TRÊS linhas
4 Quando o relógio toca.

Tic Toc Tic Toc se passam as horas, Tic Toc se passam os dias, Tic Toc se passam os anos e nada mudou... Era o que eles pensavam, era o que todos pensavam.
A pequena Kaimã se reconstruiu pouco a pouco, os poucos moradores que conseguiram se salvar se uniram para reerguê-la. Para os três órfãos da mansão as coisas foram ainda mais difíceis, após a morte de Mário decidiram que continuariam juntos, afinal não tinham como conseguir informações sobre suas famílias, eram crianças e ao mesmo tempo estavam se tornando adultos, não tinham mais ninguém fora daquelas paredes, prometeram proteger uns aos outros e também àquela mansão.
_Eu vou à cidade. – Yuri disse enquanto endireitava a gravata em frente a um espelho, Ricky observava o amigo da porta do banheiro.
_Ainda não entendo como você conseguiu enganar o pessoal do cartório durante todos esses anos.
_Eu não enganei ninguém Ricky. – Yuri se virou para o amigo e disse. – Eu tinha todos os documentos da mansão, e nós demos sorte por ninguém ter vindo brigar por ela.
_Foi mesmo sorte termos encontrado esses documentos.
_Sorte e esperteza minha. – Yuri disse, passou por Ricky e desceu as escadas, o mais novo foi atrás.
_Nisso você tem razão. – Ricky disse em meio a um sorriso.
_Onde está a Mandy?
_Foi a Kaimã.
_Foi fazer o que lá? – Yuri perguntou enquanto se virava para o mais novo.
_Acho que foi na escola.
Yuri sorriu e negou com a cabeça.
_Ela não tem jeito, assim que chegar explique pra ela o que eu fui fazer hm, e se cuide.
Assim que disse isso Yuri saiu, foi andando até a pequena estação de trem que ficava entre a mansão e Kaimã, sentou em um dos bancos bambos que ficavam ali, abriu um livro e esperou, meia hora mais ou menos, assim que o trem chegou o menino embarcou, sentou-se em frente a um senhor barrigudo e voltou a ler, durante a viagem o homem observava Yuri atento enquanto o menino lia.
_Rupher? – O homem perguntou, o rapaz levantou o rosto e concordou com a cabeça.
_Sim senhor. – Yuri disse se referindo ao livro. – O homem com três moedas.
_É uma ótima leitura, ainda mais para quem quer crescer na vida. – O homem disse e Yuri fechou o livro prestando atenção nele. – Você parece ser um bom rapaz, vem do interior?
_Sim... – Yuri disse. – Estou indo para a cidade, resolver umas coisas...
_Entendi, é uma longa viagem, vamos ter tempo para conversar.
–
Assim que chegou em casa Mandy se jogou no sofá da sala, fechou os olhos pois estava cansada e suspirou fundo, sentiu alguém cobrindo seus olhos e sorriu, tocou as mãos do menino e disse:
_Ricky...
_Não sei como você sempre acerta. – O menino disse enquanto se sentada no chão ao lado dela.
Mandy abriu os olhos e sorriu, deitou de lado e mexeu na franja do amigo.
_Tudo tão silencioso hoje... – Ela disse.
_Yuri foi há cidade. – Ricky disse.
_De novo? – Mandy franziu a testa. – Essa é a segunda vez em um mês.
_Você sabe como ele é... Não gosta de ficar preso aqui.
Mandy suspirou fundo e se sentou, Ricky levantou e sentou ao seu lado.
_O que foi? Por que ficou desse jeito?
Mandy encheu a bochecha de ar e deixou o ar sair devagar.
_Não é nada. – A menina disse. – Você já comeu?
_Esquentei a comida que você deixou.
_Bom menino... – Ela apertou a bochecha dele.
_E você comeu?
_Sim, lá na escolinha.
Ricky sorriu largo.
_Vou com você semana que vem. – Ricky disse. – Ou na próxima vez que você for.
_Mesmo? – Ela sorriu. – As crianças vão adorar, os meninos adoram quando você solta pipa com eles.
