Take My Heart -Em suas mãos tudo começou

11 Capítulo 10 - Sinceridade e apreensão


Notas iniciais
Desculpem pelo atraso! Prometi que postaria regularmente a cada mês, mas fiquei sem internet por uns dias, então não pude postar. Mas já estava pronto e aqui está!

Sinceridade e apreensão: “O que não pode ser escondido”

Darell acordou na manhã seguinte sentindo seu corpo endurecido – adormecera sentado em uma poltrona no salão principal enquanto aguardava o retorno de Henry com a menina.

Lentamente levantou-se sentindo um pouco de dor e alongou-se. Olhou a paisagem tomada por neblina além da janela curva e lembrou-se de não ter visto o amigo retornar na noite anterior. Preocupado, subiu a grande escadaria na direção do quarto do rapaz. Bateu na porta e não ouviu resposta.

– Henry, você está aí? – chamou, mas novamente não ouve resposta.

Ainda assim abriu a porta para verificar o cômodo. Nada. Nem sinal de Henry. A cama estava amarrotada do mesmo jeito que o rapaz a deixara depois da discussão entre os dois.

Darell começou a ficar preocupado, mas não se deu por satisfeito e foi verificar o quarto de Catherine. Desta vez não bateu à porta, mas abriu-a cuidadosamente. Para sua surpresa e alívio, encontrou o quarto ocupado, mas a cena à sua frente o deixou um pouco perplexo, apesar de satisfeito: Catherine estava deitada na cama, coberta por um grande acolchoado bege, dormindo profundamente e Henry estava sentado no assoalho de madeira junto à cama, com a cabeça deitada próxima ao travesseiro da menina; a sua mão entrelaçava a de Catherine e ambas seguravam-se firmemente.

Darell não sabia se deveria acordá-lo, mas acabou fazendo-o mesmo assim. Henry ainda vestia as roupas que utilizara na viagem, e aproximando-se do amigo, Darell tocou-lhe o ombro e percebeu que suas roupas estavam umedecidas e manchadas devido à busca da noite anterior. Preocupado, tocou-lhe o rosto e percebeu que a pele estava gélida e mais branca que o normal.

– Henry – chamou, apreensivo pela saúde do outro, mas não obteve resposta. – Henry, pelo amor de Deus, acorde! – implorou, sacudindo-lhe o ombro.

O rapaz abriu os olhos e virou-se para ver quem o chamava. Em seu rosto se via claramente exaustão e abatimento. Seus olhos estavam avermelhados e marcados por fortes olheiras.

– Henry! – exclamou Darell em voz baixa. – Você não pode mais ficar aqui... Você atingiu seu limite!

O rapaz olhou ao redor para identificar o cômodo e depois olhou para a frente, para o rosto adormecido de Cathie, e sentiu a garganta arder e o peito começar a doer simultaneamente.

– Darell, me ajude – pediu com a voz entorpecida, erguendo o braço livre. – Não vou conseguir me erguer sozinho... Não sinto minhas pernas...

O rapaz indiano passou o braço do amigo por cima do ombro e o alavancou com dificuldade. A outra mão ainda estava presa à de Catherine.

– Solte-a, Harry – pediu, sentindo uma leve relutância por parte do amigo. — Ela não vai a lugar algum. Venha vê-la depois de dormir um pouco.

Sem precisar de mais uma única palavra, soltou debilmente a pequena mão e se deixou ser arrastado porta afora.

Até o fim da manhã, Darell ajudou Henry com o banho e preparou a medicação que o rapaz precisava ingerir periodicamente para sanar algumas deficiências em seu organismo, juntamente com um cálice de líquido rubro. Depois disso, Henry não despertou por dois dias.

– Não acho que seja o melhor a fazer... – opinou Darell depois de tudo que ouvira. – Ela não deveria ser envolvida em mais nada.

– É inevitável.

Henry estava acordado, mas ainda fraco demais para levantar da cama. Quando despertou na manhã do terceiro dia, contou ao amigo sobre sua discussão com Linus – omitindo a parte sobre sua família.

– Mas ela é só uma criança! – protestou Darell.

– Acha que não sei disso? – a voz de Henry estava mortiça e precisava fazer esforço para ser ouvido. – Acha que não me opus a Linus exatamente para protege-la?

