Tales of the Bard
4 Distant Thunder
A elfa acordou calmamente com os raios solares atravessando de forma tímida sua janela. As cortinas escarlates esvoaçavam pelos ares, impedindo que houvesse escuridão no recinto. Esfregou os olhos, e dirigiu-se à janela, para observar a posição do sol – que lhe indicaria o horário em que encontrava-se. Embora a copa das árvores atrapalhasse um tanto, deduziu que ainda fosse cedo, pois era possível observar leves tons alaranjados pelo horizonte.
–Ei... Já está acordada?
Danna virou-se para o humano que a fitava pela porta entreaberta. Pensou por um instante, refletindo se o mesmo estava ali há muito tempo.
–Ahn, sim, acordei agora.
–Thanwig estava lhe procurando. Disse para que o encontrasse na clareira ao norte.
–Vens comigo? – perguntou, com um sorriso, a barda.
O guerreiro assentiu com a cabeça e saiu, retornando ao seu quarto para colocar sua armadura. Danna, por sua vez, fechou sua porta e tornou a vestir-se, observando-se num grande espelho que anteriormente jazia coberto, e tornou a cobri-lo quando aprontou-se. Com sua algibeira atada ao torso, e seu cajado nas costas, encontrou Lanceloth no salão principal, na parte térrea da grande árvore.
–Você por acaso sabe onde devemos ir? – indagou Danna, tocando levemente a ombreira do guerreiro, fazendo-o virar-se. – “Ao norte” é um lugar muito amplo...
Lanceloth gargalhou, acompanhado pela elfa. Saíram, então, dirigindo-se à estrebaria e tornando a montar em seus cavalos. Trotaram despreocupadamente por entre a floresta densa, seguindo uma trilha aparentemente bastante usual. O caminho não levaria muito tempo, e ouvir o canto dos pássaros tão próximos de si, acompanhando seu percurso, seria ótimo para a mente confusa de Danna. Nos últimos tempos, tantas coisas haviam acontecido e mudado sua vida tão bruscamente, de forma que um momento de paz como este era uma relíquia.
Após algumas poucas horas, puderam ver por entre as árvores uma clareira. Ela era pequena, mas a partir da mesma, a floresta se esvaía e o horizonte tomava seu lugar, juntamente com um grande campo aberto. Danna e Lanceloth desmontaram de seus cavalos e postaram-se próximos à entrada de um porão. Era selada em pedra, com diversos detalhes entalhados em sua extensão. Era possível ver um pouco de musgo cobrindo as laterais, mas os portões em si permaneciam limpos, como se houvessem sido construídos há duas luas.
–Muito bem. Vamos entrar. – Bradou Lanceloth, começando a puxar agressivamente as argolas detalhadas que projetavam-se das duas portas.
A barda o observou, e prosseguiu assim, sem nada falar. Entretida com a situação, vendo o guerreiro usar da força para abrir um portão mágico.
–E então? Você não vai me ajudar? Eu vou realmente precisar usar minha espada?
Danna riu.
–Meu caro humano, não se usa de força para abrir algo que fora selado com mágica. – soltou outro riso, mas que não soara hostil, apenas divertido. — Recomponha-se.
Lanceloth, um tanto desconcertado, parou, arrumando sua armadura. A elfa aproximou-se do portão, retirando o musgo que continha os cantos da entrada, e lendo a simbologia que ali fora entalhada. Pensou, por um momento, que houvesse um enigma, mas notara que era bem mais do que isso. Postou-se de pé novamente, entendendo o que precisaria ser feito.
–Aiya.
Um espiral de ar afastou-os da entrada subterrânea, enquanto uma grande quimera pousava sobre a mesma. O humano nunca havia visto uma criatura lendária como esta, e sua primeira reação fora empunhar sua espada. Danna fez um sinal para que afastasse-se, e postou-se à frente do animal com um corpo robusto de um dragão, uma de suas cabeças sendo a do dragão e outra de um leão feroz.
–Danna? O que... é isto?
–É uma quimera, guerreiro. Embora seja apenas o espírito guardião deste local, é melhor não deixá-la irada.
A cabeça de leão rugiu, com um estrondo estremecedor. Danna segurou seu cajado ao lado de seu corpo, afrontando a criatura mística. A quimera aproximou-se, enquanto a cabeça de dragão aproximava-se mais da elfa.
–Era bem esperado que lute... – iniciou a proferir o dragão – Mas não creio que o farei.
Ouviu-se a voz do humano a gritar que lutaria com honra, se fosse necessário.
–Sim, lutaria. Mas seu coração fraqueja, guerreiro. – a cabeça de leão rugiu, e o dragão seguiu a disseminar sua voz estrondosa. – Ainda assim, vocês devem entrar. Não guardo este local de todos, mas dos que não possuem a proficiência necessária.
–E nós a temos? – indagou a barda.
–O mal cresce pouco a pouco, druidesa. São antigas profecias que nem mesmo a besta mais poderosa poderia ignorar.
