TOC

23 23- Espera


Esperar alguma coisa acontecer é desesperador. Não sei o que pensar, ou o que fazer. Dormir se tornou uma tarefa impossível; passava as noites olhando para o teto, sozinho no escuro. Até Alice percebeu que algo estava errado, estranhou o fato de Lily não aparecer mais lá em casa. Não queria ter que contar para ela, ainda me recusava a acreditar.

Passei a frequentar o hospital diariamente, como ela fizera no ano anterior. Sentava ao seu lado, contava histórias, essas coisas. Não tinha um dia que não o fizesse; seria uma traição a deixar agora.

Dot, por sua vez, parecia bem. Estava desolada, é claro, pois não podia mexer as pernas. Às vezes, deixava seu quarto no final do corredor para visitar a amiga. Quando o fazia, gostava de arrumar seus cabelos.

Lily recebia muitas visitas. Praticamente toda a equipe da torcida apareceu. Alguns, como Taylor, Alicia e Amanda, várias vezes.

Era frustrante. Eu não podia fazer nada, apenas observar enquanto os cortes em seu rosto desapareciam devagar. Conversava com ela, como o médico pediu, um monólogo longo e desinteressante. Tentava adivinhar quais seriam suas respostas às minhas perguntas, mas não era o mesmo que ouvir sua voz. Os pais dela estavam muito abalados, e como eu, a visitavam todos os dias.

Fiquei muito mais próximo da Dot. É incrível como a tragédia junta as pessoas. Como ela ficava solitária em seu quarto, ela aparecia no de Lily, onde pelo menos teria a companhia da amiga. Como eu estava sempre lá, acabamos conversando quase todo dia. Conheci o hospital inteiro caminhando com ela. Não tinha muito o que fazer por ali. Jogávamos cartas e jogos de tabuleiro durante as longas tardes de espera.

Ainda que tenha tentado, não podia faltar tanto na aula. Não prestava atenção em nada, muito menos nos treinos de futebol. Estava até pensando em largar o time, afinal, estava mais atrapalhando do que ajudando.

Estava saindo do campo gelado quando Mabel apareceu, vestida com o uniforme da torcida. Eu não costumo odiar pessoas, apenas aqueles dois imbecis da Sherwood e o motorista bêbado. Mas aquela menina passava perto.

— Daniel! — Ouço sua voz estridente me chamando. Fico tentado a fingir que não ouvi, mas não vai adiantar nada. Ela para na minha frente – adivinha quem entrou para a torcida?

— Você. — respondo, seco. Quero ir para o hospital, ver se Lily já acordou e jogar UNO com Dot. Estou virando as costas quando ela agarra meu braço.

— Então… agora eu sou líder de torcida, e você é jogador… — ela aproxima o rosto do meu. Me afasto – acho que seria justo você me levar para sair, né?

— Eu tenho namorada. E preciso ir.

— Namorada? Quem?

— Como quem, Mabel? Lily. Com licença, preciso ir.- dou alguns passos, dando as costas para ela.

— Você vai pro hospital, né? Meu deus, Daniel, um menino lindo como você deveria parar de perder tempo falando com um garota morta!

Paro no meio do caminho, virando e me aproximando dela, olhando no fundo dos seus olhos. Um sorriso malicioso se forma em seus lábios.

— Escuta aqui, Hart. Ela não está morta, entendeu? Cale a boca.

— Ai, mas você é estúpido. Já tem quase um mês. Ela não vai acordar, assim como Dorothea não vai mais caminhar. Aceite, siga em frente.

— Vai sim. Ela vai acordar, Dot vai caminhar, e as duas vão voltar aqui e retomar esse uniforme que você veste. — me direciono para o carro, ignorando seus gritos. Concordava com Lily e Taylor; ela era louca.

Dirijo até o hospital, deixando o carro na primeira vaga que vejo. Subo até o quarto 214, para encontrá-lo completamente vazio. Corro até a recepção. A moça me olha e acho que vai sair correndo. Mas ela se aproxima, tentando relevar minha cara de desespero.

