TRÊS linhas
5 Aviões - Explosões - Decisões
Notas iniciais
Quando acordou estava sozinha, coçou os olhos e olhou pela janela, bocejou e sorriu. Cerrou um pouco os olhos quando o reflexo do sol bateu em seu rosto.
‘Por que fomos dormir tão tarde ontem?’ – Sorriu sozinha, levantou, se trocou e foi ao banheiro lavar o rosto, assim que olhou pela janela avistou os dois meninos correndo pelo jardim, riu sozinha e negou com a cabeça – ‘Duas crianças’.
Mandy desceu e foi até a porta da cozinha, os dois continuavam correndo em meio a gargalhadas, estavam imundos.
_Mas o que é isso? – Ela perguntou, como se fosse uma mãe dando bronca. – Lá de cima eu não percebi que estavam tão sujos.
_Esse bebêzão está querendo me sujar de graxa só por que eu sujei ele sem querer. – Yuri disse enquanto ria e continuava correndo.
_Sem querer nada, você detesta ser contrariado e quando eu fiz isso você manchou minha bochecha! – Ricky disse.
Mandy não aguentou, ligou a borracha d’água e mirou nos dois, deixou os meninos encharcados, os dois pararam de correr na hora.
_Não queriam ficar limpinhos? – A menina disse.
_Ricky alguém está querendo brincar com fogo. – Yuri disse, olhava para Mandy de forma travessa. – Ou melhor, brincar com água.
Ricky riu e continuou:
_Eu concordo...
Mandy percebeu que os dois estavam se aproximando cheios de intensões, ia correr, mas não conseguiu escapar, enquanto Yuri segurou seus braços Ricky fez questão de molhar a menina. Mandy ria enquanto sentia a água e os três acabaram se rendendo à diversão de um bom banho de borracha.
Caíram na grama, Mandy no meio, o céu estava lindo, algumas nuvens ganhavam formas.
_Parece um pássaro gigante. – A menina disse enquanto apontava para uma delas.
_Que viagem Mandy. – Ricky disse. – Parece um urso, tomando mel ainda por cima.
Os outros dois franziram as sobrancelhas e Yuri riu.
_Você vê ursinho em tudo não é?
Recebeu um cutucou de Mandy, mas Ricky apenas olhou sério e mostrou a língua para o amigo.
_Diga a sua interpretação então, senhor sabe tudo. – O mais novo indagou.
_Bom... – Yuri disse enquanto voltava a analisar a nuvem. – Para mim, parece... – Pensou um pouco, os mais novos olhavam apreensivos pra ele. – Um avião de guerra.
_O que? – Mandy questionou.
_Um daqueles beeeem grandes. – Disse animado. – Da pra ver até mesmo um piloto lá, olha só, com aqueles óculos e tudo, e depois tudo explode no ar, se transformando em nuvem de fumaça.
Enquanto Yuri ia falando Ricky ficava sério, Mandy achou graça até que notou que o garoto mais novo não estava prestando atenção.
_Ricky... – Mandy disse, interrompeu Yuri que parou de falar sobre nuvens e prestou atenção nos dois.
_Hm? – O menino perguntou.
_Você ficou quieto de repente.
_Não é nada. – O menino disse, levantou-se e bateu a roupa. – Vou tomar banho primeiro. – Não olhou para os amigos, saiu correndo, se trancou no banheiro e começou a chorar, falar sobre aviões partia seu coração.
–
_Eu não entendi. – A menina disse.
_Mas eu entendi. – Yuri falou, voltou a olhar para o céu, a nuvem havia se desmanchado. – O pai do Ricky, se lembra?
_Ele era piloto? – Mandy questionou.
_Sim Mandy, esqueceu?
_Nossa! Isso deve ter sido terrível pra ele. – Disse enquanto se levantava. – Falar sobre aviões, Yuri como você...
_Eu também me esqueci por um instante. – Yuri disse enquanto se levantava também. – Estava falando de forma inocente, não tinha intenção nenhuma de fazê-lo se lembrar de seu pai.
_Ele é tão sensível. – Mandy olhou para a mansão, ia falar com o amigo, mas sentiu Yuri segurar em sua mão.
_Onde você vai? – Ele perguntou.
_Falar com ele. – A menina disse.
