TOC

24 24- Acordada


O hospital era chato. Dot já tinha ido para casa, e a dificuldade de se transportar reduziu as visitas. Danny ia me ver todos os dias, mas ele tinha que ir para a escola. A solidão daquele lugar estava me deixando louca.

Pelo menos podia sair do quarto, caminhar de muletas por todo o prédio e seus jardins. Vagar por ali não era a melhor coisa do mundo, mas ainda assim era melhor que ficar enclausurada no quarto. Ainda que fosse chato, minha sorte era que eu só ficaria ali por uma semana, o que passaria bem rápido, e logo estaria de volta à escola, munida com minhas muletas. Dot já tinha ido, de cadeira de rodas e tudo. Me sentiria culpada para sempre por aquilo, mesmo que, segundo ela, já conseguisse ficar de pé sem apoio.

Durante minha estadia, reencontro a senhora Pine e a senhora Ford, que, fiquei sabendo, foram me visitar durante o mês, inclusive me mandaram flores. Elas ficam felizes ao me ver de pé. Jogamos baralho, como fizéramos ano passado. De vez em quando, mesmo sem ninguém no hospital, eu as visitava, sempre trazendo bolo ou biscoitos. Esperava que aquilo fizesse tão bem a elas quanto fazia à mim.

Ao final da semana, o doutor Olive me libera, e vou para casa feliz da vida. Minha perna ainda está se recuperando na fratura, então meu pai me ajuda a subir as escadas. Deito na cama, agradecida por deixar a maca dura e fria do hospital de uma vez por todas. Adormeço olhando para o teto.

No domingo, Danny aparece. Não consigo descer as escadas sozinha, então ele sobe. Ele senta ao meu lado, todo sorridente. Seu rosto estava muito esquisito. Muito magro, fazendo os olhos parecerem grandes demais. Seguro seus pulsos, apavorada.

— Você está muito magro. — digo, na lata. É verdade.

— Não é, não. Estou como sempre fui.

— Para de inventar. Eu te conheço. Seus olhos não são saltados assim. E seus pulsos não eram tão finos. O que andou comendo? Ar?

— Lily! Não, venho comendo muito bem. — quero que ele pare de negar, mas não vai acontecer. Reviro os olhos e mudo de assunto.

— Então, o que vem fazendo?

— Não muito. Joguei cartas com Dot quase todos os dias.

— Você ia no hospital todos os dias?— pergunto, incrédula.

— Óbvio, não podia te deixar sozinha.

— Claro que podia. Danny, embora me deixe incrivelmente feliz que tenha se preocupado, você não pode deixar que eu pare a sua vida. O que teria feito se eu demorasse mais para acordar?

— Teria esperado, continuaria fazendo a mesma coisa.

— Eu sei. Meu deus, eu teria feito a mesma coisa!- deduzo, meio triste – mas não pode ser assim. O que você faria se eu nunca mais acordasse? — me arrependo das palavras assim que as solto, porque sei que ele pensou sobre isso. Ainda assim, não falo nada.

— Não sei – ele responde baixinho, olhando para baixo. Quero chorar. Puxo seu queixo para cima com as pontas dos dedos. — eu não sei o que eu faria se você morresse, Lil. Mas não aconteceu. Nem vai acontecer. E você me visitou no hospital todos os dias por um mês, sem falta, que eu lembro. Por que eu faria diferente.

— Porque é diferente! Você estava ali, se movendo, na minha frente. Foi desesperadora a espera mas foram apenas algumas horas! Você me viu parada, gelada, por um mês. — sinto as lágrimas escorrendo dos meus olhos. Não estava brava com ele, mas sim comigo. Não deveria ser fraca a ponto de deixar minha família e amigos sofrendo por um mês inteiro. Sinto seus braços ao meu redor. Escondo o rosto em seus ombros. Deitamos para trás.

— Eu sempre soube que você acordaria, Lil. E não me arrependeria de ter esperado caso não acontecesse. — ele beija minha cabeça e acaricia meus cabelos – está tudo bem agora. Amanhã você vai voltar para o colégio, e nada vai ser diferente, tá bom?

— Sim. — se passam alguns minutos. Afasto o rosto do seu peito para olhar para ele. Uma questão surgiu na minha cabeça- e o meu carro?

— Foi-se. Sem reparos. Era mais barato comprar um novo.- ele responde, meio rindo. Rio com ele, sentindo pena do Volvo. Ele foi um bom carro com um fim trágico. — Parece que alguém vai ganhar um carro novo. Enquanto isso, você vai para a escola comigo.

— Meu pobre carrinho… tão novo, tinha tanto pela frente. Pelo menos ele viu a Disney. Quanto à carona, não me oponho. Não posso dirigir de qualquer forma.