— Como posso ajudá-lo?

— O quarto 214. Está vazio. Lilianna Vogelmann. Cadê ela?

— Senhor, vou precisar que seja mais claro, sim?

— Minha namorada estava no quarto 214. Agora ele está vazio. Lilianna Vogelmann.

— Ah, sim. Sinto muito… — tudo dentro de mim se retorce – foi erro no sistema. A senhorita Vogelmann foi transferida da UTI para o quarto de recuperação. Pedimos desculpas pelo transtorno.

— Ela acordou?

— Não fui informada. Quarto 412, quinto andar.

— Obrigado. — deixo o balcão e corro até o elevador. Entro no quarto. Dorothea está ao lado da amiga, que ainda estava conectada a diversos fios.- Oi, Dot.

— Oi. Eles a transferiram para cá. Não tem nada mais que possam fazer. Agora é só esperar.

Não sei se era bom ou ruim. Sento ao lado da maca. Dot tinha arrumado a franjinha hoje. Pego uma das mechas mais longas, analisando a ponta que agora mal se notava tingida de rosa. Solto o cabelo e olho para Dot.

— Algum progresso? — olho para suas pernas. Seu rosto se ilumina.

— Consegui mover os dedos – ela sorri. Sua voz se anima. A parabenizo. Era bom saber que estava melhorando – novidades na escola?

— Não muitas. Mabel atacou novamente.

— Não diga! O que ela fez hoje?

— Bom, agora ela está na torcida- minha companheira revira os olhos – veio se jogando pra cima de mim, falando um monte de besteiras. Não vou aborrecê-la com suas palavras. Enfim. Mandei ficar quieta e vim para cá.

— Parece típico de Mabel. Trouxe as cartas?

— Claro que sim.

Tiro o baralho colorido da mochila. Conversar com Dot vinha sendo o ponto alto do meu dia, o único jeito de me distrair. Jogamos até tarde, quando ela tem que voltar para o quarto e os pais de Lily chegam. Vou embora depois disso, com um beijo na testa de Lil.

Não adianta nada tentar dormir, mas o faço assim mesmo. Ainda está frio, mas um pouco menos. Era lá pela meia-noite quando ouço batidinhas tímidas na porta do quarto, seguidas pelo barulho da maçaneta. Alice aparece ali, entra no quarto e fecha a porta. Caminha na ponta dos pés, segurando um travesseiro. Pula na cama e me abraça.

— Posso dormir com você hoje? — ela murmura, com a voz sonolenta.

— Claro, Lice. Sempre que quiser.- ela se vira para o outro lado. Abraço seu corpinho diminuto, com cuidado para não esmagá-la. Ela é quentinha. A cubro com o edredom. Ela adormece em segundos. E eu, pela primeira vez em semanas, faço o mesmo.

Não podendo ser diferente, é ela quem me acorda no outro dia.

— Danny, Danny! Acorda! Não tem aula hoje!

— Alice, eu não tenho aula hoje. Você tem sim! — sorrio para aqueles olhinhos azuis e enormes, que brilhavam a centímetros dos meus. A deito de costas na cama, fazendo cócegas nos seus bracinhos, levando uma quantidade incrível de chutes no estômago conforme ela se contorcia. Eu não tinha aula, era verdade, pois era dia de conselho na Honoria.- Vamos, eu te levo na escola. Vai de pijama, mesmo?

Ela corre do quarto, entrando no seu e fechando a porta. Desço as escadas, encontrando Liza e meu pai tomando café. Liza também não vai ter aula hoje.

— Só para avisar que hoje eu vou na casa da Elisa. — ela ergue os olhos para o meu pai, que lê o jornal. Sento ao seu lado e me sirvo de suco.

— Tudo bem, filha. Qualquer coisa, liga. — meu pai olha para ela. Minha irmã desce, acompanhada de minha mãe.

— Um minuto – corro escada a cima, escovando os dentes e vestindo a primeira roupa decente que vejo. Tudo parece meio grande demais agora. Pego um casaco e volto para a sala. — Pronta, Lice?

— Pronta!

