Tales
20 XVII - Clima ruim e a letra N
Notas iniciais
De manhã Juvia não correu novamente, o clima não estava muito bom entre os dois. Juvia estava cansada por trabalhar durante a noite e Gray estava um caco, se sentindo culpado por tê-la agarrado como algum tipo de selvagem.
— Bom dia, Gray-sama... — Ela falou estendendo um pão com presunto e queijo para o rapaz as 7:30 quando ele saiu do quarto vestido como o habitual para o trabalho, um terno preto com uma camisa social lisa e uma gravata de cor monocromática.
— Bom dia... — Ele aceitou o pão e comeu enquanto olhava de soslaio para a mulher tentando ver seu rosto, mas ela parecia estar tentando fugir dos seus olhos.
Não demorou para irem para o trabalho. Gray ainda estava tenso pelo que havia feito, se sentia culpado e não estava conseguindo pensar em trabalho. Natsu entrou em sua sala sem ser anunciado por Juvia.
— Oi Gray! — Ele falou feliz — Que cara é essa? Tá mó pra baixo hoje, o que te aconteceu? — Natsu falou.
— Eu fiz uma besteira muito grande ontem... — Gray confessou, Natsu era o mais próximo de melhor amigo que já tivera um dia e apesar de sempre brigarem era melhor conversar com alguém do que explodir. — Vamos para a sala de reuniões...
Natsu o seguiu feliz pelo amigo querer conversar com ele.
— O que aconteceu? — Natsu o incentivou a falar quando já estavam sentados um ao lado do outro.
— Ontem... Eu agarrei a Juvia por muito tempo...
— Num evento? — Natsu franziu o cenho.
— Não... Em casa... Ela lambeu minha orelha por algum motivo enquanto eu fazia cosquinhas nela, aí eu não consegui mais me controlar, agarrei ela...
— Agarrou? Como assim agarrou? Vocês transaram? — Natsu perguntou.
— Não... Minha mente funcionou antes disso... Eu parei depois que tirei a blusa dela...
— Ah! Então não tem tanto problema né, Gray? Mas nossa, isso foi surpreendente, não pensei que você conseguisse se parar! — Natsu riu.
— Uma parte de mim não queria parar de jeito nenhum, mas eu já vivi situações assim antes e na maioria das vezes as mulheres com quem dormi nessas circunstancias choraram e eu não queria fazê-la chorar...
— Porque não? — Natsu perguntou sorrindo.
— Oras... Porque não! — Natsu riu quando Gray terminou a frase.
— É por isso que você está assim?
— Sim...
— Mas foi bom? — Natsu estava curioso.
— Foi... — Ele tentou pensar em uma palavra que explicasse aquilo — Foi muito intenso... — “É como se nossos corpos estivessem precisando um do outro desde sempre...” Ele apenas pensou a última frase já que era muito íntima para ser dita em voz alta.
— Hm... É cara, e como está agora?
— O clima entre a gente está constrangedor... Eu tenho que pedir desculpas de alguma forma, tem alguma ideia?
— Nenhuma... Desculpe não poder ajudar...
— Tudo bem, conversar já me ajudou um pouco, obrigado Natsu...
Natsu sorriu, sentia que seu sorriso não cabia em seus lábios, estava muito feliz por seu amigo voltar a falar sobre sua vida privada com ele. Não que antes ele não falasse, mas se fosse antes Natsu teria de perguntar e insistir muito se quisesse saber de algo.
Sorria também por mais dois motivos: primeiramente, Gray havia amadurecido, não estava mais vendo as mulheres como algo com quem se pode divertir-se e apenas isso e em segundo lugar, e mais importante que isso, Gray havia se apaixonado verdadeiramente, ele ainda não sabia e não estava pronto para admitir para si mesmo que amava Juvia, Natsu podia ver isso, mas ele estava com certeza sentindo amor pela companheira de apartamento, era muito simples perceber em seu olhar.
Natsu foi para sua sala e mandou Cana avisar para Juvia que ela iria almoçar com ele. Juvia não teve opção de recusa, por isso quando deu a hora do almoço e Natsu saiu correndo de sua sala como normalmente fazia deixou-se ser arrastada pelo furacão rosa que passou por ali.
Foram andando até um restaurante não muito longe do trabalho e depois que a garçonete trouxe a água de Natsu e a comida de Juvia o rapaz começou:
— Juvia-chan! — Natsu estava especialmente sorridente naquele dia, não que não fosse normalmente sempre feliz demais, mas estava ainda mais radiante naquele dia.
— Sim? — Juvia o incentivou a continuar.
— Sabe, hoje o Gray deu um passo muito importante!
— Porque você diz isso? — Juvia franziu as sobrancelhas.
— Ele quis conversar comigo! — Juvia sorriu feliz — Ele me contou sobre o que aconteceu ontem entre vocês...
