Tales Of A Broken Heart

8 1864 - Um Tolo Em Busca De Um Grande Gesto.


Nevava aquela manhã em New Town, os flocos brancos caiam densamente pelas colinas esverdeadas, e na floresta negra marcada por sua histórias exageradas a mesma resolveu se fixar com força, isso porque quem passasse por aquela área em suas carruagens notaria que quase não se viam mais as árvores do lugar, estas estavam encanecidas e realmente destacadas.

De sua janela o nobre Stefan observava os granitos que resolveram aparecer aquele momento da manhã se deslizarem pelas estradas repletas de lama que levavam até o povoado. Em suas mãos segurava uma caixa que continha um colar de rubi caríssimo. Sua mãe havia lhe cedido quando o mesmo a comunicou que precisava de dinheiro para uma coisa urgente. Aquela era a segunda parte de seu pagamento a Ronald.

Soltou um suspiro determinado. O dia em que o caçador marcara para eles se encontrarem finalmente chegara. Stefan contou as horas, os minutos, e os segundos. Tendo fé de que quando visse o homem ele estaria acompanhado de Rebecca. Sonhou com o momento que a amada correria para os seus braços e o beijaria mostrando o quão viva estava e continuava acreditando até o último instante que isso se tornaria realidade.

Pegou o agasalho mais quente que conseguiu e com a caixinha em mãos, sabendo que seu pai já não estava mais em casa naquele horário, desceu de forma calma os degraus das escada da mansão Brendon. Não soube porque, mas, assim que atingiu o último um arrepio percorreu sua espinha.

Se segurou no corridão de madeira, e observou o ambiente ao seu redor. Então, após alguns instantes segurou a angústia e caminhou até a porta e em pouco tempo já alcançava um dos cavalos do estábulo de sua casa que o levariam até a taverna.

Cavalgou com maestria, mantendo a animação sobre os resultados positivos. Não demorou muito para chegar, sua vontade de comprovar suas esperanças o fez ir rápido. Amarrou o cavalo em uma cerca próxima a taverna e seguiu para dentro do ambiente.

A neve a que foi exposto na entrada, o fez ficar um tanto molhado, por isso enquanto caçava Ronald com o olhar, tentou inutilmente enxugar os ombros de seu paletó. Andou um pouco, vendo os bêbados, abandonados e debochados, mas, nenhum caçador. A animação começou a falhar, a angústia voltou ao seu coração, começou a ofegar.

—Tudo bem senhor? Pode me fornecer uma informação? — puxou o braço de um homem fedido no auge de seus sessenta anos para questionar isso. Ele avaliou a figura elegante, em um ambiente fora de seus padrões com desdém.

—Do que se trata? — se deu ao trabalho de respondê-lo. Mostrando seu sotaque um tanto rouco, aparentemente londrino. Stefan rodou seus olhos mais uma vez pelo interior da taverna, então suspirou.

—Estou procurando por Ronald Petrofer. Encomendei um serviço a ele, e era hoje que lhe daria a segunda parte de seu pagamento, caso ele o fizesse com eficiência. — tentou explicar brevemente, aturdido com a falta do caçador e de quem ele esperava que estivesse com ele.

O homem mais velho o olhou assombrado.

—Me diga rapaz...Que serviço foi esse? — questionou em um tom hesitante.

Stefan engoliu a seco.

—Eu pedi que ele procurasse por uma pessoa...Na floresta negra há dois dias...Ele disse que hoje me daria uma resposta sobre minha busca. Aqui nesse mesmo lugar. Acha que ele ainda está lá na floresta? — está trêmulo e fala com dificuldades.

—Você é tolo, garoto. — o velho repreende Stefan e o mesmo franze as sobrancelhas. — Sabe por que Ronald Petrofer é tão famoso por sobreviver a uma viagem até a floresta negra? Ele a rodeia em questão de duas horas e após isso já está fora dela. — explica de modo sombrio, Stefan quase suspira aliviado.

—Então, você quer dizer que o mesmo só está atrasado para nosso encontro? — indaga preocupado e o outro quase ri com escárnio.

—Estou dizendo que qualquer um que passa mais de duas horas lá não sai para contar a história. Se Ronald marcou com você hoje e ainda não está aqui para receber seu precioso pagamento significa que ele nem ao menos saiu de lá. — Stefan dá um passo para trás.

—Mas, ele é o melhor em...Ele me disse que daria o seu melhor. — está desesperado.

—Às vezes o melhor não é o suficiente, garoto. Por quem você pediu para ele procurar? — indagou interessado.