Darell não respondeu, pois não tinha como contra argumentar aquelas palavras. Henry suspirou, exausto.

– Se eu pudesse contornar esta situação, eu faria tudo ao meu alcance, mas se ele me garante que este é o único meio de protege-la, não há nada mais que eu possa fazer. Ainda preciso seguir ordens, apesar de tudo.

Novamente, Darell se manteve em silêncio. Lembrou-se de quando Henry o resgatara na França e do momento em que fora levado para conhecer o superior e os parceiros de ofício do rapaz. Sabia que não havia nada demais, mas conhecendo aquelas pessoas, também sabia que seria melhor que Catherine ficasse escondida para sempre.

– Não é que eu não confie neles. É só que...

– Tudo bem, Dhanesh – disse Henry, surpreendendo o amigo.

– Por que me chamou pelo meu antigo nome de repente? – questionou, intrigado.

– Porque este ainda é seu nome. Eu só o citei para lembra-lo de que você nunca deixou de ser você mesmo só por causa do que fizemos para te resgatar daquele lugar... Você recebeu um novo nome para que não fosse perseguido de forma alguma. Isso foi feito para protege-lo, você bem sabe – respondeu Henry, fechando os olhos. – O máximo que acredito que acontecerá à Catherine é algo parecido. Tenho certeza de que todos se afeiçoarão por ela.

Darell calou-se. Henry era absurdamente instável em aspectos emocionais, mas ele transmitia tanta segurança e solidez de caráter que era quase impossível não confiar nele.

– Acha mesmo? Concordo que ela seja cativante, mas acredita mesmo que isso será o máximo que farão a seu respeito?

Henry hesitou por um momento, abriu uma fresta entre as pálpebras e fitou o teto de seu quarto, reflexivo.

– Não consigo pensar em nada mais – respondeu, sem ter de fato alguma certeza a respeito do que viria a acontecer.

– Tudo bem, então. De qualquer maneira, impedir não está ao nosso alcance... Eles farão o que julgarem necessário.

Sem responder, sabendo que o amigo havia compreendido a situação, Henry voltou a fechar os olhos e adormeceu novamente.

Naquela noite Darell retornou ao quarto do amigo, carregando uma bandeja prateada com comida, bebida e medicação. Chegando lá, viu que Catherine havia chegado antes e estava posicionada ao lado da cama da mesma forma que Henry fizera na noite em que a encontrara. Por seu tronco ser menor, estava ajoelhada para alcançar a cabeceira e sua mão segurava a do rapaz. Catherine tomou um pequeno susto e se virou ao ouvir a porta se abrindo, mas logo tornou a virar depois de ver Darell segurando a bandeja.

– Ele vai ficar bem, senhorita Cathie – antecipou-se Darell, ao ver que a menina acariciava a franja loira de Henry.

Após alguns segundos, ela disse:

– A culpa é minha. Isso é tudo culpa minha.

Darell aproximou-se, largou a bandeja sobre o criado mudo e sentou em uma poltrona que havia ao lado da cama.

– Não é, não – respondeu. – O que a faz pensar isso?

– É culpa minha, sim. – soluçou a pequena. – Se eu não tivesse mexido na estufa da mãe do senhor Henry, isso não teria acontecido.

– Não é verdade – interrompeu Darell. – Fui eu quem lhe mostrou a estufa e deu a ideia de restaurá-la. Se tiver algum culpado por aqui, este sou eu.

Cathie soluçou novamente. Ela baixou a cabeça e a balançou de um lado ao outro.

– Mas se o senhor Henry não tivesse me encontrado, ele também não estaria mal assim. Mesmo que ele tenha me salvado, eu estou causando muitos infortúnios a ele! Primeiro no hospital... Embora eu não me lembre o que aconteceu, sei que ele me salvou novamente e ficou internado por causa disso. E agora isso – disse, fazendo carinho no ombro do rapaz. – Eu fiz isso com ele! Ele está mal novamente por minha causa! Eu não deveria estar aqui!

Tendo dito isso, soluçou mais e começou a chorar baixinho. Darell inclinou-se na sua direção e tocou-lhe o ombro de forma tranquilizadora, mas, antes que pudesse dizer algo, ambos foram surpreendidos por uma voz rouca.