Pego as chaves do carro, damos tchau para todo mundo e a levo até a escolinha.

— Boa aula, Lice! — ela me dá um beijinho na bochecha e sai do carro, se juntando aos colegas na porta. Uma mulher os conduz para dentro. Espero um pouquinho, parado ali, me certificando que não vão perder ela. Depois, vou para o hospital. Entro no quarto 412 e encontro um bilhete na mesinha.

Não vou aparecer hoje. Fisio o dia inteiro – Dot.

Leio o bilhete e o deixo ali mesmo. Gentileza dela me avisar. Assumo meu posto ao lado de Lily. Já faz um mês que ela está dormindo, mas ainda converso com ela quando a vejo.

— Oi, Lily. Tudo bem? Hoje não tem aula, então eu vim mais cedo. Levei a Alice na escolinha também. — não tinha nada para contar – seu cabelo está desbotando. Espero que pinte de novo quando voltar. Ficou bonito rosa, combinou com você. Dot não vai vir hoje, ela tem fisioterapia. Acho que ela já deve ter contado. Enfim. No que está pensando agora? Já deve ter enjoado da minha voz, não? — continuo tagarelando até o meio dia, quando seus pais entram e eu vou almoçar. Saio do hospital a pé, procurando algum restaurante diferente ali por perto. Não encontro, então como na lanchonete mesmo. Enrolo o máximo que posso. Quando volto ao quarto, seus pais já foram embora.

Sento ao seu lado e apoio a cabeça na maca, segurando sua mão. Estou quase dormindo. É estranho que, quando se dorme bem, se sente mais sono. Fico pensando em Lice na escola, tentando realmente dormir, quando ela se mexe. De verdade, dessa vez. Levanto a cabeça, olhando para seus dedos, esperando que aconteça de novo. Demora um tempão, e já estou quase desistindo, quando finalmente acontece. Isso! Aperto sua mão branca e fria, olhando para o seu rosto. A largo e vou sair do quarto quando, do mais absurdo nada, ela abre os olhos.

Volto para o seu lado, quase chorando. Lily está confusa, olhando para cima, respirando muito mais rápido do que antes. Ela vira os olhos para mim e levanta as sobrancelhas.

— Você está muito magro – sua voz é baixa e rouca. Rio da frase dela, que ainda parece perdida. De repente, arregala os olhos – o que aconteceu?

— Eu vou chamar o médico. — pareço um robô falando. Não consigo desviar o olhar de seu rosto quando chamo o doutor Olive, que aparece num piscar de olhos.

— Oh, senhorita Vogelmann, é bom vê-la desperta.- Lily senta na maca quando o médico entra.

— O que aconteceu?

O médico explica todo o ocorrido e dá as recomendações cabíveis. Ela fica visivelmente chocada com as informações. O doutor Olive sai para chamar seus pais, nos deixando sozinhos.

— E Dot?- ela olha para mim, quase chorando, o que faz meus olhos ficarem embaçados também.

— Dot está bem. Ela perdeu o movimento das pernas, mas com fisioterapia, poderá recuperar sem danos. Ela já fez bastante…

— Perdeu os movimentos das pernas?- Lily me interrompe, agora chorando de verdade. Sento na maca, puxando seu rosto para cima – foi culpa minha? Claro que foi. Eu estava dirigindo.

— Lily, não foi culpa sua – me aproximo mais dela – você estava dentro do limite de velocidade. O homem que bateu em vocês estava muito acima, na contramão. Foi culpa dele, só dele.

— Quanto tempo faz?

— Um mês. — ela fica mais triste ao saber o tempo que ficou fora.

— Por que está tão magro? — ela pergunta. Quero dizer que ela também está bem mais magra que o usual, mas não vai adiantar nada.

— Efeito colateral. — respondo, simplesmente. Não tem o que mais dizer, e ela sabe. Continua com as perguntas até que seus pais cheguem. Saio do quarto, lhes dando mais privacidade, sentindo que uma tonelada fora retirada do meu peito. Sento num banco do corredor, respirando aliviado.