Tainted
1 Dancing in the Dark
Notas iniciais
Subiu o zíper, virando-se na lateral do espelho do banheiro. Voltou-se à frontal, bagunçando os cabelos curtos sobre os ombros enquanto treinava sorrisos e expressões que a fizessem parecer entrosada e charmosa.
Não era bem assim que ela se via.
Checou o busto, quadril, e a curva da cintura. Analisou os músculos das pernas torneadas, vendo qual postura faria com que os saltos a realçassem mais.
Largou tudo de lado, soltando a respiração dos pulmões e debruçando-se sobre a pia. Não era uma boa ideia. Sabia disso. Não tinha ideia de como Hinata havia conseguido convencê-la a ir, mas depois de todas as horas dedicadas a produção não poderia simplesmente desistir.
Sakura cruzou os braços e recostou-se sobre a porta fechada. Ainda poderia desistir. Inventar uma enfermidade, forçar a voz para soar rouca e pronto. Livre de uma noite de constrangimentos e estranhos a olhando torto por ser estrangeira.
Seu celular vibrou sobre a pia fazendo um som que a fez pular e seu coração parar por um ou dois instantes. Quase o deixou cair quando o tomou em mãos, mas conseguiu atender antes que outro desastre acontecesse.
- Alô? – forçou a voz para que saísse completamente normal.
- Você já tá pronta, né? Já são oito horas! – Hinata, que sempre fora tão calma e compreensiva desde que Sakura se mudara, parecia exasperada e animada.
- A-ah, sim! Sim, estou. – ela repousou a mão sobre a testa, se contendo para não gaguejar novamente. Como havia deixado a hora passar tão rápido?
- Maravilha. Pode descer, já estou passando aí.
Desligou o telefone, enrijecendo a postura e respirando fundo, tirando coragem dos confins de sua alma. Era só uma festa universitária! O que poderia dar errado?
Saiu do banheiro, dando logo de cara com seu cachorro deitado sobre sua cama. Drogo – seu cão – era um vira-lata preto com um córrego branco no pescoço. Peludo e de orelhas baixas, não era tão Drogo quanto o dragão de Game of Thrones, mas a intenção estava lá.
Fez uma carícia sobre a cabeça e saiu do apartamento que fazia jus ao nome. Apertado.
Entrou no elevador, dando uma última checada no espelho. Estava bonita. Digna de ser notada por algum cara legal. Ou pelo menos ela esperava. Saindo do hall de entrada de seu novo prédio, encontrou o sedã preto de Hinata parado no meio-fio da rua, e a amiga buzinou ao vê-la.
Sakura trotou graciosamente até o carro, entrando para se sentar no banco da frente.
- Pontual. – Hinata complementou, começando a dirigir assim que Sakura ajustou o cinto de segurança.
Deu uma boa olhada na amiga. Hinata era corpulenta, e sabia fazer bom uso disso. Ajustou-se com um vestido azul com decote forte e saltos enormes. Sakura colocou disfarçadamente as mãos sobre seu próprio busto. Talvez pudesse ter abusado um pouco mais.
- Onde é essa festa?
- Grove Street. Faz esquina com Rockford Boulevard, sabe onde é?
- Mais ou menos. Todos esses nomes de ruas ainda me deixam meio confusa.
- Fora de eixo? Relaxe, é a coisa mais normal do mundo. Quando me mudei para cá ficava perdida só em ir à mercearia buscar leite ou ovos. Depois de um tempo você vai se acostumando. Minha dica é saia o quanto mais puder. Vai fazer que se acostume mais rápido.
Sakura arqueou as sobrancelhas, recostando a cabeça sobre o banco e olhando pela janela. Se for desse jeito, vai levar um bom tempo pra me acostumar.
Depois de uma corrida não muito grande, as luzes refletidas no Rio Chicago começaram a aparecer. Então a festa seria em Marina City? Maravilha.
O sedã parou no meio-fio junto a vários outros carros, em frente a uma casa de dois andares grande, iluminada e com um som estrondosamente alto.
Ela desceu do carro tendo cuidado para não tropeçar no salto. Agarrou-se a Hinata como se sua vida dependesse disso e as duas entraram.
Era o clichê americano.
Algumas garotas com roupas exotéricas brincavam em um jogo de dança no meio da sala, enquanto um grupo não muito grande assistia. Uma escadaria em espiral levava para o inferior da casa, um porão. Lá era ainda mais iluminado, e o som de bolas de bilhar ecoava lá de baixo.
Nos cantos mais escuros da casa, casais se agarravam, em variáveis que iam de “paixão Disney” para “fúria da selva”.
Após algumas apresentações a todo tipo de pessoa, Sakura se viu sozinha. Segurava um copo de cerveja vermelho – o qual não tinha a menor intenção de beber – e olhava para os lados, tentando desesperadamente disfarçar a solidão.
Desceu as escadas para o porão. No meio das escadas, seus olhos pararam para olhar o lugar. As paredes de madeira seguravam luzes vermelhas e amarelas, como os pisca-piscas que se coloca nas árvores de natal. O lugar não era enorme, tinha um pequeno quiosque onde faziam bebidas, e sim, uma mesa de bilhar verde no centro. Três caras jogavam competitivamente, e ela desceu para ver como estava.
Passou entre algumas garotas que se agarravam aos braços de rapazes com peitoral e braços assustadoramente bombados, se dirigindo a um divã mártir e sentando composta sobre ele. Colocou o copo de cerveja ao lado, vendo que ninguém pararia o que estava fazendo só para reclamá-la.
- Sakura! – a voz de Hinata surgiu junto com a aparição de seu corpo entre as pessoas, e ela claramente estava animada. Mas ao ver a amiga acanhada num canto obviamente desconfortável, teve que murchar um pouco a expressão. – O que está fazendo?
Sakura pôs um pouco de falsa animação no rosto e tentou complementá-la na voz.
- Só recuperando o fôlego.
Hinata riu de como ela mal sabia mentir.
- Se você está dizendo. De qualquer jeito, venha cá, tem alguém que eu gostaria que você conhecesse.
A morena tomou as mãos da amiga, a carregando escadas acima. Desviaram de casais e grupos bêbados, para o jardim interno da grande casa.
Os grupos ali eram mais espalhados e Sakura não se envergonhou em dá um suspiro aliviado e agarrar todo o ar limpo que seus pulmões pudessem segurar.
Hinata a puxou para um canto próximo a piscina, embaixo de um salgueiro com folhas alaranjadas.
Um rapaz de roupas escuras aguardava lá. Tinha cabelos de um negro quase anil, e o rosto estava virado em outra direção.
- Sakura, quero que conheça Sasuke. – Hinata introduziu, sorrindo. – Sasuke, essa é Sakura.
Sasuke virou o rosto. Olhos negros como a negritude em si a fitaram e um sorriso cachorro pintou os lábios. Nesse momento, ela soube. Ainda veria muito de Sasuke por muito tempo.
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