Notas iniciais
Boa leitura.

— Chegaremos em pouco tempo, disfarcem seus chakras – Yasuhiko avisou.

— E você? Vai desaparecer como um fantasma? – Sakura esnobou.

— Não está incluso nas minhas funções, mas posso fazer o possível com correntes. – Ele respondeu, calmamente.

Desde que saíram do posto, o máximo de palavras que trocaram continha esse tom. Mais como farpas sendo lançadas de um lado para o outro. Mais como uma linguagem própria.

Yuzuru resmungou um “Como nos velhos tempos” e parece que Sasuke e Kakashi tinham que se acostumar com a ideia de que era assim que eles sempre agiam.

Não que Sasuke esperasse que fossem se reunir como amantes a muito separados, mas, considerando o tipo de amante que Sakura foi, pelo menos com ele, imaginou-a mais afável e receptiva com o marido. E Yasuhiko não parecia estranhar, posto que para ele não fosse como se tivesse passado oito anos. Ele parecia acostumado a lidar com uma Sakura daquele jeito.

Isso o deixou, infelizmente, curioso sobre como eles eram na forma de casal. Todos que conheceu e que interagiram com os dois, falavam de um casal poderoso, e equilibrado.

Sakura era furor, Yashiko, pacificidade.

Talvez fosse essa a grande combinação. Sempre a vira falar do falecido até meio que praguejando, “Quatro-olhos” era o mais fácil dos apelidos. E quando falava de forma reflexiva, era como se falasse de um grande mestre. Pensando bem, nunca a vira cita-lo como amante, e mesmo que não estivesse interessado, agora estranhava isso.

Com ele, ela sempre apreciara demonstrações de afeto em público, mas o conhecia o bastante pra saber que ele simplesmente não era dado a isso. Mãos dadas, tocar o cabelo, um abraço, isso a satisfazia bem. Ela o conhecia bem, e até onde o casamento foi bem, ele se esforçava para compensar isso quando sozinhos, sendo uma companhia constante, ouvindo suas tagarelices, deixando-a monopoliza-lo e vice e versa.

O Shinju, embora não fosse o tipo que nem ele que raramente elogiava, não parecia o tipo que dispensava demonstrações de afeto. Ele não tinha problema algum em aceitar o poder da esposa, mas também sabia provoca-la cutucando seu ego aqui e ali.

Ele não dominava Sakura completamente, mas também ela não o dominava.

— Quatro-olhos – ela bufou. Era perto do meio dia quando chegaram a um rio não muito extenso em largura, que vinha a noroeste da direção deles. Seguiram pela margem até encontrarem o dito Vale do Suicídio, uma ferida aberta em meio ao terreno plano e pedregoso.

— É aqui? – Kakashi indagou.

— Definitivamente.

Passaram a se mover mais cuidadosamente, Sasuke percebeu que Karin poderia ser muito útil, ela poderia localizar os chakras daqueles caras facilmente, mas estando grávida, sua melhor contribuição era melhor como médica.

Haviam sentinelas, cerca de seis ao longo da beirada daquele precipício, obviamente atentos a aproximação de estranhos. Eles encravaram armas em seus peitos com o máximo de silêncio. Como se aproximar de um formigueiro sem atiçar as formigas lá dentro.

Se aproximaram da beirada, e o que viram, foi no mínimo assombroso e desesperador. Pelos milhares de ghouls estavam lá em baixo, a ferida se afundava no solo a uma distância grande o bastante para que, lá de cima, vissem apenas muitos e muitos pontos vermelhos beirando ao rio formado pela cachoeira que despencava lá e se infiltrava numa formação rochosa que parecia uma gruta.

— Meu deus... – Ren ciciou, assombrado.

Sakura ofegou, seus olhos tremeram absorvendo a visão.

— Todos esses...? Eu...?

Ela havia lutado tanto, feito o possível para atrasar o processo, mas fora como se debater em areia movediça. Foi incapaz de parar aquela monstruosidade.

— Sakura, não pode se culpar. Você foi usada. – Yuzuru advertiu.

— E muito bem usada – Yasuhiko constatou, ajeitando as armações.

