Talvez - EM HIATUS
40 Especial: REMENDOS. Quarto Pedaço.
Notas iniciais

Três anos depois.
–Sakura?
–hum? Agora não estou cansada...
Ela se alongou apreciando os longos dedos a deslizarem pela pele de suas costas.
O homem era insaciável.
Não cansara dela, não cansara de seu corpo, e principalmente não cansara de tentar faze-la dele.
E ela não cansava de recusa-lo, alguns diriam que ela era louca, ou apenas uma megera irritante, talvez fosse afinal, talvez tivesse se tornado isso afinal.
Mas ela apenas gostava da sensação de poder que isso dava, gostava de ter um homem em suas mãos, e realmente, realmente gostava de ter aquele homem nas mãos.
Por mais que as vezes sempre parecesse que era ele que a tinha.
Estavam numa espécie de... namoro, ela não aceitou seu “pedido” de casamento naquele dia assombroso, depois que se recuperara do susto inicial ficara zangada, realmente zangada por um fato tão importante ter sido ocultado dela, não que se achasse no direito de saber sobres os segredos de um clã, mas estavam numa guerra, e ela tinha o direito de saber ao menos com quem estava se aliando.
Por isso, e porque é claro que não se casaria com ele. Que ela não aceitou tal presunçoso e arrogante “pedido”.
Porém, como sempre, Yasuhiko tinha uma carta na manga, ou quando não, tinha seus aliados.
E mesmo que ele tenha apenas feito o pedido, e ela negado com todas as letras, o clã a tratava como sua senhora. Ele a tratava como sua senhora, e agora ela era mãe de Yato e de Yukine.
Seu coração se enchia de amor e felicidade ao constatar quão rápido se apegara a aquela criança, e a forma como esse amor se estendeu até alcançar o pequeno e arisco Yukine.
Ela não podia negar, estava atrelada a Yasuhiko por meio dessas crianças e não se imaginava indo embora para qualquer lugar sem elas.
Mas ele... dar ele o que ele queria... era impossível.
–infernos, vá trabalhar, que espécie de Kage você é afinal? – resmungou quando sentiu- morder-lhe a coluna.
–um ótimo Kage... pelo o que dizem...
–maldito arrogante.
Ele subiu a língua até seu ombro, acariciando a cicatriz de mordida que ela sempre tinha que curar, ele tentava marca-la, sempre, e ela curar a ferida apenas o fazia marcar outra vez. Maldito homem que sentia fome dela de todas as formas. Não que odiasse isso afinal...
–quero falar com você.
–já está, quatro olhos.
Daquela vez ele não rebateu, nem com uma mordida nem com alguma resposta tão perfeita que parecesse que já sabia a hora e o momento que ela diria.
Apenas roçou o nariz contra sua nuca, soltando um longo suspiro que a arrepiou, ou talvez apenas foi a antecipação.
–Sakura... Eu quero um filho.
Com um frágil cristal em contato com a rocha densa ela se partiu. Um frio assombroso subiu por sua coluna, nublou sua mente e desceu de volta para seu coração, ou talvez tivesse aflorado de lá. Não sabia mais.
Tudo ruiu de novo.
Seus olhos vagaram frenéticos e nervosos buscando uma saída, ainda naquela fase de negação, em que procurava achar que não entendera da maneira certa, e que aquelas palavras não tinham nada a ver com seu passado, e que não estavam vindo de novo, pra causar um segundo pesadelo, trazer uma segundo inferno para sua vida. E saber que ele observava paciente, esperando sua reação e sua resposta, não estava ajudando.
Mas não era isso que ele queria afinal.
Ela já devia saber.
Tragou da maneira mais discreta que pode e se levantou empurrando as mexas da altura de seus ombros da frente do rosto.
–filhos? Como assim.... você já tem...já tem dois, ora. — sua vos tremeu e ela amaldiçoou por isso.
Yasuhiko acariciou a pele de seu braço, beijou seu ombro.
–você me entendeu, pequena.
–não... não entendi, isso não faz sentido.
–faz todo o sentido, eu quero um filho, um filho meu e seu, Sakura.