Juvia parou de sorrir, suas bochechas adquiriram um tom avermelhado e ela abaixou sua cabeça. O que ele teria dito? Juvia tentou não pensar mais no assunto, porém apesar de não querer que Gray fosse até o fim, porque se sentiria usada e culpada, também não sabia o que significava ele ter parado. Porque ele não foi adiante? Ela não era boa o suficiente para que ele fosse até o fim? Ela não tinha o direito de tê-lo por ser somente uma secretária? Ela era desinteressante? Seu corpo não era sensual? O que havia de errado com ela?!
— Ele está se sentindo muito culpado por tê-la agarrado daquela forma... A Lucy me disse que você gosta dele, você já se confessou? — Natsu continuou o assunto.
— A-a Juvia se confessou há algum tempo...
— Ah, entendo...
— O que... O que você entende, Natsu-san? — Juvia perguntou confusa.
— Agora eu entendo porque ele pôde parar... Ele não queria magoá-la, não queria fazê-la se sentir como qualquer uma das outras mulheres que ele já pegou porque você é de alguma forma... — Queria usar a palavra “especial”, mas soaria tendencioso — diferente delas... Você é mais importante para ele e Gray não queria vê-la chorar, ele me disse isso hoje...
— Mesmo? — Juvia o olhou nos olhos e Natsu pôde ver que os da mulher estavam marejados.
Natsu estava feliz. Juvia parecia amar Gray também, ele podia ver que o sentimento dela era puro. E pensar que não havia gostado dela logo que a conheceu, mas toda a desconfiança que ainda tinha sobre a mulher se foi naquele mesmo instante, ao ver os olhos marejado dela.
— Sim! — Natsu sorriu. — Bem, eu só queria pedir que não o julgue pelo que ele fez, desfaça o clima ruim entre vocês, ok? —Natsu piscou o olho. — Eu tenho que almoçar em casa, só queria conversar um pouco, tenho que ir se não a Lucy vai me matar, Até mais Juvia-chan! — Ele acenou para ela e foi, deixando a mulher sozinha no restaurante.
Juvia ficou sozinha no restaurante com seus pensamentos, “Então o Gray-sama se importou com meus sentimentos? É por isso que ele não quis ir até o fim?” Juvia sorriu. “Isso é tão doce Gray-sama!”, a mulher comeu alegremente, pagou por sua comida e voltou para a empresa adentrando a sala do chefe com um sorriso.
— Gray-sama! — Ela falou chamando a atenção do rapaz.
— Juvia? — Com o susto ele quase derrubou um papel que estava olhando antes dela chegar .
— Você já comeu?
— Sim... Pedi para entregarem uma coisa aqui já que você não estava lá fora... A Cana me falou que você já tinha ido almoçar...
— Ah sim... Fui almoçar com a Levy-chan hoje... — Mentiu — Desculpe não ter te avisado
— Ok... — Gray pensou que o assunto acabaria ali, mas ela continuou a conversa.
— Gray-sama, como foi o trabalho até agora?
— Bem... Normal, estava só assinando umas coisas.
— Você tem uma reunião hoje ainda, Gray-sama!
— Ah sim com... — Ele tentava se lembrar do nome da mulher com quem teria a reunião daquele dia.
— Com a Camila-san, a dona de companhia de ar condicionados, lembra?
— Sim, sim. Obrigado por me lembrar do nome dela!
— Boa sorte na reunião, Gray-sama! — Ela sorriu e voltou para sua mesa.
Gray sorriu, ele ficou feliz vendo que ela o estava tratando como normalmente faria.
Tudo correu bem durante o resto do dia, Gray e Juvia não estavam mais naquele clima ruim e o dia havia sido normal. Naquela noite Juvia não dormiu novamente, ela precisava terminar o relatório. Estava trabalhando sentada em frente a sua mesa escrevendo, sua cabeça estava pendendo, seu corpo precisava dormir.
Gray estava passando pelo corredor, iria comer alguma coisa, sua barriga estava roncando e já que não conseguia dormir teria de dar um jeito nesse ronco. Foi passando pelo corredor que percebeu que a luz do quarto de Juvia estava ligada e a porta aberta, espiou lá dentro só para encontrar a mulher dormindo sobre o teclado do computador. Gray riu sem fazer som.
O rapaz pegou a mulher no colo com cuidado para não acordá-la e deitou-a na cama, cobriu-a até o pescoço e viu ela se mexer e sorrir dormindo. Gray foi até o computador e notou que havia a letra “n” escrita várias vezes, “ela devia estar com a cabeça bem em cima dessa letra”, ele riu com o pensamento e apagou os vários “n”, salvou o documento e olhou novamente para a mulher antes de apagar a luz e sair dali.
Juvia era linda. Não importava o que acontecesse ou a idade que ela tivesse, Gray sentiu que ela sempre seria de alguma forma a mais estonteante mulher que ele conheceria. Saiu dali e comeu dois ou três biscoitos de água e sal, escovou os dentes e voltou a deitar-se para dormir, porém o sono não veio. Tudo o que ele fez foi ficar deitado tentando se concentrar no pretume em que seu quarto estava.
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