— Não está ajudando!

— A gruta deve dar acesso a alguma ramificação de túneis, eles ficam lá, esperando como gado, então são liberados pra fazer de nós o gado. – Ele prosseguiu, ignorando as reclamações – Não existe outra opção, temos que acabar com absolutamente todos. – Completou, jogando os olhos em Sakura, ela se abaixou abraçando os joelhos e encarando os pontos vermelhos se movendo inquietos e irracionais, sedentos demais pra pensarem com clareza.

— Tem que ter um jeito... de reverter tudo.

— Não existe reversão nesse nível, Sakura, você já sabe.

— Mas tem que ter...

— Está sendo emotiva demais, péssima hora.

— Alguém tem que ser, são pessoas! – Ela exclamou, erguendo-se indignada.

— São animais. – Ele pontuou.

— Tinham família, uma vida! Não temos esse direito, nossa obrigação...

— É manter os nossos vivos, mulher maldita, quando voltou a ser tão miserável? – A voz dele subiu uma nota alta o bastante pra ecoar pelo vento, não um grito, mas um som poderoso tomando forma.

— O miserável é você! Você causou tudo isso! Eu sou a fonte disso, por sua culpa, Yasuhiko! Você deu combustível pra essa guerra!

O olhar dele estreitou e fixou no dela, sua voz saiu baixa em tom controlado, desta vez, havia mais calor, humanidade emanando.

— Fiz para salvar nosso filho.

O olhar de Sakura vacilou, por um momento, então se tornou melancólico e cansado, ela soltou o ar e meneou aa cabeça, se afastando.

— Eu não sei se ainda consigo acreditar nisto.

Houve apenas silêncio enquanto esperavam que de alguma forma, pudessem se reorganizar.

Yuzuru suspirou, por fim, ao perceber a movimentação dos inimigos se agitar perto da gruta. De um jeito ou outro, não podiam perder mais tempo.

— O que faremos?

— Seguir com o plano – O antigo Shinju declarou. Sasuke não ficou surpreso de ele ter se recuperado tão rápido. Nem Sakura, ela recordou isso com uma risada anasalada e amarga. – Fecharemos essa entrada e, soterramos essa unidade aqui. Acho que está óbvio que se uma tropa como esta chegar até os postos, eles serão aniquilados.

— Sepulta-los como se não fossem nada – Kakashi comentou, observando. – Sim... Isto é o que a guerra é.

Estava nas mãos deles, a vida daqueles ghouls que não tiveram escolha, ou foram manipulados a quererem isso.

Sasuke não se orgulharia disso, absolutamente nunca, isto ia pra longa lista de erros que enegreceriam sua alma. Mas ele não demorou pra decidir e puxou a Kusanagi da bainha. Seu mundo, sua vila, sua família, seu amor, tudo o que tinha.

Ele não ia permitir que perecessem.

Sakura o fitou atordoada, e com lágrimas nos olhos, e ele se sentiu sujo e culpado, como quando a machucou além de tudo. Mas encarou-a, era por ela também.

Ela não deveria estar ali, ela era muito humana para aquilo, era contrário á natureza salvadora de vidas dela.

— Você acha que Naruto...? – Ela balbuciou, num pequeno soluço, ele piscou, e entendeu o que que ela quis dizer. Os dois ainda tinham o mesmo costume idiota.

Quando era demais pra eles darem conta, quando estavam no limite, quando não sabiam que lado seguir, que lado era o certo, eles se perguntavam o quê, a pessoa mais idiota que conheciam, faria.

O que Naruto faria?

Para Sasuke, ele certamente continuaria insistindo que poderiam salvar aquelas pessoas, talvez pudessem, mas era incerto demais, havia muito em risco. E Naruto, teria de aceitar isso.

— Somos ninjas, meras armas do destino – Começou. Ela abriu os lábios, as lágrimas já desciam por suas maçãs. – Podemos tentar moldar nosso destino mas... Não vamos ser sempre os donos dele, Sakura. E é até bom que não sejamos.

