TOC

7 7- Gunshot


— Lily!

— Danny!- ele revira os olhos para mim.

— Calma aí. Cuidado.

— Eu sei o que fazer, Danny. Não se preocupe. Volta pra aula.

— Lil, é claro que eu me preocupo. Isso é culpa minha!

— Da onde, Danny? Nada a ver. Não é culpa sua.

– É, sim.

Ele senta no chão mais uma vez, as costas contra a parede, o rosto apoiado nas mãos. Termino de lavar as mãos, torço as luvas e me ajoelho ao seu lado. Toco suas costas e levanto sua cabeça.

— Ei. Não é sua culpa. Não é culpa de ninguém. Não foi a primeira vez e com certeza não é a última. Olha pra mim.

Deve parecer estranho para quem vê de fora. Uma menina de 1.62, tentando consolar um "homem" de quase 1.90. Mas não me importava no momento.

Ele murmura alguma coisa que eu não entendo. Finalmente, ele olha direto nos meus olhos.

— Você acha que talvez nós possamos ser amigos? Eu ainda te amo, mas sinto saudade de te ter como companhia, Lily.

— É claro. Agora vêm. Vamos pra casa.

— Ainda tem metade do dia, Lily.

— Está certo. Então vamos pro shopping. Ninguém precisa saber.

Não é tão fácil convencer ele, mas uma hora eu consigo. Pegamos o meu carro, eu busco a mochila dele na sala, e partimos para o shopping. Para ter menos chances de sermos pegos, vamos ao cinema. Assistimos a algum filme de ação. Almoçamos no McDonalds. É divertido, ainda que seja estranho não ser namorada dele. Conversamos e rimos muito. Percebo o quanto senti falta dele.

Eu gostava de vê-lo sendo ele mesmo. Gostava de quando ele era brincalhão. Saímos do "restaurante" e vamos tomar sorvete. Mais uma vez, vamos ao cinema. O filme é incrivelmente chato. Nada de interessante acontece nas duas horas e meia de duração. Era um drama tão água com açúcar que se tornou cômico. Era só desgraça!

Saímos da sala rindo. Quem estava no filme conosco chorava e nos olhava como se fossemos loucos. E talvez até sejamos, mas os loucos se divertem mais...

Caminhamos pelo shopping até podermos voltar para casa. É estranho não segurar sua mão ou sua cintura enquanto andamos. As nossas casas estão ambas vazias, mas só nos encaminhamos para elas quando o horário termina.

Danny decide ir de ônibus amanhã e pegar o carro na saída, o que significa que eu tenho que levá-lo em casa. Tudo bem por mim, pois não queria ficar sozinha de novo.

Paro na frente da garagem dos Lisset. Por alguma razão, saio do carro junto com ele. Para ter alguma justificativa, dou a volta no veículo e abro o porta malas, pescando sua mochila ali dentro. Bato a porta.

Paro na sua frente e lhe entrego a mochila. Não sei bem o que dizer, mas ele soluciona o problema.

— Então... até amanhã.

— Isso. Até amanhã.

Ele me olha uma última vez e vira de costas, se afastando. Fico plantada enquanto o observo caminhar.

— Danny — chamo. Ele já está quase na porta. Solta a mochila ali e volta para perto de mim.

— O que foi? — pergunta, ansioso. Olha fundo nos meus olhos.

— Eu descobri uma coisa- ele continua me encarando. Faz um sinal me encorajando a continuar. Quase desisto, mas aquilo estava me deixando louça. Olho para o seu rosto. Junto toda a coragem que consigo. — Eu não posso ser só sua amiga.

Eu digo isso e não lhe dou tempo para pensar. Puxo a gola de sua camisa para baixo e o beijo. Ele coloca as mãos na minha cintura e eu passo as minhas por seus ombros. Com um pulo, estou em seu colo, as pernas entrelaçadas atrás de sua cintura.

Nessa posição, entramos na casa. Ele me pressiona contra a parede. Continuamos assim até o seu quarto. Deito em sua cama e tiro os sapatos enquanto ele tira os dele. Devagar, ele remove minha blusa, minha saia, meias, sutiã, calcinha. Eu sei o que vai acontecer. E acontece, e é tão maravilhosamente bom quanto a primeira vez

Seus pais ainda estão fora quando vou embora. Chego em casa, a encontrando vazia, exceto pelos bichos. Subo direto para o quarto e tomo um banho demorado, pensando nos acontecimentos do dia. Nós voltamos? Ou foi só uma recaída? Porque eu queria voltar com ele, mas e se ele não quisesse voltar comigo? Mas e se ele quisesse? Como eu vou descobrir isso?

