melhor... Se você... Se nós vamos continuar...

– Continuar o quê?

– Juntos, Niko!

Niko se assustou. – Félix... Por que não ficaríamos juntos? Vamos ficar juntos pra sempre! Eu te amo...

Respirou fundo e tirou a foto do bolso.

– Ama? Eu... Achei isto no bolso da sua calça, Niko! Pode me dizer quem é esta criatura que está nesta foto?

Estendeu a mão entregando a foto para Niko.

– A foto...

– É, essa foto! Quem é esse? É alguém importante pra você, por acaso?

Niko logo lembrou.

– Ah... Amor, não fica com ciúme! Essa foto... Acho que é da Jéssica...

– Da... Jéssica? E porque você estava com essa foto no bolso, Niko? Quem é esse?

– Teve uma hora que eu estava no balcão e eu derrubei a bolsa dela no chão sem querer! Eu apanhei as coisas, mas um tempo depois achei esta foto embaixo do balcão! Acredito que tenha caído da bolsa dela! Mas, não pude entregar porque ela já tinha ido embora!

Félix respirou fundo outra vez e sentou-se ao seu lado, pegando em sua mão.

– Carneirinho... Desculpa! Você passou por tudo isso e eu fiquei com ciúme à toa quando encontrei essa foto no seu bolso!

Niko sorriu. – Você é muito bobo, Félix!

– Ora, por quê?

– Como por quê? Félix, no dia que eu te trair, pode atirar em mim, e dessa vez mirando bem no meu coração!

– Ai carneirinho, não diz isso...

– É verdade, Félix! Amor, eu te amo e você é bom demais pra ser traído!

Félix sorriu. – Gostei disso! É... É verdade, eu sou muito bom mesmo...

Niko riu. – Eu sabia que você ia concordar!

Félix lhe deu um selinho.

– Mas, me conta, Niko... Quem é esse aí da foto, hein?!

– Félix, eu não sei, mas... Acho que é o ex-namorado dela... Ela me contou o que aconteceu com eles dois... É uma história triste...

– Conta...

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Niko contou tudo que Jéssica havia lhe dito sobre sua história, com seu namorado e o filho que teriam.

– Hum... E o que aconteceu depois que ele morreu? Ela surtou, perdeu o bebê, o quê?

– Ela não quis me contar mais nada além disso, Félix! Ela ficou muito nervosa de repente, eu percebi que era melhor deixá-la sossegada!

Félix virou o rosto e murmurou: — Queria que ela tivesse deixado você sossegado...

– O quê?

– Nada... Pensei em voz alta...

Niko observou mais uma vez aquela foto.

– Interessante ele, não acha?

– Interessante?

– É... Era um homem muito bonito, tinha um charme num olhar, ao mesmo tempo uma doçura... Parecia ser um bom homem...

– Desse jeito vou ficar com ciúmes de novo, carneirinho!

– Ciúmes de uma foto, Félix?! E de alguém que já morreu se for esse mesmo o cara...

– Vai saber... Naquela mulher não dá pra confiar, você não sabe nem se essa história toda que ela contou é inventada!

– Não... Ela não inventou isso, a emoção dela era verdadeira! Mas... Essa foto... Me deixou, sei lá, intrigado... – Niko ficou observando a foto e, de repente, ficou com um olhar distante, até um tanto assustado.

– No que você tá pensando, Niko?

Niko balançou a cabeça como se quisesse afastar aqueles pensamentos que pareciam tê-lo atormentado.

– N-nada... Nada, Félix, eu... Pensei besteira... – Voltou a olhar para a foto. – Não, não pode ser...

– Não pode ser o quê, criatura?

– Nada, deixa... Deixa pra lá... Guarda essa foto, por favor?!

– Sim! – Félix a guardou na carteira.

– Meu amor, eu quero dormir um pouco...

– Pode dormir, carneirinho! Essa medicação deve dar muito sono mesmo e você está cheio de dores, né?!

– Estou... – Niko o olhou e fez bico.

– Oh Niko, eu não resisto a esses olhinhos de carneirinho pidão, você sabe... – Niko deu um meio sorriso enquanto Félix acariciou seu rosto. – Vai, dorme um pouco... Eu não vou sair do seu lado...

– Promete? – Perguntou dengoso.

Félix riu. – Você já está bom, já está fazendo suas chantagens... – O loiro sorriu com as bochechas rosadas. – Eu prometo, Niko, eu vou ficar aqui ao seu lado...

– Como sempre né, Félix?! Por que eu preciso de você...

... ...

– Viu como você precisa de mim?!

– Eu nunca disse que não precisava...

... ...

– Sempre, carneirinho... Por que eu preciso! Eu também sempre precisei de você!

