TOC

25 25- Cartas


O dia do baile finalmente chega, e a animação para o evento se sobrepõe à ansiedade dos vestibulares. Amanda, Alicia e Dot vão até a minha casa, munidas de várias mochilas cheias de roupas e acessórios. Não ficamos lá por muito tempo, pois logo vamos para o salão, onde passaríamos a tarde inteira.

Aquele salão parecia um spa, de tão grande; nos separaram já na entrada, cada uma sendo conduzida para um lado. Faríamos tudo o que tínhamos direito, já que o verão também estava aí. Depilação, unhas, cabelo, maquiagem. Tudo. É um dia relaxante, merecido depois de todo o estresse de final de ano letivo. Porem, passa rápido, e logo já estamos, maquiadas e penteadas, de volta à minha casa, colocando os vestidos e arrumando qualquer detalhe. Embora as outras estejam lindas, julgo o meu vestido o mais bonito. Dot está de vermelho, Alicia de lilás e Amanda de roxo. Sentamos nas poltronas espalhadas por meu quarto enquanto esperamos os meninos. Do nada, uma música vinda da rua entra pelas janelas. Corremos até a sacada do quarto, olhando para baixo e vendo Danny, Ashton, Doug e Josh ali, na frente de uma limousine preta lustrosa. Isso era uma surpresa. Descemos as escadas correndo. Os meninos entram, meus pais tiram milhões de fotos, só as meninas, só os meninos, individuais, cada casal, todo mundo junto, em diversos lugares. Finalmente, entramos na limousine, encontrando Taylor e Pat lá dentro. Os cumprimentamos e tomamos nossos lugares. O caminho é divertido, e espero que o baile esteja muito bom para superar aquilo.

Entramos no ginásio decorado. Estava lindo. Todo mundo já estava dançando. Largamos os garotos na mesa e nos juntamos aos outros no meio da quadra.

O resto da noite passou voando. Teve dança, teve beijo, teve rei Benjamin e rainha Dorothea, que odiou dançar com Ben, mas o fez mesmo assim. Teve colegas bêbados, gente vomitando. Acho que não faltou nada. A limousine nos deixaria em casa, e Danny e eu seríamos os últimos. Acho que o motorista agradeceu por aquela divisória… ele me deixou em casa, que era um pouco antes da de Danny. Me despedi e subi para o quarto, todo bagunçado. Arranquei o vestido e me atirei na cama, dormindo quase instantaneamente.

Quando acordo, meus travesseiros estão repletos de manchas pretas, assim como meu rosto. Pareço um panda muito depravado. Me arrasto para o banho, que me faz acordar de uma vez por todas. Decido visitar os Lisset. Prendo os cabelos num rabo-de-cavalo alto e passo um mínimo de maquiagem. Saio de casa sem nem tomar café.

Meus pais já saíram quando desço. Pego o carro da minha mãe, que estava na garagem. Acho que ela não se importaria. Paro na frente da grande mansão. Corro até a porta. Mika, a babá, a atende.

— Bom-dia, senhorita Vogelmann.

— Bom-dia, Mika! Os Lisset estão?

— Claro. Entre, por favor – ela abre espaço e eu entro. — SENHORITA ALICE?

— TÔ INDO! — ouço a voz fina de Alice de cima das escadarias. — Oi, Lily! É ótimo vê-la!

— Digo o mesmo, Lice. Cadê o mano?

— Dormindo. Você não quer ir acordar ele? Ele prometeu que me levaria ao shopping hoje, e vou parecer chata se eu o acordar.

— Já estou indo. — subo as escadas e encontro a porta de Danny fechada. Entro no quarto escuro, a fechando atrás de mim. Subo na cama e deito ao seu lado. Ele nem se mexe. — oi – sussurro em seu ouvido. Nada. Beijo sua orelha, bem levemente, e continuo descendo até seu pescoço. Isso é que é um sono pesado. Faço uma pequena trilha por seu peito, indo e voltando. Finalmente, ele abre os olhos. — Bom-dia, flor do dia! Sabe que horas são?

