TOC

21 21- Viagem


— Daniel- me viro devagar. O encontro parado ali, os braços cruzados na frente do peito, a expressão que entregava tudo o que sentia. Encarei seus olhos, mesmo que tivesse que olhar para cima para fazê-lo. Permanecemos os dois parados, sem saber o que fazer. Do nada, ele me abraça, me fazendo sumir em seu casaco.

— Não faça mais isso, por favor.

— Tá bom – murmuro, minha voz abafada pelo tecido. Afasto o rosto. Não queria brigar, mas também não deixaria por aquilo mesmo. Me afasto e fico simplesmente o encarando até que ele resolva falar alguma coisa.

— Venha cá – ele puxa minha mão e me conduz até um banco mais afastado. Sento ali, esperando – sinto muito por aquilo. Não sei o que aconteceu. Não devia ter descontado em você. Sinto muito, muito mesmo. Mas é que, quando penso no que aqueles dois… fariam, já estavam fazendo, não sei o que pensar. É a culpa. Não deveria ter deixado vocês sozinhas na rua. Deveria estar mais atento. Ter chegado antes… — ele olha para mim. — cabelo legal.

— Obrigada – não sei o que falar. Nada daquilo me surpreendia, nada era novidade. — não foi sua culpa, ou minha. Só daqueles dois idiotas, que estão presos agora. Não tem com o que se zangar, Danny.

— Eu sei disso, teoricamente, Lil. Mas é só olhar para você – ele puxa a gola da minha blusa, revelando a marca meio amarronzada, quase sumida. Seus olhos se aprofundam com aquilo. — ou o que isso fez com você – puxa minhas luvas, delicadamente, revelando a pele lesionada. — é como se tomasse conta de mim.

— Eu sei. Você acha que eu não sinto o mesmo quando olho para o seu rosto? — pergunto, tocando sua bochecha com a mão esquerda.- acha que eu não reparo nisto? — com cuidado, passo a outra mão atrás de seu pescoço, sentindo as bandagens que encobriam feridas que sabia que existiam. Ele vira o rosto para baixo – ninguém adivinharia, Danny. Poderia ter sido qualquer uma com o uniforme. Só que fomos nós.

Ele apoia a cabeça no meu colo. Era estranho, ele era muito maior que eu. Ouço o sinal bater. Ele levanta e segura minha mão.

— Então, onde esteve?

— Na Disney.

— Na Disney?

— Exatamente. Foi muito divertido. Deveríamos fazer isso algum dia.

— Por que não? — ele ri. Caminhamos para a aula juntos.

Algumas semanas se passam. O Natal se aproxima, junto com as férias e a tão esperada viagem ao Colorado. Ficaríamos todos em um resort de esqui, por sete dias inteiros, já que, além do Natal, comemoraríamos o aniversário de vinte e cinco anos de casamento dos meus pais. Ou seja, haveria uma grande festa, para a qual metade da Alemanha fora convidada. Além de todos os Sollbergers e Vogelmanns, ainda foram convidados os Mc.Cullen, já que minha mãe conhecia a de Dot desde Oxford, e os Lisset, que também eram muito amigos dos meus pais.

Ainda que a viagem parecesse um sonho, não era tanto assim. O total de convidados confirmados ocupava mais da metade do hotel, e a maioria tinha filhos. E a ideia era um inverno perfeito, cheio de paz e romance. Ou seja, meus pais segregaram as “crianças” no canto mais distante possível dos adultos. Eu disse que o quarto dos adultos era bem melhor? Pois era. E, mesmo que eu já fosse legalmente adulta, fui enviada para a ala infantil. A regra era clara e simples: os companheiros de quarto eram responsáveis uns pelos outros. Eu compartilharia o quarto com Danny e Alice. Dot compartilharia com Liza e Verena, minha prima. Não podia reclamar dos meus “colegas”. Ficaríamos no quarto 214.

A viagem é ótima. A neve fofa e branca proporciona diversas brincadeiras para Alice. Fazemos bonecos e guerras de bolas de neve, geralmente meninas contra meninos. Esquiamos bastante, mesmo que eu fosse péssima.

Estou no quarto com Danny e Alice, lá pela metade da viagem, quando ouço alguém batendo na porta.

— Oi oma! — minha avó está ali, com algumas das minhas primas atrás dela. — o que foi?

— Oi, Lilliana. Nada. Só que essas aqui – ela gesticula para trás – não trouxeram trajes apropriados. Então vim perguntar se não quer vir conosco até a cidade fazer algumas coisas. E é claro que aquela mocinha ali está convidada – por um instante, acho que ela chamou Danny de “mocinha”, então vejo Alice em seu colo.- Dotty também vai.

— É claro, oma. Alice, quer vir?

— Sim! — ela pula do colo do irmão, lhe dando um beijo na bochecha e segurando minha mão – tchau, mano.

— Tchau, Lice.

Fechamos a porta ao sair. Não sei o que Danny vai ficar fazendo sozinho. Dot se junta a nós. Pelo jeito, Liza não quis ir. Uma van nos leva até o centro comercial mais próximo. Na verdade, eu já tinha um vestido, mas olho as roupas mesmo assim, até mesmo as experimento.

— Lily, venha cá! — minha vó me chama, sussurrando. Vou até ela – Querida, eu ainda não lhe dei seu presente de aniversário. Como é um ano especial, quero que vá às joalherias e escolha um conjunto de joias, com tudo, brincos, pulseiras, colares, anéis. O mais extravagante possível. Não olhe preços, sabe que não me importam.