Se ele não tivesse tentando manipular o próprio, ainda teria ao seu lado, talvez até esta guerra seria evitada. Mas ele talvez não tivesse metade da sapiência que adquiriu, ou Itachi.

O problema de tentar jogar com o destino, era que ele era traiçoeiro, te fazia ter o que queria da forma que não queria, te empurrava o que se negava a ter, da forma que achou que poderia lucrar melhor. Te prendia nas suas próprias escolhas, que você fez, mas cujas consequências você não mediu tão bem.

Sakura olhou para longe, perdida e reflexiva, talvez muito cansada de pensar.

Ela respirou fundo, e percebeu a única coisa que poderia fazer.

Ela lembrou de tudo que amava e precisava proteger, absolutamente tudo, e então saltou para o precipício.

Para amenizar esse tormento que ainda a perseguiria por longos anos, ela se agarrou aos motivos certos, para fazer algo errado.

— Ponham as paredes abaixo – Yasuhiko avisou.

E então todos eles se jogaram para lá, a infiltração se tornara uma chacina.

***

Ino já havia constado isso, então dispensava a ideia agora.

Ela já havia percebido, quão mais viva se sentia quando podia mergulhar na agitação dos corredores do hospital em dia de movimento. Seus sentidos todos ligados, suas pernas frenéticas, os som dos próprios passos sendo o mais constante em relação ao ambiente inteiro, a mente inteiramente mergulhada em cada procedimento, em cada paciente que chegava dos conflitos.

A guerra não era uma palavra estranha para ela, ela perdeu e ganhou muito nela, mas percebeu também que a guerra sempre tinha uma nova face a mostrar, e mais sangrenta.

Acostumada a lidar com ferimentos de armas ninja, de jutsos elementais, ver que um genjutso podia causar a mente humana, e a tortura ao corpo, ela se viu transtornada e confrontada com a realidade dos ferimentos desta guerra, ela e aa equipe lidavam agora com pacientes cujos quadros eram perturbadores até mesmo para a experiência deles. Corpos mutilados de todas as maneiras, carne rasgada por garras, cristal afiado, dentes, veneno, terror.

— Ele estava me comendo, me comendo, me comendo, me comendo vivo, e com aqueles olhos... – Ela passou os olhos na maca onde um ninja tremia e delirava, seu uniforme empapado de sangue, um dos braços acabando no cotovelo enfaixado, os enfermeiros tentando segura-lo contra a maca e injetar calmantes e ele enlouquecendo cada vez mais com os olhos esbugalhados e fundos – Vai me comer, vai me comer vivo...

Ino seguiu em frente, com vários prontuários nas mãos, os casos mais graves indo para análise da diretora do hospital, casos que deveriam estar nas mãos de Sakura agora, casos que poderiam estar na mão de Ino se ela tivesse passado mais tempo nos últimos doze anos estudando e se aperfeiçoando em vez de se esconder do mundo e só aparecer quando sentia que sua fachada de matriarca Uchiha não ruiria ao primeiro olhar de zombaria ou desprezo. Esses casos iriam para Tsunade e Shizune, as mais habilidosas, únicas que poderiam retomar o lugar que Sakura conquistara.

Mas era tarde para lamentar por este leite. Os enfermeiros passaram por ela levando o ninja ainda alucinado mas já mais calmo rumo a uma ala de observação. Ele ainda ciciava um relato de horror e ela viu Yukine parado no começo de um corredor observando a movimentação com um olhar atento e quieto.

Ela se moveu até ele, observando seus olhos um pouco caídos, a roupa amarrotada e o cabelo ainda mais desgrenhado que o habitual.

— Yukine? – O menino reagiu alerta mas não menos letárgico olhando-a e se pondo em prontidão, a espera de ordem antes mesmo de notar que era ela.

— Hai!

— Yukine, a quanto tempo está aqui?

— Hu-Huh? – Ino olhou o relógio no pulso, eram quase seis da tarde.

— Quanto tempo tem que você está aqui?

— Eu estou ajudando com os remédios e materiais.

