Take Me Away
4 The Challenge
Notas iniciais
Emily entrou na cabine e agradeceu mentalmente pela lamparina acesa ali; ela não havia reparado nela da primeira vez que entrou. Ouviu a porta sendo fechada atrás de si, e logo depois o estalo da tranca. Suspirou aliviada por finalmente ter um pouco de privacidade, mesmo que temporária.
Caminhou pela cabine observando como tudo ficava diferente à luz do fogo, ainda mais aconchegante. Foi até o banheiro do Capitão, mais uma vez ficando feliz por ter que dividi-lo só com um homem ao invés de um bando deles. Considerou dormir com seu pesado vestido marrom, mas este estava sujo e cheirando à comida. Ela o retirou, decidindo que sua roupa de baixo era suficiente para dormir; era quase um vestido, também comprido, com mangas que iam até seus cotovelos e de linho branco. Ela tinha apenas o vestido que usava e um reserva em sua maleta, e a viagem seria longa.
Deixou o vestido em cima da maleta, e com alguma dificuldade conseguiu deitar-se na rede. Era confortável, apesar de fazer seu enjoo piorar um pouco. Ela puxou a capa de couro e se cobriu, dormindo em seguida, mais exausta do que havia percebido.
Horas se passaram até que Killian deixasse Smee no comando e fosse dormir. Estava cansado e distraído, e demorou um momento para lembrar da garota dormindo em sua rede. Parou ao seu lado e a observou em silêncio, tentando imaginar um motivo que faria uma garota dessas se desesperar a ponto de implorar por essa viagem. Por fim, desistiu de perder seu precioso tempo de sono com conjecturas que não o levariam à lugar algum.
***
Emily despertou com a claridade que entrava pela janela, ela descobriu com um grunhido que a luz batia diretamente na rede. Ela ouviu a respiração pesada do Capitão e ergueu a cabeça na tentativa de vê-lo, usando uma das mãos para proteger os olhos do sol, e a outra para se apoiar na rede. Ela se espantou ao ver o Capitão dormindo serenamente, mas nu da cintura para cima, e realmente esperava que houvesse uma calça por baixo daquele lençol. Apesar de ter que admitir para si mesma que a visão não era nada ruim...
Ela corou ao notar esse pensamento, e sacudiu a cabeça para espantar o pensamento, como sempre fazia. Porém, ao fazer esse movimento, a moça se desequilibrou e caiu da rede, produzindo um baque alto e soltando um gemido de dor.
Killian acordou de sobressalto, pulando da cama e agarrando sua espada rapidamente. Em alguns segundos notou que era apenas Emily, e não um invasor, que o assustara.
Ela se sentou apesar da dor no corpo, pois seria ainda mais humilhante ficar estirada no chão. Ele a encarou em silêncio por um momento, tentando compreender a cena. Ela desviou o olhar de seu corpo musculoso para o chão, aliviada que ele realmente estivesse usando uma calça.
Killian tentou parecer sério, sem muito sucesso.
– Você.. Hmm.. Caiu da rede? Parece que o dia não começou tão bem.
Emily respirou fundo para conter sua raiva quando ouviu a risada dele. Rindo dela.
Sentiu a dor irradiando por seu braço, e viu que seu antebraço esquerdo estava ralado e bem vermelho. Fingindo não se importar, tentou se levantar do chão, e sentiu a dor forte também em seus joelhos, que sofreram no impacto.
Killian ainda ria enquanto se virava para guardar a espada, e não se ofereceu para ajudá-la, nem notou que estava machucada.
Emily pegou seu vestido da noite anterior e entrou rapidamente no banheiro, feliz que pelo menos o Capitão não teria tempo de encará-la sem estar vestida propriamente.
Quando terminou de se vestir e refazer sua trança da noite anterior, teve que respirar fundo para criar coragem de sair dali e encará-lo sem morrer de vergonha. Ele estava do outro lado da cabine, mexendo em alguns papéis, de costas para ela. Pelo menos já estava vestido.
