TOC
20 20- Péssima Ideia
Não foi uma ideia tão boa. Aliás, péssima. A aula mal tinha começado, ou seja, era mais ou menos nove da manhã quando eu deixei o estacionamento. Pelos meus cálculos, chegaria em Orlando antes do meio dia. Como explicaria isso para meus pais? Diria que eu fugi da escola e resolvi ir passar um dia completamente sozinha em outra cidade, só porque deu vontade? Eles vinham sendo condescendentes ultimamente, mas não tinha jeito deles não me colocarem de castigo depois dessa.
Mas não adiantava pensar naquilo no momento, já tinha saído dos limites da cidade, dirigindo o Volvo velozmente pela estrada vazia. Não tinha nem mesmo comida comigo. Mas a sensação era ótima. Abro as janelas e sinto o vento frio do condado entrando pelas janelas. Logo, seria substituído pelo clima morno do sul. Me sinto ainda mais livre quando saio do condado. Incrível.
A estrada, como disse, estava completamente vazia. Óbvio; quem viajaria às nove da manhã, rumo a Orlando, numa quarta-feira gelada de inverno? Apenas uma garota masoquista, que agora rezava para ter os documentos consigo.
Lá pela metade do caminho, paro em um posto. Compro um sanduíche de peito de peru e água. Como estou dirigindo sozinha, tenho que sentar para comer. Até que estava bom, para um sanduíche de posto. Compro outra água e continuo a viagem. Coloco até música, bem alta. Era dia de esquecer os problemas.
Fico ainda mais animada quando entro em Orlando. Seria fácil achar o parque, claro. O encontro praticamente vazio, apenas algumas famílias e uma excursão de escola. Queria morar na Disney para poder fazer este tipo de coisa. No momento que entro no parque, sinto como se estivesse muito bêbada. Compro ingressos, vou a vários brinquedos, até o mais simples deles. Quase não tinha fila! Corro como uma criança pequena, extasiada pela magia. Nada mais importava, meus problemas tinham deixado de existir. Só queria aproveitar aquilo, só mais um pouquinho…
Então faço algo que me arrependeria depois, mas na hora pareceu uma ótima ideia. Deixo o parque e encontro um salão ali por perto, que parecia até decente. Peço para mudar o cabelo, completamente. Mas que o mantenha longo. A moça sorri para mim e começa o trabalho. No fim do processo, tenho uma franja fofa, até as sobrancelhas, e pontas rosa. Só as pontas, como mexas californianas, de um rosa claro, meio dourado. Pareço um anime. É até bastante discreto. Gosto muito do meu cabelo rosa. Pago o salão e volto para o parque, só para sentar em um banco e observar a felicidade alheia. Não me permito ficar triste. Não quero ser um anime triste.
Começa a escurecer, e devia encontrar meu carro e ir para casa, mas não quero que o dia acabe. Volto a me perder na visão das pessoas sorridentes e risonhas à minha frente. Passam-se algumas horas. Lembro que meu celular esteve desligado o dia inteiro. Ligo o aparelho. Dezenas de ligações não atendidas, dos meus pais, de Danny, de Dot, de Taylor, de todos que poderiam me ligar. Só retorno uma.
— Alô, mãe?
— Lilliana Vogelmann, onde a senhorita está?
— Você não acreditaria se eu contasse, mama.
— Onde?
— Na Disney. Sentada em um banco.
— O que diabos você está fazendo na Disney?
— Não sei. Eu só vim. Achei que minha cabeça fosse explodir se eu continuasse aí. Eu só queria esquecer… — minha voz se distorce, e o nó volta.
— Lily, tudo bem, não chore. Conversamos sobre isso amanhã, querida. Não volte para casa agora. Ache um hotel, coma alguma coisa, venha para cá amanhã.
— Tá bom.
— Você tem dinheiro, Lil?
— tenho o cartão.
— Tudo bem, então. Se cuide.
— Mãe, será que a senhora poderia não falar nada para o Daniel?
— É claro, amor.
— E mãe…
— Fala, filha.
— Meu cabelo está rosa.
— Ai, Lil… — a ouço rir do outro lado da linha. Rio junto – ficou bonito?
— Eu gostei!
— Então tá bom. Não fica até tarde na rua. Vamos dormir agora. Te amo, meu bem. Cuidado.
— Também te amo. Pede desculpas pro pai. Beijo.
