Tales
29 XXV - Revelações, o passado de cada um
Notas iniciais
Na manhã seguinte alguém batia na porta de maneira furiosa, Juvia acabou por acordar, colocou um roupão azul de Gray bem amarrado e foi logo atender a porta pensando que seria algum de seus amigos querendo parabenizá-los pelo beijo da noite passada. Juvia abriu a porta apenas para ver seu maior pesadelo á sua frente.
— Te achei! — O homem a agarrou pelo braço — Quer dizer que você está me traindo abertamente desse jeito! — Mostrou um jornal em que aparecia uma foto tirada ontem do beijo de Gray e Juvia. — Isso é muito feio! Vamos ter de conversar sobre essas coisas, mas por enquanto temos de ir para casa, certo?
— Me larga! — Juvia gritou.
— Qual é o problema?! — O homem pegou Juvia pelos cabelos com força — Eu não posso levar você pra casa?!
— Aquela não é a minha casa! — Juvia voltou a gritar — Nunca foi e nunca será, agora me larga você está me machucando!
— Eu não vou larga-la!
— Ah você vai sim! — Gray apareceu do nada vestido em um moletom e deu um soco tão forte na cara do homem que o desconhecido caiu, Gray puxou Juvia para trás de si e levantou o homem pela gola. — Essa casa é minha e você não é bem vindo aqui! — Jogou o rapaz no chão fora de casa e bateu a porta trancando-a logo em seguida e finalmente virou-se para Juvia — Quem, cargas d'água, era aquele homem?
Juvia suspirou pesadamente, olhou para o chão e então voltou a olhar para Gray.
—Aquele homem é o meu marido — Gray arregalou os olhos para a resposta. — Você disse que me ama, certo? — Gray assentiu ainda sem conseguir falar — Então está na hora de contarmos nosso passado um para o outro... Já que esse episódio aconteceu acho melhor eu começar — Riu sem humor.
— Certo... — Gray estava com raiva, não sabia se queria ouvir a história, mas aceitou, ele também havia deixado a mulher no escuro sobre seu passado por muito tempo.
— Então vamos lá... — Juvia se sentou no sofá e o homem sentou-se ao seu lado virado de frente para ela — Eu perdi meus pais aos cinco anos de idade em um dia de tempestade, meu avô foi um homem muito rico e eu passei a morar sozinha com ele na mansão, porém ele nunca gostou de mim, sempre quis ter um neto homem que pudesse continuar os negócios, como se uma mulher não pudesse fazê-lo — Rolou os olhos.
— Que cara machista!
— Depois um homem apareceu na minha casa, era o Albert-san, ele tinha perdido as memórias e arrumou um emprego na mansão, a partir daí ele virou meu mordomo, praticamente meu pai adotivo — Juvia riu — Foi aos seis anos que me tornei amiga do Gajeel, ambos éramos órfãos, acabamos nos dando bem. Apesar de tudo eu fui uma criança e uma adolescente muito carente e descontava essa carência toda na comida por isso eu fui obesa por muito tempo da minha vida...
— Por isso que você é tão encanada com seu peso... — Gray constatou — Mas é bem inacreditável...
— Depois te mostro uma foto, enfim, no nono ano Gajeel precisou ir embora, ele veio para Magnólia e eu fiquei pior, mas naquele ano alguém começou a se aproximar da gorda isolada que eu era, quem começou a se aproximar de mim quando Gajeel se foi fora aquele homem, Bora, ele era filho de um personal trainer e uma nutricionista, com o tempo ele foi me ajudando a emagrecer e eu fui me sentindo realizada, era algo tão novo na minha vida, com o tempo ele conseguiu me confundir, eu não sabia o que sentia por ele, era gratidão, porém ele me fez pensar que eu o amava e mentiu que me amava. Eu, boba, caí como um patinho na lábia daquele infeliz, ele me pediu em casamento quando eu estava terminando a faculdade, Meredy nunca gostou do Bora, mas eu não a dei ouvidos, casei com o infeliz... — Gray engoliu em seco — A partir de agora as coisas começam a ficar um pouco pesadas, tudo bem?
— Tudo bem... — Gray se mexeu desconfortavelmente no sofá.
