TOC
2 2- Asma
Notas iniciais
Faltava dois dias para a apresentação dos trabalhos. Era segunda-feira de manhã, início do outono, finalmente! Eu não suportava o verão, aquele calor, gente suada e fedida.
Meu trabalho já estava pronto e minha apresentação, ensaiada. Sentada no lugar habitual, esperava por Danny, escrevendo uma lista de afazeres. Ouvia o barulho das conversas paralelas, quase todas falavam sobre a mesma coisa: o show de alguma banda do momento. Todos os meus colegas queriam ir. Menos eu. E provavelmente Danny. Shows são lotados e sujos, e geralmente escuros. Ou seja, a receita perfeita para o desastre.
Danny chegou, apressado, e sentou atrás de mim. Deixei minha lista de lado e me virei para falar com ele.
— Oi!
— Oi, tudo bem?
— Tudo. Sim. Nossa, quase me atrasei. Elizabeth resolveu fazer pirraça para não ir para a escola. Nem Alice faz isso.
— Elizabeth fez pirraça? Mas ela não tem, tipo, treze anos?
— Exato. Daí, ela ficou encrencando com a nossa mãe. E Alice assistindo. Betty resolveu começar a chorar e gritar, virou um fiasco. Então eu, por cima de tudo, disse que estava saindo e que levaria Alice para a escolinha. Minha mãe gritou que sim.
— Daí você veio?
— Daí eu vim. — Ele sorri para mim. Eu amo o sorriso dele. Amo todo ele, mas quando ele sorri... — Então, terminei o trabalho.
— E como ficou?
— Ótimo, eu acho. Bom o suficiente para distrair o professor. Tem até um videozinho que eu fiz no computador, legendado. Minha mãe dublou para mim.
— O meu ficou o mesmo de sempre. Nada de interessante. Só aquele PowerPoint colorido mesmo.
Falamos mais um pouco sobre a sua irmã pirracenta até que ouvimos o sinal de início. Biologia. Aula chata. A professora deu algumas explicações e uma lista de exercícios.
Sentados em dupla, Danny e eu resolvíamos as questões, concentrados. Levávamos as aulas a sério. Ambos queríamos entrar em uma boa faculdade. Até que alguém nos interrompeu.
— Ei, Lily! — Josh, meu colega, sussurrou para mim. — Tem um lápis sobrando?
Tenho que admitir que odeio emprestar coisas para as pessoas, mas não queria ser rude, afinal, não era culpa dele.
— Sim, claro. — Lhe entrego um lápis preto, dos mais comuns, que eu guardava apenas para este tipo de coisa.
Ele pega e vira para frente. Volto para minha folha, fazendo mais dois exercícios antes do grafite dentro da lapiseira acabar. Busco o tubinho dentro do estojo e, enquanto luto para colocar o grafite no buraquinho certo, observo meu lápis sendo usado, uma carteira à frente. Tudo parece se mover em câmera lenta quando vejo Josh soltando o lápis e levando a mão à boca, para tampar um espirro audível, e logo depois voltando a escrever, segurando o lápis com a mesma mão.
Danny também viu a cena e até ele ficou enojado. Meu estômago se revirou. Nunca mais tocaria naquele lápis. Danny faz carinho no meu cabelo. Reviro os olhos para a cena e volto para as folhas.
No final da aula, Josh ainda não fez menção de devolver meu lápis. Fico até agradecida por ter sido roubada assim. Recolho minhas coisas e seguro a chave do armário com uma mão enquanto tento equilibrar todo o resto do meu material na outra, me preparando para mudar de sala. Danny já tem tudo empacotado. Diferente de mim, ele mantém tudo na mochila. Ele segura meu casaco. A pilha de coisas na minha mão está meio instável, mas tudo bem, seriam apenas alguns metros até o armário.
Sinto algo na mão estendida, a da chave. Como um reflexo, seguro o objeto até então desconhecido. Ouço Josh gritando um "Obrigado, Lily!" e se afastando. Olho para minha mão. Entre meus dedos, o lápis preto.
Nem preciso dizer que deixei absolutamente tudo o que eu segurava cair. Saio correndo, deixando Danny sem qualquer explicação, indo direto para o banheiro. Ligo a torneira, a pressão no máximo. Esfrego as mãos freneticamente. Droga! Eram as situações mais simples, como essas, que me faziam entrar em pânico agora? Ainda estou lavando as mãos com o coração saindo pela boca quando fico sem ar. Realmente, respirar estava se torando cada vez mais difícil. Mas isso não era o pânico, era a asma. "Ah, não, agora não. Merda!" é só o que consigo pensar. Não tinha a bombinha ali comigo, e as aulas provavelmente já tinham começado. Aliás, certamente já tinham começado, pois o banheiro estava vazio. Danny devia estar sentado em alguma sala, pensando que eu logo apareceria para buscar minhas coisas e ir para a minha aula. Era o protocolo. Ele deixaria eu me acalmar sozinha e depois eu iria pegar minhas coisas.