— Cedo. Demais – ele se vira de costas. Sua voz de sono é engraçada.

— Não. Vamos, Alice quer ir no shopping, e eu também. Levanta. Vou te esperar lá embaixo! — desço da cama e saio do quarto. Me junto à Alice no café da manhã, esperando seu irmão. Ele logo se junta a nós, de pijamas.

— Oi, Alice. Onde está a Liza? — Lice arregala os olhos quando Danny faz a pergunta. Ela responde que a irmã saiu e me puxa para um canto.

Vem cá. — ela me puxa para longe do irmão e “sussurra” no meu ouvido – eu acho que a Liza é namoradinha do menino!

— É mesmo? — pergunto, no mesmo tom – e o Danny não pode saber?

— É! Ele não pode saber porque ele vai ficar com ciúmes!

— E como você sabe disso?

— Porque a Liza me contou. E você não pode falar nada pro mano, promete?

— Prometo.

— Tá. Agora finge que eu não disse nada – ela se afasta e pula no colo do irmão, que deve ter ouvido tudo, já que Alice não sabe sussurrar. E não deve ter gostado da informação, já que sua expressão tinha mudado consideravelmente.

— Lice, não quer ir buscar aquela boneca nova para mostrar pra Lily?

— É mesmo! Só um minuto! — ela corre escada acima.

— Que história é essa de namoradinho? — ele falava baixo, mas estava furioso.

— Danny, quantos anos ela tem?

— Catorze.

— E quantos anos você tinha quando começamos a namorar?

— Quinze. Viu, ela é muito nova.

— Tá. Quantos anos eu tinha quando começamos a namorar?

— Catorze. Mas você fez quinze uma semana depois.

— E ela faz mês que vem. E estávamos no primeiro ano, como ela. E foi bem no começo do ano, certo? E olha onde isso nos levou.

— Mas ela é minha irmã.

— Eu sei. Mas porque você está tão preocupado?

— Não sei. Eu acho que não quero que ela sofra, talvez. — ele senta no sofá, a cabeça encostada na guarda do móvel. Acaricio seus cabelos.

— É impossível evitar, amor. E se for um bom garoto como você, ela nunca vai sofrer.

— Eu já te fiz sofrer.

— Quando.

— Quer que eu numere? Várias vezes, com certeza. — ele parece frustrado, mas menos brabo. — Bom, eu fui baleado, fiz você ser internada, te abandonei no meio da rua, e ainda dei motivos para você terminar comigo.

— Não fala isso. Pra começar, quase nada disso foi culpa sua. Você não pediu para levar um tiro, nem me fez cheirar veneno. E ninguém pensa que vai aparecer um idiota vingativo em plena luz do dia. Sobre o último exemplo, eu terminei com você sem nem te escutar. Mas nada disso define nada. Se é assim, eu te fiz sofrer também. E porque você continua do meu lado?

— Porque eu te amo.

— E eu também te amo. E se a Liza arrumar algo parecido com ela, ela vai ser mais que feliz. Mesmo que chore de vez em quando.

— Ainda assim, se fizer minha maninha chorar, vai se ver comigo. — ele brinca.

— Então é melhor que não faça. — ele finalmente olha para mim, sentada ao seu lado.

— Mas agora eu quero a minha namoradinha – ele sorri, maliciosamente, e deita praticamente em cima de mim, me obrigando a deitar no sofá. Ele me beija, correndo as mãos por todo o meu corpo. O faço virar, ficando por cima dele.

— O que vocês estão fazendo? — diz Alice, surgindo do nada ao lado do sofá. No susto, Danny levanta rápido, me jogando direto no chão — Ei, porque você atirou a Lily?

— Por que faz parte da brincadeira. — Danny responde, me estendendo a mão. Reviro os olhos para aquela resposta. Seu rosto está todo vermelho. — trouxe a boneca?

— Não. Tá dentro do armário. Vai fazer bagunça se eu pegar. Posso brincar?

— Quem sabe nós não vamos para o shopping, Lice?

— Pode ser!