– Eu sinto muito por acordá-lo, Capitão. — Disse com a voz mais neutra que conseguiu, sem demonstrar sua irritação pelo comportamento do homem. — Vou descer para a cozinha. Com licença.
Ela passou ao lado dele, que ainda mexia nos papéis como se não notasse a presença dela, indo até a porta da cabine. Ela achou que ele fosse simplesmente ignorá-la, mas enquanto saía pode ouvi-lo dizer "Espero que tenha apreciado a vista".
Emily ainda podia sentir o calor no rosto quando chegou na cozinha, e Peter reparou no mesmo momento em que a olhou para dizer bom dia.
– Você está tão vermelha! Aconteceu alguma coisa? Alguém mexeu com você?
– Ah.. Não.. Está tudo bem. — Ela tentou parecer tranquila, mas estava constrangida demais para ser convincente. Nem havia reparado se os homens no convés haviam mexido com ela ou não.
– Pode me falar, eu darei uma lição em quem quer que seja.
Seu rosto foi voltando ao normal, e ela conseguiu convencê-lo de que estava bem.
– Tudo bem então, se você diz que não foi nada.. — Peter começou a separar os alimentos que usaria hoje — Como foi a noite? Espero que Killian não tenha te incomodado com os roncos dele.
Pronto. Lá estava o vermelho-pimentão novamente. Como ela odiava sua facilidade para corar.
– Ele.. Ele não ronca. — Ela começou a ajudá-lo a cortar os vegetais, como no dia anterior, torcendo para que ele mudasse de assunto logo e começasse a contar suas histórias como pirata.
– O que foi?
– Nada. Ele só é um pouco.. Excêntrico.
Peter riu.
– Você quer dizer "estranho". Sim, ele tem um jeito diferente, e muitas vezes difícil de lidar.
Ela concordou, e para seu alívio Peter logo mudou de assunto. Estava muito satisfeita em trabalhar na cozinha; tinha muito a aprender, mas o trabalho não era pesado e ainda podia ficar perto de Peter, que era tão gentil com ela.
***
Os dias passaram rápido, e assim Emily completou sua primeira semana no navio. As refeições eram barulhentas, porém tranquilas, e a cada dia ela ficava melhor na cozinha. Os homens costumavam deixá-la em paz (o aviso de Wesley havia surtido efeito) e só a olhavam de longe. O Capitão a ignorava desde o incidente da rede, mas ela repetia para si mesma que era melhor ser ignorada que destratada.
Todos os dias ela ia dormir mais cedo que ele, e se acostumou a acordar mais cedo também, de modo que já estivesse na cozinha quando ele acordasse. Ela passava as refeições em silêncio, mas conversava com James durante seu almoço e jantar (enquanto Peter geralmente arrumava o estoque e planejava as refeições futuras), e com Peter o resto do dia; os dois não a deixavam se sentir solitária. As histórias que eles a contavam eram aventuras fantásticas, e ela nunca se cansava de ouvi-las.
– ... E apesar de serem quase dez homens para cada um de nós, não havia exército real que pudesse derrotar nossa tripulação! Cada um pegou sua espada decidido a lutar mais pelo tesouro do que pela própria vida! Nos cercaram e então...
– JAMES.
James e Emily se viraram assustados para a porta da cozinha, de onde o Capitão gritara. Ambos estavam tão concentrados na história que nem o ouviram descendo a escada.
– Sim?
– Já terminou seu jantar?
– Já, eu só estava..
– Perdendo tempo entretendo a mini cozinheira, eu notei.
– Eu estava conversando com a Emily. — Respondeu James, categórico. Ele não concordava com a hostilidade do amigo, mas o conhecia bem o suficiente para saber que não valia a pena brigar com ele a cada vez que fosse mal educado.
– Foi o que eu disse. Como já sabe, estamos chegando na Ilha das Conchas, e vamos fazer uma parada para esticar as pernas. Assuma o comando enquanto eu vigio o descarregamento.