Ela desliga o telefone. Não foi como achei que seria. Assim que desligo, entra uma chamada de Danny. Ignoro. Era quase meia-noite. Me sentia culpada por desaparecer por um dia inteiro daquele jeito, mas não queria ouvir sua voz. Pego o carro e procuro algum hotel. Provavelmente, todos estariam livres, uma vez que não era temporada. Faço check-in em um que parecia muito bom. Eu merecia aquilo, mesmo tendo fugido de casa. A moça fica confusa com a minha falta de bagagem. Devo ter parecido estranha, aos seus olhos, uma menina de uniforme e cabelo rosa. Lhe entrego o cartão, acerto as coisas e recebo meu cartão-chave. Entro no quarto e deixo minha mochila da escola, a única coisa que trazia comigo. Saio mais uma vez, procurando algum mercado em que possa comprar um pijama. Surpreendentemente, encontro algo similar a isso, com uma seção de roupas. Compro um pijama bem bonitinho até, rosinha, pantufas e um suéter para a viagem do dia seguinte. Para a janta, compro sanduíche e suco de laranja. Pago tudo e volto para o hotel. Ligo a água na banheira e tomo um banho morno. Saio, janto, visto o pijama e durmo rapidamente na cama fofa.
Acordo tarde no outro dia. Não vou para a aula, obviamente. Visto o suéter e a legging preta do uniforme da torcida. O suéter é longo, vai até metade das minhas coxas, e a roupa até fica estilosa, mesmo que a peça principal tenha custado apenas $9. Os tênis brancos não combinam muito, mas era o que tinha. Saio e volto para a estrada. Não paro em nenhum momento, então chego rápido. Entro em casa, sendo recebida por meus bichos. Acho que a viagem fez bem para mim, levantou meu espírito, no mínimo. Já estava meio arrependida dos cabelos rosa, mas até que tinha ficado legal. Adorei a franja, ao menos.
Faço temas e estudo a tarde inteira, em companhia de Jules, a diarista. Ela gostou do cabelo colorido. Meus pais chegam mais ou menos quando ela vai para casa, passar o final de semana com a família.
— Lily! Quer nos matar do coração, filha?- meu pai irrompe pela sala, me abraçando, acompanhado de minha mãe.
— Desculpa, pai, mãe.
— Tudo bem, Li. Só não repita. Não sem nos avisar, pelo menos. Agora, café!- meu pai nos deixa sozinhas para cumprir seu nada saudável hábito: café às oito da noite.
— Lily, você ligou para o Daniel?
— Não. Por quê?
— Ele estava preocupado ontem. Ligou aqui para casa tantas vezes que até Jules se preocupou.
— Ele brigou comigo, não sei porque. Problema é dele.
— Entendo que esteja chateada, mas não seja tão dura. Foi difícil para ele também. E para Dot?
— Mandei mensagem dizendo que estava viva. Mama, será que dá para marcar um consulta com a doutora semana que vem?
— Claro, querida. Amanhã marcamos isso. Não pense que vai se escapar da aula um terceiro dia, mesmo que seja sexta. Agora…- ela me olha, um sorriso dançando nos lábios – e esse cabelo? Super estiloso.
— Ah, é- rio, passando as mãos pelos fios tingidos – ficou legal, né?
— Adorei a franja. A cor… é… posso me acostumar. Ficou bonito, filha. Bem moderna. — ela beija minha testa, rindo, e vai atrás do meu pai brigar por causa do café. Recolho as coisas e subo para o quarto. Tomo banho e visto o pijama que comprei no mercado. É engraçado como a água fica levemente rosada assim que toca os fios. Seco os cabelos com um toalha velha, já que também vai ficar toda manchada. Volto para a sala, janto com a minha família e vou dormir.
Acordo com o despertador gritando ao meu lado. Visto o uniforme e arrumo os cabelos, de modo que a franja fique volumosa. Aquele visual me deixou fofa. Pego as chaves do Volvo e vou para a escola. Queria ver a reação dos outros alunos. Estaciono na primeira vaga que vejo livre e entro no prédio. Os primeiros a me encontrar são Dot e Taylor.
— Menina, adorei seu cabelo! — Taylor exclama assim que me vê. Sorrio para ele.
— Lilliana, quer nos matar de preocupação? A louca, que simplesmente some e não dá notícias. Mas o cabelo está demais! — Dot me abraça, ainda meio indignada. — A aula ontem foi um saco e… — eles dois olham para algo atrás de mim. — a gente se fala mais tarde. — dizendo isso, se viram e vão para longe. Nem preciso me virar para saber quem está ali.
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