— Eu não perguntei isso – Ela suspirou e ele se encolheu um pouco. Ino não sabia se era exagero posto que também estava preocupada com Itachi e ainda mais com Touka, mas jurou que o garoto de Sakura estava mais magro e pálido – Tsunade sabe que está aqui? Eu não acho que ela te deixaria ficar tanto tempo, eu tenho quase certeza que você está na mesma camisa desde a última vez que te vi.

E fazia tempo o bastante, disso sabia mesmo que estivessem no mesmo prédio. Yukine se encolheu com uma cara acanhada.

— Ela mandou eu ir pra casa um tempo, mas aí precisaram de alguém pra...- Ino bufou, nem o deixou terminar. Ele era igualzinho a mãe, mas sabia que dissesse isso mesmo no pior tom, ele se inflaria de orgulho. Puxou-o pela cabeça e seguiu apressada.

— Vamos.

— Mas...

— Vou levar esses prontuários para a shishou e você vai pra casa comigo, tomar banho, comer algo, dormir, e isso não é um convite.

Ele pareceu apenas apavorado com a ideia de confrontar Tsunade, depois de contrariar suas ordens, seguiram lado a lado e observando os feridos amontoando-se nos corredores, os gemidos e lamúrias de dor eram uma música mórbida e sem fim, ela ficou preocupada por o menino ficar vendo aquilo, sabia que Sakura odiaria e Tsunade ficaria fora de si. Ela o deixara ajudar mas longe daquele quadro ao máximo, no entanto, Yukine seguia ao seu lado parecendo abalado apenas pelo cansaço da jornada de trabalho.

— Não te perturba? Olhar tudo isso? – Ela indagou.

Ele permaneceu caminhando sem pressa o olhar firme.

— Eu tinha dois anos quando meus pais morreram na guerra civil, e o orfanato também servia como base médica, eu ainda lembro dos ninja chegando, do sangue, dos gritos, do fogo, das senhoras desesperadas, das crianças achando tudo ia se repetir de novo.

Ino observou seu semblante sereno, e como seus olhos sustentavam uma maturidade forjada pela dor e pela guerra, um senso de força e determinação selváticos mesclados com um discernimento raro na idade dele. E então, havia uma criança que um dia seria um homem forte, imponente, maduro no momento certo, e terno também, ciente do que é ser humano, altivo como uma fera.

Seus olhos desceram para o pingente balançando contra seu peito e ela decidiu que o que enxergava agora, foi visto muito mais cedo e constatado pelo pai dele, e por isso aquele cordão estava ali, não só simbolizando para Yukine, um passado que sentia saudades, mas prevendo um futuro para ele, prevendo quem se tornaria.

Além de tudo, a guerra ameaçava o futuro de Yukine e das outras crianças como ele, muitas agora estavam vendo o mesmo que ele viu quando mais novo. Ino lamentou, pois sabia que não haveria alguém para muitas delas como houve para o garoto.

Ela entregou os prontuários logo, pediu para deixar o posto algumas horas, era tudo o que precisava para ver Itachi, buscar notícias dos campos de conflito no país do Cristal, e fazer Yukine estar com uma cara melhor quando reencontrasse a mãe dele.

E que os deuses permitissem isso.

Sakura definidamente precisava estar viva, ela podia ter se tornado o estopim de tudo, mas ainda era o melhor remédio para guiar todas as forças médicas em campo e fora dele.

Itachi estava em casa tentado cozinhar macarrão quando ela chegou com o Haruno a tira colo, como favor pessoal, também cuidava de Kuro para Sesshoumaru que fora levado para segurança, o jaguar recebeu Yukine alegremente e os meninos subiram com a orientação de Yuki tomar banho, vestir algo emprestado por Itachi e este arrumar um futon cama para ele cochilar.

Fez uma refeição rápida e se agarrou ao telefone assim que Itachi subiu com uma bandeja.

— Naruto está de volta – Respondeu-lhe Temari, graças a deus ela estava ajudando na comunicação, embora com certeza não estivesse satisfeita com isso.

— Eu ouvi por aí, mas ele vai voltar para aí?

— Shikamaru decidiu que precisam se reagrupar, Sakura foi resgatada, e está inclusive ativa numa operação já.

Ino soltou o ar aliviada.