— Ótimo. Vamos então.

Saímos todos com a Mercedes. Vamos ao shopping, tomamos sorvete e assistimos a um filme infantil, que era até bem divertido. No final do dia, volto para casa, e durmo pensando na conversa sobre Liza. Danny era muito ciumento! Queria só ver quando ficasse sério…

Passo o final de semana fazendo nada. Estava quase sentindo saudade da escola, pois pelo menos como estudante, podia estudar como última alternativa. Na próxima semana, as cartas deveriam chegar. Danny, Dot e eu tínhamos tentado mais ou menos as mesmas universidades. Estava mirando em Yale, para não precisar ir para muito longe de casa. Mas acho que iria para a que me aprovasse, no final das contas. E sempre tinha o próximo ano.

É claro que, durante toda a semana, sinto meus nervos à flor da pele. Dot e Danny vão recebendo suas cartas, o que me deixa mais nervosa ainda. Tínhamos combinado de apenas abri-las quando todos já tivessem todas, juntos, sem “adultos” ao redor. Minhas cartas chegam bem depois das deles, algumas inclusive uma semana atrasadas.

No dia combinado, nos encontramos na casa de Dot. Seus pais nçao estão lá. Vamos os três para o quarto de brinquedos. Minhas mãos estavam tremendo. Abrimos primeiro as cartas das universidades que aplicamos separadamente. Como a minha “última alternativa”, tentei a NYU. Não sei qual eram as dos outros dois. Mesmo para esta, minhas mãos tremem. Aprovada! Isso era um bom sinal, certo? Minha média fora 3.8/4, uma pontuação ótima. Eu queria estudar em uma escola mais renomada.

Abro mais algumas cartas. Fui aprovada na maioria, lista de espera em algumas. Restam sobre a mesa quatro cartas de cada um, para as mesmas universidades: Yale, Cambridge, Harvard e Oxford. A que menos me interessa é Harvard, então sugiro que comecemos por aquela. Em letras garrafais, está escrito “aprovada” no topo da minha carta. Olho a reação dos outros. Acho que todos passaram nessa. Cambridge é a próxima, escolha preferida de Dot. Ela, obviamente, entra. Eu não. Tento não ficar triste, afinal, mesmo com uma nota ótima, aquela escola era difícil de entrar. Yale é a próxima. Meus dedos tremem quando desdobro a carta. Não quero chorar, seguro as lágrimas o máximo que posso, ao ler aquele “sentimos muito...” bem em cima do papel, mas ainda me sinto desolada. Nem quero abrir a minha favorita. Estava mirando baixo e não passei; o que esperar de Oxford?

Mas os outros também querem saber. Oxford era a faculdade que Danny mais queria, como eu. Mas ele tinha passado na Yale, então obviamente passaria naquela. Em qualquer uma que quisesse, na verdade, pois ele tinha feito 4/4, um dos únicos “gênios” do país a gabaritar aquela prova.

Abro a minha carta, com os olhos quase fechados. Os outros dois já leram os próprios resultados, mas esperam que eu diga algo para poderem reagir. Mesmo assim, está óbvio que entraram .

Procuro a palavra. E a encontro. “Aprovada”. Não contenho o sorriso que nasce no meu rosto. Nos abraçamos no meio daquele antigo quarto infantil. Esqueço que não entrei na Yale, me mudaria para a Inglaterra e era isso que importava!

Era mesmo, tudo o que importava, pelo menos até ali. Morar com o meu namorado e a minha melhor amiga, juntos, como sempre estivemos, para encarar qualquer situação que a vida nos trouxesse. E claro, o futuro nos reservava muitas surpresas. Algumas coisas mudaram, outras, nem tanto. Fomos obrigados a escolher nossas prioridades e fazer escolhas difíceis, mas nada daquilo nos separou.

E se eu achava que as coisas tinham terminado, estava muito enganada.

Estavam apenas começando.

Notas finais
Oii! Obrigada por lerem até aqui! Foi muito bom escrever essa história! Até uma próxima! Bj bj ♥ Carol
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!