– Aye. Já vou subir.
Killian notou que o amigo realmente não ia segui-lo imediatamente, e deixou pra lá. Voltou para seu amado timão, feliz por pararem por essa noite.
– "Esticar as pernas"? — Perguntou Emily com um meio sorriso sarcástico.
– Você sabe.. Diminuir um pouco o estoque de rum. — Respondeu James rindo — Killian não permite que os homens fiquem bêbados a bordo, então ficam loucos para beberem de verdade em terra firme. Amanhã mesmo já vamos retomar a viagem.
O Capitão e Smee estimavam que levariam cerca de três meses para chegar ao portal, lá pelo início do inverno.
Emily se levantou com o prato de James e foi até a cozinha limpá-lo, e ele a seguiu para terminar a história.
Em pouco tempo ouviram os gritos de Killian para que soltassem a âncora, e o navio balançou bastante antes de parar. O enjoo, até então esquecido, voltou imediatamente, fazendo Emily ficar ainda mais pálida que o normal, e suar frio.
James tentou ajudá-la, colocando um pano úmido em sua testa, mas ela só voltou ao normal alguns minutos após a parada do navio.
Os dois subiram para o convés, e viram que os marujos já preparavam os botes, enchendo-os de garrafas de rum, enquanto Killian gritava ordens para todos.
James foi até o timão para evitar que o navio se mexesse muito durante o descarregamento, e chamou Emily para admirar a vista lá de cima. A garota ficou encantada com a beleza da ilha, apesar de estar anoitecendo. A água era cristalina e a areia bem clara, e a pequena ilha era tomada por árvores tropicais. Alguns dos homens já estavam lá, e logo fizeram uma fogueira para se aquecerem durante a noite.
Após cerca de uma hora os marujos e o rum já estavam na ilha, e Pietro voltou com um dos botes para levar James e Emily. Ela não tinha certeza se iria ou não, mas após ver a bela ilha de longe não poderia deixar de conhecê-la pessoalmente.
Tomou cuidado para descer a escada de cordas na lateral do navio, desejando que usasse uma calça como os homens, mas conseguiu chegar ao bote. Sua ansiedade crescia a cada remada dos homens, ela mal podia esperar para pisar na areia.
Pietro desceu quando a água não passava de suas botas, e com a ajuda de outros dois marujos puxou o bote até a areia. James agradeceu o amigo e ajudou Emily a sair do bote. Só então ela percebeu que não era areia clarinha que ela tinha visto, mas inúmeras pequenas conchas brancas que cobriam a areia amarela. Antes que pudesse se conter, abaixou-se e encheu as mãos com as conchinhas, trazendo-as para perto do rosto para observar melhor. A fogueira dava um tom especial para elas, quase brilhavam.
– Bem vinda à Ilha das Conchas. — Disse James, sorrindo ao ver a felicidade dela com algo tão simples.
– Muito bem, mates! Estão todos aqui, FINALMENTE! — Killian se aproximou com uma garrafa de rum na mão, e gesticulando com o gancho — É hora de aproveitar a noite de folga, vamos beber!
A maioria dos marujos já tinha uma garrafa em mãos, e estavam se acomodando em troncos caídos e pedras ao redor da fogueira. Emily acompanhou James e Pietro até um grande tronco onde Peter já estava bebendo, e se sentaram ali. Enquanto os homens brindavam e começavam a beber, ela se inclinou um pouco para trás e ficou observando as estrelas, um costume que ela tinha desde pequena. Podia nomear qualquer constelação, e ficar apenas olhando-as por horas.
Era o que pretendia fazer, até que um certo Capitão se sentou ao seu lado.
– A donzela não vai beber? — Perguntou de modo debochado — Não acredito que vai fazer uma viagem em um navio pirata e não experimentar rum!
Ele esticou sua garrafa para ela, com um olhar de desafio. Emily encarou seus olhos azuis por um momento; sabia que não devia, mas ela não negava desafios.
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