— Graças a deus, mas espere, ela não vai voltar? Precisamos dela aqui!

— Eu duvido, a coisa está mais fora de controle do que você imagina.

— O quê?

— De qualquer forma, eu creio que ela não vá sair da linha de frente, e deve coordenar médicos em campo.

Ino relembrou a situação do hospital e decidiu que se Sakura pudesse remediar ao máximo da vinda de tantos feridos, já seria uma ajuda enorme. Ela era eficaz em qualquer posição daquela guerra e ainda lutaria.

— Entendo... Obrigada, Tsunade-sama vai ficar mais tranquila e Yukine também.

— Hum, claro, ele está bem?

— Sim, sim, não irei te ocupar mais, sim?

— Ino...

— Hum?

Temari inspirou profundamente e então sua voz veio mais amena e coberta de insegurança.

— Poderia olhar Sango para mim? – Ino piscou atordoada, de repente se tocando que era com Temari que falava, que relação delas nunca fora a melhor pelo cuidado que Shikamaru sempre teve com Ino ao próprio modo, e que, quando ele soube de sua sujeira, e se afastara, Temari reagira ainda mais hostil e aos poucos se tornando apenas mais tolerante e madura. – É que... Bem, não posso sair ligando pra quem quero, sua linha é segura por causa de Sasuke ser quem é.

E agora ela lhe pedia que olhasse sua filha mais nova, mostrando vulnerabilidade rara, mas não estranha para Ino. Temari apenas estava reagindo a sua natureza, a de mãe.

— Claro, olharei sim, ela está na casa da avó, sim? Tenho certeza que Itachi tem o número dela. – Temari soltou o ar com alívio explicito.

— Ele deve ter sim.

— Ótimo, terei algo a dizer na próxima vez, até mais.

— Obrigada, Ino.

— Hai. – Ino desligou e não se permitiu viajar, subiu as escadas mais leve embora suas pernas latejassem de cansaço.

— Meninos? Yukine? Ótimas noticias!

Ao entrar no quarto de Itachi, se deparou com dois futons espalhados, Itachi estava deitado e pensativo num, acariciando o pelo do bichano, e no outro, perto da bandeja vazia, Yukine ressonava alto, espalhado em todas as direções possíveis. Preto não combinava com ele e nem o leque Uchiha.

Ela sorriu minimamente e relaxou. Ele poderia receber a noticia quando acordasse, o revigoraria tanto quanto essas horas de sono e comida forrando o estomago.

— Okaa-san?

— Oh, deixe ele, a mãe dele vai agradecer – Ela piscou, bem humorada e Itachi se levantou, num salto.

— Sério?

— Hah, como diria o velho Kakashi, ela é a integrante feminina do time sete, e bem, é uma sannin! – Soltou, empolgada – Agora preciso que me ajude, tem o número da Sango?!

***

O fedor de sangue transformava aquele buraco no meio do nada em uma verdadeira porta para o inferno, caso existisse.

Sasuke sentou contra uma pedra, apoiando-se na espada, sentindo cada músculo protestando e seus olhos ardendo como se fossem pressionados por brasas.

— Eu odeio ser Shinjukage – Yuzuru declarou, cansado. Mas logo deixou o pequeno acesso de manha de lado e voltou os olhos para as costas de Sakura.

Ela permanecia parada a beira água da cachoeira que corria pra dentro da gruta, a água tingida de vermelho, levando corpos embora. Os ferimentos dela começavam a sarar sozinhos, nada de mais, o problema era sua consciência.

Yasuhiko se aproximou, impassível e obviamente intacto, parou ao lado dela, e seu olhar caminhou pelas águas que seguiam para o interior da gruta, e abaixo da massa líquida, moveu-se uma camada de cristal, uma onda negra que seguiu engolindo tudo por onde passava, subiu e engoliu a entrada, fechando abertura tomando o paredão e subindo.

— Isto estará vedado para sempre.

— Bela forma de esconder um crime – Sakura declarou, amarga.

— Toda guerra deixa monumentos.

— Não me venha com aulas de história.

— E fantasmas.