Ela se levantou, horrorizada e em pânico, absolutamente ele sabia com tê-la nas mãos, encanta-la, e aterroriza-la, agora sabia disso.
Buscou o robe apressada e vestiu.
–você está louco, completamente louco.
–aonde vai? Não terminamos...
–nós não começamos nada! – ela gritou a voz já esganiçada voltando-se pra ele, e arrependeu-se, Yasuhiko, a encarou e se levantou da cama, ainda de calça, o torso cheio de cicatrize, o cabelo prata desgrenhado dando a visão do homem selvagem que podia ser por trás dos óculos e postura elegante.
–não tem porque ficar nervosa, pequena.
–como não ficar nervosa?! O que o faz achar que pode chegar e me exigir isso?!
–não estou exigindo, e mesmo que estivesse, como sempre, você iria ignorar, estou apenas expressando... minha vontade, eu quero uma criança, minha e sua.
–porque?
–porque quero ter filhos com você.
–mentira...
–porque seria? Por acaso acha que não é boa o bastante?
–não tente usar meu orgulho contra mim maldito! Eu não quero ter filhos! Nem com você! Nem com ninguém.
–bom, para o último, mas parece que teremos que trabalhar para o primeiro.
–já disse que não!
Ele caminhou até ela fazendo-a recuar para trás.
–como eu disse, trabalhoso, sempre trabalhosa, pequena...
–eu não quero! Eu não vou! E não tem o direito de me pedir isso! Não somos casados!
–isso também pode ser resolvido.
– o que você quer, me enlouquecer?!
Ela não sabia mais como sua voz tinha soado, tudo em sua mente voltava-se pra uma forma de afasta-lo dela, que tudo sobre ele ficasse longe dela, e devia ser o bastante, ele parou e permaneceu a fita-la.
–Sakura, você está fazendo de novo...
–não sei do que está falando.
–sabe sim, você está comparando, com seu último relacionamento, e você sabe...o quanto isso me deixa irritado...
As poças negras assumiram seu olhar enquanto ele voltava a se aproximar, tremula, ela bateu contra a parede e escorregou por ela, caindo sem tirar os olhos dele agarrada ao robe como se fosse a única rédea que ainda tinha sobre a própria vida.
Antes que lhe tomassem tudo, de novo.
Ela realmente estava comparando afinal.
–então pare de agir...pare de... tentar tomar o mesmo que ele...- suplicou, Yasuhiko parou os olhos vermelhos afundados nos dela.
Como uma maldição, talvez ela estivesse fadada a amar homens de olhos vermelhos.
Amar?
Ela o amava?
Se não, então porque essa palavra surgira agora? Logo agora?
Não soube de onde tirou forças mas esperava que ele ficasse sem as dele por tempo o bastante.
Se levantou e saiu do quarto correndo, fugindo.
De novo.
Mas se fosse daquilo, ela fugiria para sempre.
Sakura correu o máximo que pode, a manhã já começava, o quase todo o distrito dormia, ela disparou pelas ruas, saiu por sobre o muro e se distanciou o máximo que pode, indo até os limites, perto dos muros, era época de chuvas, e uma começou a cair, cansada de correr, os pés doloridos, fria e coberta apenas pela camisola, ela se sentou embaixo da curva de uma pedra e se encolheu abraçada aos joelhos.
Ficou ali muito tempo, tempo demais, já anoitecia, e o dia fora chuvoso, fora um dia em que ela trabalharia pouco, ficaria na mansão, embaixo das cobertas, cantando cações infantis e brincando de pega com as crianças, primeiro só com Yato, depois só com o gato arisco e fofo Yukine, e as vezes vinham os primos todos, Haru, Yabo e Yuri, e sua tarde terminavam ao som de muitas risadas e cócegas, sua noite começaria com um jantar animado, cozinhado ao lado de Sakurako, brigando com Aleera e Verona sobre o melhor prato, rindo das piadas de Ren e disputando uma pequena partida de xadrez com Yuzuru e no fim, brigando com os dois sobre quem era realmente o melhor, se homens ou mulheres.
