Tales of the Bard

5 A Destiny of Flame and Sorrow


–Como foi mesmo que eu vim parar aqui? — bradou o anão, empunhando seu machado de dois gumes próximo ao torso.

A faen observava a situação, divertida com as atitudes de Bwarin. Até mesmo o capitão da embarcação, um velho amigo de Thanwig, ria da situação. O anão mantinha-se o mais distante possível da água, segurando-se no mastro da vela mestra. Todos estavam ali presentes, com exceção do capitão, um orc bastante amigável, e o gnu, que sentia-se um tanto nauseado com o agitar das águas; permanecia, então, dormindo em um dos compartimentos.

–Não foi nada muito extaordinário. — comentou Loranhir, o meio-elfo. — Nós acordamos cedo, juntamos nossas coisas e Thanwig nos conseguiu um navio para que partíssemos pelo rio que nos levaria o mais próximo possível do reino.

–Ainda bem que conseguimos também alguns suprimentos. — disse Cyindel, sentada no costado do navio, com seus longos cabelos cacheados a agitar-se com o vento marítimo. No canto direito de seu rosto, partindo de seus olhos e ladeando sua sobrancelha e sua bochecha direita, uma bela marca azul-clara, semelhante ao movimento aquático, indicava que era uma faen nascida das águas. Seu cabelo, da mesma cor que sua tatuagem, difundia-se com o leito do largo rio pelo qual navegavam.

Danna observou o horizonte, tendo em seus olhos a visão de longínquas florestas a permear o rio, em ambos os lados. Por vezes podia ver alguns animais, ou ainda indícios de pequenas civilizações, ou aldeias. Lembrou-se da manhã do dia anterior, quando ouvira um alfaiate comentando em sussurros com um ferreiro, de quem comprava uma braçadeira, que Ussion e Gonmal'be, os dois nobres que governavam o grande reino a sul, pareciam estar enviando tropas para conquistar pouco a pouco as aldeias a norte. Concluíram que faltaria pouco para que alcançassem e assolassem Rancain, e também que duvidavam que os druidas que ali viviam conseguiriam criar uma barreira ilusória que os protegesse, sabendo que esta era uma das maiores cidades livres, e que permanecera por tanto tempo sem alguma influência de governos e reinos. Após ouvir rumores sobre isso, alertara aos seus companheiros, para que não rumassem em frente por uma rota comum; sendo assim, Thanwig pudera conseguir uma embarcação não muito grande, que não chamasse muito a atenção, e ao mesmo tempo que fosse de tamanho suficiente para que carregasse a todos.

Mas sua preocupação não era com atravessar o continente em uma embarcação; nem mesmo a companhia de criaturas que nem mesmo conhecia tão bem — isto na verdade a incitava a se envolver com a missão que acometia os seis. Assim, pelo menos, a druidesa tinha algo pelo qual lutar, e, no fundo, sabia que seus pais aprovariam.

Seus devaneios foram interrompidos com o aproximar-se de Lanceloth, juntando-se à elfa na popa do navio.

–Está tudo bem? — indagou o humano, com um sorriso amigável nos lábios. — Você parece distante, distraída, e isso não é lá muito comum.

Danna fitou-o, por um instante, e logo tornou a observar o horizonte, com a mesma expressão indecifrável.

–Apenas relembrando de algumas coisas. Você acha que conseguiremos recuperar a Pedra dos Reis? Que conseguiremos libertar este reino, sabendo das histórias que contam sobre ele, e todo...

As mãos de Lanceloth seguraram os pulsos de Danna gentilmente, interrompendo-a.

–Não pense assim. Nós faremos de tudo. Nós devemos conseguir.

A barda assentiu, retornando para seu quarto no interior do castelo do navio, para dedicar-se novamente aos seus tomos e para os rituais antigos. O balançar calmo da embarcação sendo levada pelos ventos do anoitecer fizeram com que a barda adormecesse em meio a alguns poucos pergaminhos sobre mitos ancestrais. Em meio a seu sono, tivera a visão de uma grande pedra, estrelada como o céu límpido, que reluzia ao olhar de Danna. A druidesa notara que aquele artefato refletia a ela o que a mesma sentia, podendo tornar-se extremamente poderoso quando utilizado em combate. Quando quase podia tocar em sua superfície cintilante, fora acordada abruptamente com o agitar violento da embarcação. Em um salto, a elfa juntara novamente em sua algibeira seus tomos e pergaminhos, e saíra do castelo da proa, com seu cajado em mãos. Primeiramente, notara que o sol já amanhecia há tempos, até ter ao alcance de seus olhos a visão da origem de todo esse caos: um grande dragão vermelho-escuro cruzava os céus, rodeando o navio, pronto para investir contra a popa do mesmo.