A quimera passara a evaporar-se em um redemoinho, da mesma maneira que havia aparecido. Assim que a fora possível observar algo novamente, os portões jaziam abertos, e uma escadaria de pedra viera à luz. Danna olhou para o guerreiro, e seguiu em frente, invocando pequenos fogos-fátuos para iluminar sua frente. Lanceloth tornou a embainhar sua espada, adentrando a escadaria subterrânea. Após alguns momentos, os fogos-fátuos se desfizeram ao contato da luz, enquanto a druidesa adentrava um salão espaçoso. Era bastante alto, e tinha o aspecto de uma taberna agradável, com lamparinas a permear as paredes de pedra.
–Vocês passaram pelo guardião? – saudou-os Thanwig, o gnu. — Estou impressionado.
–Não era para passarmos? Deveríamos morrer? – perguntou, ofendido, o guerreiro.
–Acalme-se, humano. – proferiu uma voz vinda do canto do recinto. – Apenas uma pessoa que aqui entrou pôde fazê-lo sem que precisasse lutar.
Sentaram-se todos em uma grande mesa, com diversos tomos dispostos. Uma faen trouxe a todos canecas de hidromel, e logo reuniu-se a eles.
–Bem, o Oráculo pediu-me que lhes instruísse. Embora eles discordariam disto, aqui estão meus mais confiáveis amigos.
A druidesa olhou em torno, e ali juntamente consigo estavam um anão paladino, uma faen ilusionista e um meio-elfo arqueiro. Apresentaram-se todos, sendo respectivamente seus nomes, Bwarin, Cyindel e Loranhir.
–Todos nós temos ambições a seguir, e elas vão de acordo com as suas, Danna. – proferiu o meio-elfo. – Nós queremos pedir sua ajuda. Precisamos derrotar o atual império, pois de outra maneira, todo o nosso continente será dominado em breve.
–Eu entendo. – a druidesa assentiu – Eu lhes ajudarei. Entretanto, há um problema. A pedra dos Reis jaz perdida, e nós precisamos dela antes de qualquer coisa.
O anão gargalhou, e estendeu um grande mapa pela mesa.
–Não é problema. – o paladino ditou, em seu tom de voz alto – Eu sou da linhagem dos guardiões sagrados do reino, elfa. Meus anteriores protegeram os reis por muitos e muitos séculos...
–E o que aconteceu? – indagou Lanceloth.
–A corrupção que atingiu a nobreza fora abrupta. Lúthien e Bardlett, os grandes soberanos que reinaram em uma era pacífica e trouxeram a prosperidade aos povos, foram mortos por duas das relíquias dos Tuatha.
Danna tornou a pensar, conhecendo essa história mais do que ninguém. Ainda assim, prestava atenção nas palavras do anão, que possuía uma sabedoria alheia à sua raça.
–Dois nobres, vindos de reinos abastados, tomaram para si o direito de governar e liderar os povos unificados, ao assassinar Lúthien e Bardlett. Porém, de forma inconsequente, desfizeram alianças preciosas, e hoje os povos vivem em disputas, guerras e destruição.
Bwarin, o anão, fez uma pausa, e o gnu tomou a palavra.
–Por isto vocês estão aqui. Mas não é só isso. Enquanto as relíquias jazem perdidas pelo continente, Ussion e Gonmal’be prosseguirão em seu reinado sombrio. – Thanwig fez uma pausa. — Além disso, eles há muito enviam legiões para encontrar as relíquias. Se algum desses poderosos artefatos retornar às suas mãos, eu temo pela vida de todos os povos que ainda tem o direito de serem livres.
–O problema – iniciou Cyindel, a faen – é que eles há muito deixaram sua humanidade. Não sabemos como, mas podemos suspeitar...
–Talvez em tanto tempo, — retornou a druidesa ao assunto – eles possam ter encontrado algum artefato mágico. Não são apenas as relíquias dos Tuatha de Dannan que existem perdidas neste mundo.
–E por isto – interrompeu Loranhir, o meio-elfo – estamos aqui. Bwarin, o mapa.
O mapa retratava todo o continente, e alguns territórios por além dele. Era uma verdadeira relíquia possuir uma raridade destas, e os olhos de Danna brilhavam ao ver um pergaminho destes. O anão apontou para um local bastante conhecido para o guerreiro – era próximo a onde Lanceloth havia nascido.
–O pai de meu pai, Basfor, deixara para meu pai estes mapas. Ele passou sua vida aprimorando-os e tentando encontrar alguma das relíquias, mas fora em vão. Ainda assim, com a ajuda de meu pai, reuniram muitas informações sobre isto. Elas foram passadas a mim, e eu lhes asseguro que não foi tudo em vão. Seria o orgulho da minha linhagem se eu pudesse ajudar a druidesa a encontrar um dos artefatos, e eu confio no que meus ancestrais acreditavam.
–Muito bem. – proferiu Danna – Quando começamos?
Todos sorriram, descontraídos. A faen trouxe outra rodada de hidromel para todos, e começaram a discutir sobre o que precisariam levar. Logo estavam todos bastante familiarizados, e decidiram partir no entardecer do outro dia, deixando para beber outra caneca de hidromel, e equipar-se. Cada um ficaria responsável por seus suprimentos, e assim prosseguiriam.
Lanceloth e Danna retornaram à Rancain, para descansarem antes da partida, acompanhados de Thanwig. Sua jornada seria longa, e procurariam por suprimentos e armas no outro dia. Danna estava satisfeita, por ora, e esperava que este sentimento de calma prosseguisse por muito tempo – ela precisaria disto.
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