_Temos que trazê-los aqui para um piquenique como o da última vez. – Ricky disse.
_Sim. – Mandy sorriu largo. – Vamos tocar piano, cozinhar e soltar pipa o dia inteiro.
Ricky ficou olhando para ela, adorava quando Mandy sorria daquele jeito, ele não sabe direito quando começou a sentir aquelas coisas, sabia que o coração da menina já tinha dono por isso nunca se atreveu a contar para ela sobre seus sentimentos, mas a cada dia ela ficava mais bonita, seu sorriso tinha mais brilho, sua voz mais melodia e seu jeito, aquele jeito de menina, meiga, prestativa, adorava ajudar as crianças da pequena Kaimã e nunca reclamava, mesmo tendo milhares de motivos para fazer isso.
_Fico pensando o que seria de nós se você não estivesse aqui, provavelmente já teríamos sido separados, eu e o Yuri, estaríamos cada um em um canto, talvez com famílias adotivas, talvez mortos.
_Não fale uma coisa dessas! – Mandy exclamou. – Vocês dois teriam dado um jeito de ficar juntos, do jeito que são grudados. – Ela riu. – Vem. – Esticou as mãos em direção a ele. – Vamos regar algumas flores lá fora.
_Aiiii Mandy, mentira. – Ricky disse com muita preguiça.
_Nada disso. – A menina sorriu, puxou o amigo até o jardim e juntos eles cuidaram das flores, elas estavam sempre brilhantes, pareciam tão fortes quanto Mandy.
_Essas flores são a sua cara. – O menino disse.
_Lindas não é? – Ela brincou.
_Sim.
Mandy corou com a sinceridade do amigo, negou com a cabeça e disse:
_Isso me iluda.
Ricky riu e continuou cuidando de uma rosa branca no meio do jardim, a única daquela cor.
–
A tarde choveu, Mandy saiu do banho e vestiu um vestido confortável, mesmo já tendo 20 anos ela gostava de se vestir como uma menina, fazia as próprias roupas com tecidos que Yuri trazia da cidade de vez em quando, sempre uma estampa diferente. Como eles conseguiam dinheiro? Bom, os meninos trabalhavam ajudando em obras no vilarejo de Kaimã, Mandy ajudava a pequena escola, as poucas crianças que abitavam Kaimã precisavam aprender então com o incentivo do prefeito ela e algumas professoras fundaram a escola.
Desde que a guerra terminou a capital (a cidade da qual eles sempre falavam) foi se reerguendo aos poucos, assim como todo o país. Yuri era o único que ainda tinha esperança de encontrar seus familiares e por isso ele visitava a cidade constantemente, em busca de informações e também em busca de uma universidade, sim, durante esses anos o interesse em aprender do menino apenas aumentou. Ricky e Mandy se contentavam com a vida calma e rotineira que eles tinham na mansão, mesmo não sendo a vida que eles teriam escolhido era confortável e seguro, mas Yuri não, ele não se conformava em viver para sempre naquela mansão, todos os dias vendo a mesma coisa, se contentando com os poucos livros que podia comprar, ele queria estudar, trabalhar e crescer; mas ele falava pouco sobre isso, no fundo os três sentiam a tensão no ar quando o assunto vinha a tona, por isso era melhor não tocar nele, mesmo que isso um dia se tornasse inevitável.
Assim que desceu do trem Yuri se despediu do senhor, descobriu que seu nome era Heitor e que ele era bancário, o homem conversou sobre a vida com o rapaz e ao descobrir a vontade de estudar que Yuri tinha se interessou pelo menino.
_Aqui está meu cartão. – O homem disse. – Me procure.
_Sim senhor. – Yuri aceitou e ficou olhando atento para o cartão enquanto o homem se distanciava.