– Se tem consciência de tudo isso, sua pequena encrenqueira – disse Henry, quase sem fôlego e soando muito fraco, como se cada palavra dita o exaurisse ainda mais – então, confie em mim e pare de falar bobagens.

O rapaz tossiu, alarmando um pouco os dois a sua frente, e continuou:

– Você não vai a lugar algum. Seu lugar agora é aqui, comigo e com Darell. – Com algum esforço, abriu uma fresta entre as pesadas pálpebras e olhou para a menina, sem virar a cabeça. – A menos que queira ir embora...

Darell encarou o amigo, surpreso por suas últimas palavras, sem ter certeza se ele estava suficientemente acordado para dizer qualquer coisa coerente.

– É o que você quer? Você quer ir embora?

Agora quem arregalou os olhos, ainda encharcados por lágrimas, foi Cathie. Sem saber o que dizer, tremeu os lábios e ficou abrindo e fechando a boca, sem pronunciar nada. Henry inspirou fundo e ficou olhando-a. Como nada foi dito, ele questionou novamente:

– Você quer ir embora? Não quer mais ficar conosco? – esta última pergunta fez a menina arregalar ainda mais os olhos e erguer os joelhos do chão. – Saiba que se quiser procurar pelo seu pai, mesmo que isso demore, ninguém vai impedi-la. Sua vontade será respeitada.

– Não, não! – ganiu a pequena, como um pequeno filhote sendo coagido. – Não quero ir embora! Gosto muito, muito de vocês, senhor Henry! Gosto muito daqui! Não quero ir! Não quero ficar sozinha!

– Então não diga aquelas bobagens novamente – respondeu o rapaz, tornando a fechar os olhos. – Não faça parecer como se você fosse responsável por tudo... Ainda faço minhas próprias escolhas e ainda tomo minhas próprias decisões...

Darell fez uma careta para as palavras do amigo, ponderando se este seria um momento adequado para mostrar autossuficiência, quando ouvir por fim:

– E eu não volto atrás com elas.

O indiano sorriu diante desta finalização. Achando oportuno que agora o outro estava acordado, aproveitou o embalo.

– Já que está com toda esta disposição para fazer um discursinho matinal, pode aproveitar e tomar o seu remédio.

– Urgh! – resmungou Henry baixinho, botando a língua para fora em sinal de repulsa.

– Pare de se comportar como uma criancinha mimada! Vai fazer isso até quando for um velho de bengala?

– Bem provável. E vou usá-la para bater em você.

Catherine assistia à repentina mudança de cena e olhou para Darell, tentando entender se tudo havia sido resolvido. Este deu-lhe uma piscadela e emboçou uma careta sorridente, tranquilizando-a. Logo um sorriso largo e sincero abriu-se no rosto da pequena em resposta.

– Faça como quiser – disse Darell, voltando-se para o amigo. – Eu trouxe comida também. Pelo menos hoje você vai comer algo.

– Mas não tenho fome! E minha garganta ainda parece uma lixa! – retrucou Henry.

– Sem recusas! Não vou sair até você terminar tudo que preparei!

– Está bem! Está bem! Você não é minha mãe nem meu tio!

– Então trate de se comportar como um adulto se não quiser que eu te amole!

Henry começou a sentar-se na cama, contrariado. Catherine observava a cena, divertindo-se com o intenso fluxo de respostas entre os dois. Achando que já era hora de se retirar, inclinou-se na direção de Henry e, antes que ele percebesse, abraçou-lhe o pescoço.

– O que...

– Obrigada! – sussurrou a menina no ouvido do rapaz. – Muito obrigada!

Sem esperar por qualquer respostar, Cathie virou-se e foi na direção da porta do quarto, atravessando-a rumo ao corredor.

Na manhã seguinte, Henry já se sentia disposto o suficiente para sair da cama e saracotear pela casa. Com isso, passou a maior parte da manhã no seu escritório (o grande cômodo isolado ao norte da mansão), redigindo cartas para Linus. Quase sempre que estava para finalizar alguma, esquecia de algo ou mudava de ideia quanto a algum detalhe e iniciava outra. Quando deu-se por satisfeito, estava cercado por bolas de papel amassado no chão e na mesa. Pediu a Darell que a enviasse, junto com alguns documentos que Linus havia rejeitado em sua primeira versão do relato de Henry sobre a missão.

