TOC
8 8- Hospital
Minha mãe me acorda. Sinto o cheirinho de shampoo de criança e lembro que a irmã de Danny está dormindo no meu colo.
— Filha, como você está?
— Agora? Péssima. Mas no geral, estou bem. Alguma notícia de Danny?- estamos as duas sussurrando para não acordar Alice, mas a menina está tão ferrada no sono que duvido que acorde mesmo que o prédio desabe ao nosso redor.
— Ele está bem. Correu tudo bem na cirurgia. Está sedado agora, mas deve acordar em breve. Meu bem, são duas e meia da manhã. Estávamos resolvendo as coisas com os Lisset, as meninas vão dormir lá em casa hoje. Vamos?
— Mas eu não quero deixá-lo sozinho, mama.
— Lily, você pode faltar a escola amanhã e fazer companhia para ele o dia inteiro enquanto os adultos trabalham. Vamos, meu amor. Você tem que dormir direito hoje. Foi um dia exaustivo. E pense nas meninas – olhamos para Alice, adormecida. — elas merecem uma boa noite de sono, e os pais delas vão ficar acordados a noite toda.
— Tudo bem, vamos lá.
Com certa força, me levanto, ainda carregando Alice, enquanto minha mãe devolve o cobertor. Vamos até o carro. Ao chegarmos em casa, minha mãe leva Liza para o quarto de hóspedes. Não quero me separar de Lice, então a coloco em minha cama e me preparo para dormir no banheiro. Contra tudo e contra todos, nem mesmo tomo banho, simplesmente esqueço. Deito ao lado da menina adormecida, que rola de lado e me abraça. Mais rápido que o esperado, pego no sono.
Não muitas horas depois, minha mãe me chama e pede que eu acorde Alice, que ela tinha que ir para a escolinha, e me entrega uma mochilinha que os Lisset trouxeram antes de irem para casa dormir.
— Lice, querida…?- chamo ela, baixinho. Nada. — Lice? Acorda, meu amor. Hora de ir para a escola.
— Não. É sábado.
— Se você não levantar, eu vou te atacar.- ela rola para o lado. Faço cócegas em seu corpinho miúdo, a fazendo gargalhar.
— Para, Lily! — ela mal consegue pronunciar as palavras.
— Acordou?
— Acordei!
— Então vem se arrumar.
Eu a visto e penteio para a escola. Descemos para o café, ela de uniforme, eu de roupão. Liza está tomando café, já totalmente vestida. Seus olhos estão baixos.
— Liza, o que foi?
— Eu não acredito que ele vai morrer e a última coisa que eu disse para ele foi “eu queria que você morresse”. — ela começa a chorar. Quero consolá-la, mas me prendo em uma coisa que ela disse.
— Ele vai morrer? — Já estou quase chorando. Esqueço completamente que Alice está parada do meu lado, segurando minha mão.
— Danny vai morrer? — ela é a que mais chora. Me abaixo e a abraço, mas não sei o que dizer. O que Liza quis dizer com “ele vai morrer”?
— Ninguém vai morrer. — meu pai surge do nada, seguido da minha mãe.- não se preocupem tanto. Liza, acalme-se. Nada de pior vai acontecer com seu irmão. Lil, por favor, acalme Alice. Essas mocinhas tem que ir para a escola.
Abraço Lice e repito o que meu pai disse para ela, enquanto minha mãe limpava o rosto de Elizabeth. Passados alguns minutos, estamos todas mais calmas. Dou tchau para as meninas e para meu pai, que vai largá-las e ir direto para o trabalho. Minha mãe sai logo em seguida, me deixando sozinha.
Tomo banho, visto uma roupa qualquer e passo a mais leve das maquiagens. Pego o Volvo e vou para o hospital. Lembro que o carro de Danny ainda está no estacionamento da escola. Passo na frente desta. Fiquei sabendo que nem aula vai ter essa semana, pois precisam reformar um monte de coisa e limpar mais ainda. Faço uma manobra como se estivesse entrando no estacionamento, e vejo a Mercedes parada ao longe. Não consigo ver se está danificada. Sigo meu caminho antes que algum guarda venha brigar comigo.
Estaciono no hospital. Pego o crachá magnético na recepção do lugar e entro nos quartos. A moça de ontem é quem me atende. Ela não parece preocupada, mas talvez não soubesse de nada.
Acho o quarto 214 e fico na frente da porta, sem saber se bato ou simplesmente entro. Não preciso resolver essa questão, pois um enfermeiro sai do quarto e deixa a porta aberta para mim. A fecho atrás de minhas costas depois que dou dois passos para dentro do quarto.
— Lily – ouço sua voz, agora rouca e cansada, chamando meu nome.
— Danny – corro até a maca, sentando ao seu lado e segurando sua mão.
— O quê houve?
— Ninguém te explicou nada?
— Eu acabei de acordar, Lil…
— Ah, tá. Então o médico vai vir em breve. Você nos deu um baita susto, foi isso que aconteceu. Do que você lembra?
— De te procurar no campo depois que a polícia chegou. E de te achar lá longe. Daí eu não lembro de mais nada.
