— A Alvorada pinta o céu em seu estilo mais fosco possível, dando o sinal de que não haverá sol durante essa manhã. Se parar para ouvir, os pássaros estão louvando em seu ritmo de assovio, o vento se arrasta entre as árvores do bosque, fazendo com que as folhas dancem sua música. Esta bem frio para o mês de agosto. Mas é porque ainda é cedo.

U-uuu, U-uuu, U-uuu. O barulho exagerado anuncia que o trem da Alvorada esta passando em Camde-Califórnia, especificamente longe da civilização, e a grosso modo ‘meio do mato’. Há apenas uma casa bem pobrezinha nessa parte de Camde e ela pertence a Família Mitchell.

Mais duas vezes o trem apita: U-uuu, U-uuu!

A pequena Alice de 10 anos é a primeira a acordar. Esta animada e sorridente, o fato de acordar cedo é uma tortura para a maioria das crianças nessa idade. Mas isso nunca incomodou Alice, ao contrário, é uma bênção divina para ela sentir a brisa do amanhecer.

Alice esfregou os olhos afastando qualquer vestígio de sono que ponderava ali. Deslizou para fora da cama vestindo a primeira roupa que encontrou em meio a bagunça que é seu guarda-roupa. Não precisava de calçado, porque segundo ela, isso não era confortável.

— Onde você vai, Alice? — Perguntou seu irmão menor Owen, se levantando, sonolento, da sua cama ao lado.

— Pssiu... — Avisou ela.

As paredes da casa eram tão finas que Mamãe surtaria feito um touro bravo, se alguém ousasse a acorda-la naquela hora do dia.

Ela chegou mais perto do pequeno Owen e acariciou seus cabelos, ajeitou o lençol enrolado e o cobriu até a altura do seu queixinho.

— Vou até a linha do trem — sussurrou

Owen sorriu e se encolheu debaixo das cobertas.

— Qual será a aventura de hoje?

— Donzela em perigo.

É claro que ia ser uma aventura perigosa. Tinha levantado bem cedo

todos os dias das férias para construir histórias deitada sob a linha do trem. Metera na cabeça que, o barulho do trem e a adrenalina de estar em seus trilhos tornaram todas suas fantasias mais perigosas — e Deus sabia como era perigoso —, Poderia morrer; mas não adiantará, podia sentir prazer só ouvindo a palavra 'Perigoso' e, é exatamente isso que a aventura de hoje seria. A ultima aventura antes que as aulas recomeçassem. E tinha que ser a mais emocionante. Não uma das mais emocionantes, nem quase emocionante, mas realmente a mais emocionante de todas. O melhor de todos.

Owen uma vez perguntara o porquê dela gostar dessa loucura, e ela respondeu:

''- Ah meu irmão... Eu vivo o hoje, porque talvez não haja o amanhã.''

— Alice saiu de casa na ponta dos pés. O lugar estava tão velho que rangia cada vez que ela apoiava o pé no chão, mas Alice tinha descoberto que, na pontinha do pé, o barulho era só um gemido fraco, e geralmente conseguia chegar lá fora sem acordar a mãe ou o pequeno Owen. Owen não era o problema, ele ia fazer sete anos e simplesmente a idolatrava, o que às vezes era ótimo. Quando você é a irmã mais velha, completamente impulsiva, que coleciona pedras de trilhos, tem um pai desconhecido que a abandonou e que chora antes de dormir... Então dá para ver como é bom ter alguém que te adora. Mesmo se de vez em quando isso cria uns probleminhas.

Atravessou o quintal bem depressa. Quando respirava, o ar saia em pequenas nuvens de vapor — estava bem frio —

Alice andou em passos animados, enquanto ela subia pelo monte de mato e lama, pulava algumas pedras e uma cerca e caia em dois pés próximo a linha do trem. Andou pelo menos uns onze metros ao norte, mais longe de sua casa para aproximar-se do túnel para deitará ali.

Cabeça e pernas apoiadas nos trilhos.

Fechou seus olhos e deixou os pensamentos sucumbir sua alma, um sorriso quase angelical brotou em seu rosto bonito de porcelana.

Isso seria adorável se não fosse um ato de tanta rebeldia.