— Ei, Lil, preciso fazer uma coisa que senti falta e não fiz ainda. — ele sorri maliciosamente. Assinto, já sabendo do que se trata. Ele aproxima o rosto do meu e me beija, bem devagar. Também tinha sentido falta daquilo. É um beijo demorado. Não quero que pare, mas somos obrigados. Não posso ir mais longe que um beijo na situação atual.

Ele passa a tarde comigo. Conversamos, assistimos filmes, comemos. Ele conta as armações de Mabel, que me dão vontade de estapear a menina. Jules faz bolo e trás para nós.

No outro dia, Danny chega cedo na minha casa. Quando entramos na escola, todos os olhares se viram para mim. O jeito é ignorar. Vejo Mabel em um canto, irritada. Não é possível que ela realmente me quisesse morta. Sigo meu caminho. Taylor me abraça com lágrimas nos olhos, seguido de Amanda e Alicia. Encontro Dot, ainda de cadeira de rodas. Taylor ajuda ela a se mover. Vamos ficando, cada um em suas respectivas salas. O final do ano letivo se aproximava, e eu teria que correr atrás do prejuízo. A partir de agora, os estudos seriam a maior das prioridades.

As semanas vão passando. Finalmente tiro o gesso da perna e posso voltar às líderes. O rosto de Danny volta ao normal. Dot demora um pouco mais, mas logo já está caminhando mais uma vez, e em poucos dias, está vestindo o uniforme e fazendo piruetas na torcida. Ainda que esteja feliz, estava incrivelmente estressada. Não podia deixar os cadernos de lado em nenhum momento, mesmo já tendo recuperado, e muito bem, o mês que faltei. Mal podia esperar pelos testes e acabar logo com aquilo.

Nos dias anteriores aos vestibulares, minhas mãos tremiam o tempo todo. Era um tanto irritantes, eu mal conseguia escrever direito. Sabia que os outros também deviam estar nervosos. Mas, me surpreendo quando faço a prova bem calma. Não é tão difícil, então acho que estou fazendo tudo errado. Saio da sala, meio perdida por estar em uma escola diferente. Todo mundo que eu conhecia fizera o teste na Honoria, apenas eu fui mandada para a maldita Sherwood. Saio do prédio depois de um tempo vergonhosamente longo tentando me achar. Não tenho carro e nem para onde ir. Observo o estacionamento da escola, repleto de Mercedes, BMW, Porsches por aí vai. Assim como na Honoria, os estudantes da Sherwood gostavam de se mostrar. Em um canto, vejo um Volvo parecido com o meu. Sinto saudades do meu carro, completamente destruído depois do acidente.

Não quero ficar ali, então saio pelos portões do grande prédio, atravessando os intermináveis jardins. Entro em uma cafeteria qualquer. Peço um chá, só para não fazer a desfeita de sentar sem comprar nada. Ligo para Danny, mesmo sem saber se ele já terminou. Se não, seu telefone estaria desligado.

— Oi, Lily! Faz muito que acabou?

— Oi, Danny! Não, e você?

— Recém saí da sala. Está aonde?

— Numa cafeteria na frente da Sherwood, tomando o pior chá de todos. — e era mesmo, tinha mais gosto de água do que qualquer outra coisa. Ele ri do outro lado da linha.

— Quer carona?

— Por favor, se não for atrapalhar.

— Estou aí em dez minutos.

— Tá bom, beijo.

Desligo o telefone. Não quero ficar dez minutos tomando chá, mas não tenho alternativa. Tomo umas três canecas daquela bebida aguada, pagando muito mais do que ela valia. Ele não demora muito para chegar. Pulo no banco da Mercedes, lhe dando um beijinho na bochecha antes de prender o cinto.

— Como foi a prova? — pergunto quando já estamos nos movendo.

— Foi até fácil. Ou o estudo compensou, ou fiz tudo errado. E pra você?

— Mesma coisa. Espero que tenha ido bem. O pessoal da Sw é muito indiscreto. Só faltava apontarem para mim.

— É que eles não estão acostumados com meninas bonitas. — ele desvia os olhos da estrada por um segundo para sorrir para mim. Reviro os olhos – meus pais saíram, vamos almoçar?

— Claro. Onde vamos?

— Qualquer lugar.

Acabamos no shopping. Encontramos Dot, Alicia e Doug lá. Decidimos ir no Mc.Donalds. O assunto era, além da prova, o baile de formatura, na próxima semana. Eu iria com Danny, obviamente, Alicia com Doug e Dot com um cara chamado Ashton. Já tinha o meu vestido, longo como pedido, azul marinho. Eu o adorava. As outras meninas também já tinham suas roupas, e todas elas se juntariam na minha casa no dia do baile, para irmos ao salão e nos arrumarmos juntas. Seria muito divertido, e eu mal podia esperar.