Em pouco tempo recebeu a resposta de Linus, informando que iria receber o rapaz com sua nova protegida dentro de três dias na capital. Sabendo que não havia mais nada a ser feito, enviou Darell para a cidade para comprar algumas roupas para Cathie na companhia da mesma.

A viagem até a capital demoraria um dia inteiro, dependendo das circunstâncias. Sem aguentar a espera, Henry decidiu que partiriam mais cedo para chegar com um dia de antecedência ao encontro. Se fosse o caso, poderiam passar o tempo pela capital para mostra-la à pequena.

A viagem decorreu de forma agradável, pois o clima foi favorável e não ocorreu nenhum incidente. Catherine não adormecera em momento algum, fascinada com cada pequeno detalhe do trajeto; seu entusiasmo contagiou um pouco Darell (que decidira acompanhar a dupla no tal encontro), fazendo-o sorrir e interagir com alguns comentários para as reações de admiração da menina. Ela fazia comparações com sua casa na Inglaterra e, vez ou outra, com a dos tios na Dinamarca. Quanto a isso, os dois rapazes se entreolhavam apreensivos, esperando alguma recaída por parte dela, mas nada abalava o momento contemplativo de Cathie. Já na capital, Henry os encaminhou para o hotel onde sempre se hospedava em ocasiões como esta.

– Este é o Village Garden – disse para a menina, enquanto descarregavam as malas do Hispano-Suiza. – Sempre me hospedo aqui quando necessário.

Ao passarem pela porta dupla do enorme e requintado estabelecimento, Catherine logo percebeu um rapaz uniformizado vindo recebe-los.

– Senhor di Castle, seja bem-vindo novamente – cumprimentou. – Pretende ficar conosco por uma semana, como da última vez?

– Não, não pretendo ficar tanto tempo assim desta vez, Arlec – respondeu Henry, apertando a mão do sujeito. – Nem chegou a completar uma semana da última vez, meu caro.

– Se me permite, senhor Henry, às vezes parece que o senhor já faz parte da casa — comentou Arlec com um sorriso simpático.

– Espero não chegar a este ponto. Isso significaria minha submissão completa a esse meu trabalho ingrato e desgastante.

– O senhor Linus sabe ser exigente e inflexível quando quer – disse Arlec, fazendo uma careta conspiratória para Henry. – Venham, vou lhes mostrar seus quartos.

Depois de acomodarem Darell em uma suíte com Catherine (pois os dois rapazes concordaram em não deixa-la sozinha) e Henry em outra, saíram para mostrar as redondezas à menina. Passearam por parques, pâtisseries, floriculturas e lojas de todos os tipos – desde roupas até móveis. Henry decidiu se despedir mais cedo, dizendo que se sentia cansado e insistindo que os outros dois prosseguissem com o passeio. Com isso, Darell e Cathie voltaram para sua própria suíte ao entardecer, carregando alguns itens que haviam comprado, tanto para si quanto para a mansão em Diekirch. Darell gostava das especiarias e dos chás da capital, enquanto Catherine se encantou por tudo, embora tenha comprado apenas alguns petiscos para desfrutar como jantar no quarto. Disse que não conseguiria jantar apropriadamente, pois estava ansiosa com o dia seguinte. Achando melhor não força-la a nada, o rapaz indiano também atacou algumas guloseimas e pôs a pequena para dormir quando ela se deu por satisfeita. Depois disso, acompanhou Henry ao bar do hotel para conversar um pouco sobre o encontro do dia seguinte e acertar pequenos detalhes. Tendo tudo acertado, despediram-se e cada um retornou ao seu quarto para finalmente dormirem.

O sol mal havia manifestado suas cores no céu da nova manhã quando todos acordaram. A ansiedade era óbvia e quase palpável quando desceram até o saguão de refeições para o café da manhã. Ninguém disse nada durante o desjejum, apenas combinaram de se encontrar na ala de recepção do hotel para seguirem para o encontro.