Então poria as crianças na cama, cantaria para elas, e ia para o quarto, e terminaria aquela noite chuvosa e fria, quente sob os lençóis e corpo dele.
Poderia ser assim pra sempre, os dias poderiam ser chuvosos sempre, se fosse somente dessa forma, ela não se importaria em não ver mais um sol ofuscante.
Mas ele tinha que estragar tudo. E lembra-la que nada daquilo pertencia a ela realmente, aquela família não era sua, nunca teria primos ou irmãos, nunca teria novamente alguém pra chamar de mãe, e os filhos nunca seriam realmente dela.
Mesmo que a chamassem de mãe.
Mesmo que ela os amasse dessa forma.
Ela só estava usurpando um lugar que não era seu, porque não tinha mais lugar algum.
Igualzinho a ela.
Uma sonolência desconfortável mas forte lhe abateu, e ela soube que estava ficando doente.
Logo ela que tinha saúde de ferro, e logo agora.
–mulher infernal. — ouviu em algum lugar, sem saber se era sua mente ou se Yasuhiko a tinha encontrado e estava realmente zangado, ele só a chamava assim quando estava a ponto de gritar com ela, ou de beija-la e irritado por estar com mais vontade de fazer isso do que de gritar com ela, e absolutamente não era o segundo caso.
Despertou sob o calor e com uma leve dor de cabeça se sentou na espaçosa cama dele. um cheiro de chá vinha do bule sobre o criado e as flores brancas e hingabanas denunciaram que as crianças estiveram por ali mais cedo, antes de irem a academia.
–não levante, está com febre – Yasuhiko disse, surgindo-se sabe-se lá de onde, ela não ousou desobedecer, ciente de que se podia pouco com ele quando saudável, ir doente era tolice.
– quando me achou?
– achei tremendo de frio feito um filhote de cão abandonado.
–não perguntei como, perguntei onde, Yasuhiko. — ela falou secamente, enquanto alcançava a xícara de chá.
–eu sei.
Sakura bufou soprando o vapor do chá, mas quando cheirou, ele desobstruiu suas vias nasais.
Sentiu a cama pesar atrás de si e o fitou de soslaio, levando vários segundos para conseguir encara-lo, e ver sua face serena, ele ergueu e mão e suavemente cariciou suas mechas.
– não fuja de mim, me machuca quando faz isso.
Ela voltou-se para frente e provou do chá, não sabendo lidar com ele quando ele dizia coisas como aquela, ela só sabia lidar com ele quando era inexpressivo e frio, ou quando dormiam juntos, ela não sabia lidar com um homem que se abria para ela. Ela não sabia amar um homem assim.
Ela nunca tivera um amor assim.
E ela já aceitava que o amava.
Mas não admitia ser dele.
Não podia.
– e me machuca... quando exige esse tipo de coisa, quando me conhece o bastante pra saber quais os meus limites.
– se a conheço? Venho me perguntando isso a um tempo, Sakura, não importa o quanto se abra para mim, sempre vou sentir como se fosse você a me conhecer melhor, você sabe interpretar meus olhares, meus gestos, quando a quero rápido, ou quando tenho todo o tempo para desfruta-la, mas não sei dizer exatamente se está fazendo isso por si, por mim, ou por nós, eu posso conhecer cada reação que seu corpo me dará onde quer que a toque, mas não posso dizer se seus olhos estão inteiramente em mim, mesmo que não os tire de mim, você é um livro aberto, porém não posso decifra-la, não completamente. – ele capturou sua cintura e sem pressa, com delicadeza a trouxe para perto de si. – quando a vi sabia que era uma flor murcha, e sabia o motivo, porém não sabia quão danificada estava, e sempre que achava ter chego ao ponto mais ferido, eu via que o que parecia ser ainda o começo.
–porque quer isso agora?
–agora? – ele soltou uma risada leve contra seu pescoço, o beijou e cheirou – a primeira vez que a tomei... sabe o quanto me controlei para não gozar dentro de você? Eu queria enche-la completamente... e não me importaria nem um pouco se desse resultado. – foi a vez dela de rir, mas com amargura.