_Deixa que eu falo hm. – Ele puxou ela para mais perto, acariciou seu rosto. – Eu fui quem falou a besteira.
Mandy concordou com a cabeça, abraçou forte o Yuri e disse baixo:
_Eu não gosto de ver vocês tristes, nós somos tão felizes aqui, vivendo assim, não é?
Yuri respirou fundo, acariciou os fios molhados da menina.
_Mandy... – Ele segurou o rosto dela, fazendo com que o olhasse nos olhos. – Podemos ser felizes em qualquer lugar, desde que estejamos juntos.
Mandy concordou mais uma vez, sentiu o beijo do menino, era tão quente, macio, suave e carinhoso. O jeito como seus lábios se movimentavam em perfeita harmonia, fazia cada parte de seus corpos arrepiar.
Yuri subiu as escadas devagar, estava estudando as palavras, queria pedir desculpas, mas ao mesmo tempo queria convencer o amigo a ir para a capital, estudava com sigo mesmo uma forma de transformar aquela conversa em decisão definitiva.
TOC TOC TOC
Tocou três vezes na porta, Ricky abriu como sempre, estava com uma toalha pendurada nos ombros, os cabelos molhados. Vestia uma calça moletom e uma blusa branca, com alguns furinhos que foram feitos por cupins.
_O que foi? – Ricky perguntou surpreso.
_A Mandy está preocupada e eu também, sabemos por que você saiu e eu fui um idiota em dizer aquilo.
_Entra Yuri. – Ricky deu espaço para o amigo entrar.
Yuri ficou em pé mesmo, estava molhado e sujo de grama ainda.
_Para mim ainda é difícil superar tudo, você sabe dos meus pesadelos, ele sempre aparece morrendo da mesma forma.
_Explodindo no céu?
_Sim... – Ricky sentou na cama, engoliu seco e baixou a cabeça.
_Ricky... – Yuri se aproximou, colocou a mão no ombro do amigo. – Já pensou que ele pode estar vivo?
Silêncio.
_Não pensa que eu me preocupo com o que tenha acontecido com meus pais? Eu não quero ir para a cidade apenas estudar e trabalhar; não é apenas por dinheiro, é principalmente para poder procurar por eles, só temos que dar o primeiro passo.
Ricky olhou para o mais velho.
_Essa teimosia de vocês em viver para sempre aqui não vai nos levar a lugar nenhum, e eu só vou se vocês vierem comigo.
_Eu tenho medo!! – Ricky levantou e passou a mão nos fios do cabelo. – Medo de descobrir que ele está morto... Essa incerteza sempre foi a minha arma para continuar. – As lágrimas escorriam sobre seu rosto. – Yuri... – Olhou para o amigo. – Eu não quero saber que ele morreu da forma terrível a qual eu vejo todas as noites nos meus pesadelos.
_Eu também não quero descobrir que os meus estão mortos, mas se estiverem pelo menos eu vou ter uma certeza e eu vou continuar seguindo, vou ser um homem de bem que lutou por seus sonhos e não um covarde que passou a vida inteira escondido em uma mansão no meio do nada.
Ricky continuou olhando para o amigo.
_Ele pode estar vivo? – O menino perguntou.
_Pode, e também pode ser que não esteja, mas você tem que enfrentar isso, como um homem que é.
Ricky baixou um pouco a cabeça, olhou para a janela, chovia novamente.
_Quando iremos? – Perguntou sem olhar para Yuri.
O mais velho sorriu, convencer Ricky era a parte mais difícil, ele colocou a mão direita sobre o ombro do amigo e disse:
_Quando vocês estiverem preparados.
–
Mandy estava contente na cozinha, cantarolava enquanto preparava o jantar.
_Que cheiro bom. – Ricky disse enquanto entrava, abraçou a menina por trás fazendo-a rir.
_Macarrão com cenoura. – Ela disse.
_Ótimo. – O garoto sorriu.
Mandy virou o corpo para ele e tocou seu rosto.
_Gosto de te ver assim, sorridente.
Ricky corou e coçou a nuca enquanto disse:
_Tive uma boa conversa com o Yuri mais cedo.
_Ele me disse. – Ela falou. – Falando nele, já chegou?
_Não. – Ricky disse enquanto encostava na pequena mesa de madeira da cozinha.