— Na nossa lua de mel ele me estuprou... Ele me pegou a força e foi horrível, aquela também foi minha primeira vez... — Os olhos da mulher estavam marejados, Gray morreu de raiva por dentro, mas deixou que ela continuasse. — Eu era obrigada a fazer a gravata dele todo dia pela manhã e abotoar sua camisa, inúmeras vezes peguei ele com outras mulheres na nossa própria casa... Albert-san continuou a trabalhar comigo, foi ele que inúmeras vezes deu uma surra em Bora e me salvou de ser espancada quando meu marido chegava bêbado em casa, um dia quando Albert saiu Bora conseguiu me pegar a força novamente — A mulher chorava — E eu fui estuprada uma segunda vez... Eu tinha uma clínica de psicologia no centro da cidade, ele colocou fogo na minha clínica e deu dinheiro para a faculdade não emitir um segundo certificado, perdi meu direito de exercer minha profissão... — Juvia estava chorando muito — Essa foi a gota d’água pra mim, foi quando eu fugi de casa e vim morar aqui com o Gajeel e quando nos conhecemos... Toda vez que o Gajeel saí de perto de mim eu fico vulnerável? Porque eu não posso me defender sozinha? — A mulher soluçou.
— Juvia... Não se preocupe, eu estou aqui agora, não vou deixar nada ruim te acontecer — Gray a abraçou — Eu sinto muito... — Juvia chorou um pouco mais. — Porque continuou com esse homem por tanto tempo?
— Porque queria reaver a empresa do vovô... Bora se casou comigo para se tornar o sucessor da Lockser e virar o dono da empresa, ele envenenou aos poucos meu avô e quando meu avô morreu me fez assinar, junto com a papelada do casamento que eu estava assinando toda feliz, papéis que passavam a empresa para ele, como se eu reconhecesse que não saberia gerir a empresa... Minha esperança era arrumar um jeito legal de tirá-lo da empresa e jogá-lo na miséria, Albert-san continua trabalhando lá para ver se arruma alguma prova, mas até agora nada... Se eu me separar a empresa vai ir definitivamente para o nome dele, nós casamos com comunhão de bens e eu assinei a merda do papel abrindo mão da empresa no nome dele caso houvesse separação...
— E porque ele a manteve por perto durante esse tempo?
— Porque a diretoria da empresa não confia nele, nenhum acionista confia, ele me obrigava a ir nas reuniões da Lockser e dar as ideias dele como se fossem minhas para os acionistas concordarem...
— Pera... Lockser... Esse nome não me é estranho
— Sim, é aquela empresa enorme de segurança e domótica — Juvia confirmou o que Gray suspeitava.
— Mas seu nome...
— Meu nome é Juvia Lockser, desculpe por falar Loxar...
— Você mentiu seu nome!
— Tecnicamente não... Se você tivesse lido meu currículo direito teria visto meu nome... — Gray abriu e fechou a boca.
— Ok... Me pegou!
Juvia riu e levantou-se para se trocar e limpar o rosto antes de ouvir a história de Gray. Quando ela voltou Gray perguntou:
— Quer comer?
— Quero sim, vou fazer um café, você prepara a mesa? — Ela sorriu.
— Claro — Gray respondeu.
Gray arrumou a mesa e pegou na geladeira um pedaço de bolo para cada colocando em dois pratinhos e colocando ambos na mesa junto com duas xícaras. Quando Juvia terminou de passar o café veio com a garrafa e colocou um pouco para cada um. Sentou-se ao lado de Gray e tomaram café da manhã juntos em silêncio e agradecendo a Deus ser um domingo livre, já tinham tido bastante emoção por um dia... Ou ainda não.
— Gray-sama, não estou querendo cobrar nada... Mas você tem que me contar sua história também...
— Certo... Quer voltar para o sofá?
— Claro!
— Ok... Me desculpe se eu chorar ta bom...
— Você não precisa pedir desculpas por chorar! É totalmente normal.
