TOC

22 22- Gelo fino


Ouço a voz estridente de Dot gritar ao meu lado. Olho para a estrada a tempo de ver um carro preto se aproximando em alta velocidade. Ele estava na contramão. Não tinha espaço nenhum para nós dois na rua estreita. E nenhum pensamento parece cruzar minha mente quando giro a direção o máximo que posso. Sinto o soco quando o outro veículo encosta no outro. É o suficiente para arremessar o carro ainda mais para o lado. Giro o máximo que consigo, até meus pulsos doerem, e enterro os pés no freio, mas não parece adiantar. O gelo fino faz com que o carro derrape, sem me dar qualquer chance. Fecho os olhos, pois não quero ver, ainda segurando a direção e o freio.

POV Danny

O treino é produtivo. Jogar realmente me fazia bem. Me sentia até… sociável, talvez. Doug e Josh estão comigo no carro de Doug, que vai me deixar em casa. Estamos comentando o novo jogador quando somos obrigados a parar. Tinha alguma coisa bloqueando o tráfego, provavelmente um acidente. Não dou muita bola. Continuamos a conversa, sem nos importar muito. Provavelmente não era nenhum conhecido. Resolvo ligar para Lily, para avisar que me atrasaria. Ela não atende, então deixo um recado. Os dois idiotas ao meu lado gritam obscenidades enquanto falo.

Aquilo está demorando demais. Desço do carro, acompanhado de Josh, só para saber do que se tratava. Vejo um carro preto grande, um pouco danificado, em um dos lados da estrada. Só aquilo não poderia estar causando tamanho engarrafamento. Então, vejo do outro lado, que estão puxando outro veículo. Este está quase destruído. Mal consigo distinguir o modelo, e as placas foram arrancadas. Nos aproximamos um pouco mais. Meu coração cai ao constatar que era um Volvo. “Tem mais de um assim nessa cidade” é o que me obrigo a pensar. Não acho que seja o carro dela. Simplesmente não pode ser. Queria que tivesse placas.

— Duas garotas. Ambas inconscientes. Adolescentes.

Quero desmaiar. E sinto que vou mesmo. Minha cabeça está girando. Lily estava sozinha, certo? Era a única coisa que me mantinha de pé, e não era concreta. Uma equipe de médicos, bombeiros e policiais cerca o veículo despedaçado. Minhas mãos estão tremendo tanto que chega a doer. Não consigo desviar o olhar daquele monte de gente. Ouço gritos e ordens. Alguém vem com uma maca. Corro para perto, deixando Josh para trás. Ele logo me alcança. É Dot. Duas adolescentes, saindo da escola em um Volvo. Não tinha dúvidas de quem a outra seria. Ainda assim, tenho esperança. Josh sobe na ambulância com Dot. Sento no chão, sozinho. Devo parecer ridículo, mas não me importo. Parece que horas se passaram quando finalmente puxam uma menina de uniforme verde e longos cabelos louros dos escombros, totalmente inconsciente. Não preciso olhar duas vezes para saber quem é; mesmo coberta de sangue, reconheceria aquela menina em qualquer lugar.

É como um soco no estômago olhar para o seu rosto adormecido, cortado, machucado. Não ouso olhar para seu corpo imóvel. Em vez disso, subo na ambulância, ligando para o meu pai no caminho. Estaríamos nós dois fadados a viver em hospitais?

Chagamos ao Florinha, uma ironia sádica. A levam de mim. Encontro Josh na sala de espera, ambos completamente perturbados.

— A situação não é nada boa- ele murmura quando me aproximo.

— Sabe o que aconteceu?

— Ela estava dirigindo, normal. Rápido, como sempre, mas dentro dos limites. Um homem bêbado veio na contramão muito rápido. Eles bateram, elas tentaram desviar. Tinha gelo na estrada, Daniel. O carro bateu de rapão num poste e saiu da estrada. Capotou.