–e não daria...
–é uma mulher saudável, jovem... e principalmente tentadora, porém eu não a conhecia, talvez agora não conheça, mas não estou disposto a deixa-la ir, nunca mais.
–e quer usar um filho pra isso? O que você é? Um tipo de golpista?
–não, mas você será chamada se ganhar uma barriga minha.
–que vão para o inferno – ela bufou.
–exatamente, todos para o inferno, enquanto criamos nossa criança.
–Yasuhiko... eu não quero... eu não posso.
–o primeiro é uma mentira, e o segundo é o que se viu levada a acreditar, você viu pessoas importantes acharem isso, viu pessoas importantes terem pena de você por isso, e muito provavelmente viu alguém importante esfregar lhe isso, porém não é sua culpa, uma flor não deve ser forçada a se abrir, muito menos a se multiplicar, e você é isso na sua mais intima essência.
–eu fiz tanto exames...- ela lamuriou se abraçando aos braços dele, — tantos... tudo estava normal, tudo é normal... então porquê? Porque?! Porque eu não posso ter um bebe?! Só eu não posso?!porque?!
–eu não sei – foi a resposta sincera, fazendo-a desejar que ele falasse, falasse o motivo, que houvesse um motivo, algo a culpar, por que já estava cansada de culpar a si mesma. – mas não me importo, não me importo por não ter podido engravidar antes, e sendo completamente egoísta, estou mais do que satisfeito com isso, agora serei eu que vou te por um filho, somente eu vou fertiliza-la, e será um herdeiro meu, que você vai levar.
–você é mesmo um demônio...
–todas as lendas têm seu fundo de verdade, não é diferente nem mesmo com a minha.
–mas no seu caso, acho que é inteiramente real, eu não estou pronta pra isso, não sei se quero, e sinceramente... não sei se um dia vou estar...
–não é como se por aceitar, eu já fosse engravida-la agora, embora...- ele tomou-lhe a xícara pondo-a no criado e a puxou deitando-a na cama, o movimento a deixou tonta – eu vá tentar de toda forma.
–estou com febre... e dor de cabeça...
–e fica adorável tão frágil assim, devia ficar doente mais vezes.
–me deixe em paz, não vou fazer um filho nesse estado, não fiz nem estando boa, idiota.
–então apenas praticaremos – ele disse, puxando sua camisola e partindo-a ao meio. – aliás, temos que marcar a data.
–data? Que data?
Ele apenas baixou a cabeça e colheu seu seio na boca, Sakura gemeu e puxou seu cabelo, sentindo seus dentes rasparem na carne, ele subiu a língua áspera até seu pescoço, e com a mão vaga fez sua calcinha descer até os joelhos.
– a do casamento, é claro.
Ela puxou força sabe-se lá da onde (mesmo que tivesse mais força que ele, e isso não fosse novidade e adorasse ferir o orgulho masculino dele com isso) o empurrou e ele se afastou terminado de tira-lhe a peça.
–Casamento? Está louco?! Que infernos você tomou antes de vir para cá? Bem achei que já estava falando demais! Nunca vou me casar com você!
Mas tudo o que ele fez foi tirar os óculos, por num lugar seguro, e sorrir mordaz enquanto a puxava para perto pelas cochas forçando-a abri-las.
–louco? Louca está você, se pensa que vai parir um filho meu, sem carregar meu nome.
–seu nome?! O filho também será meu! E se eu quiser que leve o meu nome?!
– será belo como a mãe, terá sua força, e sua incrível e quem sabe irritante capacidade de determinação, isso será mais do que o bastante, é o ingrediente perfeito a se adicionar ao sangue Yumi, embora eu tema pelo temperamento...
–ingrediente? ah mas eu já devia saber! No fim eu sou só uma barriga pura pra você dar ao clã um herdeiro puro pra que a linhagem prospere sem Yato!
