TOC

6 6- Velhos Hábitos


Faz exatamente dois meses que nós terminamos. Mas quem está contando?

Sim, foi horrível, e não, eu não dei uma chance para ele explicar o que aconteceu, mas eu realmente não queria saber. Era melhor deixar assim, afinal, ela não o arrastou para o quarto, e não são só as meninas que tem o poder de dizer “não”.

Depois daquele dia, graças a deus, começou a esfriar. Muito. Agora, eu estava sempre de luvas, e era reconfortante. Neste momento, eu achava que finalmente estava me recuperando do fim de um namoro de três anos. Não sei sobre Daniel, pois quase não olhava para ele. E não teve mais nenhuma apresentação “lá na frente” para eu ter uma desculpa para vê-lo. Ainda.

Minha vida continuou a mesma. Dot ficou do meu lado, eu chorei muito, mas vida que segue, certo? Eu sentava bem na frente, o mais longe possível de um certo alguém, e comia com as meninas. A aula de educação física era separada. Ou seja, eu realmente nunca mais olhei para a sua cara e raramente ouvi sua voz. Ele tentou por um mês, com mensagens, e-mails, cartas e flores, mas desistiu quando eu não dei nenhuma abertura.

Hoje finalmente teria uma apresentação. Não, eu não queria que ele sofresse assim, porque não era culpa dele o medo de falar, mas precisava checar se ele estava inteiro. E meu orgulho me impedia de virar para trás.

A professora de geografia nos levou para o auditório. Não teríamos qualquer material de apoio, apenas nosso cérebro e o microfone. Até eu estava nervosa com aquilo, pois valia cinquenta por cento da nota trimestral. Fiquei nervosa por Daniel. Aquilo era muita pressão para qualquer um.

Sentamos. Mais uma vez, a ordem das apresentações abusava da palavra “aleatória”. Dot falou maravilhosamente bem, e foi seguida de Alicia. Fui a quinta, logo depois de Douglas. Acho até que fui bem, porque não me enrolei muito.

Daniel foi um dos últimos. Eu poderia dizer que ele estava nervoso pelo que notei de canto de olho desde que entrei no auditório. Por exemplo, o papel com o texto estava destruído, e tinha certeza que suas mãos estavam repletas de marcas de unhas nas palmas. Mantive a expressão neutra quando ele subiu no palco. Seus olhos visivelmente fugiam de mim e se concentravam no teto, no chão, na porta, nunca no rosto de alguém.

Ele já começou gaguejando. Ouvi os meninos “do fundão” rindo e sei que ele ouviu também. Ele se encolhe ainda mais e leva a mão direita ao pescoço.

“Tira essa mão daí, Daniel. Agora.”- é só o que eu penso, meio entrando em desespero. Fico com o senho franzido e espero que ele note, mas ele continua olhando para cima. Ele fica lá por vários minutos, como todos os outros, e sei que é uma compulsão e que ele não vai notar. E realmente não nota, até Jessie, uma garota morena e desinibida gritar.

— O seu pescoço!

Daniel passa a finalmente abaixada mão atrás do pescoço. A levanta até os olhos e vê o que eu sabia que aconteceria assim que ele tocou no pescoço. Apavorado, ele passa a outra mão no cabelo, derrubando o microfone. Ouço pessoas rindo da situação e não posso fazer nada senão observar aquele desastre com o coração na mão.

Ficando ainda menor, ele sussurra “banheiro” o mais baixo possível e corre para um lado do palco. É demais para mim. Levanto e corro para o mesmo lado que ele foi e começo a procurá-lo. Ele obviamente não está no banheiro mais próximo do auditório. Subo um andar e entro no banheiro masculino sem qualquer cerimônia. O encontro na cabine de cadeirantes, encostado na parede, abraçando os joelhos. Ele não me nota de primeira, apenas quando eu me abaixo e puxo seu rosto marcado de lágrimas para cima, olhando dentro de seus olhos azuis.

— Ei, ei. Olha pra mim agora. O que você vê?- era um exercício que uma psicóloga me ensinou alguns anos atrás.

— Seus olhos.- ele murmura, a voz baixa e trêmula.

— Isso. E que cor eles tem?