Niko se ajeitou melhor na cama, enquanto Félix cuidou de arrumar até a fronha do travesseiro para ele tirar um cochilo. O loiro logo adormeceu enquanto Félix lhe fazia um suave cafuné e velava seu sono.

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O dia amanheceu e Niko acordou. Olhou para o lado e viu Félix adormecido na cadeira.

– Coitado do Félix... Ele que vai ficar cheio de dores por dormir desse jeito... – Pensava enquanto olhava para o marido.

Um médico chegou.

– Bom dia!

– Shh... – Niko pediu silêncio para não acordar Félix. O médico entendeu e falou mais baixo.

– Vamos ver como estão esses ferimentos agora depois dessas horas?! – O médico começou a tirar os curativos junto com uma enfermeira que foi junto.

Niko ainda fazia careta com as dores.

– O ferimento causado pelo tiro não está com sinais de que vai infeccionar, isso é bom! Deve cicatrizar rápido! Mas, os machucados causados pelos chutes ainda vão fazê-lo ficar de repouso por algum tempo...

Nesse momento, Félix acordou.

– Hã?! Ah doutor... – Esfregou os olhos e logo ajeitou os cabelos como pôde. – É... Ele está melhor, não está?

– Está! Se não sentir mais muita dor, nem mal-estar, pode ter alta ainda hoje! O ferimento parece que vai cicatrizar bem! Eu vou passar um remédio para amenizar as dores mais fortes e recomendo também que, em casa, coloque compressas geladas no primeiro dia, isso vai fazer diminuir o inchaço e depois passe a colocar compressas quentes para ativar a circulação!

– Assim vai sair essas marcas roxas não é, doutor? – Perguntou Niko.

– Sim... Em duas semanas você já estará totalmente recuperado! Enquanto isso, repouso... – O doutor foi saindo, mas ainda olhou ligeiramente para Félix ao completar: — Lembre-se, repouso absoluto! Com licença! Virei mais tarde ver como está! – Saiu com a enfermeira.

Félix olhou para Niko e cruzou os braços.

– Oh carneirinho... Foi impressão minha ou esse doutorzinho jogou uma indireta pra mim?

Niko deu uma risadinha. – Sei lá, Félix! Vai que ele percebeu que você não é muito de me deixar... Em repouso...

– Ah, mas olha... Eu devo ter cortado os pães da santa ceia com um bisturi pra voltar a levar indireta de médico agora! Sinceramente...

Niko ria com Félix quando este ficou mais sério de novo e falou:

– É... Niko... Falei em bisturi, me lembrei de facas...

– O que tem a ver, Félix?

– Tudo a ver... Ambos podem servir pra cortar... Inclusive as pessoas...

– O que você quer dizer?

Ele suspirou. – Carneirinho, faz algum tempo que eu estou querendo te perguntar... Quando o delegado mostrou a faca com que atacaram o bandido que atirou em você, porque você não falou que aquela sua assistente é quem deve ter pegado?

– Félix, eu não sei se foi ela...

– Como não, Niko?! Quem mais poderia ter pegado uma faca do restaurante e enfiado na perna do bandido? Eu sei que você não gosta de acusar ninguém injustamente, mas devia ter pelo menos falado sobre ela pra o delegado...

Niko ficou sério. – Félix... Eu acredito que não devemos confiar nem desconfiar das pessoas à primeira vista... Mas... Tenho que confessar que... Eu acho que você pode ter razão...

– Ah enfim... Resolveu me dar razão... Em que eu tenho razão, carneirinho?!

– Nessa sua desconfiança quanto a Jéssica! Eu ainda não acho que ela seja uma má pessoa, mas talvez... Não sei...

– Talvez o quê, Niko?

– Félix, eu esqueci... Mas, agora tô lembrando que os bandidos sabiam exatamente onde havia dinheiro... Tanto sabiam do escritório e do cofre, quanto daquela gaveta com fundo falso...

Félix se surpreendeu: — Então... Niko só pode! Eles são os mesmos que assaltaram antes!

– Sim... E... O que me fez desconfiar da Jéssica, foi na hora em que um deles, o que estava apontando a arma pra mim... Ele disse “bem que ela disse”... Algo assim...

– Bem que ela disse? Bem que ela disse sobre?...

– Sobre a gaveta! Quando ele mandou o outro ir procurar a gaveta pra ver se tinha dinheiro escondido mesmo, eu, na surpresa, perguntei como ele sabia que havia essa gaveta lá no balcão... Aí ele falou assim “bem que ela disse”!