–Yaboku tem um papel de nascimento importante, embora a paz não tenha sido trazida com seu nascimento, é destino dele, quando for adulto, guiar Yumis e Hasegawas para a paz, e estabelecer o equilíbrio da vila, mas esta criança...- murmurou passando a mão no ventre liso dela – a criança que seu ventre gestará... ela será o futuro do sangue, ela selará e garantirá uma geração pura, uma geração que deverá fazer do clã Yumi, o único, nobre e verdadeiro, clã da Kagune, esta criança...- Yasuhiko veio sobre ela, apoiando-se acima, beijou-a com lentidão e subiu a mão para afagar seu seio, beijou o pescoço e murmurou contra ele – a criança que sugará seu seio, que você embalará, que você amará e gritará de dor ao pôr no mundo... esta criança... será um ghoul. – Sakura gemeu contra ele, usando as pernas e procurando traze-lo para si, seduzida por seu calor, por sua promessa, pelas imagens que sua mente começava a formar. – ela será minha e sua... e será um resumo vivo da nossa união, e é por isso Sakura, que você se tornará minha, oficialmente.
–uma coisa não tem nada a ver com a outra...- ela resmungou manhosa abraçando as costas largas e arranhando por sobre a camisa. – eu não preciso de um anel para ter um filho seu, eu preciso de você dentro de mim, gozando...
– verdade, mas sabe que nunca fico totalmente satisfeito, e você vai levar um filho meu, e um anel meu, meu nome, e todo o peso dele, vai se tornar princesa, senhora, e mais uma vez, e como merece que seja, será mãe.
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Um ano depois.
Um pequeno e delicado véu repousava sobre a cama, Sakura se sentou ao lado e tirou os sapatos, cansada, olhou em volta, para o quarto todo decorado para uma noite de núpcias, para ela o branco era dispensável, mas o usou na cerimônia civil a pedido da agora oficialmente, sua sogra.
Em todo o caso era um vestido simples, uma cerimônia simples onde ela voltou a assinar o nome num livro de registro.
O som da festa lá fora dava impressão de que fora realmente um casamento abençoado pelos deuses. Mas ela sabia se queria a benção deles para continuar aquilo.
No fim ela não aceitou levar o nome dele, porém, agora era sua.
De repente, e mais uma vez naquele dia, ela sentiu ânsias de vomito, o cheiro das pétalas de rosa sobre a cama a deixou enojada, e quando viu disparava para o banheiro, jogava-se a beira do sanitário e despejava o que comera no jantar.
A tiara que usava para prender o coque quase foi junto e ela tirou largando-a no piso. E seus cabelos soltaram-se indo para o rosto, quando teve outra crise, tentou empurra-lo sem sucesso, porém mãos grandes acolheram os fios puxando-os para trás e deixando-a livre para despejar no vaso.
–achei que tivessem sido apenas duas taças – ele disse.
–e foram... eu não sei o que é... não comi nada da rua hoje não como...
–ontem?
–é...
–nem como três dias atrás, eu presumo.
–o que quer dizer?
–e você tem comido muita coisa da rua, parece que tem saído todos os dias para comer nas barracas da feira em vez da comida do refeitório do hospital.
–aquilo é horrível... e estava me espionando?
–talvez?
– com medo? Eu disse que não ia deixa-lo sozinho no “altar” e não deixei.
–talvez?
Sakura se virou para fita-lo irritada e o viu olhando para o nada, parecendo pensativo, reflexivo.
–o que você tem?
–eu poderia perguntar-lhe o mesmo, senhora.
–venha – ele estendeu-lhe a mão e ajudou a levantar, mas não a conduziu para fora, como ela esperava, e pousou uma caixa – creio que já seja uma boa hora pra usar isso, vou estar esperando.
–o que?
–tente não me deixar ansioso, embora eu saiba que fará isso.
E assim ele partiu fechando a porta, ela ficou ali parada, realmente se perguntando se seria assim, se ele falaria dessa forma, mas o pior era que já sabia, ele sempre fizera e faria isso, antes ou depois do casamento.
Ela deixou a caixa ao lado na pia, e só depois de lavar da boca o gosto de vomito, lembrou que ele a deixara lá com aquilo, e por isso pegou de novo.