—Uma mulher. A mulher da minha vida. — é sincero ao dizer isso.

—Sinto muito, acho que terá de se conformar com uma perda. Sua única chance nessa pequena cidade era Ronald. — lhe comunica disso. Com lágrimas nos olhos, e disposto a manter a determinação, Stefan toma a decisão que mudará toda a sua vida.

—Não. Eu faço minhas chances. Eu não vou deixar Rebecca ter um destino cruel naquele lugar. — quase gritou aquilo.

—Ela já teve, minutos, segundos, isso é necessário para você ser aniquilado lá. — rebatou, sem nem mesmo saber por que deveria fazer isso por um homem que nem conhecia.

—Como você sabe? São só histórias. — argumentou aflito.

—Toda história tem um fundo de verdade, e quando pessoas que estiveram lá não voltam para corrigi-la quer dizer que o que quer que aconteça naquele lugar é real. — diz isso agora de forma calma.

—Não importa. Nada importa sem ela. Irei procurá-la, entrarei naquela floresta e viva ou morta a trarei de volta para New Town. Ela não merece o destino de padecer em um lugar tão sombrio. — fala isso de modo decepcionado. O homem mais velho nada mais fala. Sabe que contra o amor não há argumentos. Ele desafia a sanidade, o tempo e volta e meia o destino, só o que desejou para Stefan quando o mesmo saiu daquela taverna foi que as histórias fossem mentiras.

Mas, no fim ele sabia. De uma forma ou de outra, era verdade.

[...]

Com luvas, chapéu e uma capa de veludo, Marie Summers caminhava pelas ruas de New Town de forma calma. Ao ver o clima da cidade esfriar, decidiu sair de casa para se deliciara neve. Sempre adorou ela, assim como sua prima que tinha a beleza perfeitamente harmonizada com os flocos brancos. Bartolomeu, o fiel empregado de Rebecca a seguia, apenas por precaução.

Estava tentada a passar pela boutique de Madame Moufre para encomendar um vestido, mas, deixou a ideia de lado, quando avistou um aturdido Stefan Brendon do outro lado da rua, entrar em uma loja de ferragens apressadamente. Segurou a barra do vestido, totalmente em alerta e praticamente correu até lá, deixando Bartolomeu para trás.

Assim que adentrou a loja, os vários homens presentes a olharam, uns com estranheza, outros com malícia, não se importou, andou rapidamente a prateleira que Stefan observava. Sentia com todo seu coração que aquela visita dele, estava ligada com algo impróprio.

—O que está fazendo aqui, Stefan? Por que entrou tão desesperado neste estabelecimento? — o poupou da cordialidade com cumprimentos, e já apareceu com o questionamento. O Brendon com olhos vermelhos, não se deu ao trabalho de se surpreender com a presença dela, tão pouco repreende-la por entrar em um lugar como aquele, apenas continuou escolhendo as melhores cordas, acreditando que em algum momento, estas seriam úteis em sua jornada.

—Por favor, Marie, não se intrometa em meus assuntos, ainda estou furioso quanto ao comportamento que apresentou na última vez que nos encontramos, e não lhe devo satisfações de minha vida. — achou que aquilo fosse a fazer ir embora, no entanto só a incitou a ficar.

—O que está fazendo aqui, Stefan? — ignorou as palavras dele e repetiu a pergunta.

—Lutando por ela, tudo bem? Eu estou lutando por a mulher que amo. —grita para que todos ouçam, e a essa altura já chora. Marie olha para ele preocupada.

—E o que lutar por ela tem a ver com uma loja de ferragens? — questiona calmamente. Stefan tira sua gravata com brutalidade, logo agora que avalia alguns canivetes que estão a venda.

—Eu vou para a floresta negra, Marie. Eu sei que ela está lá. Eu vou trazer ela de volta. — havia tanta certeza em sua voz. Marie arregalou os olhos, de forma que eles também marejaram em seguida. Estava incrédula e aflita.

—Você não pode. — gritou tentando digerir o que ele acabara de dizer.

—Por que não? Por que existem mitos a respeito daquele lugar que podem ser só mentiras? — ele não quer ser convencido a ficar.

—Se você for você vai morrer, Stefan. — estava tão desesperada quanto ele quando falou aquilo. Tentou tocar nele, mas, o Brendon desviou dela com nojo.

—Não me toque. Eu vou atrás dela, independente do que diga. — ele faria qualquer por seu amor.

—Você é só um tolo querendo fazer um grande gesto, se atravessar aquela floresta não há volta. — lhe contou com toda certeza que tinha.

—Pelo menos estarei com ela. Eu sei que ela está lá.