Deixo as perguntas que lotavam minha mente de lado quando meus pais chegam com a janta. Pizza, porque já era tarde. Comemos juntos, conversando. Não conto que talvez tenha reatado com Danny. Aliás, mais uma pergunta: como eu faria para os meus pais voltarem a confiar em Danny depois de tudo o que eu falei dele?

Resolvo ir me deitar. Escovo os dentes e os cabelos, encosto a cabeça no travesseiro e durmo, pensando no que falaria para Danny no dia seguinte.

Acordo com o sol batendo em meus olhos. Vou para o banheiro, me arrumo, visto o uniforme e saio de carro. Quase vou buscar Danny, mas assim correria o risco de ficar aquele silêncio constrangedor no carro. Dirijo até a escola e consigo uma vaga perto do portão, coisa muito rara. Espero Danny por ali.

Como disse ontem, ele vem de ônibus. Quando me vê, caminha em minha direção.

— Então… sobre ontem – começo, sem saber o que dizer e já arrependida de ter aberto a boca.

— Foi ótimo – diz ele, com um sorrisinho tímido.

— Foi mesmo – dou uma risadinha – mas fora isso…

— Lily – ele me interrompe.

— O quê?

— Quer namorar comigo?

Sorrio de orelha a orelha. Ele me olha com expectativa, ansioso por minha resposta.

— Sim, eu quero namorar com você.

Ele me abraça. Eu estava esperando um beijo, mas o abraço pareceu significar ainda mais. O abraço com força, provavelmente sumindo em seus braços. Era bom e quente, seguro, confortável. Entrelaçamos os dedos e seguimos para a aula.

Nada memorável parece acontecer na primeira metade do dia. Tínhamos todas as aulas juntos, o que quer dizer que pudemos conversar durante quatro períodos inteiros mais o almoço antes de nos separarmos.

Acabado o intervalo do almoço, Danny foi para um lado e eu fui para o outro. Minha aula seria de Química, e a dele, Inglês. Já passou metade do período quando peço para ir ao banheiro porque alguma coisa na minha blusa estava pinicando a pele do meu peito. Cheguei na frente do espelho e levantei a blusa, apenas para arrancar uma folhinha presa atrás do bordado do brasão da Honoria Academy.

Estou a caminho da sala três quando ouço o barulho. Levo um tempo para perceber do que se trata. É um estouro alto, estranho. Seguindo o primeiro, vem o segundo, e logo depois o terceiro, e assim por diante. Estou parada até lembrar que tenho que me mexer.

Eu reconhecia o som do disparo de uma arma por causa do meu pai e tios. Eles adoravam atirar quando íamos na fazenda do tio Hadrian… eu mesma já tinha atirado algumas vezes, mas era tão ruim que parei.

Corro o mais rápido que posso de volta para o banheiro, pois todas as salas estão trancadas. Ouço os gritos de quem ficou de fora. O pior é que não tenho nem ideia de onde o atirador possa estar. Ou se era só um.

Entro no banheiro e observo as cabines. Seria tão exposto… Tento abrir a porta do almoxarifado que ficava ali, geralmente trancado. Na maior das sortes, está aberto e vazio. Entro, ligo a luz, fecho a porta e a tranco por dentro. Olho ao redor. Apago a luz e me encolho num canto, atrás de um carrinho. Seguro uma tesoura que tinha por ali, mesmo sabendo que aquilo não me adiantaria de nada se me achassem.

Ligo o telefone e o coloco em modo silencioso, baixando o brilho da tela para o mínimo. Não tenho sinal algum ali. Frustrada, desligo o aparelho.