Suas mãos soltaram a caixa e seus pés a fizeram recuar até a parede assim que leu o título nela.
Um exame de gravidez.
O pânico a atingiu de tal forma que ela poderia ver aquela caixa tomar vida, se tornar um monstro e tentar sufoca-la fitando-a com a face em que mostrava duas barras vermelhas. O símbolo de que se ventre continuava vazio.
Um velho pesadelo que voltava.
Quantos monstros desses ela enfrentara e perdera, quantas vezes saíra do banheiro segurando o resultado negativo? Apenas para encarar uma face dura e revoltada.
E agora ele queria faze-la passar por aquilo de novo.
E logo numa noite como aquela.
Enquanto todos festejavam sua união, Yasuhiko a fazia encarar a coisa que destruíra seu último casamento.
Porém algo não permitiu que ela saísse dali, algo bem no fundo, que a fazia perceber que não era tudo igual, e não se devia ao fato de que estava passando por isso com outro homem.
Eram aqueles enjoos, coisa que nunca sentiu, embora antes, uma leve vertigem fosse o bastante para faze-la correr ao banheiro e usar um teste, ela nunca se sentira tão enjoada numa semana, o que julgava e ainda desconfiava que fosse apenas estresse e ansiedade que tentava esconder sobre o casamento, ela também nunca se vira tão desejosa das modinhas de feiras cuja preparação era duvidosa, e ela como médica, deveria ser a primeira a se afastar.
Mas ela não conseguia, atacava takoyakis, lamém, dangos, camarões e lulas assadas, tudo o que viesse pela frente, enquanto rejeitava a saudável comida do hospital, e queria acrescentar estranhos ingredientes a já divina comida de sua sogra. Será que ela também desconfiara? Mas quem diabos adicionaria glacê a sopa?
E seu ciclo? ele estava desordenado, mas também deveu isso ao estresse.
Sakura se abaixou lentamente e pegou o exame, ainda receosa de que ele se transformasse numa criatura horrenda ela sabia que isso fosse acontecer, seria apenas depois que usasse. Como que pra se acalmar, ela leu todas as instruções, mesmo sabendo de cor. Isso a amargurava mais que tudo, saber tanto sobre algo, e sentir desgosto.
Saindo do banheiro, ela nem tinha mais certeza se estava viva.
Caminhou pelo quarto contornando a cama e indo até seu marido, Yasuhiko se virou da janela e a fitou.
–mulher infernal, demoraria, exatamente como previ.
Ainda segurando o exame em mãos, Sakura apenas se jogou nele abraçando-o.
–maldito homem... seu demônio... você vai ser pai... do meu filho... do meu filho... Yasuhiko... meu filho... nosso... filho...nosso...
–é bom saber... principalmente a parte sobre eu ser pai...- Sakura socou suas costas rindo ente as lagrimas...
–maldito... não ouse desconfiar de mim, na nossa noite de núpcias...
–não estou, deverás, a noiva também não é pura.
–não teria sido mesmo se o tivesse conhecido dessa forma, maldito pervertido.
–fato — ele confessou. — fato também, você será mãe.
E ela nunca amou tanto ouvir tais palavras, mesmo quando já havia se tornado mãe das crianças dele, ela agora carregava uma dentro de si. Uma só deles, união incontestável.
–sim...obrigado...
–foi um prazer, literalmente.
–Yasuhiko...! alias... como desconfiou?
–Glacê e sopa – falou com descaso, ela suspirou deixando a cabeça cair sobre o ombro dele em derrota.
–droga...
– você não saberia disfarçar, não estando gravida de um Yumi.
–então isso vai continuar?
–sim, talvez não os estranhos caprichos, na verdade isso deve ser do seu lado da família, mas a fome, a fome será quase... insaciável, principalmente por carne
– claro que sim,- ela bufou — e meu lado da família uma ova! mas...vou ficar enorme?
–só se a criança for espaçosa...
–desgraçado, espero que não lembre os tios, nem os de sangue, nem os de consideração.
–eu também... só deve lembrar a nós dois, minha senhora.
–sim... meu amor.
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