Esta era uma situação diferente da do shopping, por exemplo, por que ele sabia que era só eu lavar as mãos e passar álcool que me acalmaria. Lá ele realmente podia fazer algo, agora não.
A coisa era tão pouca que nem considerei um ataque de pânico, apenas um lapso de coerência atitudinal. Era como eu chamava esse tipo de reação exagerada ao que deixaria uma pessoa "normal" só um pouco enojada. Enfim.
Só que hoje em especial a maldita asma resolveu me atacar. Justo quando eu não tinha a bombinha, nem mesmo um celular para avisar alguém. Sento na parede do banheiro por alguns minutos, só para ver se não melhorava, mas só piorou. Meus pulmões queimavam. Quando ficou insuportável, me levantei.
Tive um vislumbre do meu rosto no espelho. Uma coisa inédita hoje! Meus lábios e unhas estavam meio... azulados, arroxeados? Por aí. Tentei lembrar qual era a sala de Danny. Artes, sala... dois? Três? Resolvi tentar a sorte na três. Se não fosse a certa, alguém outro me ajudaria.
Cheguei na porta da sala três. Bati, meio fraca, várias vezes até alguém gritar "entra". Abri a porta e vi Danny sentado no canto de sempre. Ele olhou para a minha cara de desespero e sua boca fez um "o" sutil. Cambaleei até ele e cai de joelhos ao lado da minha mochila, procurando a maldita bombinha. Achei aquela porcaria e inalei aquela coisinha.
Apertei o "gatilho" duas vezes e senti o ar invadir meu corpo. Como era bom respirar! O professor não deixou passar em branco e me mandou para a enfermaria, onde narrei todo o acontecido para a enfermeira, que me deu uma água com açúcar e uma dispensa para todas as aulas do dia. Fiquei o resto do dia com ela, conversando. No final, só assisti à primeira aula!
Já tinha voltado à cor normal quando acabaram as aulas e Danny veio me procurar, preocupado. Esclareci o que aconteceu e fomos embora de mãos dadas.
Danny me deixou em casa, já que meu pai tinha me levado pela manhã. Eu ficaria sozinha em casa. Minha mãe e meu pai viajaram a trabalho, e até a camareira tinha saído de férias, sendo que a substituta certamente já tinha ido para casa. Estremeci só de pensar na minha própria solidão.
— Danny, você, por acaso, não gostaria de entrar? — pedi. Talvez parecesse um pedido meio estranho, já que ele sabia que não teria ninguém em casa. — Eu não quero ficar sozinha
— Huuuum... pedido interessante... — ele fez cara de safado. Dei um tapa no ombro dele, que riu. — Claro, vamos.
Destranquei a porta e entramos em casa. Fui ligar para a minha mãe enquanto Danny brincava com Sunny e Rainy e procurava Cloudy. Obviamente, meu grude, Windy, estava no meu colo. Disquei o número da minha mãe. Obviamente, dona Christina fora avisada do meu pequeno acidente e já queria entrar no primeiro avião e voltar. A acalmei, alegando que não era necessário, qualquer coisa eu chamava o senhor ou a senhora Lisset, os pai de Danny, que eram médicos. Minha mãe concordou, já que ela e Sra. Lisset eram muito amigas.
Desliguei e fui procurar Danny. Ele estava com os bichos, claro. As duas cachorras, Sunny e Rainy, pulavam nele, enquanto Cloudy, o gato, ficava os rondeando. Windy, a gata, ainda estava toda mimosa no meu colo. Logo a larguei, ela era pesada. Os dois eram de uma raça chamada Maine Coon, o que quer dizer que eram imensos. Sunny era uma labradora amarela, e Rainy uma Poodle, daqueles grandões e peludos. Eram todos meus xodós, junto com Danny. Me ajoelhei e brinquei com as cachorras, enquanto meu namorado acariciava Cloudy. Cloudy era cinza e mal-humorado, mas muito amável e dócil. Na verdade, ele já tinha nove anos. É o meu bicho mais velho, seguido de Rainy, Windy e Sunny, esta sendo meu bebezão.
Sendo mal-humorado e ranzinza, Cloudy nos abandonou, então Windy, a gata branca, se aproximou de Danny, recebeu seu carinho e se mandou atrás de Cloudy.
Todos os meus bichos tinham nomes combinados, e todos os nomes combinavam com sua cor, exceto Rainy. Ela não era azul, mas sim branca como Windy. Eu escolhi Rainy só para ser a sequência de Cloudy mesmo. Eu era criança!
