TOC
3 3- Lilianna Eveline Sollberger Vogelmann
Notas iniciais
Acordei antes de Danny naquela manhã. Levantei silenciosamente, na tentativa de deixá-lo dormir, e fui tomar banho. Ele ainda dormia quando o acordei, vestida só com o roupão. O cutuquei de leve.
— Danny, temos escola hoje.
— Mais cinco minutos, mãe.
— É a Lily, Danny. Vamos, levanta!
Ele abriu os olhos, ainda sonolento, e sorriu. Joguei o shorts para ele e saí do quarto, para arrumar o café da manhã. Alimentei a bicharada. Danny desceu, de banho tomado, e tomamos café. Escovamos os dentes, Pusemos o uniforme o fomos para a escola no carro de Danny.
Chegando lá, sentamos no fundo e do lado da parede, como sempre. A aula de matemática era legal; eu gostava da matéria e achava a professora muito querida. Como tudo o que é bom, a aula passou rápido demais, e logo estava andando sozinha para a aula de inglês, já que Danny agora tinha aula de geografia. Passei no meu armário no caminho, apenas para largar algumas coisas, sentei no meu lugar na única sala que tinha espelho de classe. Enquanto esperava a professora chegar, tive tempo de pensar um pouco sobre a noite anterior.
Tinha sido incrível, sem dúvidas. Por mais que, segundo a minha tabela, somado com o anticoncepcional de sempre, era praticamente impossível eu estar grávida, ainda assim tomei a pílula do dia seguinte logo antes de virmos para a escola, na mesma farmácia que eu comprei um inalador novinho.
Danny tinha ficado todo preocupado depois, querendo saber se tinha me machucado. Mas não. Foi tudo maravilhoso, do jeito que deveria ser. Lembrei de seus beijos, intensos à noite, suaves e românticos ao amanhecer. Era um cavalheiro, sem dúvidas.
A professora entra na sala, já explicando matéria e dando trabalho. Ela sorteia duplas para fazer um trabalho escrito, e eu acabo ficando com Andrea. Ela é legal, até. Bem quieta. Nós éramos mais próximas quando crianças, mas o tempo nos afastou. E eu era muito mandona nas brincadeiras.
Sorrio para ela, que devolve o gesto e senta do meu lado. Conversamos um pouco sobre o trabalho, quem faria o quê e essas coisas. Não tinha apresentação, então era basicamente cada uma escrever um texto e juntar tudo depois. Fiquei com a introdução e metade do desenvolvimento, e ela com a conclusão e a outra metade. Divididos os assuntos, começamos a escrever ideias sobre o tema. Não era muito urgente, então permiti minha cabeça a viajar mais um pouco.
Não muito, de qualquer modo, pois o sinal toca, avisando a troca de períodos, e me despeço de Andrea, apressada. Corro para o armário. Eu odiava aquela tranca, ela era tão velha e parecia permanentemente suja, não importava o quanto tentasse limpá-la. Abro o armário, pego minhas coisas, o tranco e limpo as mãos. Não suportava o cheiro de metal gasto que aquela coisa soltava.
Me encaminho para a aula de Literatura e encontro Danny na porta, esperando por mim. Um beijinho casto nos lábios e entramos na sala de mãos dadas. Logo que entramos, dois convites pousam em nossas mesas. O “evento” era a festa de dezoito anos de Dorothea Mc.Cullen, uma das garotas mais populares do colégio. Fiquei animada. Dorothea era uma das minhas melhores amigas. Quando éramos mais novas, formávamos um time: Andrea , Dotty, Annelise e eu. Dorothea e eu fomos as únicas que permanecemos juntas. Lise se mudou e Andy simplesmente se afastou.
Seria na próxima sexta feira, dali a três dias. Eu já sabia e já tinha confirmado presença muito antes.
— Eu não acredito em como estes convites demoraram para chegar!- reclamou Dorothea. — Você paga a gráfica para ficar pronto logo e eles te entregam duas semanas depois do combinado?!