Ela nada disse, o resto se levantou e seguiu até onde uma parte do piso tomado de cristal que se elevou, uma coluna que os levou para cima. Como uma grande lasca ocupando uma fresta, o cristal negro tomou toda abertura, no terreno, tornando-se uma mancha negra no deserto cinzento.

— Quanto tempo para descobrirem? – Ren arriscou.

— Muito incerto, depende de onde realmente se concentram, mas esta colônia definitivamente vai fazer uma enorme falta para eles. Vão precisar de tempo para se reorganizarem. – Yasuhiko comentou.

— Vamos ter mais tempo pra nós, vamos embora. – disse Kakashi – Sakura, você pretende voltar para Konoha?

— Não, não agora.

— O hospital pode precisar muito de você. – Yuzuru tentou.

— Eles vão agradecer quando pararmos de enviar feridos, e o Diamante deve estar ainda pior.

— A aldeia foi evacuada para as catacumbas, muita gente foi para o extremo interior, outras aldeias vão recebê-los bem.

— Não importa, quero voltar pro Diamante agora.

— E o campo de batalha, eles estão seguros nas catacumbas, Sakura – Ele insistiu, Sakura fitou teimosa e chorosa.

— Não, não estão, o subsolo não é mais seguro! – Exclamou, apontando o subsolo, e todos eles entenderam sua angústia.

— Sakura.

— Não por muito tempo. – Ela cortou.

— Vamos embora.

***

Ouvir a TV e a discussão deles trazia um bom sentimento de normalidade, Ino lamentou ter que ir embora agora, e ainda escondida, pois sabia que Yukine iria segui-la. Ele precisava de pelo menos mais um dia de descanso ainda que estivesse vibrando por saber algo bom da mãe.

Ela terminou o jantar que deixaria para eles, furtivamente pegou a bolsa, o casaco e cruzou a sala sem chamar a atenção deles, foi para a cozinha e seguiu para a porta, abrindo-a com todo cuidado e passando para fora.

Fechou-a e trombou o nariz contra uma superfície quente, rija mas que cheirava a suor e sangue, instintivamente recuou sacando uma seibon e encarou, suas pernas trepidaram, e ela sentiu gelar a espinha.

— Sa-Sai?

Ele a encarou como se lançasse armas em sua direção. E embora surpresa, ela não gostou, na verdade, estava de saco cheio.

Que ele a odiasse á vontade, que lhe matasse com o olhar sempre que quisesse, mas não iria aturar suas grosserias sem ter feito por merecer. Sabia que provavelmente nunca teria uma relação sequer próxima da que Sasuke e Sakura tinham. Mas esperava, não, exigiria no mínimo, uma postura madura.

— O que você.

— Yukine? – Ele a cortou, desviando a avançando para a casa, Ino puxou seu colete.

— O que está fazendo?

Sai empurrou sua mão violentamente e rosnou parecendo ainda mais com um animal.

— Não me toque.

Mágoa e raiva a tomaram enquanto ele avançava para dentro. A raiva venceu, desta vez e ela o seguiu, puxando seu braço.

— Não, você, está na minha casa, e eu não vou tolerar que venha agir como um babaca, não aqui. Eu não sei o que você quer aqui, mas é bom se comportar direto se não quiser encontrar o caminho da rua – Esbraveou. Ele piscou momentaneamente surpreso, mas seu olhar de desprezo ampliou e virou deboche.

— Ah, claro, perdão, Sra. Uchiha, afinal se esforçou muito para estar aqui, não?

Ela se sentiu vacilar, e também quis chorar.

O que ela havia feito a ele? Ele a ela, um ao outro?

Mas estava cansada de chorar escondida, e diante dele, sabia que não faria diferença. E porque faria, quando chorar havia feito algo? Ela havia aprendido isso bem cedo, sabe deus porque esquecera.

Chega.

— É, você não faz ideia do quanto – Jogou de volta – Sasuke é muito exigente.

Para ela estava claro que isso significava toda a vida deles, mas Sai parecia ver apenas as questões de cama. No fundo, ela ainda apreciava isso, apreciava ter poder de fazê-lo sentir algo. Mas não mais se cegaria por isso, não mais.