O prédio onde ficava o escritório de Linus era tão grande e elegante quanto o Village Garden. A diferença óbvia era que o hotel exibia claridade por todos os lados e tinha suas portas abertas e convidativas aos clientes, enquanto este novo prédio, além da aparência mais sombria, mantinha suas portas de entrada muito bem trancadas. Catherine percebeu que apenas algumas janelas dos vários andares estavam abertas permitindo a entrada dos primeiros raios de luz do dia.

A caminhada do hotel até ali havia sido curta, mas era perceptível que algo, que não a distância, havia deixado os dois rapazes pálidos, mas Catherine não sabia o que era. Darell apenas segurava sua mão firme e silenciosamente, enquanto Henry guiava a pequena comitiva, tão silencioso quanto o primeiro. O rapaz bateu à grande porta logo que se aproximaram e, antes que Catherine pudesse contar os segundos, a porta se abriu, revelando um rosto masculino coberto por um capuz. Henry sussurrou algumas palavras para o estranho e este abriu-lhes passagem.

Embora sombrio por fora e gótico por dentro, o lugar pareceu muito aconchegante para Catherine. O salão de entrada era espaçoso e convidativo, revestido por um piso de mármore xadrez preto e branco e mobiliado com muitos móveis confortáveis sobre tapeçarias escarlates, como uma enorme sala de descanso. À frente, dividindo o ambiente e conduzindo ao primeiro andar superior, havia uma imensa escadaria de mármore negro também coberta por uma tapeçaria de tom rubro.

Enquanto admirava o esplendor do ambiente, Catherine não percebeu que ela mesma estava sendo observada. Até aquele momento a menina não reparara nas pessoas que circulavam pelo lugar. Homens e mulheres que antes ocupavam-se em rodas de conversas pequenas, alguns sentados e outros não, pararam para observar a pequena comitiva que acabara de chegar. Alguns acenaram ao reconhecerem Henry no grupo, outros se aproximaram para cumprimenta-lo, assim como a Darell, sorrindo para ambos e perguntando amenidades. Não prestaram atenção imediata em Catherine, mas a menina percebeu que havia aqueles que se mantinham afastados e a observavam com curiosidade. Os mais educados que haviam se aproximado, ao perceberem a presença da pequena, começaram a questionar timidamente sobre ela. Henry desconversou todas as investidas que lhe fizeram e pediu a Darell que aguardasse com a menina enquanto subia pela escadaria para encontrar Linus e avisar de sua chegada.

Durante o breve período em que o rapaz se ausentou, Catherine ouviu um murmúrio crescente ao seu redor, mas não conseguiu compreender muito o que estava sendo dito.

– Será? Mas é tão pequena...

– Tamanho e forma não significam nada quando se trata de um familiar...

– Mas nunca imaginei que Henry conseguiria ter um novo familiar depois do que aconteceu...

– Isso não limita nada. Até onde sei, a existência do familiar só depende da força de cada um... Se ele conseguiu obter mais um, isso só prova o que já sabemos a seu respeito...

– Sim. Di Castle não é daqueles que se pode tomar como fraco...

– A elite realmente tem poderes que não se encontra em qualquer lugar, não é?!

– Quem diria... Depois de tanto tempo...

Confusa, Catherine olhou para Darell em busca de algum sinal ou resposta que pudesse fazê-la compreender o que tudo aquilo significava, mas ficou surpresa quando percebeu que o rapaz estava tenso, olhando para todos os lados freneticamente sem mover a cabeça, como se aquelas conversas o deixassem muito desconfortável, pronto para sair pelas portas que acabaram de atravessar. Ainda mais confusa, Cathie fez uma tentativa, puxando a manga do casaco de Darell.

– Senhor Darell, o que é um familiar? Do que eles estão falando? Por que estão olhando tanto para nós?

Assaltado pela pergunta repentina, o indiano ficou ainda mais desconfortável e pareceu encurralado. Toda essa conversa é um mal entendido... Eles estão distorcendo os fatos! pensou ele. O que devo dizer a ela? Isso é um aspecto da vida de Henry que está fora do meu alcance de explicação... Olhou para a menina de forma desanimada e depois fechou os olhos com força, como se estivesse sentindo dor. Alguma coisa estava errada, e a menina percebia isso claramente.

– Bem, isso... é... ahm... um familiar é...