— Dotty, eles estão lindos!
— Obrigada, Lil. Fui eu quem desenhou o modelo, acredita? Já confirmei vocês, ok?
— Ok.
— Tá bom. Tenho que ir terminar de distribuir isso. Lily, passa lá em casa um dia desses, faz tempo que você não aparece. Minha mãe está com saudades!
— Passo sim. Manda um beijo para a sua mãe.
— Manda um para a sua!
Dorothea se afasta. Me viro de volta para Danny, que esteve calado até o momento.
— Você vai, certo?
— Sim, Lily. Mas só te aviso que não vou dançar.
— Tudo bem. Só quero que você vá.
— Eu sei. E eu quero ir. Dorothea é uma boa pessoa.
— Ela é mesmo. Amanhã é a apresentação dos trabalhos. Está pronto?
— O máximo que eu consigo, você sabe. Mas fiquei satisfeito com o resultado. O PowerPoint ficou legal.
O professor entra na sala assim que ele termina a frase, já pedindo para abrir o livro e anotar o que ele ditava. O professor, assim como Dorothea, Danny e provavelmente agora Annelise, tinha um sotaque carregado inglês. Tanto Dorothea quanto Danny eram de Londres, mas Danny tinha um sotaque muito mais forte que Dotty. Ela viera para cá aos três anos, quando nos conhecemos, enquanto Danny morava na Flórida havia apenas três anos. Agora, de onde o professor era ainda se mantinha um mistério. E eu digo que Lise também tinha sotaque porque ela se mudara para a Inglaterra alguns anos atrás, mas já não éramos próximas desde que ela mudou de escola, no quinto ano.
O professor tagarelava lá na frente e meu pulso já estava doendo de escrever tão rápido e forte. Minha letra, geralmente caprichada, mal se passava por um garrancho agora. Finalmente, o senhor parou de falar e resolveu nos dividir em duplas para fazer o trabalho, me virei para Danny, já praticamente juntando minha classe com a dele.
— Eu que vou sortear as duplas hoje, pessoal. Cada um pega um pedaço de papel e escreve seu nome completo nele. Um pedacinho, por favor. Vou passar para recolher em dez, nove…
O professor termina a contagem regressiva e começa a passar pelas carteiras, recolhendo os papeizinhos dobrados dos meus colegas. Arrumo o meu e lhe entrego, seguida por Danny.
O homem coloca tudo em um potinho e vai tirando as duplas, dolorosamente devagar.
— Huuum, senhor Douglas Hoosten e senhor Joshua Wilson.- Doug e Josh batem as mãos no alto.
— Acalmem-se, senhores. Bem, vejamos… Senhor Daniel Lisset e senhorita Mabel Hart.
Danny olha para a menina loura na frente da sala. Ela olha de volta sorrindo e dá um aceno provocador, aquela piranha. Nem é só porque tenho ciúmes que a chamo assim, mas ela realmente tem fama de piranha e ladra de namorados. Danny retribui o sorriso, mas não o aceno. Reviro os olhos para Mabel, que felizmente não nota. O professor lança mais algumas duplas e já estou achando que me esqueceu quando finalmente ele me chama.
— E por último, mas não menos importante, senhorita Lilianna Vogelmann e senhorita Dorothea Mc.Cullen.
Todo mundo estranhou meu nome. É claro que estranharam. Meu nome inteiro era Lilianna Eveline Sollberger Vogelmann, ou seja, ninguém sabia ele inteiro. E eu não culpava ninguém, afinal eu mesma demorei séculos para apender a escrever meu nome completo. Era um nome alemão, do Eveline adiante. Lilianna eu já não tinha certeza, mas ainda assim…
— Agora, duplas, sentem-se juntas e planejem os seus projetos. Vogelmann, Lisset, vamos logo.
