Tainted Garden
2 Cursed Fate.
Notas iniciais
Afinal de contas, este é um destino pior do que a própria morte.
O meu destino.
Não me recordava exactamente do que havia acontecido. Estava deitado numa cama e a minha visão estava meio turva. Antes de a minha visão se habituar à escuridão, ouvi uma voz conhecida. Podia identificar rapidamente aquele som sereno e sério de Lucine.
– Parece que finalmente acordaste. Levaste mais tempo do que Rubia havia dito…talvez Vance estivesse certo…
– R-Rubia? V-Vance? – Senti a minha voz falhar. Estava fraco, mas as minhas memórias ainda estavam todas turvas.
Lucine acendeu uma vela, e eu sentei-me lentamente enquanto ela o fazia. Mas quando olhei para ela, senti-me tonto e levei a mão à cara.
– Dois dos vampiros que viste na entrada.
Arregalei os olhos assim que as minhas memórias voltaram por completo e levei a minha mão ao meu pescoço. Como seria de esperar, tinha duas feridas feitas por caninos neste.
– Ainda não sei o teu nome. – Ela disse, segurando um lampião com a vela acesa. Desviei o meu olhar novamente.
– Tachibana…Akira.
Tentei olhar para ela novamente, mas sempre que o fazia a minha cabeça começava a doer. Era quase como se…
– Vais deixar de poder ir à rua durante uns tempos. Senão irás atacar qualquer pessoa que se aproxime de ti.
Deixar de ir à rua? Atacar qualquer pessoa? O que raios…
Desta vez, foi ela que desviou o olhar por uns segundos. – Astraea decidiu tornar-te um meio vampiro.
– Meio vampiro?
– Sim. – Ela respirou fundo e olhou para a única janela do quarto onde nos encontrávamos. – Cada vampiro tem o seu próprio meio vampiro. A tarefa dos meios vampiros é dar o seu sangue ao seu mestre vampiro quando este estiver com sede e não houver meio de a satisfazer com humanos.
– Então…eu sou o meio vampiro de quem?
Lucine ficou em silêncio durante alguns segundos. – O meu. Astraea sempre insistira que todos deveriam ter um meio vampiro. Eu nunca tive nenhum.
– Astr–
– Nunca a trates pelo primeiro nome, apenas vampiros podem fazer isso. Astraea é a vampira com mais poder em toda a parte do mundo. Todos os vampiros a respeitam, e aqueles que ousam desrespeitá-la são seriamente punidos. Os meio vampiros referem-se a ela como Maiden Astraea.
– Maiden…Astraea… – Murmurei, cruzando os braços em cima das pernas.
– Todas as ordens de Astraea são absolutas. Lembra-te disso.
– Está bem. Mas há outras coisas que quero saber. – Lucine olhou para mim, como se esperasse que eu falasse. – Como…meio vampiros…nós já não somos humanos, não é? Então…o que é que eu faço agora? Eu não quero simplesmente largar a minha vida. Eu gosto da minha profissão e–
– Assim que saíres à rua, vais morder a primeira pessoa que encontrares…por isso o melhor que tens a fazer é largar a tua vida actual. – Ela fez uma pausa, como se esperasse que eu dissesse alguma coisa. Apenas olhei para a janela, com um ar pensativo. – Por muito que te esforces, isso é algo que não consegues impedir. E vais ficar tão necessitado do sangue que vais acabar por revelar a nossa identidade aos humanos. E aí…não teremos outra opção a não ser eliminar-te.
– Existe alguma maneira de viver sem beber sangue?
Lucine pousou o lampião sobre a mesa que se encontrava no canto do quarto e pegou num copo com água. Delicadamente, pegou num comprimido que se encontrava ao lado deste e colocou-o lá dentro. Rapidamente, a água ficou vermelha, e ela estendeu-me o copo. – Comprimidos de sangue. Mas…eles não duram para sempre. Depende da tua tolerância com os comprimidos, mas o geral é necessitar de sangue cinco vezes por ano. Eu apenas necessito de duas, por isso é algo que varia de pessoa para pessoa.
Levei as mãos à cabeça e suspirei. Na verdade, eu estava em pânico, com vontade de sair dali a correr. De me beliscar, e ver que aquilo tudo era apenas um mau sonho e que estava tudo bem comigo. Mas não poderia fazer isso, porque não era um sonho.
Era a realidade.
– Então…acho que isto vai ser divertido… – Tentei dizer no tom mais alegre que consegui.
– …desculpa. Por minha culpa, estás preso num destino pior que a morte. Eu sabia que não me devia relacionar com humanos, e ao mesmo tempo…
Pela primeira vez, consegui olhar para ela sem me sentir mal. Antes de lhe responder, tirei-lhe o copo das mãos e bebi o conteúdo, sem hesitar. Assim que terminei, olhei para ela novamente.
– Estou aqui porque quis. E ser um vampiro tem que ser divertido de alguma maneira, não?
– Este é o meu destino amaldiçoado, e acabou por ser o teu também... – Ela suspirou e abriu a porta. – Na mesa está uma garrafa de água e três comprimidos de sangue. Irei ver Astraea hoje e por esse motivo, ficas por conta própria. Se te sentires mal, toma os comprimidos. Mas não te atrevas a sair deste quarto, ou as coisas podem ficar complicadas.
– Lucine. – Ela manteve-se na mesma posição. – É normal sentirmo-nos estranhos quando olhamos para outras pessoas?
– …sim. Por isso é que deves desistir da tua vida de humano. Apenas vais conseguir cheirar o sangue das pessoas que passam ao pé de ti, e sentir uma vontade dominadora de afundares as tuas presas nelas. E vai demorar até te habituares.
– Então, tu és uma meia vampira também?
– Não. Mas já eliminei vários meio vampiros que se perderam na escuridão deste caminho. – Ela olhou para trás e forçou um pequeno sorriso. – Boa noite, Akira.
– Boa noite…
Ela fechou a porta, e eu voltei a deitar-me. Todas estas coisas pareciam novas para mim, e nada como deitar-me para pensar nisto tudo.
Maiden Astraea.
Parecia meio irónico que a suposta chefe suprema dos vampiros fosse conhecida como “Maiden”. Os vampiros costumam ser conhecidos como seres cheios de desejos impuros. Maiden Astraea parecia demasiado puro e inocente para alguém que governa tanta impureza.
Mas ela era a menor das minhas preocupações. A minha súbita mudança de vida era mais importante. Se eu não me podia encontrar com pessoas, significa que não posso também voltar à minha casa, ou eventualmente ficaria a morar sozinho no prédio por devorar os meus vizinhos. Mas também não podia ficar aqui. Ou será que, como meio vampiro de Lucine, este era o meu destino?
Não sei como irá ser daqui para a frente. Serei obrigado a beber uma das coisas que me dá mais medo, e não vou poder fazer nada contra isso. Terei que devorar humanos umas cinco vezes por ano para saciar a sede, ou então cairei nas profundezas e começarei a devorar qualquer um que me apareça à frente.
Ah, agora eu entendia. O porquê do destino amaldiçoado.
Este era o meu destino amaldiçoado, tal como o de Lucine.
Querer morrer, e ao mesmo tempo não puder.
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