— Certo... Quando eu tinha uns cinco anos de idade um cara veio até minha casa, eu e minha mãe estávamos na cozinha, foi meu pai que atendeu a porta, lembro-me claramente dele falar o nome do homem de forma receosa, minha mãe ao escutar o nome me enfiou e trancou dentro o armário da cozinha sem que o tal homem percebesse, eu estava assustado, olhava a situação toda pela fresta enquanto chorava sem emitir som— Gray já estava chorando — Meus pais e o tal Deliora conversaram por mais algum tempo, porém eles gritavam muito, Deliora puxou uma peixeira e apontou para a minha mãe, meu pai entrou no meio lutando com o homem, mas Deliora o jogou no chão com força, infelizmente meu pai caiu batendo a cabeça na quina da mesa de mármore... A cabeça dele se abriu em um rasgo de onde saía muito sangue, minha mãe gritou por ele e tentou chegar até meu pai, mas infelizmente Deliora a segurou pela cintura puxando-a para ele, tentou tirar a roupa da minha mãe, mas ela preferiu enfiar-se na peixeira que ele ainda segurava que ser estuprada pelo homem...
— Que terrível, Gray-sama!
— Depois de vê-la cair ele a xingou e enfiou a maldita peixeira nela um monte de vezes, até poder ver os órgãos triturados da minha mãe para o lado de fora, o cheiro de sangue já estava me dando náuseas quando ele saiu da nossa casa. Eu saí do armário sozinho pouco depois, achei algo que passava pela fresta e levantei a tranca, desci de lá e olhei meus pais. Minha mãe nadava em sangue, seu corpo nem podia ser reconhecido mais... Meu pai também tinha sangue demais saindo de seu corpo, meus pais estavam mortos... Corri pela cidade chorando durante dois dias inteiros até ser pego pelo conselho tutelar e levado para um orfanato...
—Gray-sama... — Juvia abraçou-o com força, Gray descansou a cabeça no ombro da mulher, soluçou um pouco enquanto chorava até conseguir continuar.
— Minha mãe foi enterrada, mas não acharam mais o corpo do meu pai... Pouco depois eu fui adotado pela Ur, fiquei de birra por muito tempo, não queria ter outros pais... Com o tempo ela me dobrou, aceitei ela como mãe, o Lyon como irmão e a Ultear como minha irmã mais velha. As coisas estavam ótimas, eu arrumei amigos, Ultear me ensinou a dançar e graças a isso saía com meninas direto, até que eu namorei a Lucy, na verdade eu só queria bem... A Lucy era bonita então...
— Eu sei, você queria transar com ela, você pode dizer, não vou ficar brava...
— Certo... Lisanna me avisou que ela na verdade gostava do Natsu, eu incentivei ela a ir atrás dele e eles começaram a namorar pouco depois... Tudo estava ótimo... Até eu ter a brilhante ideia de investigar quem era o tal Deliora... Descobri que ele era um psicopata apaixonado pela minha mãe desde a infância, minha mãe não acreditava que ele pudesse fazer mal a ela, mas meu pai e ela resolveram se mudar de cidade quando descobriram a gravidez dela... Eu descobri que ele estava preso numa prisão de segurança máxima por algum outro crime e que ficaria preso pra sempre... Fui atrás dele e me apresentei como o filho da Mika e do Silver, meus pais que ele tinha matado, disse que o odiava e que ele era um monstro... Bem... dois meses depois ele fugiu da prisão e apareceu para me matar também... Infelizmente minha mãe adotiva e minha irmã Ultear eram as únicas em casa no momento, ele as matou, apenas uma facada em cada uma... Quando cheguei em casa ele estava saindo, arregalei meus olhos, pensei que morreria ali mesmo, mas ele disse “Matar os seus entes queridos e ver você sofrer com isso é mais legal do que matar você, filho da Mika!” riu e saiu. Eu entrei em casa e fui até elas, Ultear me mandou viver e Ur já estava inconsciente... Lyon chegou pouco depois... — Gray suspirou pesadamente. — No enterro delas foi quando eu conheci a Meredy... Depois desses acontecimentos fui atrás da única pessoa que podia me confortar, minha namorada Karen... Ela disse que ia embora seguir o sonho dela de trabalhar no circo e que eu não devia chorar tanto... Resumindo ela não ajudou em nada, fez foi me deixar com raiva e eu parei de ser a mesma pessoa de antes, quase sempre eu tinha vontade de me matar, mas lembrava da Ultear pedindo para que eu vivesse antes de morrer e não o fazia. Me joguei de cabeça nos estudos e fiz duas faculdades ao mesmo tempo para poder sempre dar a desculpa de que estava ocupado e por isso não podia sair com o pessoal... Arrumei um emprego na Tales, o tio Igneel me chamou quando terminei a faculdade, como eu precisava de grana para me sustentar eu fui... Dois anos depois de começar a trabalhar eu me tornei o presidente e um mês depois nós nos conhecemos.