Me despeço silenciosamente de Daniel e me junto à Dotty. Por alguns momentos, conversando com ela, até esqueço que Danny está sentando com aquela atirada. Me concentro no trabalho, mas não consigo evitar subir os olhos e ver Mabel praticamente se esfregando em seu braço, enquanto ele está quase caindo da cadeira na tentativa de fugir da garota. Sorrio para mim mesma.
— Toma cuidado com essa aí Sollberger. — Diz Dorothea, do nada, falando o meu sobrenome todo errado. Não me importei.
— Danny é fiel, Dot. Não me preocupo. Aliás, tenho que te contar uma coisa…
— Fala.
Aproveitei a ausência do professor para pegar meu celular e mandar uma mensagem para ela.
Lily: Oii!
Dotty: Oi. Fala logo, Lilianna.
Lily: Ontem à noite, Danny dormiu lá em casa.
Dotty: E…
Lily: Como assim “E...”? O que acontece quando o namorado dorme na namorada?
Dotty: UAU. É sério?
Lily: Não, estou mentindo. Claro que é sério, Dorothea!
Dotty: Calma, garota. E aí, rolou 69?
— Claro que não! — falei, mais alto do que o pretendido. Revirei os olhos para Dotty. Assim que os olhos dos meus colegas saíram de cima de mim, sussurrei no ouvido de Dot que mais tarde contaria detalhes, ao que ela assentiu, e voltamos a nos concentrar no projeto.
O sinal soou alto, indicando o horário de almoço. Guardei minhas coisas e me despedi de Dot. Fui até a carteira de Danny, que guardava os próprios materiais do lado daquela piranha. Quando me viu, ele socou tudo na bolsa carteiro, se levantou e me beijou, propositalmente na frente de Mabel. Então ele tinha ficado incomodado mesmo, senão não teria me beijado daquele jeito na frente de alguém. Ele segurou minha cintura e beijou meus lábios. Involuntariamente, levantei as mãos até seu pescoço, retribuindo o carinho. Fiquei nas pontas dos pés para alcançar tal posição, mas ele me levantou um pouquinho para ficar confortável.
Deve ter durado quase um minuto, bem na cara dela. Sabia que não tinha mais ninguém na sala, por isso não me importei com toda aquela melação. Aliás, só nos separamos porque Mabel deu um gritinho. Ela interrompeu o clima todo. Nos viramos para ela, que segurava o dedo indicador como se tentasse mantê-lo no lugar. Ela tinha uma expressão de dor manjada no rosto.
— O que foi? -Perguntei, o mais desinteressada possível.
— Machuquei meu dedinho tentando fechar essa bolsa estúpida. — Disse ela, atuando. Então completou com a voz toda manhosa – Danny, você pode dar uma olhada? Está doendo…
O coitado ficou meio sem saber o que fazer depois dessa. Afinal, era óbvio que não tinha nada ali. Mas em todo caso…
— Claro. — respondeu ele. Se aproximou e olhou para o seu dedo. — Não tem nada aí.
— Ah, mas está doendo tanto… — disse. Que raiva daquela vagabunda! Ela acaricia o braço de Danny sobre o blazer. Quase que dou na cara dela, mas me seguro. Vejo que Danny olhou para o braço e revirou os olhos, se virando para mim, e possivelmente notando a raiva estampada na minha cara.
— Vá ver o médico então – respondo, curta e grossa. Ela me olha como se eu a estivesse atrapalhando. Dou um sorrisinho sínico e viro de costas, saindo da sala, segurando a mão de Danny.
— Meu deus, o que foi aquilo?- Ele pergunta, chocado.
— Uma piranha dando em cima de você. — respondo, ainda meio irritada com a atitude daquela menina.
— É que eu sou muito lindo, Lil. As meninas adoram um sotaque.
— E por que acha que eu estou com você?
— Porque eu sou lindo, maravilhoso, simpático e tudo de bom.
— E muito modesto, nem um pouco convencido…
— Realmente.
Caímos na gargalhada. Danny me dá um selinho e andamos de mãos dadas até o refeitório.
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