Sem conseguir formular uma frase para responder à menina, Darell foi surpreendido pela volta de Henry, que tomou a mão da pequena na sua e levou-a escadaria acima, dizendo apenas:

– Linus vai nos receber agora. Espere-nos aqui. Por que não encontra algum conhecido para conversar e passar o tempo?

Ainda tenso, Darell agarrou o braço de Henry e murmurou com seriedade em seu ouvido:

– Passar o tempo e tentar reverter a distorção de realidade desses fofoqueiros!

– Do que está falando?

– Esse bando de desinformados está distorcendo tudo – rosnou Darell. – Acham que Cathie é sua nova familiar!

Com a nova informação, Henry pareceu ter levado uma facada na boca do estômago. Seu rosto ficou sombrio e seu corpo enrijeceu, prendendo com força a mão de Catherine. Com a pressão, ela soltou um gemido baixo de dor, o que chamou a atenção dos dois rapazes e fez Henry aliviar a pressão do punho.

– Desculpe – disse ele, logo virando-se para Darell em tom conspiratório e grave. – Tente desfazer esse mal entendido, por favor. Era só o que me faltava virar fofoca desses intrometidos justamente quanto a este assunto. Tente explicar a situação para que eu mesmo não tenha que tomar providências mais sérias. Não vou tolerar esse tipo de boato se espalhando por aí!

Dito isso, virou-se e seguiu para o andar superior com a menina, enquanto Darell se encaminhava para um grupo de pessoas com passos pesados.

Sendo puxada pelos vários lances de escada acima, Catherine começou a ofegar.

– Senhor Henry, mais devagar, por favor – disse com dificuldade.

Henry parou subitamente e virou-se para olha-la.

– Desculpe a pressa. Só quero que tudo termine logo. Não quero mais ficar aqui.

– Aquelas pessoas o incomodaram? O senhor às conhece?

– Sim, conheço todos aqui, mas tem algumas pessoas que sabem ser inconvenientes quando querem.

Depois disso, Cathie achou melhor segui-lo em silêncio. Após seis lances de escadas, chegaram a um corredor escuro, onde a menina precisou ser guiada para não tropeçar na escuridão. Ao fim do corredor, pararam diante de uma porta negra. Henry ficou parado por alguns segundos, onde a única coisa perceptível era sua respiração e sua mão rígida sobre a de Catherine.

– Vai dar tudo certo, Henry – arriscou ela, colocando sua outra mãozinha sobre a do rapaz, o que o fez sobressaltar-se com a surpresa.

Com um suspiro, Henry aliviou sua tensão e bateu à porta.

– Sim, vai dar tudo certo.

– Entre! – disse uma voz vinda de dentro da sala.

Henry abriu a porta e ambos adentraram no grande escritório de Linus.

– Bem-vindos – saudou Linus de sua mesa ao canto direito da sala.

– Oi, Linus – disse Henry friamente após alguns segundos.

A sala estava mais iluminada que da última vez em que o rapaz esteve ali, com muitas das cortinas negras abertas, embora seu proprietário estivesse novamente escondido nas sombras. A cortina ao lado de sua mesa estava fechada, lançando quase todo o lado direito da sala na escuridão total.

– Aproximem-se.

Henry posicionou-se à frente de Catherine enquanto avançavam na direção da voz.

– Não precisa ser tão protetor – comentou Linus, divertido. – Eu não mordo.

– Isso é questionável – retrucou Henry, parando a mais ou menos um metro da mesa.

– Menos drama, rapaz. Deixe-me vê-la – pediu.

Como Henry não se moveu de onde estava, Linus acendeu a luz de sua luminária sobre a mesa, deixando visível apenas sua boca.

– Não dificulte as coisas, Harry. Eu só quero conhecê-la – disse. – Foi para isso, afinal, que marcamos este encontro.

Henry ainda relutava em se mover, mas Catherine adiantou-se e contornou o corpo do rapaz, parando logo à sua frente.

– Ora, olá minha cara – cumprimentou Linus alegremente. – Parece que pelo menos a pequena dama aqui tem bons modos – retaliou para Henry.

O rapaz grunhiu e pôs as mãos firmemente sobre os ombros da menina.

– Aproxime-se – convidou o homem.

Sem titubear, Cathie deu alguns passos à frente com dificuldade por causa da pressão em seus ombros, parando junto à enorme mesa de mogno escuro.