— Bom… daí você me achou, e eu ia segurar sua mão, mas você caiu. Daí eu fui chamar ajuda, desesperada. Te colocaram na ambulância e eu fui junto. Tinha muito sangue, e eu só consegui olhar para o seu rosto, mesmo que você nem estivesse consciente. Nós chegamos aqui, te levaram para a cirurgia e me barraram na sala de espera, sem nenhuma informação. Daí eu liguei para a sua mãe e para a minha. Eu fiquei dormindo no sofá até Lice me acordar- ele sorri quando menciono a irmã – ela estava de pijama. Daí ela subiu no meu colo e dormiu comigo. Depois que estava tudo certo, meus pais levaram nós três pra minha casa, e os seus ficaram aqui. Acho que eles passaram a noite toda aqui… enfim. Acho que foi isso.
— Como estão as meninas?
— Nervosas. Lice estava apavorada quando me acordou. Mas Liza está péssima, porque ela brigou com você e está se sentindo culpada.
— Ah, não! Não! Não podia ter acontecido isso! Agora ela vai se sentir culpada pelo resto da vida! Ela contou o que houve?
— Só o que ela disse…
— Nós estávamos brigando por causa da comida. Ela brigou comigo, na verdade. Por que eu comi o último croissant de chocolate.
— Vocês brigaram por um croissant?
— Sim. Deve ser a fase, mas agora ela briga com todo mundo por qualquer coisa.
— Ela estava muito mal. É melhor conversar com ela quando tiver a chance.
— Eu vou. — ele assente. Observo os fios conectados a ele, baixando os olhos – E como você está, Lily?
Olho para os seus olhos. Ainda brilham, mesmo com tubos de oxigênio logo abaixo. A mão direita, a que eu segurava, tinha uma agulha “enfeitando” o pulso. Observo o conjunto, milhares de fios e máquinas, o lado esquerdo de seu corpo completamente coberto, de modo que me dava medo de levantar aquele lençol. Não consigo segurar mais, e sinto as lágrimas rolando pelo meu rosto. Abaixo a cabeça, enterrando o rosto no colchão.
— Lily…. — ele chama, baixinho. — Lil, o que aconteceu? Alguém te machucou? Alguém fez alguma coisa com você ontem? Algum daqueles homens tocou em você?
Ouço a máquina que registrava os batimentos cardíacos apitar mais rápido do meu lado quando ele diz essa última frase. Aquele som estridente me fez levantar o rosto e encará-lo.
— Não, Danny, ninguém tocou em mim. Ninguém me machucou. Quem dera fosse eu no seu lugar.- escondo o rosto novamente.
— Lily, não diga isso. Você sabe que eu prefiro que seja eu invés de você, sempre. O que aconteceu ontem? O que você fez? Você ficou na sala com a Dot, né?
— Não, eu… eu tinha saído da sala. Tinha ido no banheiro arrumar a blusa, estava no meio do corredor quando os disparos começaram… — sua mão estremece na minha quando conto isso – daí eu corri de volta para o banheiro, porque todas as salas foram trancadas. Eu ia entrar em uma das cabines, mas o almoxarifado é mais fechado e estava aberto… daí eu entrei, tranquei a porta e sentei num cantinho. Eu mandei um monte de mensagens, mas ninguém me respondia. Nem o cara que passou no banheiro me achou… mas eu fiquei lá, bem quieta, com uma tesoura, e...
— Então você ficou presa em um almoxarifado, cheio de produtos químicos, por três horas, sozinha no escuro?
— É. Enfim. Daí o tempo passou, e não paravam nunca de atirar aquilo. E acho que a polícia chegou, por que os tiros aumentaram, e depois pararam. Mais uma hora e gritaram os “liberado!”. Saí do almoxarifado e fui te procurar, mas não te achei. Aí fui ver no campo de futebol, me recusando a pensar que você estava ali. Daí um policial me perguntou “quem” eu queria. Eu dei a sua aparência e ele disse que “um batia com a descrição”. — parei, lembrando da cena – ele me levou até um saco preto. Eu quase desmaiei ali mesmo. Foi, sinceramente, a pior coisa da minha vida. A pior sensação, a pior tudo, esperar ele abrir aquele plástico e revelar quem estava dentro. Foi um alívio ver que não era você, mas também foi terrível reconhecer aquele menino. Daí você me achou, e o resto você sabe.
— Lily, isso é horrível.
— Eu sei. E eu quero esquecer o mais rápido possível. Mas eu preciso te fazer uma pergunta.
— Por favor.
— No campo, eles também atendiam os que estavam apenas feridos. E eu olhei os feridos e não te achei com eles. Por que você não estava lá?
— Bom… como você, eu também estava te procurando. E eu também tive que fazer reconhecimento de várias garotas que batiam com a sua descrição. E em cada uma delas, eu ficava mais ansioso. E, para ser sincero, na hora, nem estava doendo tanto.
— Você foi baleado.
— Adrenalina. O machucado não dói tanto quando tem muita adrenalina no seu sangue.
— Bem, não importa agora. Só o que importa é a sua recuperação.
— Muito bem. Agora, chegue mais perto do seu homem ferido, senhorita.
— Oh, mas o que o meu amado pode querer de mim – levanto e me aproximo, apoiando as mãos na cama para chegar mais perto.
— Uma coisa que ele quer desde que a senhorita entrou no recinto.
Ele ergue o corpo o máximo que consegue e, com a mão descoberta, puxa meu pescoço, fazendo nossos lábios se encontrarem. Nos beijamos por mais de um minuto, tomando cuidado com todos aqueles canos. O monitor cardíaco tem uma leve alteração que me faz rir.
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