_O que ele foi fazer em Kaimã?
_Trocar algumas coisas, vê se consegue uma corrente para a minha bicicleta, você já sabe. – Ele disse confiante.
Ela sorriu e concordou enquanto mexia o macarrão, Ricky ficou observando a amiga, todos os seus movimentos eram belos, cheios de leveza.
_Vamos esperar ele para jantar? – Ela olhou para o amigo.
_Você quem sabe.
_Vamos. – A menina confirmou.
Ricky riu, ajudou Mandy a por a mesa, mesmo que os recursos fossem poucos ela gostava de manter tudo muito bem organizado.
_Mandy... – O menino disse.
_Sim.
_Eu e o Yuri conversamos mais cedo e no meio da conversa rolou o assunto sobre ir para a cidade.
Mandy parou, olhou atentamente para o amigo.
_Ele insistiu novamente?
_Não Mandy, dessa vez ele me fez ver que seria bom tentarmos algo na capital.
Mandy baixou o olhar, não conseguia acreditar no que estava ouvindo, Ricky sempre foi o primeiro a se impor contra a ideia.
_O que há de errado com você? O que a de errado em continuar vivendo dessa forma?
_Não há nada de errado. – Yuri disse, tinha acabado de chegar, tão silenciosamente que os mais novos não haviam notado. – Só que lá temos uma chance real de sermos alguém.
_Não somos alguém aqui? – Ela questionou.
_Mandy podemos ter noticias sobre nossas famílias. – Ricky disse.
_Você foi o primeiro a me dizer que não queria saber se seu pai estava vivo ou morto.
_Quando disse isso eu só pensava na possibilidade dele estar morto, mas e se ele não estiver? Quer dizer... Se estiver procurando por mim também?
_E se os seus pais estiverem Mandy? – Yuri disse, a menina olhou pra ele. – Se eles estiverem procurando por você?
Mandy engoliu seco, não sabia o que pensar e muito menos o que dizer, correu para o quarto, Ricky ia atrás dela, mas Yuri o parou.
_Deixe-a, ela vai pensar e acabar concordando com a gente.
Ricky respirou fundo, encheu a boca de ar e soltou devagar, enquanto isso Mandy estava sentada em sua cama, olhou para a fora, a chuva tinha sessado; a menina levantou e caminhou devagar até lá, enquanto olhava atenta para o jardim pensava em tudo que tinha ouvido dos meninos.
‘Não se preocupe, vamos nos ver novamente minha princesa’. – Foi a última frase que ouviu de sua mãe, chorou baixo assim que se recordou disso, abraçou o próprio corpo.
‘Eu estou sendo uma egoísta’ – Disse a si mesma. – ‘Eu deveria concordar com eles, mas... Vai ser tão difícil deixar tudo isso...’ – Olhou mais uma vez para o jardim, não via nada além da escuridão, se lembrou de uma vez em que estava brincando a noite, os meninos se esconderam para lhe dar um susto, riu sozinha.
Batidas na porta.
_Pode entrar... – Ela disse enquanto virava apenas o rosto para ver quem era.
Ricky.
_Posso? – O menino perguntou.
_Sim... – Ela sorriu de canto, sentou em sua cama e fez um sinal com a cabeça para que o menino a seguisse, ele sentou ao seu lado e segurou sua mão direita.
_Mandy, eu sei o que está sentido, eu também não quero deixar a vida que temos aqui, está sendo muito difícil abrir mão de tudo, mas o Yuri tem razão, já somos adultos, não da para fingir que a vida lá fora está acontecendo enquanto as nossas não.
_É isso que me deixa chateada, vocês acham que a nossa vida aqui não está acontecendo.
_Mandy, mas não está. Todos os dias temos feito às mesmas coisas, cuidamos do jardim, conversamos, falamos muito pouco do passado e quando lembramos ficamos magoados, chateados e...
_E rimos juntos... Brincamos juntos... Soltamos pipa... Tocamos piano, vocês dois fazem piadas comigo e brincadeiras bobas... Ajudamos as crianças de Kaimã. Somos felizes Ricky, eu pelo menos sou.
_Também sou Mandy. – Yuri disse da porta, tinha acabado de chegar, na verdade estava ouvindo tudo do corredor, a menina tinha péssimo habito de falar alto. – Mas isso não depende do lugar em que estamos e sim de estarmos juntos.