–Os danos são muito grandes, — gritou o orc, enquanto manobrava o navio, tentando desviar do ataque da criatura. — nós não vamos aguentar! Precisamos ancorar agora!

–Faça o que for possível. — gritou Thanwig, enquanto invocava o espírito da água para que combatesse as chamas de fogo demoníaco que alastravam-se pelas bordas da embarcação. — Mas faça rápido!

–Ele já foi ferido antes. — observou Lanceloth, gritando para que seus companheiros o ouvissem. — Olhem! — e apontou para algumas armas presas em seu dorso, como lanças e espadas.

A barda imaginou se este dragão estava vindo de algum ataque à uma aldeia ou semelhante, mas agradeceu pela criatura estar enfraquecida — assim, talvez, eles tivessem uma chance de derrotá-la. Danna observou várias flechas rumando em direção ao dragão, e notou que o mesmo já havia sido atingido por várias, mas nem todas provindas do meio-elfo. Mesmo possuindo uma couraça extremamente resistente, a druidesa sabia que ele devia estar ferido o suficiente para sentir dor — muita dor. Quando a criatura já abria sua boca para lançar outra rajada de fogo demoníaco, a ilusionista conjurou um feitiço de atordoamento, fazendo-o incendiar a água, errando assim o barco.

–Vocês não podem evitar a fúria de Ussion! A ruína acometerá a todos.

A voz do dragão era grave, e ecoava como um trovão, rasgando a atmosfera. Danna, entretanto, não estremecera com a voz que dizia, mas sim com o que ela dizia. "Ussion? O nobre?" pensou, enquanto invocava a bênção da flora para curar o anão, que fora atingido por uma das rajadas de fogo demoníaco. Embora Danna concentrava-se em seus esforços para minimizar os danos em Bwarin, as labaredas que o atingiam eram vis, e ela apenas esperava que nenhuma consequência realmente séria o acometesse. O dragão, por um instante, sumira no horizonte, criando ondas extremamente fortes no largo rio. Havia adentrado as águas, talvez para se curar, ou preparar o próximo ataque.

O orc gritou, do topo do castelo da proa, para que o ajudassem a manobrar o barco. Thanwig aceitou o pedido, e aproximou-se da borda da embarcação, para invocar os ancestrais da água e do vento, que o auxiliassem. Alguns suspiros foram soltos, mas o silêncio não durara muito. Um tanto longínquo, fora possível ver, no horizonte, a criatura mitológica emergindo das águas, vigorosamente. A força com que o fazia criou uma ondulação que abalou o navio, empurrando barris e caixas para os cantos, e alguns sendo derrubados para fora da embarcação. Ussion girou no ar, livrando-se de uma grande quantidade de água que cobria seu corpo, e, pairando no ar por alguns instantes, passou a bater as asas, entornando o barco, e cuspindo rajadas de fogo demoníaco.

–Sou o vento que sopra sobre o mar; sou a onda que emerge das profundezas. Sou o rugido do oceano; sou o Gamo de Sete Batalhas!

A barda compreendeu o que Ussion proferia. Subiu ao topo do castelo da proa, e gritou para que evitassem que o dragão terminasse o poema. Se o fizesse, não seria mais possível combatê-lo, mesmo que já fosse possível notar seu sangue esverdeado molhando as flechas de Loranhir. O shaman, que concentrava-se em retirar o barco da correnteza e colocá-lo próximo à terra, rogou para que a água levantasse-se contra Ussion, e assim ela o fez. Um grande cordel de água emergiu do leito do rio alguns momentos após, e atingiu-o como um chicote próximo à sua asa esquerda, que fora mais atingida e parecia mais debilitada. Loranhir aproximou-se, dirigindo um olhar de agradecimento à Thanwig, e, com seu arco em mãos, prosseguiu a atirar suas flechas na grande criatura, com uma concentração inabalável. Cyindel, que há tempos permanecia com os olhos fechados, conjurando uma magia ilusória, completou-a pouco antes do grande dragão atingir o barco, investindo então contra a floresta, caindo por terra.

–Wow. — comentou a faen, com uma expressão incrédula — Nós conseguimos.

Todos olharam entre si, e sorriram, um tanto aliviados. Mas o alívio de Danna fora interrompido por um pensamento bastante apreensivo.

–Aconteceu alguma coisa, Danna? — indagou Loranhir, guardando seu arco e fechando sua aljava de flechas. — Você parece preocupada.

–Eu só... Bem, se Ussion é um dos nobres, quer dizer que ainda temos Gonmal'be para enfrentar.

–Se foi fácil assim, o próximo vai ser ainda mais. — divertidamente comentou Lanceloth. — Eu só espero poder fazer alguma coisa, porque é chato ter que desviar de rajadas de fogo, sem poder fazer nada.