— São azuis. E cinza. São bonitos.

— Ótimo. Que cheiro você sente?

— Desinfetante de banheiro.

Continuo perguntando coisas aleatórias por mais um tempinho, até ele ficar um pouco mais calmo. Quando acontece, o deixo ali e corro para o armário, catando o kit de primeiros socorros que guardava ali. Volto em menos de um minuto e o viro de costas, ainda no chão do banheiro. Os arranhões não eram muito profundos; costumavam ser muito mais. Seguro um algodão úmido e limpo o sangue seco ao redor das feridas. Passo paro o desinfetante.

— Isso pode arder um pouco. — aviso, com a gaze a centímetros da pele. Ele concorda com a cabeça e eu esfrego a solução nos machucados. Percebo todos os seus músculos se contraindo com a dor. Aquilo era uma solução de hospital, matava praticamente qualquer coisa e ardia como o inferno. Para quem não estava acostumado, a dor era quase insuportável.

Minhas mãos também ardem por baixo das luvas, por isso me apresso em esterilizar os arranhões e segurar ali um paninho encharcado.

— Alguns dos antigos reabriram. — comunico. — vai doer por mais tempo.

Novamente, ele só assente com a cabeça. Era o choque, mas não deixava de ser irritante. Minhas mãos ardiam tanto que eu estava quase chorando. Coloco iodo no machucado e faço um curativo de gaze e esparadrapo. Não é o meu melhor trabalho, mas a dor não estava me deixando concentrar. Termino, aviso que está pronto e saio correndo. Só pretendo ir até a pia, mas ele segura meu tornozelo.

— Posso falar com você?- pergunta, desesperado, levantando-se do chão.

— Fala rápido- aquilo soou muito rude, mas eu estava com pressa.

— Eu sinto muito por tê-la magoado, Lily, mesmo que você nunca tenha me deixado explicar. Eu fiquei triste e ainda estou. Eu só queria pedir desculpa e implorar que me ouvisse, por que eu posso explicar o que houve!

— Então explica, rápido. — sento na privada e o fico encarando.

— Bem…- eu o estava deixando nervoso de novo. Credo. Levantei e cheguei mais perto dele, que continuou. — Estávamos na festa, eu esta vendo você dançando quando Sharon me chamou. Perguntei o que ela queria, e ela disse que Mabel estava com um problema e pedira que me chamassem. Ela me apontou o quarto e eu subi, meio desconfiado, mas você sabe como eu sou com pessoas. Chegando lá, Mabel diz que estava com alguma coisa presa nas costas e que estava doendo muito. Olhei para as costas dela, e não tinha nada; daí ela abriu o vestido até a metade. Novamente, não tinha nada. Ela pediu para eu tocar em um ponto, e foi ai que eu me dei conta do esquema. Fechei o vestido. Do nada, ela começou a chorar. Sentei na cama e fiquei conversando com ela, me perguntando como faria para te avisar de onde eu estava. Não prestei muita atenção enquanto ela falava dos seus problemas. No final do discurso dela, só perguntei se ela precisava de alguma ajuda, e ela disse que sim e pulou no meu colo. Tentei afastá-la, mas ela não saiu. Ouvi a porta sendo aberta e ela também. Daí ela me beijou, a porta bateu e eu tive certeza que era você. Derrubei Mabel no chão e saí do quarto. O resto você sabe.

Ele ficou sem ar e eu estava quase chorando com a história e com a dor.

— Diga alguma coisa, Lil.

— Hum…- murmuro alguma coisa qualquer, viro para trás, abro a porta e corro até as torneiras, abrindo a água. Molho as mãos com luva e tudo. Que alívio. Escuto alguém esmurrando uma parede, batendo o punho contra o azulejo, de frustração. Danny recolhe as coisas e sai de cabeça baixa da cabine, se surpreendendo ao me ver ainda ali

Ele se aproxima e estranha quando percebe que lavo as mãos de luvas, estas manchadas de sangue.

— Lily! — Ele coloca as mãos debaixo da torneira e arranca minhas luvas, revelando a pele esfolada das palmas e pulsos. Minhas mãos estão ressecadas e descamando. — o que é isso?

— Você não é o único que pode voltar aos velhos hábitos.