Finalmente, sozinha no escuro, deixo o medo tomar conta do meu corpo, simplesmente porque não tenho mais força para manter o controle sobre ele. Sinto as lágrimas cruzando meu rosto e faço o máximo que consigo para ficar quieta. Penso em Danny e Dot, e nos meus pais, caso qualquer coisa aconteça comigo. Me imagino segura, em casa, com meus bichos e Danny ao meu lado. Nenhum bom pensamento parece durar muito na minha cabeça, de qualquer jeito. Choro com o rosto entre as mãos, desesperada. Então ouço passos do lado de fora. Alguém tenta forçar a tranca da porta. Fico o mais quieta que consigo, paralisada de medo. A pessoa vai embora, mas a escuto abrindo as portas das cabines. Rezo para que não tenha ninguém ali. Aparentemente, não há, pois a pessoa sai do banheiro. Solto o ar que prendia sem nem perceber. Mais uma vez, me recosto na parede. Ligo o telefone e tento fazer uma chamada para a emergência. Uma mulher me atende e me informa que uma equipe foi mandada para o lugar. O som de tiros começa mais uma vez. Na verdade, acho que nunca parou, eu simplesmente não queria mais ouvir.

Tento mandar mensagens para Danny e Dot, mas nenhum me responde. Meu sinal é muito fraco. Mando para meus pais, praticamente me despedindo.

Estou a beira de um ataque de pânico, uma nova modalidade desta vez. Preciso achar algo para descontar, então escolho ficar furiosa com a escola. Poxa, uma escola cara, deixam entrar um atirador. Como pode isso? A não ser que o atirador fosse um aluno. Mas como deixaram um atirador em potencial se matricular? Não era só chegar e entregar um monte de dinheiro, tinha um teste psicológico para entrar na escola, por segurança.

As horas passam e eu estou cada vez mais apavorada. A solidão e a falta de qualquer resposta da parte dos meus amigos estava me fazendo perder a cabeça.

Os tiros ainda não cessaram lá fora, por mais que tenha duas horas que começaram. Quantas balas ele trouxe? Roubou a munição de todo o exército, só pode, porque meu deus, haja bala! Do nada, os tiros começam com muita intensidade. Agora tenho certeza que era mais de um atirador. Então, depois de uns dez minutos e centenas de tiros, tudo para. É um silêncio mortal. Talvez tenham ido embora, penso eu. Acho melhor não sair. Mas levanto e me abaixo logo depois, ouvindo meus joelhos estalando. Mudo de posição e fico com as pernas esticadas na minha frente. Imagino que logo poderia sair dali, porque nenhum tiro é disparado.

Mas estou enganada, pois demora mais uma hora até passarem batendo nas portas. Alguém grita em um megafone “liberado,liberado”. Levanto devagar e acendo a luz. Abro a porta e corro para fora do banheiro, vendo os policiais caminhando por toda a escola. Meu rosto deve estar horrível, mas corro até a sala três. Entro e vejo meus colegas chorando. Ao me notarem, correm para me abraçar. Suspiro aliviada ao abraçar Dot. Choramos juntas por alguns instantes. Então eu saio da sala, por mais que me peçam para ficar ali. Atravesso os corredores, tentando não prestar atenção nas manchas de sangue e buracos de bala pelo chão e paredes. Finalmente, chego na sala oito, de Inglês. Completamente vazia. Não tinha ninguém dentro dela, só mochilas. Saio dali. Minha maior concentração é não olhar para o chão, mas não consigo evitar olhar para o sangue e imaginar de quem era.

Sigo meu caminho. Não encontro Danny em lugar algum. Checo até os banheiros. Nada. Já estou chorando enquanto me dirijo para o último lugar que gostaria de ir: o campo de futebol, onde estavam atendendo os feridos. Chego lá, e em prantos reparo nos corpos ensacados, ainda não identificados. Não ouso levantar o plástico para ver quem é.

— Precisa de ajuda, senhorita?- levo um susto quando o policial atrás de mim me pergunta.

— Sim, eu – paro um pouco, sem saber como falar aquilo – estou procurando alguém. Daniel Lisset.

— Sinto muito, querida, ainda não tenho nomes. Como ele é?

— Ele é… ele é alto e magro. Loiro, muito branco.

— Humm… venha comigo.

Sigo o homem e me desespero quando ele para ao lado de um dos sacos pretos e se ajoelha ao seu lado.

Ele puxa o plástico e mostra o menino ali dentro. Não consigo descrever o alívio que sinto ao saber que não é Danny deitado ali. Mas logo começo a chorar de novo, e não consigo parar, porque reconheço o menino.

— A senhorita sabe quem é? É quem estava procurando?

— Sei. Não é quem eu estava procurando, mas eu o conheço. É Michael Wiss, namorado da minha melhor amiga.