Quando todos pareciam ter cansado de nós, subimos para o meu quarto e ligamos a TV. Deitados na cama, apoiei a cabeça em seu peito. Vimos alguns filmes e séries, conversamos um pouco. Já era quase nove da noite quando resolvemos nos levantar, por fome.
— Será que deixam você dormir aqui? Prometo que não vou te assassinar.
— Não sei, mas seria ótimo. Não quero voltar para casa agora, deve estar a maior tensão...
— Liga para eles. Eu faço janta!
— O que você vai cozinhar?
— Macarrão instantâneo, saindo!
— Mas, minha namorada é uma chefe! Pois quem diria?
— Haha. Liga logo, vamos pedir pizza depois.
Danny foi para o outro quarto falar e eu fiquei procurando os cardápios de pizzaria delivery que tinha por ali, abri umas quantas gavetas, mas nada. Deixei tudo uma bagunça. Todos os armários estavam abertos e eu estava remexendo uma gaveta quando ouvi seus passos pela sala atrás de mim.
— E aí? Eles deixaram?- Perguntei, tirando os olhos da gaveta e levantando a cabeça com tudo, dando direto na porta do armário — Ai.
— Ei? Tudo bem? Pega um gelo. — Ele se aproximou e olhou minha cabeça. Quando constatou que não tinha sangue, arrumou uma bolsa de gelo e me estendeu. — Sim, eles deixaram. Mas tenho que ir lá buscar minhas coisas.
— Ótimo. — minha cabeça mal estava doendo agora. Não foi uma pancada forte. — Vamos lá. Eu dirijo!
— Meu Deus. Vamos. — Catei as chaves do carro enquanto ele fingia rezar. Descemos até a garagem e entramos no Volvo.
— Pronto?
— Nunca vou estar pronto para isso, Lily, mas vamos lá!
Ah, que é isso. Eu nem era tão má motorista. Chegamos lá em minutos. Descemos do carro e o pai de Danny já estava lá.
— Lily, querida! Como vai, há quanto tempo! Tem que aparecer mais aqui, menina! — Disse o Sr.Lisset, nos abraçando. Concordei e abri a boca para falar, mas ele continuou — Daniel, filho, arrumei eu mesmo suas coisas. Pegue sua bolsa. Você ainda está de uniforme, menino! Vai amassar desse jeito. Olha, eu até pediria que entrassem, mas está uma zona de guerra lá dentro.
— Eu entendo o porquê... Diga à Alice que o Danny disse boa noite.
— Tá bom, filho. Agora vão! Lily, foi um prazer vê-la, como sempre.
— O prazer foi meu, senhor Lisset. Até mais!
— Tchau, meninos! Juízo!
Entramos no carro e voltamos para a minha casa. Indiquei a ele o meu banheiro, todo rosinha, e fui tomar banho na suíte dos meus pais. Quando terminei, ele já estava de pijama, com o cabelo molhado, sentado à mesa, me esperando.
— Qual sabor você vai querer? — perguntei, já discando o número da pizzaria.
— Lombo canadense.
— Quadro queijos. Vou ligar.
Liguei, pedi a pizza, tive que repetir o endereço três vezes para o cara entender. Pelo menos veio rápido e estava boa. Comemos e guardamos o resto na geladeira, para o café. Escovamos os dentes e voltamos para a minha cama. Eu amava o Netflix, por permitir estes momentos. Assistimos à uma comédia muito fofa chamada Idas e Vindas do Amor. Terminado o filme, não estávamos com sono e assistimos a um romance dramático. Era um filme bonito, até. Ao final deste, resolvemos dormir, tinha aula amanhã!
Virei para o lado e ele me abraçou. Me acomodei em seus braços, confortável, mas não consegui dormir. Pude perceber que ele também estava acordado. Me virei até ficar com a testa em seu peito forte. Suas mãos subiram para o meu cabelo, fazendo uma massagem atrás da minha nuca.
Puxei seu rosto e o beijei. Tinha gosto de menta e ele cheirava a sabonete e shampoo. Ele retribuiu o beijo, suave no princípio, mais intenso no decorrer do tempo. Seria aquela noite? Nenhum de nós já tinha feito antes.
O puxei para perto, até que estivesse sobre mim. Não sei no que se apoiava para não me esmagar, mas estava muito bom. Não queria parar nunca com aquilo. Puxei a blusa do pijama dele e ele puxou minha camisola. Agradeci aos céus por estar usando uma roupa de baixo descente, por mais que ele não tenha notado. Tirei a calça do seu pijama. Logo, estávamos nus.
— Avise se quiser parar.
— Não para.
— Não tenho proteção. Você pode ficar grá...
— Tenho os meus métodos.
Tinha mesmo. Meu período era regular, e eu tomava pílula desde os treze, para acne. E sempre tinha a pílula do dia seguinte.
E assim terminamos nossa noite, do melhor jeito possível. Preciso dizer que o meu sono foi ótimo depois daquilo
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