Ouviu-se algumas risadas baixas, mas, ainda assim, a expressão da barda era impassível. Fez uma breve pausa, e levou a mão à boca, pensativa.

–Não foi tão fácil assim... — apontou Cyindel. — Bwarin ainda está inconsciente, e foi bastante ferido.

O silêncio demonstrava que todos dedicavam-se aos seus próprios devaneios, com exceção de Thanwig, que prosseguia ajudando o orc a manobrar o barco, agora não tão longe dos entornos da floresta.

–Nós não sabemos muita coisa sobre esse tal de Ussion. — proferiu Loranhir, quebrando o silêncio entre eles. — Nem mesmo sobre Gonmal'be. Fomos um pouco descuidados, e não podemos repetir esse erro. Ainda mais se as lendas sobre os dois forem corretas, e estes dois nobres sejam irmãos. A fúria de um dragão desejando vingança talvez não seja algo que queiramos enfrentar.

Entreolhando-se, todos assentiam, e passaram a preparar-se para desembarcar na floresta. O capitão ancorou o barco, para que pudessem ir de encontro à criatura, e assim, permaneceu a bordo, para começar os reparos na embarcação. Não fora preciso procurar muito; havia um rastro de devastação, e várias árvores com as copas sendo destruídas pelo fogo vil que Ussion cuspira. O anão, recém acordado, conjurava magias para expurgar o fogo demoníaco quando o via. Assim que Cyindel viu, ao longe, uma criatura desmaiada ao centro da cratera, conjurou uma prisão ilusória, translúcida.

–Vocês não vão... nos derrotar.

Os olhos de Ussion se abriram, e emanavam chamas verde-escuras, como as que o mesmo expelira. O dragão levantou-se na prisão quadrangular, e tentou esconder suas fraquezas, mas que eram evidentes. Agora era apenas um humano, trajando uma veste vermelha-escura e um manto negro em suas costas, levemente chamuscado na extremidade. Ainda assim, não era sua boca que falava, mas algo como sua consciência ecoando pelo interior da floresta.

–Não somos apenas... mortais... Mortalidade é uma fraqueza.

–Está sendo sua fraqueza agora. — disse Danna.

–Meu irmão... nossos guerreiros... me vingarão. E.. eu voltarei.

–Eu acho que não, Ussion. — proferiu Thanwig.

Todos preparavam-se para atacá-lo pela última vez, quando o dragão continuou.

–Não deixarei... que me matem. — e dito isto, desfez-se em uma nuvem negra, sobrando apenas seu coração corrompido, que fora consumido pela terra assim que atravessara a prisão ilusória de Cyindel.

Todos entreolharam-se, suspirando aliviados. A essência demoníaca que Ussion continha fora aprisionada por Bwarin, e todos assentiram que um artefato que emanava tanto poder — visto que podia ser usado para bem e para o mal — não poderia ser deixado em qualquer lugar, desta maneira, o usariam contra Gonmal'be.

Retornaram para o navio, para descansar e recuperar-se, e logo notaram que o sol aproximava-se do horizonte timidamente. Dannu sentou-se no topo da proa do navio, com alguns de seus tomos ao seu lado. Sorriu enquanto sentia a aproximação de Lanceloth, e fitou-o sentar-se ao seu lado, com seus cabelos negros, cacheados, agitados pelo vento marítimo.

–Isto não é o que Ussion estava proferindo? — comentou o guerreiro, apontando para um dos tomos abertos.

–A Canção de Amergin? Sim, e por isto eu pedi que o interrompessem.

–É tão poderosa assim? Mesmo para uma criatura vil como aquele dragão?

Danna sorriu, tocando levemente o contorno do rosto do humano.

–Até as mínimas coisas são poderosas, se você acreditar. Uma cantiga, um objeto, um sentimento...

Lanceloth baixou a cabeça, timidamente. A barda olhou para a lua, e tomou a Canção de Amergin em mãos.

Sou o vento que sopra sobre o mar;

Sou a onda das profundezas;

Sou o rugido do oceano;

Sou o Gamo de Sete Batalhas;

Sou um falcão no penhasco;

Sou um raio de sol;

Sou a mais verdejante das plantas;

Sou um javali em fúria;

Sou um salmão no rio;

Sou um lago na planície;

Sou uma palavra de Sabedoria;

Sou a ponta de uma lança;

Sou a fascinação para além dos confins da terra;

Como os deuses, posso mudar de forma.

Ambos permaneceram em silêncio, observando o firmamento estrelado, acompanhando o reflexo do luar pelas águas calmas, e nenhuma palavra se fazia necessária. Seus pensamentos eram translúcidos, e seus sentimentos eram puros como uma bênção de Danu.