– Olá, senhor Linus – cumprimentou com uma leve mesura, cruzando os joelhos e segurando o vestido de cor marfim.

– Muito educada, minha cara – admirou-se Linus, sorrindo para o ato. – Está com medo?

– Não.

– Educada e corajosa... Eis aqui uma legítima dama da alta sociedade – elogiou, estendendo a mão à frente como se estivesse apresentando a pequena em algum baile.

– Obrigada, senhor – agradeceu, com uma nova reverência.

Linus recostou-se em sua grande cadeira, deixando à vista agora apenas suas mãos sobres os braços acolchoados do móvel. Seus dedos tamborilavam silenciosamente quando disse:

– Henry, deixe-nos a sós agora.

O rapaz tornou a enrijecer e puxou a pequena para trás de si.

– Não – rosnou.

– Não é você quem decide.

– Não vou deixa-la sozinha com você.

– Não tem escolha. Se não se retirar por conta própria, serei obrigado a solicitar que seja escoltado até a rua.

– Seu...

Catherine percebeu que Henry estava prestes a explodir, então fez aquilo que achou melhor: abraçou a cintura do rapaz por trás, semelhantemente ao que fizera quando se encontraram pela primeira vez, e sussurrou.

– Vou ficar bem.

Henry congelou, mas logo se recuperou e virou para trás.

– Vou ficar bem – repetiu Cathie.

– Mas...

– Ela tem razão – interrompeu Linus. – Nada vai acontecer a ela. Não se esqueça de que o objetivo deste encontro é justamente para o bem dela... Não posso proteger aquilo que desconheço.

– EU sou o protetor dela – grunhiu Henry.

– Não vou questionar isso, mas todo cuidado é pouco. Lembre-se.

Contrariado, o rapaz deu-se por vencido e abaixou um joelho até o chão para poder olhar a menina nos olhos.

– Se alguma coisa acontecer, qualquer coisa, me chame – pediu, colocando as mãos novamente nos ombros da pequena. – Até se ficar com medo.

– Nada vai acontecer a ela, seu dramático – retrucou Linus.

– É só chamar pelo meu nome, está bem? – continuou Henry, ignorando o outro.

Cathie sorriu abertamente e abraçou o pescoço do rapaz, que desta vez retribuiu o gesto. Linus esperou pacientemente até que Henry saísse da sala e se afastasse pelo corredor para recomeçar a falar.

– Está com medo de mim? – perguntou mais uma vez.

– Não, senhor.

– Que bom, pois eu ficaria muito triste...

– Triste, senhor?

– Sim, eu ficaria profundamente triste se você não me reconhecesse...

Catherine ficou imediatamente confusa, pois nunca vira o chefe de Henry antes.

– Mas, senhor, nunca nos vimos antes – disse observando atentamente à escuridão que envolvia o homem. – Não creio que eu o conheça...

– Oh, sinto muito – respondeu Linus, levantando-se da cadeira. – Fica impossível me reconhecer desse jeito, de fato.

Linus contornou a mesa pelo lado oposto à janela fechada, o que surpreendeu a menina e a fez recuar alguns passos.

– Ora, não precisa ter medo – riu o homem. – Eu lhes disse que não ia fazer nada, não disse?

Catherine, recuada quase até uma das enormes janelas da sala, ficou observando os contornos do homem se tornarem mais definidos conforme ele andava na sua direção e era atingido pela luz do dia. Ele vestia um terno cinza escuro com risca giz e tinha cabelos negros e lisos até pouco abaixo dos ombros. Quando finalmente visualizou seu rosto, Catherine arquejou.

– Tio Lionel?

Linus começou a rir e se abaixou, abrindo os braços e convidando a pequena para um abraço.

– Como vai, minha querida Cathie?

Emocionada, a menina disparou em direção ao abraço, apertando fortemente os bracinhos ao redor do pescoço do homem.

– Tio Lionel!

Notas finais
E aos poucos as explicações que vocês queriam vão entrando em cena! Gosto de fazer surpresas e revelações com um pequeno toque de drama. Tam tam tammm! Ok, parei! Espero que tenham gostado e continuem acompanhando ;) Até o próximo capítulo! Bjs