Logo que ele termina a história, os Vogelmann e os Mc.Cullen irrompem pela porta, desesperados. O pai de Lily corre até a recepção, enquanto sua mãe, chorando, vem até mim, me abraçando. Os pais de Dot acompanham o senhor Vogelmann.

— Daniel, você sabe de alguma coisa?

— Não, senhora. Recém cheguei aqui – meus olhos estão cheios de lágrimas, que faço força para segurar. A deixo chorar em meu ombro. Ela faz o mesmo que Lily quando está triste, enterrando o rosto.

— Famílias de Dorothea Mc.Cullen e Lilianna Vogelmann?

— Aqui, senhor.

— Sou o doutro John Olive. As senhoritas se encontram em estado grave. Ambas terão de passar por diversas cirurgias. Sinto lhes informar, mas todo momento é crucial agora. Faremos tudo ao nosso alcance para ajudar as meninas, mas este é um caso que depende quase tanto do paciente quanto da medicina. A polícia os chamará em alguns instantes.

O médico sai. Sei que ele me reconhece por seu olhar, em como o pesar em seus olhos aumentou quando percebeu quem era aquela menina na sala de cirurgias.

Josh vai embora e os pais delas vão falar com a polícia. Não quero ouvir aquilo. Sento nos sofás fofos, enterrando o rosto nas mãos e finalmente deixando as lágrimas correrem livremente e sem parar. Acho que dormi, pois está escuro quando alguém me acorda com um café. É a mãe de Lily. Seus olhos estão inchados, como os meus devem estar. Ela me alcança o copo e senta ao meu lado, em silêncio. Mais alguns minutos se passam e o médico volta.

— Mc. Cullen e Vogelmann, por favor. — nos reunimos ao seu redor – as cirurgias procederam bem. Tivemos diversos tipos de lesões. A senhorita Mc.Cullen – ele se vira para os pais de Dot- teve a coluna comprimida. Ela talvez consiga recuperar os movimentos das pernas com o tempo, mas exigirá muita fisioterapia. Ela está sedada agora, mas deve acordar logo. — a mãe de Dot se esconde no peito do marido, que a consola, mesmo que também pareça agoniado. O médico se vira para nós- quanto à senhorita Vogelmann, tivemos problemas mais sérios. O lado esquerdo foi o mais atingido. Ela tem diversas lesões por toda a extensão do corpo e várias fraturas. Mas a pior pancada foi na cabeça. Não tivemos danos no crânio, mas a força do golpe atingiu uma porção do cérebro. Ela então entrou em coma induzido. A boa notícia é que, caso ela acorde, não haverá dano no cérebro. A pior é que não há como saber quando, ou se, isso irá acontecer. O que podemos fazer agora é esperar.

É pior que os tiros, todos eles, somados, multiplicados. O mundo desaba ao meu redor. Ouço a família de Lily chorando, lamentando o ocorrido, xingando o outro motorista. É a mesma sensação de quando se desmaia ou um ataque de pânico. Total perda de controle sobre si. Os pais delas entram para vê-las. O médico me deixa entrar depois que eles saem.

Entro no quarto 214, a encontrando ligada a mil fios e máquinas. Limparam seu rosto, mas os machucados ainda são visíveis. Mal se parece com a minha Lily, sempre feliz e animada. Não tenho coragem de tocar sua mão esfolada, ou qualquer centímetro de seu corpo. Em vez disso, só me sento ao seu lado.

— Lil, sou eu, o Danny – sorrio, afastando uma mecha dourada de seus olhos. Eu adorava aquela franja – o médico disse que você pode me ouvir. Não sei se é verdade, mas ainda assim… — não sei o que dizer. Anos de namoro e eu não sei o que dizer – ele também disse que você talvez não acorde. Espero que não seja de verdade. Você vai voltar, né? Não vai me deixar aqui sozinho. Todo mundo precisa de você por aqui, Lil. Caso você queira saber, Dot está bem. A enfermeira está me chamando. Volto amanhã. Te amo, não esquece, tá? Tchau, Lily...