Félix levantou da cadeira preocupado. – Eu sabia, eu sabia, Niko! Eu sabia que ela estava envolvida nisso! Meu sexto sentido não falha! Eu te disse que aquela mulher não é flor que se cheire! Ah mas eu vou ligar agora mesmo pra o delegado pra contar tudo isso!

– Félix, vai com calma, não devemos acusar sem provas...

– Ah você quer provas?! Você ainda quer mais provas, Niko?! Você quer provas de que aquela mulher é uma bandida?! Pois bem... Eu vou mandar o delegado investigar os vídeos das câmeras de segurança, porque aí eu aposto que vão aparecer imagens daquela mulher que a coloquem atrás das grades!

– Félix... Pra ser sincero... Eu acho que a Jéssica foi alguém que sofreu muito... Muito mesmo...

– Você ainda vai defendê-la, Niko?! – Félix já perdia a paciência.

– Félix, você não entende... Quando nós conversamos e ela se abriu comigo, sobre as coisas que aconteceram na vida dela nessa época que ela engravidou e perdeu o noivo num acidente... Félix, ela tinha uma mágoa no olhar...

– E daí?!

– Era uma mágoa tão grande... Tão grande quanto a que eu via nos seus olhos quando te conheci...

Félix ficou sem palavras. Com os olhos marejados, apenas baixou a cabeça e deixou Niko terminar de falar.

– Félix... Desculpa ter dito isso, meu amor... Mas é a verdade! Se você quiser, pode dizer para a polícia ver os vídeos das câmeras... Mas... Com toda sinceridade, eu não acho que ela me faria mal depois do quanto eu demonstrei que ela podia confiar em mim! Eu acho que eu dei a ela uma coisa que há muito tempo ela não tinha... Amizade!

Félix começou a aceitar o sentimento de Niko, apesar de ainda lhe ser difícil de compreender. Respirou fundo, pegou em sua mão e disse:

– Niko... Eu entendo que você confie nessa mulher... Mas, eu não! Eu não te disse, também havia deixado passar com tanta coisa na minha cabeça, mas... Assim que eu cheguei lá no restaurante ontem, eu vi de relance alguém num canto do estacionamento espiando tudo que acontecia... E com certeza, era uma mulher! Agora, liga os pontos, carneirinho! O bandido atirou em você e saiu correndo pra lá... Alguém deu uma facada nele, alguém que estava escondido no estacionamento, e usando uma das suas facas! Agora me fala... Como pode ter sido outra pessoa se não a tal Jéssica?!

– Talvez... Mas, porque ela daria uma facada no bandido se fosse cúmplice dele?

– Talvez o quê, Niko?! Bota esses cachinhos loiros pra funcionar... É claro que foi ela! Já o porquê da facada eu não sei! Mas, que foi ela, foi!

Niko pensou um pouco e pediu: — Félix, peça ao delegado que investigue as câmeras de segurança, por favor! Agora eu também quero saber o que realmente aconteceu!

Félix se surpreendeu e deu um meio sorriso. – Isso, carneirinho! Agora está agindo racionalmente! Eu vou ligar pra o delegado!

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Félix fez a ligação e sentou perto de Niko, na cama, quando levaram o lanche da manhã para ele e nesse momento ele lembrou:

– Amor, você ainda não comeu nada hoje!

– Ah... Não, não tem problema, carneirinho... Você que come mais que eu, não se preocupa com comida agora... – Porém, apesar das suas desculpas, Niko ouviu a barriga de Félix roncando.

– Félix! Amor, você tem que tomar o café da manhã, é a refeição mais importante do dia...

– Só se for pra você né Niko, que se enche de torrada com geleia... Eu não... Deixa, carneirinho, é melhor assim que eu mantenho a forma...

– Não, não, não, nada disso! O senhor pode fazer as piadinhas que quiser, mas vai comer sim! Félix, por favor, eu tô pedindo... Não vou conseguir ficar aqui descansado sabendo que você tá com fome...

– Imagina, Niko! Não exagera! Eu prefiro ficar com o estômago vazio que comer comida de hospital...

Nessa hora Jonathan ligou e Félix atendeu. Niko ficou ouvindo a conversa.

– Pai! Como tá o Niko?

– Tá bem melhor, Jonathan! Daqui a pouco sai até dando pulinhos pelo hospital pelo que eu tô vendo...

Niko balançou a cabeça sorrindo.

– Que bom, pai! Você vem comer alguma coisa? Desde ontem que você tá sem comer, nem jantou, nem nada...

Niko olhou para ele indignado.

– A-ah... Eu... Não sei, Jonathan...

Tentou disfarçar, mas Niko sussurrou: — Você vai sim, senhor Félix!

– Espera um pouco, filho... – Afastou o celular pra falar. – Niko, eu quero ficar aqui com você...