Sai rosnou levando a mão ao seu pescoço, ela bateu com força, ele não a faria se sentir diminuída desta forma. Ela não era uma simples mulher, não era um mero objeto sem caráter.

— O que você quer, Sai? – Rosnou de volta, fazendo questão de mostrar quão pouca questão fazia da presença dela. Se ele queria ser tratado como desagradável, seria tratado assim.

Sai bufou como um touro, mas um touro rabugento e exausto.

— Yukine, preciso leva-lo, pra um lugar seguro.

— Lugar seguro? Ele está seguro aqui, longe de tudo...

— Não, não está, ele é um alvo prioritário, assim como Yato, Sesshoumaru... – Prosseguiu indo para o corredor – Como qualquer um ligado a família principal dos Yumi.

— Mas...

— Sai ojii? – Yukine exclamou, saltando do sofá, Sai o segurou, levantando quase a propria altura.

— Garoto! E aí como está?

— Eu to legal, velho, de onde você vem? De um chiqueiro? Aaargh. – Sai descontou em sua cabeleira.

— Moleque...

— Você fede, mas ta vivo. Okaa-san dirá isso quando te ver – Yuki riu. Sai o ergueu novamente, encarando-o abismado.

— Sua mãe?

— Ué, claro! Ela foi resgatada! – Sai ficou lívido e atordoado.

— Foi...?

Ino franziu a testa.

—Você não sabia? De onde você vem afinal? Todo mundo lá fora já sabe.

— Bateu a cabeça ou foi num bar de novo?

Sai suspirou, pondo-o no chão.

— Vá até a sua casa e pegue algumas coisas, vou te levar pra um lugar seguro.

— Mas...

— E talvez possa ver sua mãe logo.

Yukine não questionou mais seguindo pra fora correndo.

— Pra onde vai leva-lo? – Ino indagou.

— Você não precisa dessa informação – Ele desdenhou.

Ino revirou os olhos.

— Eu já lidei com muita criança na vida, Sai. Você é o pior.

Ele deu de ombros.

Itachi seguiu o garoto e antes que um silêncio desagradável se fizesse entre os dois adultos, uma espécie de rugido animalesco pareceu balançar toda a casa.

O coração de Ino tremeu por outra coisa.

— Itachi!

Ela disparou para a entrada da frente.

Ao abrir a porta, o terror dominou de vez. Havia uma coisa fora da realidade pousada na frente da casa. Quase tão grande quanto ela, assemelhava-se a uma vespa com a couraça cheia de estacas afiadas e vermelhas. Da boca descia uma longa língua, e as patas eram como as de uma ave, com garras enormes, as quais, seguravam Yukine e Itachi em cada uma, ambos inconscientes.

Ino berrou vendo sua criança tomada por um demônio.

— Filho da puta! – Sai rugiu, a besta pareceu sorrir estalando aquela língua, mas sem que qualquer um pudesse fazer algo, suas asas se abriram cuspindo estacas brilhantes. Ino ignorou completamente avançando. Sai a puxou e se jogou para o canteiro ao lado da entrada, cobrindo-a com o corpo. A coisa bateu as asas, desta vez alçando voo e levando Yukine, e o seu menininho.

Ino gritou, gritou e esperneou presa ao chão por Sai. Por um momento se perguntou se era o que ele queria, vê-la sofrer tanto, fazendo-a assistir levarem sua razão e viver.

***

Cair nem que fosse em uma maca e dormir era tudo o que Sasuke gostaria. Percebeu que já não tinha mais o vigor de antes e de fazer a experiência compensar. Chegaram ao acampamento quase a meia noite.

— Eu vou precisar de muitos daqueles bolinhos nutritivos horríveis que você faz, Sakura – Ren comentou.

— Depois de chama-los de horríveis, não vai comer nada que não seja ração, idiota – Sakura resmungou, mais calma.

— E então? – Indagaram os primeiros a receberem-nos.

— Um sucesso...

— Pai! – Sasuke girou nos calcanhares assistindo a filha disparar da tenda de comunicação em sua direção, Temari saiu mais atrás com um rosto lívido de preocupação enquanto sua filha o abraçou. – Pai!