Ricky não disse nada, apenas suspirou, Mandy baixou um pouco a cabeça, apertou a mão do amigo e disse:
_Tudo bem... – Yuri disse.
Ricky olhou para ela e Yuri se aproximou.
_Vai ficar tudo bem... Hoje eu conversei com um senhor que eu conheci no trem uma vez, ele disse que pode me ajudar.
_Conversou? – Ela perguntou. – Como?
_Vou tomar um banho e aí eu venho para contar tudo a vocês.
Os mais novos concordaram.
Enquanto Yuri tomava banho Ricky ajudou Mandy a arrumar a cama.
_Vamos dormir juntos de novo? – Yuri perguntou enquanto retornava ao quarto da menina, secava seu cabelo com uma toalha.
_Se vocês quiserem. – Ela disse com um sorriso simples.
_Eu quero. – Yuri pulou na cama.
Ricky sorriu um pouco sem graça, coçou a nuca e disse:
_Eu prefiro dormir sozinho, estou lendo um livro muito bom.
Mandy e Yuri olharam surpresos.
_Você, lendo? – Mandy riu.
_Também faço essas coisas às vezes.
Yuri negou com a cabeça e puxou o amigo para a cama.
_Antes de ir ler ouça o que eu tenho a dizer, vão ficar animados. – O mais velho disse.
Mandy sentou e ficou olhando atenta para ele assim como Ricky fazia.
_Fui a Kaimã hoje e consegui ligar para o senhor que mencionei antes.
_Como ele se chama? – Ricky perguntou.
_Brian, ele deve ter uns cinquenta anos eu acho. – Yuri disse. – Me disse que tinha uma vaga em uma empresa da qual era sócio e que eu poderia começar a trabalhar lá desde que estudasse para ir melhorando de cargo.
_Por que uma pessoa que nem te conhecesse te ofereceria algo assim? – Mandy perguntou.
_Ele disse que não existem muitos jovens capacitados em nosso país, infelizmente por causa da guerra nossa geração é escassa, muitas crianças morreram naquela época e as que ficaram órfãs são em sua maioria rebeldes, bêbados ou delinquentes, poucos procuram por uma profissão, poucos jovens recorrem aos estudos, então quando eles conhecem alguém como eu eles investem.
_E você falou com ele sobre nós? – Ricky quis saber.
_Sim, eu disse que tinha dois irmãos e ele perguntou se eram jovens e dispostos como eu, confirmei e parece que ele ficou contente por que disse que também tinha cargo para vocês.
_Vamos ter empregos? – Ricky sorriu.
_Mas como? – Mandy questionou. – Não sabemos fazer nada.
_Mandy deixa de ser pessimista. – Yuri disse. – Temos que aprender não é?
A menina se calou, fez um meio bico e desviou o olhar, Ricky riu e perguntou:
_Quando vamos?
_Por mim amanhã mesmo, mas vocês podem decidir.
Os dois olharam para Mandy, sabiam que ela daria a palavra final.
_Quanto mais rápido melhor. – A menina disse. – Por que se não der certo a gente volta mais cedo.
Yuri riu e negou com a cabeça, Ricky bocejou e levantou:
_Amanhã decidimos então, eu espero que dê certo. – O menino disse, olhou para Mandy e encerrou. – Vai ficar tudo bem, hm.
Mandy concordou com a cabeça e ele foi para seu quarto, Yuri levantou, apagou a luz e fechou a porta enquanto a menina se ajeitou na cama, o garoto mergulhou sobre os lençóis e abraçou o corpo de Mandy.
_Não fique assim. – Ele disse. – Não importa onde estivermos, eu sempre vou proteger e amar você.
A menina sorriu, ele não viu devido ao escuro, mas sentiu que ela tinha se acalmado, se ajeitou em baixo dos lençóis e laçou seus braços em volta do corpo dela.
_Mandy... – Sussurrou.
_Hm? – Ela murmurou enquanto se aninhava nos braços dele.
_Nada vai mudar. – Ele fechou os olhos também, apertou o abraço.
O coração da menina se aliviou, ficar perto dele lhe passava uma paz interna muito grande, ela se sentia amada e principalmente segura.
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