Niko pegou o celular de suas mãos. – Ah é? E você acha que eu quero marido meu desmaiando de fome aqui no hospital? Desse jeito eu tenho alta e quem fica internado é você! – Falou ao celular. – Jonathan, oi! Olha, seu pai vai sim pra casa, comer alguma coisa e descansar um pouco! Eu já estou bem melhor e o médico disse que posso ter alta hoje mesmo!

– Bom saber, Niko! Mais tarde, no horário de visitas, nós vamos aí, ok?!

– Ok, Jonathan, obrigado! Dá um beijo nos seus irmãos, tá?! Tchau!

Desligou.

– Ouviu, né Félix?! Você vai! Nem que eu tenha que levantar daqui e te levar!

– Nossa... Colocando nesses termos...

– Amor, é pra o seu bem! Eu ia ficar muito triste se você ficasse aqui morrendo de fome por minha causa!

– Oh carneirinho, você sempre consegue o que quer! Tá bem, eu vou!

– Descansa um pouco também! Eu consigo levantar, posso me virar aqui até o horário de visitas!

Félix suspirou. – Ok, Niko! Eu volto mais tarde! Beijo!

Deu-lhe um selinho demorado e saiu.

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Depois, Niko descansava quando alguém bateu na porta. Estranhou, pois médicos e enfermeiras não bateriam para entrar e Félix só havia saído há pouco mais de uma hora.

– Pode entrar...

Alguém abriu a porta vagarosamente e ao ver quem era, Niko se surpreendeu.

– Você?!

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Mais tarde, meia hora antes do horário de visitas, Félix voltou.

– Oi carneirinho! Resolvi vir um pouquinho mais cedo e pedi pra ficar com você até o horário... – Ao sentar na cadeira ao seu lado, notou que Niko havia chorado e parecia extremamente assustado. Preocupou-se. – Niko, o que você tem?

– Félix...

– Carneirinho, que foi? Tá me deixando preocupado...

– A Jéssica esteve aqui...

– O quê?! O que ela te fez? Aquela bandida... Eu vou denunciá-la agora mesmo, se eu encontrá-la aqui no hospital eu arrasto ela pelos cabelos, eu faço ela ir direto pra UTI, eu...

– Félix! Eu... Eu não quero que a denuncie...

– Como é que é, Niko? Niko, ela era cúmplice daqueles bandidos com certeza, ela deu uma facada num deles, ela podia ter te matado...

– Ela me contou tudo, Félix... Ela me contou a história dela, ela estava sendo coagida...

– Coagida?! E você acreditou, Niko?! Pelas pedras do santo sepulcro, você... Você deve ter pirado quando bateu com a cabeça no chão, só pode!

– Félix... É sério... – Niko estava realmente muito abalado enquanto falava. – Eu não quero colocá-la na cadeia...

– Mas, se ela era cúmplice é o que ela merece, Niko!

– Não, Félix! Eu... Eu quero ajudá-la a ir para uma clínica de reabilitação...

– Clínica?! Clínica, carneirinho?! Reabilitação?! M-mas eu não tô acreditando no que estou ouvindo!

– Félix, meu amor... – O loiro o olhou nos olhos. – Quem melhor que você pra saber que todos merecem uma segunda chance?!

Aquilo bateu profundamente no coração dele. Félix ficou sem reação, mas, após alguns segundos, conseguiu pronunciar algumas palavras.

– Ni... Niko... Eu... Eu realmente... Eu não estou entendendo onde você quer chegar com isso...

– Félix, eu... – Ele encheu os olhos de lágrimas. – Eu não posso denunciar essa mulher...

Félix levantou revoltado voltando a levantar o tom de voz. – Mas, porque?! Por que Niko? Por que?! Será que resolveu virar hetero agora e se apaixonou por ela?!

– Não fala besteira, Félix...

– Então... Então?! Eu não te entendo, criatura! Me diz só um motivo racional para eu não denunciá-la... Um motivozinho que seja...

Niko falava como quem está calmo, mas estava abalado, abatido. A voz rouca de tanto chorar.

– Mesmo que ela tenha feito tudo errado... Depois de tudo que ela me contou... Eu tenho um motivo muito grande...

– Qual, Niko?! Que motivo é esse?!

– F-Félix... Eu acho que... Essa mulher... – Lágrimas rolavam incessantes em seu rosto. – É... É a... A mãe do nosso filho...

Félix fez uma expressão de confusão e susto.

– Quê?!

– E-eu... A-acho que... Ela... A Jéssica... P-pode ser... A... A verdadeira mãe... ... Do Jayme!

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Notas finais
Pois é... Continua... ... ...