Yuri foi andando pelas ruas da cidade, tinha pouco dinheiro no bolso, queria comprar algum tecido para Mandy e um jogo de cartas novo para passar o tempo ganhando de Ricky, riu sozinho ao lembrar de como o mais novo ficava irritado quando perdia. Foi andando pelas ruas, passou perto de uma banca e pegou um jornal, deu uma olhada nos classificados, vários anúncios de empregos enchiam seus olhos de brilho.
‘Crescer na vida’. – Pensou.
‘Você é um menino com potencial, sabe que se lutar pode crescer na vida’. – Foram as palavras que o homem ditou para ele no trem. – ‘Me procure, eu posso lhe ajudar’.
‘Se eles fossem mais flexíveis’. – Pensou nos amigos, fez suas compras, passou em frente a universidade em que estava de olho, pegou um folheto e foi para a estação, já estava escuro e chovia.
–
_Ele está demorando. – Mandy disse durante o jantar, fez um biquinho.
Ricky olhou pela janela, e voltou a olhar para a menina.
_Você que que eu vá até a estação? – Perguntou.
_Eu iria ficar preocupada com os dois. – Ela disse, voltou a tomar a sopa.
Ricky olhou para o relógio.
_Vamos jogar alguma coisa? – Perguntou.
Mandy sorriu e concordou com a cabeça.
_Vem, eu vou te dar uma surra. – A menina levantou e saiu na frente.
_Como assim uma surra? – Ricky perguntou enquanto seguia atrás dela.
Ela ajoelhou em cima do tapete da sala, pegou um conjunto de cartas que eles tinham, já estavam um pouco velhas e amaçadas, Yuri tinha comprado quando foi a cidade pela primeira vez sozinho.
Começaram a jogar, depois de uma hora Mandy já tinha vencido três vezes.
_Estou cansada. – A menina se espreguiçou.
_Nada disso, quer parar só por que está ganhando não é?
_Não, eu estou cansada mesmo. – Ela sorriu e Ricky concordou.
A porta se abriu, assim que a ouviu Mandy correu para receber Yuri, sabia que era ele.
_Por que demorou tanto? – A menina perguntou, e um tom um pouco brava.
_Está chovendo Mandy. – O menino disse enquanto tirava as botas sujas de lama. – Foi difícil chegar até aqui.
_Você pegou o guarda chuva? – Ela perguntou.
_Sim. – Ele sorriu e virou o corpo para ela. – Se não estaria pior, com certeza.
Ela concordou e disse enquanto seguia para a cozinha:
_Vou esquentar a sopa, ficou uma delicia.
_Obrigado. – O menino disse. – Foi até a sala e encontrou Ricky terminando de arrumar a mesa. – Estavam jogando?
_Sim... – O mais novo disse. – Ela me deu uma surra.
_Todo mundo vence de você, até aquelas crianças da escolinha. – Yuri riu e Ricky virou os olhos.
_Eu gosto de emoção, gosto de correr e de esportes que tenham movimentos, cartas são chatinhas.
_Poxa, então você não vai gostar do que eu trouxe. – Yuri colocou o conjunto novo de cartas sobre a mesa e Ricky sorriu enquanto pegava a caixinha e lia as regras.
_Não vou dizer que amei, mas é uma boa distração, esse jogo está me dando nos nervos já. – Disse se referindo ao antigo jogo de cartas.
_Que bom. – Yuri riu.
_Como estão as coisas por lá? – Ricky perguntou enquanto olhava para o mais velho.
_Temos que conversar... – Yuri disse. – Tenho coisas importantes para discutir com você, mas não se quero falar sobre isso com a Mandy ainda, quero que fique apenas entre nós dois.
Ricky concordou com a cabeça e disse:
_Você sempre volta de lá com uma ideia diferente.
_Ricky não são ideias tolas se é isso que está pensando, da ultima vez brigamos por causa disso e eu não quero, você e a Mandy são as pessoas mais importantes que eu tenho, eu só não quero continuar vivendo dessa forma...
_Acho que ela não concorda com isso.
_É por que ela não se lembra mais de como é bom estar um uma cidade em movimento, ter coisas para fazer.
_Temos coisas para fazer aqui.