— Você... O que aconteceu?

— Papai... Papai, o Itachi...- Sasuke agarrou seus ombros e encarou-a.

— O que tem seu irmão.

— Eles o levaram, junto de Yukine! O levaram! – Ela gritou, sem conter mais o pranto.

Sasuke já fervia quando mudou o olhar para Temari.

— Era como um inseto gigante...- Ela ciciou – Atacou a casa, Ino está histérica, levaram ele e Yukine!

— Papai!

Sasuke soltou a jovem, que ficou colada em seu colete, voltou-se para onde Sakura estava a pouco, mas a viu agachada agarrada aos próprios cabelos. Quis gritar que salvaria os filhos dos dois, bem como queria estar perto de Ino.

Ela deveria estar, no mínimo, louca.

Itachi e Touka eram a vida dela.

— Sakura, por favor – Yuzuru se aproximou, mas foi contido por Yasuhiko, que pôs a mão em seu ombro – Que diabos?

— Quero ver isso – Ele declarou e em seguida Sakura berrou, um rugido insano e animalesco que se tornou quase um ruivo ao mesmo tempo que ela se erguia e saia em disparada, as mãos para frente como se buscasse agarrar algo.

Seu corpo turvou como se virasse uma mancha em redemoinho que subiu e cresceu, esbranquiçou e tornou-se em pleno ar, uma gigantesca loba de olhos vermelhos que avançou para o céu, misturando-se as nuvens sob a luz lunar.

— Eu seriamente vi isso...? – Ren balbuciou – Ela... tem uma forma Shinki?

— Enquanto para nó, é uma questão genética e mecânica, para ela, ativar o ápice do gene Ghoul, é uma questão emocional – Yasuhiko concluiu – É magnífica...

Ele soltou o irmão e seguiu na mesma direção que viram Sakura desaparecer no céu.

— Onde diabos você vai?!

— Onde mais eu iria? Buscar nossas crias, é claro. – E seguiu em frente desviando apenas da presença de Yato. – Permaneça aqui, ou vai ter mais que sua mãe endiabrada para lidar quando voltarmos – Seu tom foi uma advertência clara antes de tornar-se novamente uma fera gigantesca a voar para longe majestosamente.

Em algum ponto ele viu Sakur desviar de seu caminho já não muito certo, seguir na direção da aldeia.

Amanhecia quando ela chegou aos arredores dos muros, perto de algumas das entradas das catacumbas. Yasuhiko pousou num monte próximo e observou de longe.

Por uma entrada recoberta de relva, viu alguns ninja e moradores saírem para resguardar a entrada e assistirem a aproximação da enorme shinki. Não foi difícil reconhecer a própria genitora, ainda guardando orgulhosamente o luto em suas vestes, mais velha, mas não menos altiva, encarquilhada apenas pelo peso dos problemas de agora.

Ela saiu apressada, e atrás dela, Aleera e Verona saíram fazendo escândalo, por que uma pequena figura de vestes brancas havia escapado de seu agarre e do de qualquer um para avançar pelo terreno, a grama quase alcançava seus ombros, as vestes sacudiam a cada passo largo e vigoroso. Os cabelos longos como um véu de prata dançando sob a luz do sol nascente

Sakura seguiu para o solo, e sua segunda passada desesperada, ela já era um demônio de formas humanas que causariam inveja nas própria deusa Izanami.

Ela correu ao encontro da pequena divina criança prateada, que saltou em seus braços, apertados a volta de seu corpo em átimos de segundo.

E então o fim da vida dele finalmente fez sentido. Ontem, para ele, esta criança chutava o ventre esticado de Sakura.

Hoje, ele poderia morrer novamente, e finalmente em paz.

Seu último herdeiro estava vivo, seu último herdeiro, fazia também o futuro.

Seu último herdeiro estava ali, Sesshoumaru, a lâmina que talharia a unificação do sangue ghoul, reunificaria o clã Yumi.

A amada criança, dele e de Sakura.

Notas finais
Até a próxima, espero que tenham gostado!