— Sério?

— Claro. Você é minha preferida. Não conte às outras!

Saio rindo. Deixo Alice aos cuidados de Dot e faço o que minha avó pediu. Não vou mentir: gosto muito de joias. Mas não muito extravagantes. Procuro em todas as joalherias do lugar e me agrado de um conjunto, com tudo o que minha avó pediu. Era lindo e delicado, de ouro amarelo e brilhantes. Os brincos compridos combinavam com o colar com os mesmos pingentes, e o anel e a pulseira arrematavam a beleza das joias.

Minha vó concordou com minha escolha e pagou as joias. O anel, por milagre, estava disponível no meu tamanho. Voltamos com a sacolinha da loja guardada na bolsa para perto das outras. Todas as esquecidas já tinham achado algo que lhes fizesse gosto, então entramos na van de volta para o hotel.

— Olá, meninas – Danny está deitado na cama quando entro com Alice – como foram as compras?

— Ótimas!- Alice exclama, subindo no peito do irmão – a senhora Vogelmann me deu um casaco de inverno novo! É muito lindo.

— E você agradeceu?

— Sim! Vou buscar para você ver!

Ela desce da cama e arranca a sacola da minha mão. Puxa a roupa e mostra para o irmão, que a enche de elogios. Satisfeita, resolve bater na porta ao lado para mostrar para Liza. Sento aos pés de Danny.

— Não comprou nada?

— Comprar eu não comprei, mas minha avó me encheu de joias. Vou usar tudo hoje à noite. Aliás, é melhor eu ir tomar banho, daqui um pouco fica tarde, e Lice também é nossa responsabilidade.

— Posso ir com você?

— Poderia, mas sua irmã vai voltar daqui um pouco- me abaixo e sussurro em seu ouvido – quem sabe outro dia… — levanto abruptamente, beijando seu lábios. Cato um roupão e entro no banheiro, ouvindo a voz fina de Alice no quarto assim que tranco a porta.

Demoro bastante no banho, só porque posso. Me seco e visto o roupão. Quando saio do banheiro, já estou chamando Alice. A menina aparece saltitante, segurando sua toalha. Penteio seus longos cabelos dourados.

— Pronta para o banho?

— Pronta!

Ligo o chuveiro. Faço o máximo de esforço para não me molhar mais do que o necessário. Ela não precisa de muita ajuda, na verdade. A seco e enrolo na toalha, como uma panqueca, em suas palavras. Dot está me esperando no quarto, também de roupão e toalha na cabeça, junto com Liza, nas mesmas roupas.

Danny entra no banho e nós começamos a produção. Maquiagem, cabelo, unhas, tudo isso. Demora horas até que todas estivéssemos prontas. Danny nos esperou por muito tempo no saguão.

A festa é até legal, visivelmente voltada para os adultos. Muitas homenagens, brindes e danças. A mesa das “crianças”, que era composta em maioria por adolescentes, falava alto, tentando se comunicar de uma ponta a outra. Muitos falavam em alemão. Recebi elogios pelas joias e roupa. Quando algum parente me abordava, era para perguntar sobre a faculdade. Era o sonho de todos eles que eu estudasse em uma das faculdades que meus pais frequentaram; Yale, no caso do meu pai, e Oxford, no da minha mãe. Embora eu pretendesse atender a uma destas, as pessoas não precisavam ficar pressionado!

O resto da viagem, inclusive o Natal, passam voando, e logo estou no aeroporto, de volta à Flórida. Temos que ir de carro até a cidade, mas não demora muito.

Nós só tínhamos duas injustas semanas de férias de inverno, só para os feriados mesmo, e logo estávamos na escola novamente. O primeiro dia parecia ótimo. Até que Mabel, durante a educação física, tentou me assassinar brutalmente (de novo). Qual era o problema dela? Nem ao menos estávamos jogando! Estava de pé com Danny, Dot e Taylor no topo das arquibancadas de concreto do ginásio quando, em mais uma de suas explosões espontâneas, ela simplesmente se jogou em Danny, literalmente me atirando para o lado. Aliás, para baixo. Só senti a mão de Taylor agarrando meu pulso antes segundos antes de bater a cabeça nos degraus. Não falo nada, por mais que queira estapear aquela vadia até o seu enchimento voar longe. Recupero o ar que perdi no susto e sento no degrau, sendo acompanhada pelos outros logo em seguida.

— Ela é louca!- Dot sussurra, rindo, assim que a menina vai embora.

— Ela está tentando me matar! — exclamo, jogando as mãos para o ar.

— Concordo. — acrescenta Taylor.

Continuamos comentando a falta de senso de Mabel até o sinal bater, indicando o final das aulas. O treino da torcida fora cancelado por causa da neve. Finalmente, estava nevando na Flórida! E bastante, o suficiente para formar camadas de gelo nos jardins. O treino de futebol não pode ser cancelado, pois os primeiros jogos da temporada estavam se iniciando. Dot iria comigo até minha casa para estudarmos.

Dirijo um pouco mais devagar na rua praticamente vazia, mas não muito. Embora reclamem da minha condução, nunca ultrapasso os limites de velocidade. Estamos rindo e cantando no carro, um pouco distraídas.

— Lily, cuidado!