TOC
19 19- O que acontece depois
Notas iniciais
Eu não consegui dormir direito nos dias seguintes, e isso se refletia na minha aparência. Além dos machucados, claros, visíveis para qualquer um, minha pele adquiriu uma cor pálida, doente, e meus olhos, uma profundidade cansada, circundada por olheiras horríveis que pareciam não querer sumir.
O caso, a nosso pedido, não foi divulgado. Apenas a quantidade necessária de pessoas saberia. O diretor, a polícia, alguns professores. A treinadora Jane ficou sabendo, e não parecia saber o que nos dizer. A verdade era que não tinha nada. Nada nos faria esquecer daquilo.
Dot, acredito eu, foi quem saiu mais machucada. Seu rosto, sempre animado, estava abatido, como o meu. Pelo menos seus machucados eram menos aparentes que os meus. Mas eu sabia que ela nunca mais seria a mesma.
Danny foi o que se machucou mais, fisicamente. Tiveram que enfaixar sua mão direita, e seu olho estava tão roxo que era impossível que alguém não notasse. Ele ficou ainda mais protetivo, mas também não sabia muito o que fazer. Estava quase tão atordoado quanto nós. Mais que isso, ele se sentia culpado por ter-nos deixado sozinhas, por mais que lhe tenha dito que a culpa era única e exclusivamente daqueles dois imbecis. Mas não tinha como ele concordar comigo.
Quanto a mim, parecia tudo bem, na medida do possível. Dot estava desolada, Danny estava revoltado, e eu estava alheia. O mundo continuava girando, e eu sentia como se o estivesse observando da lua. Assistia Dot tentando se recuperar do acontecido, através de lágrimas, ainda engatinhando, sem esquecer, e Danny, também tentando se recuperar, através da raiva, cada um com seu método de sair do furacão, e eu, por fora, atônita desde o momento que aquele cara me deixou cair no chão.
Por mais que de dia eu me sentisse como ar, sem qualquer pensamento relevante, apenas existindo, respirando, era só eu me deitar à noite que tudo vinha à tona na minha cabeça. Eu não conseguia fechar os olhos sem lembrar das mãos daquele menino naquele beco imundo, um menino da minha idade, conhecido, que agora estava preso. E era assim que aquelas olheiras medonhas apareceram.
Mas ninguém parecia notar. Estavam todos absortos em seus próprios sofrimentos.
É claro que aquela carga toda se refletiria na minha vida. Minhas notas baixaram, minha saúde também. Era muito mais fácil ficar resfriada agora, e a falta de ar se tornou mais constante, me obrigando a usar o inalador com mais frequência. Meus pais prestaram atenção nessa parte, pelo menos. Sabia que eles também estavam sofrendo muito, talvez tanto como o restante de nós.
Mas ainda assim, a vida tinha que seguir. O inverno se aproximava, deixando a paisagem cinza, combinando com meu humor. Eu queria que aquilo fosse embora, junto com o restante das folhas nas árvores do parque, aquela sensação angustiante que chagava a me irritar.
Eu ia para a escola normalmente, óbvio. Faltei alguns dias, mas não podia me dar o luxo de repetir de ano. O ponto positivo do frio, além das luvas, era que possibilitava o uso de mangas longas e golas altas, escondendo os hematomas no meu pescoço e pulsos. Danny não teve essa sorte com o rosto. A não ser que usasse uma máscara de esqui, aquelas marcas eram impossíveis de esconder.
— Senhorita Vogelmann? — a professora de literatura estava parada na minha frente, irritada – está prestando atenção à aula?
— Sim – minto. Nem lembrava que estava na escola.
— Sobre o que eu falava, então? — os olhos da turma estão sobre mim. Tento ao máximo lembrar o assunto da aula. A professora não perdoa minha demora – Vejo que não sabe. Pode sair da sala, senhorita.
— Sim, senhora. — baixo a cabeça, junto minhas coisas e saio da sala, encarando o chão como se minha vida dependesse disso. Não sei para onde ir, não posso voltar para a aula e ainda faltam quarenta minutos para o almoço. Foco em como aquela professora era injusta. A aula mal tinha começado. Procuro um banco por perto e jogo minhas coisas nele, catando um livro dentro da mochila. Ouço passos se aproximando, cada vez mais altos. Não tiro os olhos do livro. A pessoa senta ao meu lado.
— Oi – um menino com a voz rouca toca meu joelho, me fazendo estremecer- Lily, tudo bem? — reconheço a voz. Danny. — Ei, calma, sou eu.