_Sobre o que estão falando? – A menina chegou na sala, olhava para os dois apreensiva. – Não estão brigando não é? É sempre a mesma coisa quando você volta da capital.
Yuri suspirou fundo e disse:
_Eu estou com fome. – Sorriu, foi até a menina, segurou seu rosto e selou seus lábios com carinho, depois passou o nariz sobre o nariz dela de forma delicada e doce.
Mandy tocou o pulso do mais velho e sorriu.
_Está pronto.
_Eu trouxe um tecido novo para você. – Ele disse, passou o polegar sobre as bochechas dela e sorriu quando a viu sorrir.
_Depois você me entrega, primeiro quero que coma hm.
Yuri concordou com a cabeça, selou a testa da menina e seguiu para a cozinha, Mandy passou as mãos sobre os próprios braços e olhou para o Ricky.
_Não quero que briguem, vocês são os melhores amigos do mundo, não é?
_Não estávamos brigando Mandy. – Ricky deu de ombros e colocou as mãos nos bolsos. – Apenas discutindo, mas é saldável fazer isso de vez em quando hm. – Foi até ela e selou seu rosto. – Vou deitar, boa noite. – Sorriu e subiu para seu quarto.
O relógio tocou mais uma vez, indicando que já era meia noite, Mandy foi até a sala de jantar e ficou observando enquanto Yuri comia.
_Que ideia mirabolante você teve dessa vez? – A menina perguntou.
Ele ergueu a cabeça e sorriu ao ouvir o que ela perguntou:
_Não tenho ideias mirabolantes Mandy. – Ele disse enquanto terminava a sopa, pegou o prato e a menina o ajudou a retirar os outros dois. – Eu apenas quero cuidar de vocês da melhor forma possível.
_E qual seria a melhor forma possível? – A menina perguntou.
Yuri respirou fundo, queria conversa com Ricky sobre essas ideias primeiro, sabia que seria mais difícil convencer o mais novo e começar pelo mais difícil era a melhor coisa.
_Fica tranquila hm. – Segurou nos ombros de Mandy e sorriu pra ela.
_Eu confio em você. – Mandy disse, sorriu de volta e abraçou o mais velho, se aconchegou nele e sentiu o cheirinho de sua roupa. – Tem que tomar um banho antes de deitar.
Yuri riu e concordou com a cabeça:
_Eu sei, o que acha de dormimos juntos essa noite?
_Nós três? – Ela perguntou. – Por que... acho muito ruim deixar o Ricky dormindo sozinho nessa chuva.
Yuri negou com a cabeça, mas acabou concordando, os dois subiram juntos e Yuri foi tomar banho, Mandy bateu duas vezes no quarto de Ricky e o menino abriu a porta, estava com cara de sono, bocejou e perguntou:
_O que foi?
_Vamos dormir juntos hoje? Nós três? Como fazíamos quando éramos pequenos?
Ricky suspirou e pensou um pouco, olhou para a cama e depois para a menina.
_Eu sempre fico de vela, queimando a noite toda.
_Deixa de ser bobo. – Mandy deu um tapinha em seu braço. – Vou contar uma história hm, uma nova dessa vez.
Ricky sorriu de canto e cedeu, foi para o quarto da menina junto com ela, deitou do lado esquerdo da cama, Mandy se ajeitou no meio e juntos ficaram esperando por Yuri.
TROVOADAS!
Mandy sentiu o amigo um pouco nervoso e riu.
_Você nunca gostou de tempestade não é?
_Não. – Ele disse ainda sério, não queria dar o braço a torcer. – Mas eu sei que nada vai acontecer.
Mandy concordou com a cabeça e riu mais uma vez, sabia quando ele estava se fazendo de forte. Logo Yuri chegou há porta, e sorriu ao ver Ricky lá.
_Achei que não iria querer vir.
_Ela prometeu uma história. – Ricky disse.
_Obaaaa!!! – Yuri pulou na cama, cobriu as pernas e colocou os braços sob a cabeça, encostou na cabeceira e disse. – Senhorita Mandy, pode começar.
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