Juvia limpou suas próprias lágrimas e deu um beijo carinhoso na cabeça de Gray. O interfone tocou e a campainha tocou ao mesmo tempo.
— Se for aquele desgraçado de novo! — Gray falou indo para a porta e a abrindo.
— Olá casal! — Natsu entrou cumprimentando-os e Lucy veio com ele.
— Porque vocês estão com essas caras de choro? — Lucy perguntou preocupada.
— Estávamos contando o passado um pro outro...
Lucy e Natsu abriram e fecharam a boca em sincronia.
— Bem... Viemos visitar o mais novo casal! — Natsu disse tentando animar o clima.
—Obrigada, Natsu-san — Juvia agradeceu.
A campainha tocou novamente. Juvia foi atender dessa vez.
— Ainda bem que é você! Vamos logo! O carro está esperando lá em baixo! — Bora disse já puxando o braço da mulher.
— Cara, você não desiste?! — Gray deu um soco no homem
— Já chega — Juvia estava farta daquela situação — Eu não vou pra Crocus com você! Fica com a bosta da empresa, mas me deixa em paz!
—Você sabe que o conselho odiaria isso!
— O conselho odeia você! Eu odeio você, todo mundo odeia você, eu nunca conheci um homem tão asqueroso, você não passa de escória seu lixo! — Juvia cuspiu na cara do homem e bateu a porta.
— Quem era esse?! — Lucy perguntou surpresa com a amiga.
— Meu marido... — Juvia soltou sem pensar.
— Marido? Você é casada?! — Lucy e Natsu falaram juntos.
Gray bateu na própria testa. E de novo Juvia teve de contar sua história. Natsu e Lucy permaneceram quietos ouvindo a tudo com muita atenção.
— Agora eu entendo porque as coisas eram tão complicadas entre vocês dois...
— Mas como vocês vão se livrar desse Bora?! — Lucy perguntou — A Juvia não pode continuar casada com esse carrasco, mas não pode perder a empresa também!
— Temos que provar que a Juvia não sabia o que ela estava assinando... — Gray falou — Que ele a enganou e desfazer o acordo... Então a empresa volta para o nome dela e ele pode finalmente levar um pé na bunda e ficar na miséria!
— Mas como podemos fazer isso? — Natsu perguntou. Gray teve uma ideia, mas resolveu não falar com o amigo.
Um alarme tocou.
— Lucy, temos que ir buscar a Wendy na casa da Chelia...
E os dois foram.
— Eu tive uma ideia — Falou quando os dois já estavam sozinhos novamente.
— O que é? — Juvia perguntou
— Se nós fizéssemos o Bora falar que ele fez você assinar sem saber o que assinava o acordo é desfeito na hora, nós poderíamos afirmar com toda certeza que ele é culpado perante um júri de ludibriar a noiva! Seria perfeito! É só conseguir o acordo judicial para fazer um vídeo e está tudo feito!
— É uma ótima ideia! Como vamos fazer isso?!
— Vou fazer umas ligações, liga pro seu advogado e demite ele, seu caso agora é meu! — Gray sorriu e deu um beijo na mulher. — Vou ligar para um juiz amigo meu, quando o tal Bora voltar você finge que eu saí e faz ele falar... Se ele te machucar grita que eu venho correndo!
— Certo — Juvia concordou.
Ela fez como Gray pediu, algumas horas depois um assistente do juiz amigo de Gray veio deixar um documento permitindo a gravação como prova válida. Gray agradeceu a rapidez do juiz, Gray ligou uma câmera escondida na sala e os dois ficaram esperando Bora voltar, infelizmente ele não o fez naquele dia, de noite Gray e Juvia dormiram abraçados um ao outro. Na manhã seguinte Gray acordou, deu um beijinho na cabeça da mulher que ainda dormia e saiu para comprar pães, não viu Felipe-san na portaria.
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