Olho seu rosto, seus olhos azuis arregalados de remorso. Sinto como se fosse explodir só de olhar para eles. Em vez disso, sinto as lágrimas quentes escorrendo, sem parar, por minhas bochechas. Enterro o rosto no peito dele, sentindo suas mãos correndo por meus cabelos, uma tentativa confusa de me acalmar.
— Lily, o que foi? Por que está chorando? Olha, a professora não estava certa, mas tudo bem, Lil, não vai acontecer nada por causa disso… — ele não vai parar de falar, mas não era isso que me aborrecia no momento.
— Não é nada disso! Eu não me importo com isso! É o menor dos meus problemas – estou praticamente gritando agora. Os olhos de Danny ficaram mais arregalados. Ele agarra minhas coisas e me puxa para um banheiro próximo- Nada disso me importa! Nada me importa agora. Nada importa… — as lágrimas, uma vez interrompidas, voltam a cruzar meu rosto. Não consigo mais falar. Meu rosto deve estar horrível, mas não me importo.
— Lil, o que houve? — ouço sua voz, calma, quente, como uma luz clara ao fim de um túnel escuro. Ele me envolve com os braços, delicadamente. Repouso a cabeça em seu ombro, ainda chorando. Seus dedos voltam para o meu cabelo, agora todo bagunçado. Ele não vai falar nada até que eu diga alguma coisa, então ficamos em silêncio por alguns minutos.
— Nada. Não sei.- sussurro de seu ombro. Ele me aperta. É uma sensação boa, segura. Me afasto logo em seguida, mais uma vez muda. Saio da cabine e vejo meu reflexo no espelho da pia. Limpo o rosto, lavo as mãos, que mais uma vez estavam destruídas. Me sinto mais calma, racional, no mínimo. Estranho que Danny não esteja atrás de mim. Volto para a cabine e o encontro sentado na privada, parado. — Danny? — nada. Me ajoelho na sua frente, tocando seu rosto imóvel. — O que foi? Você tem que voltar para a sala. O que foi?
— É por causa do que aconteceu, né? É por isso que você está tão estranha. — ele desperta do nada, arregalando os olhos e virando para mim, afastando minhas mãos – é por isso que você tem agido diferente.
— Eu não estou agindo diferente. É assim que sempre fui. Já esqueci tudo aquilo. Vamos para a aula? — falo, agitada. Não melhoraria nada contar a verdade agora, apenas o deixaria bravo. Tento desesperadamente mudar de assunto, mas seu rosto continua duro como pedra.
— Não minta pra mim, Lily. Eu te conheço muito bem. Por que não falou nada? Esteve tão perdida nesses últimos dias. Ninguém quis te atrapalhar. Você tem que falar.
— Não mudou nada, Danny. Eu falei o que quis. Vamos?
— Por que suas mãos estão assim, então?- ele pergunta, ríspido. Por que tão bravo? Eu não fiz nada. Aquela discussão ridícula estava me deixando irritada. E confusa. Não lembrava nem qual era o motivo daquilo tudo. Ele continuava a me encarar, questionando sabe-se lá o quê.
— Assim como? Estão normais.
— Tire as luvas.
— Não. — ele não manda em mim, não preciso obedecer suas ordens. Cruzo os braços na frente do peito. Sinto o nó em minha garganta me sufocando, e as lágrimas quase que pedindo para que fossem liberadas, mas continuo firme, olhando diretamente em seus olhos.
— Tira as luvas! — vou tirar as luvas para dar um tapa na sua cara. Ele não tem direito nenhum de exigir que eu faça qualquer coisa.
— Não. — agora que eu não vou mesmo. Continuo com os braços cruzados, de joelhos. Em um movimento brusco, ele se levanta da privada e sai do banheiro, me deixando sozinha ali.
O que aconteceu? Não tinha como eu saber. Tento repassar a cena na cabeça. O que eu fiz para deixá-lo irritado assim? Nada. O mais absurdo nada. Continuo sentada no chão do banheiro por alguns minutos, depois recolho minhas coisas e vou até o carro. Não ligo para o resto das aulas agora. E não estou mais triste. Só com raiva. Muita. De tudo e de todos. Não quero mais ver ninguém, mas também não quero ir para casa. No ápice da minha impulsividade, saio da cidade. Decido procurar um lugar feliz, onde provavelmente não encontraria ninguém.
Arrumo o GPS, desligo o celular e dirijo para o lugar mais feliz do mundo: Disney.
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