— Sinto muito, querida.

A professora de matemática aparece e me abraça enquanto o policial cobria o corpo novamente. Eu a abraço de volta e enterro o rosto em seu ombro, sentindo suas mãos em meus cabelos. Muitas pessoas ao meu redor se abraçam. Ela me solta, murmura algumas palavras e noto que ela também está chorando, mas faz esforço para parecer forte para os alunos.

Ela me deixa sozinha, ainda sem encontrar Danny. Vou para a área dos feridos. Não o encontro lá também. Onde esse menino se meteu. Estou na beira do campo, já desistindo, certa de que ele tinha sido sequestrado, quando sinto uma mão em minhas costas. Me viro e o vejo ali, parado atrás de mim. Choro de alívio, e vejo que ele também. Ele levanta a mão direita e toca meu rosto, suspirando.

— Temos que falar com Dot.

— Eu sei. Já vamos. Só tenho que ir em um lugar primeiro...

Seu rosto está branco, mais do que o comum, e suado, mas assumo que é apenas o susto. Me afasto para olhar seus olhos. Depois seguro seu braço esquerdo, o fazendo gritar ao meu toque.

— Danny? — grito. Ele cai de joelhos na minha frente – Danny? O que foi?

— Corpo. Doí. — ele murmura. Está consciente, só com muita dor.

— EI! ALGUÉM! AJUDA! — corro para longe dele e chamo um médico, que vem correndo com uma maca. Uma pequena equipe o coloca na ambulância. Subo no carro junto.

Chegando lá, levam ele para a cirurgia. Uma moça me pede o número dos pais dele, e eu peço para falar com eles primeiro. Me preparo para o que provavelmente seria uma das mais estressantes conversas da minha vida.

Depois de um toque, a senhora Lisset atende.

Sra. L: Louise Lisset, quem gostaria… — Noto que sua voz está preocupada.

Li:O-oi, senhora Lisset…

Sra. L: Lily, querida. Está bem? Que telefone é esse? Onde está Daniel? Vocês ainda estão na escola?

Li: Senhora L, — chorando – estamos no hospital.

Sra L: O que houve, querida? Você se machucou? Onde está Danny?

Li: Eu não me machuquei, mas Danny…

Sra L: O que houve com Daniel?

Li: Ele…levou um… tiro.

Sra L: Um tiro? É grave? Onde vocês estão?

Li: Eu vou passar para a moça.

Entrego o telefone para a mulher ao meu lado. Meu telefone vibra na minha mão enquanto a moça fala com a mãe de Danny. É a minha mãe.

— Oi, mãe.

— Lily, onde você está?

— No hospital.

— No hospital? Você está machucada? O que aconteceu?

— Danny levou um tiro.

— Oh, meu amor. Em que hospital vocês estão?

— No Florinha.

— Estamos indo para aí.

Sento nos sofás fofos do Florinha. Não era esse o nome do hospital, mas era assim que era conhecido. Acho que dormi um pouquinho, pois Alice me acordou, sua carinha fofa me encarando.

— Lily – ela chama, sua voz fina e triste combinada com seus olhos azuis sonolentos.

— Oi, meu amor.

— O Danny vai ficar bem?

— Vai, meu bem. Não precisa se preocupar. Cadê seus pais?

— Eles foram com a Liza e com seus pais na cafeteria. Me deixaram com aquela moça ali. — aponta para a mulher do telefone, que sorri para mim. Faço sinal que ela pode ir trabalhar de novo.- mas eu queria ficar com você, porque eu não conheço ela.

— Quer subir aqui comigo?

— Quero.

Já era tarde, muito passado da hora dela dormir. Eu a puxo e acomodo no meu colo. Ela apoia a cabeça no meu braço e se aninha ali. Percebo que está de pijama e pantufa por baixo do casaco.

— Por que você veio pra cá, Lice?

— Porque eu ouvi quando a mamãe falou com você. Daí eu a obriguei a me trazer…

Ela fecha os olhos e dorme em segundos. A mantenho ali, colada em mim. Passo um braço de cada lado do seu corpo, meio que a abraçando, a prendendo comigo. Uma enfermeira analisa a cena e nos traz um cobertor, o jogando por cima de Alice e de meus ombros, cuidando para não cobrir a cabeça da menina. Depois que ela vai embora, recosto a cabeça no sofá, acompanhando Alice no sono.